Hoje é o dia.
MISKA

Música

Aviso: Humor Ácido.

ACORDAR CEDO

Acordar cedo é, sem dúvida, um dos pilares de uma rotina saudável. Sempre acreditei nisso. Levantar antes do resto do mundo tem suas vantagens: dá mais produtividade, mais foco e menos caos. O estresse diminui, a ansiedade perde força e, dizem por aí, até o risco de depressão cai. A mente acorda limpa, organizada e pronta pra colocar o dia nos trilhos antes que ele tenha a chance de se destrambelhar.

Milagroso, né?

Por isso, sempre faço questão de garantir uma boa noite de sono, sempre. Normalmente acordo às quatro da manhã, um horário chato pra alguns, mas perfeito pra mim. Meu despertador, aliás, é de altíssima qualidade. Também faço questão disso, não economizo quando o assunto é eficiência.

Ele fica sempre bem posicionado ao lado da minha cama, quaaaaaase colado ao meu ouvidinho.

Não gosto de deixar margem pra erro. Às vezes, eu tenho um sono pesado que vou te contar, viu?

As janelas são totalmente à prova de som, então não há perigo de alguém ouvir ele além de mim. Porém, ouvir ele gritando igual uma galinha com AVC é irritante pra caralho. Não dá pra dormir com gritos no pé do ouvido, então eu tento sempre acalmar o despertador da melhor forma possível.

É um processo meio difícil e repetitivo, mas que no fim sempre dá certo.

Ele implora, implora e implora. Diz que não vai contar pra ninguém, que fará qualquer coisa pela liberdade. E eu, no caso, prometo quase de joelhos que vou deixar ele ir, que não vou fazer mal nenhum pra ele, que é tudo uma questão horas até ele ir embora de novo.. enfim.

Nós chegamos a um consenso. Meu despertador me ajuda a acordar, e, em troca disso, eu não o quebro. Essa falsa sensação de segurança e entendimento mútuo gera, consequentemente, um alívio para ele, que imediatamente acha que eu não vou matá-lo quando eu acordar.

Mas naaah, eu vou matar ele. Eu tenho que matar ele, eu sei disso.

Mas acho que assim fica melhor pra ele, né?


TOMAR CAFÉ DA MANHÃ

O café da manhã é um rito fundamental pra começar o dia com ordem. É o primeiro compromisso que tenho comigo mesma. Meu café da manhã não chega a ser exatamente regrado, mas confesso que tenho uma preferência quase devota por um bom muffin de cevada acompanhado de café preto, forte e escaldante.

Bem do jeitinho que eu gosto.

Ainda assim, não sou completamente avessa a novidades. Quando algo desperta meu interesse, eu me permito experimentar, embora não seja algo que aconteça com tanta frequência assim. Gosto de pensar que isso me torna flexível, de alguma forma. (̶N̶ã̶o̶ ̶t̶o̶r̶n̶a̶)̶

Hoje, por exemplo, resolvi variar e acabei comendo carne seca logo cedo. E, olha, não vou mentir: tava MUITO boa. Tão boa que me peguei questionando meus próprios métodos de preparo, o que raramente acontece. Normalmente, não duvido de mim. Mas dessa vez? Fiquei genuinamente impressionada.

Acho que vou incorporar esse tipo de iguaria ao meu café da manhã com mais frequência.

Dá trabalho? Pra caralho.

Desmembrar um corpo não é exatamente a tarefa mais simples do mundo. Exige força, paciência e um certo estômago. Mas sempre assumo o risco. Alguns sacrifícios são necessários quando se busca excelência.

O único problema mesmo é o espaço.

O que sobra simplesmente não cabe na geladeira. Mas, felizmente, precaução nunca foi meu ponto fraco.

O resto dessa joça vai pro frigorífico.


FAZER EXERCÍCIOS

Eu corri atrás de um cara e matei ele com uma pedrada forte na cabeça.

Ele não estava correndo de mim necessariamente, foi como uma caça silenciosa, embora eu admita que também não era parte dos meus planos pro dia. Ele estava correndo rápido demais, com um desespero que não combinava em nada com a ideia de uma atividade física recreativa. Não parecia um esforço saudável, parecia mais uma fuga disfarçada de treino. Eu o reconheci quase de imediato, já tinha visto o rosto dele nos jornais. O sujeito era tão perturbado quanto eu, com um histórico extenso de crimes e uma habilidade curiosa de sempre escapar da polícia.

Nunca conseguiram encontrá-lo, mas felizmente eu consegui, né? Uhuuu!

Fiz o serviço por eles, ainda que ninguém vá me entregar medalha alguma por isso, o que, honestamente, é uma baita de uma injustiça.

Brincadeiras á parte, correr realmente ajudou.

Queimei algumas calorias e aliviei uma tensão acumulada.

Eu tava me sentindo um pouco gordinha esses dias.

Eu tava REALMENTE precisando disso.


TREINAR

Espanquei meu vizinho até ele desmaiar, mas ele acabou morrendo por conta da enorme quantidade de socos que eu fiquei dando no crânio dele. Eu consegui até mesmo ouvir o momento exato em que os ossos viraram pó. Pois é, o excesso de força cobra um preço irreversível, às vezes.

Mesmo assim, vou registrar isso como um ponto positivo. Até porque ele tentou reagir, lutou de verdade. E preciso reconhecer: o cara era bom. Foram cerca de quinze minutos de confronto direto, tempo suficiente para eu sair com o rosto marcado e o peito reclamando de alguns pontapés bem dados.

Doeu? Sim. Mas a dor estava longe de ser um problema. Na verdade, foi até bom. Serviu até como um combustível pra mais.

O que realmente me distraía era o jeito de se mover que ele tinha. Antes de qualquer investida, ele fazia umas poses estranhas que eram sempre acompanhadas de sons que cheguei a me perguntar se ele tava de brincadeira com a minha cara ou se ele REALMENTE lutava daquela maneira.

Ele parecia um demente lutando, e olha que a maluca sou eu.

Porém, o que me distraía foi, ironicamente, o que também me deu vantagem.

Aqueles movimentos, por mais idiotas que fossem, pareciam funcionar como um gatilho. Se ele não os fazia, o ataque também não vinha. Era uma dependência clara, notei isso com o passar da luta. Quando descobri isso, resolvi não prolongar muito mais aquela palhaçada. Quebrei os dois braços dele na hora. Por fim, eu avancei na direção dele e espanquei ele até dar no que deu.

Alguns aprendem com avisos.

Outros, infelizmente, aprendem do jeito difícil.

Por quê?

Vai ouvir música alta assim no inferno.


SE HIDRATAR

Ah, e eu bebi o sangue desse mesmo vizinho. Foi uma jarra inteira, diga-se passagem.

É só isso mesmo, pode ir para a próxima parte.


SER ECOLOGICAMENTE CONSCIENTE

Separar lixo orgânico do inorgânico é um princípio básico para qualquer sistema minimamente funcional de reciclagem e compostagem. Aposto que você já sabe disso.

Eu sei que sabe. E eu também sei. Não somos idiotas, meu caro.

Plástico no lugar certo, vidro longe do resto, papelão empilhado com cuidado, papéis devidamente dobrados, foram todos pro lixo inorgânico. Uma pequena contribuição individual para um planeta que já passou do ponto de retorno, mas ainda assim, vale o esforço simbólico.

Já o meu colega de trabalho foi pro lixo orgânico. Biodegradável, inclusive. A natureza, com o tempo, saberá lidar melhor com ele do que o RH jamais conseguiu.

Agora é só esperar o lixeiro passar.


AJUDAR OS OUTROS

Ajudei um cara no pico de sua depressão.

Enquanto caminhava pela madrugada, encontrei um homem parado na calçada, encarando o vazio da estrada como quem já desistiu de procurar respostas. O lugar estava quase deserto. É curioso como a noite consegue esvaziar tudo, ruas, sons, pessoas. Restávamos apenas nós dois, interrompidos ocasionalmente por carros apressados que cortavam a escuridão com seus faróis indiferentes.

Ele não me percebeu. Ou percebeu e decidiu que eu não valia a atenção. Bastou observá-lo por alguns segundos para entender o quadro geral: exausto, quebrado, no limite e, pra completar, fedendo que só a porra. Pela sua postura, provavelmente teve o pior dia da vida dele. Deve ter perdido tudo o que dava para perder e estava seriamente considerando desistir.

— Olá? Caro senhor? — chamei, aproximando-me com cautela. — Está tudo bem? O senhor não parece exatamente nos seus melhores dias e…

Quando finalmente alcancei uma distância razoável, ergui a mão e toquei de leve o seu ombro, tentando chamar sua atenção. A reação foi imediata: seus olhos se voltaram para mim no exato instante do contato. Foi então que eu realmente vi o seu rosto.

Já adianto, não foi a visão mais agradável para alguém ter.

Os olhos dele tavam tão vermelhos e inchados que, por um segundo, cheguei a me perguntar se aquele sujeito lembrava como era dormir. O rosto parecia um verdadeiro oceano de lágrimas; elas escorriam continuamente enquanto ele soluçava de maneira quase convulsiva. A barba, desgrenhada e suja, carregava vestígios evidentes de descuido. Restos secos de cerveja, migalhas de comida e outras sujeiras difíceis de identificar. E, como se já não fosse suficiente, algumas moscas insistiam em sobrevoar o entorno dele, atraídas por aquela mistura lamentável.

Eu já tinha percebido de longe que o homem não tava em boas condições. Mas, ainda assim, encarar aquela cena de perto foi outra história. Senti vontade de vomitar na hora.

— A-AH, PORRA! — exclamei, dando um pequeno salto para trás, tomada pelo susto. — Meu Deus, meu senhor! Você tá um porre! O que que deu em você?

— Avah, adadada! Ugu! Adadadaa! — ele respondeu num berro choroso, agitando os braços de maneira frenética, como se tentasse explicar algo urgente através de gestos completamente caóticos.

Não preciso nem mencionar que eu não entendi absolutamente nada, né?

— Uhhh, o que? — perguntei, erguendo uma sobrancelha.

— Ivi, afhaha! Gajiulalah! Aka! — continuou ele, repetindo aquele conjunto indecifrável de sons enquanto fazia movimentos cada vez mais exagerados com as mãos.

— .. Moço, eu não tô entendendo nada que você tá—

— AHAKAPALA SAMAH HADJHAH HAL—

É, ele estava prestes a continuar aquela mesma sequência incompreensível outra vez. E, sinceramente, eu não tinha a menor intenção de aguentar mais um minuto daquilo, já tinha se tornado insuportável.

Antes que conseguisse terminar a frase, seja lá qual fosse, agi por puro reflexo. Estendi a mão e dei um tapa no rosto dele. O som ecoou no ar, interrompendo imediatamente o espetáculo.

— Fala direito. — disse, mantendo a voz baixa, mas carregada de autoridade.

O homem levou a mão ao rosto atingido e, sem qualquer dignidade restante, despencou no chão. Começou a se contorcer de maneira dramática, emitindo ruídos manhosos e movimentos desengonçados, lembrando vagamente uma lagartixa agonizante se debatendo antes de morrer.

— Ai, ai! Por que que você me bateu? Aaaiiii! Isso doeeeeuuu! — reclamou o homem, ainda soluçando. — Por que fez isso?! Ai, por que que minha vida é tão desgraçada, cara? Eu nem te conhe—

— Tá, tá. — interrompi, encarando-o com uma expressão praticamente neutra.

Por fora eu parecia completamente indiferente. Por dentro, porém, havia um pequeno incômodo difícil de definir. Não era pena, definitivamente não era empatia, mas também não era exatamente irritação.

Acho que era vergonha alheia. Sim, aquilo parecia se encaixar perfeitamente.

— Vamos começar do começo — falei, cruzando os braços enquanto o observava com atenção. — O que exatamente aconteceu para você… — fiz uma breve pausa, analisando-o de cima a baixo — … chegar a um estado tão deplorável?

Ele se levantou de maneira desajeitada, como alguém cujo corpo havia esquecido o básico da coordenação motora. Em seguida, puxou o ar pelo nariz e cuspiu no chão uma meleca grotesca. Uma substância tão espessa, esverdeada e repulsiva que lembrava algum tipo de veneno viscoso.

Depois de um suspiro longo e dramático, ele finalmente começou:

— Tudo começou quando eu acordei.. e aí depois EU ADHAGAH! ALALAHN! MAMANINANA! — gritou de repente.

Cada palavra vinha mais alta que a anterior, até se transformar num desespero completamente incoerente. O sujeito havia retornado àquele idioma indecifrável de antes. Naquele momento, decidi que ele já tinha ultrapassado qualquer limite razoável.

Na minha cabeça, aquilo deixava de parecer tristeza genuína e começava a se parecer muito mais com uma tiração com a minha cara. Porque, convenhamos: nenhum homem adulto, por mais miserável que estivesse, agiria daquele jeito. Pelo menos, eu nunca tinha visto algo semelhante.

Enquanto ele continuava se debatendo e berrando sílabas sem sentido, comecei a considerar soluções mais diretas. Talvez segurá-lo pelo pescoço e apertar um pouco só pra torcer o pescoço de uma vez e acabar com aquela merda.

Eu já estava levantando minhas mãos lentamente, preparando-me para agir. Mas, no exato momento em que eu estava prestes a avançar..

— EU PERDI MINHA MULHER, MEUS FILHOS, MEU EMPREGO, MINHA CASA, MEUS AMIGOS! — ele gritou de uma vez, as palavras finalmente saindo claras. — FUI ESPANCADO POR UM MONTE DE GENTE ALEATÓRIA, TIVE QUE BEBER COISA DO LIXO E AINDA COMER RESTO DE COMIDA!

Ele respirou fundo, quase engasgando com o próprio desespero.

— E AINDA FUI ASSALTADO! — continuou, a voz falhando entre raiva e frustração. — EU NEM TINHA NADA, CACETE! MAS OS CARAS ME ROUBARAM MESMO ASSIM!

Lentamente, abaixei os braços. Inclinei a cabeça um pouco para o lado, observando-o com atenção renovada.

— Uh.. então o que exatamente eles roubaram? — perguntei, mantendo o tom neutro.

— MINHA CUECA! — berrou o homem, com a voz embargada pelo choro.

Fiquei olhando para ele em silêncio por alguns segundos. Nenhuma reação imediata. Apenas aquele vazio constrangedor pairando entre nós dois. Porque, obviamente, era um objeto extremamente específico para ser roubado. Por um instante, considerei a possibilidade de que o ladrão estivesse numa situação tão desesperadora ou até pior quanto a daquele sujeito.

A conclusão não parecia tão absurda assim.

Tô dizendo isso porque, alguns minutos depois, meus olhos haviam captado um homem correndo em completo pânico pela rua, perseguido por várias viaturas da polícia… vestindo nada além de uma cueca.

— Deus.. — levei a mão à boca, simulando uma expressão de consternação. — Eu sinto muito por tudo isso.

O homem deu de ombros e balançou a cabeça negativamente, os olhos fixos no chão, como alguém que já tinha desistido de esperar qualquer dignidade do mundo.

— Sente porra nenhuma! — retrucou ele, agora com um tom mais agressivo. — Você nem me conhece! E outra coisa—

De repente, ele parou no meio da frase.

Ele levou a mão à testa e começou a esfregá-la, como se tentasse afastar uma dor de cabeça súbita. O homem murmurou algumas palavras quase inaudíveis, algo entre resmungos e pedidos de desculpa. A expressão no rosto dele havia mudado: parecia constrangido e arrependido.

Não era pra menos, ler minha mente definitivamente não era a melhor forma de respeitar minha privacidade e muito menos a forma mais educada de manter uma conversa.

Odeio quando fazem isso.

— Ai.. me desculpa pela grosseria. — disse ele, com a voz mais baixa agora, como se o próprio peso das palavras o tivesse esgotado.

O homem respirou fundo e se virou novamente para a estrada. Seus olhos voltaram àquela expressão vazia de antes, o olhar típico de quem já atravessou tantas derrotas que desistiu até de reagir a elas.

— Também não é como se isso importasse tanto. — murmurou. — Eu só tô esperando passar o carro mais rápido que aparecer por aí e depois…

— Ei, ei. — interrompi, colocando a mão no ombro dele outra vez, com uma familiaridade quase automática. — Não precisa ser assim, sabia? Se tem uma coisa que eu aprendi na vida é que ninguém deveria fazer as coisas sozinho.

Ele revirou os olhos com uma lentidão carregada de cansaço.

— Ah, claro. — respondeu com sarcasmo. — Agora você vai me dizer que eu sou melhor que isso, né? Que tirar a própria vida não é a solução, que eu preciso persistir, acreditar, ter fé mesmo depois de eu ter acabado de dizer que perdi absolutamente TUDO e—

Enquanto ele continuava aquele discurso previsível, minha atenção se desviou para a estrada. Percebi um carro que vinha em uma velocidade incompatível com qualquer noção de prudência, provavelmente outro sujeito tendo um dia igualmente péssimo e que também não parecia ter medo do perigo. Eu o chutei, interrompendo-o. Ele sequer teve tempo para processar uma última sensação de desespero ou para gritar. Quando o carro o atingiu, não foi apenas a vida daquele homem que se perdeu no impacto. O motorista foi tomado pelo choque de ter atingido um inocente, talvez o maior susto e último de toda a sua existência, o que o fez entrar em completo descontrole. Suas mãos já não respondiam, a noção de direção se dissolveu em pânico, e o veículo saiu da trajetória até colidir violentamente contra algum obstáculo indistinto.

Minutos depois, a morte já não distinguia vítima e causador, encerrando ambas as histórias no mesmo instante trágico.

— Não. — respondi calmamente, batendo as mãos uma contra a outra para tirar a poeira. — Eu só queria fazer isso por você mesmo.





























































Tá olhando o que? Sofrimento prolongado não era uma opção aceitável, pelo menos não naquele instante. Deixá-lo ali, congelado naquela indecisão, parecia cruel.

Qual é? Para de me xingar. Veja pelo lado bom, provavelmente ele não está tão garantido no inferno.


PRATICAR GRATIDÃO

É como dizem por aí: tudo o que vai, volta.

Dessa vez, a conta veio direto pra mim: fui atropelada por um sujeito claramente fora de si, alguém que também parecia ter zerado igualmente qualquer noção básica de perigo. Fiquei estatelada no asfalto, meu corpo reclamando em todas as línguas possíveis, enquanto o motorista, longe de ser ingênuo, resolveu afundar o pé no acelerador e desaparecer. Medo, desespero, covardia, escolha o rótulo que preferir.

Mas ei, deu pra extrair algo bom disso tudo. Ele deu um jeito na minha coluna.

Sério, a situação aqui tava foda.

Não foi exatamente a forma mais elegante de ajuste, mas funcionou.

Isso é gratidão, eu acho.





























Acho que vou pedir pra ele fazer de novo, hein?


TER AMOR PRÓPRIO

Tentei sequestrar, ao todo, 3 variações de mim mesma, cada uma moldada por circunstâncias distintas.

A primeira era uma mulher plenamente adulta e, sendo honesta, imensa. Não apenas em estatura, mas em presença física e força bruta. Seu corpo musculoso denunciava alguém que cresceu enfrentando o pior que a vida tinha a oferecer, e que, em vez de quebrar, aprendeu a reagir. Do jeito dela. Violento e sem espaço para hesitação. Era o tipo de pessoa que resolve problemas antes mesmo de considerar pedir permissão.

A segunda face aparentava estar na meia-idade. Vestia-se de maneira estranhamente ultrapassada para os padrões atuais, como se tivesse parado no tempo ou simplesmente se recusado a acompanhá-lo. Empunhava um machado com firmeza, não como quem carrega uma arma, mas como quem segura uma extensão do próprio corpo. Havia nela uma vigilância constante, um estado permanente de alerta. Baixar a guarda definitivamente não era uma opção para ela.

A terceira.. era um homem. E é só isso, ele era um homem. Não havia nada de extraordinário ali além do seu comportamento retraído e de um gosto bem específico por basquete.

O que eu queria era ter essas três faces apenas para mim. Poder observá-las de perto, admirá-las como quem contempla um espelho fragmentado, mas honesto. Acordar todos os dias sabendo que, apesar das diferenças gritantes de aparência, temperamento e escolhas, cada uma delas carrega um reflexo inegável do que eu sou. Talvez seja isso, no fim das contas, o verdadeiro amor-próprio: reconhecer a própria complexidade e, ainda assim, se considerar inteira.

Mas.. meio que acabei aprendendo da pior maneira possível que a única forma de me admirar é o espelho da minha própria casa.

Por que, você me pergunta?

Eu tentei sequestrar a primeira, mas ela me encheu de porrada.

Não estou exagerando quando digo que nunca apanhei tanto em toda a minha vida, e essa é uma daquelas raras afirmações que faço genuinamente. Foram tantos golpes que, honestamente, me surpreende meu rosto ainda manter o mesmo formato de antes. No fim, recorri ao último recurso: fingi estar morta. Tive que interromper meus batimentos cardíacos por um tempo considerável. O problema é que ela era meticulosa, do tipo que confere duas vezes antes de ir embora. Ainda assim, agradeço ao bom Deus que ela tenha comprado a encenação e me deixado ali.

A segunda não foi mais misericordiosa. Apesar da idade avançada, possuía a força e o fôlego de um touro enfurecido. Acabou comigo de todas as maneiras possíveis, físicas e psicológicas. Não houve alternativa além de abortar a missão. Se eu tivesse insistido por mais alguns segundos, eu ia perder a porra da minha cabeça. Nah, definitivamente não.

E o terceiro?

Quando o vi pela primeira vez, eu estava escondida atrás de uma árvore, tentando observar sem ser notada. Ele apenas jogava basquete com alguns caras aleatórios. Duvido seriamente que fossem amigos, desista disso, é impossível. Até então, tudo parecia inofensivo.

Foi aí que aconteceu algo que, para alguns, poderia soar cômico, mas que para mim foi profundamente humilhante.

Ele executou o pior arremesso da história do basquete.

Tentou acertar o aro, mas a bola simplesmente escapou de suas mãos em uma velocidade absurda. E, claro, ela veio diretamente na minha direção. Acertou meu rosto em cheio, me fez perder o equilíbrio e cair sentada no meio de uma estrada.

E sim, eu fui atropelada mais uma vez.

Acho que com isso posso concluir que amor próprio tem limite. E o meu, definitivamente, não inclui me aproximar demais das minhas outras versões.


SER AUTOCONSCIENTE

.. Bleh.

Ser autoconsciente é, em teoria, a capacidade de voltar o foco para o próprio “eu”, observar-se com algum grau de lucidez e tirar conclusões minimamente honestas. Se existe algo que sei fazer bem, é isso. Ainda assim, ao revisitar toda essa sequência de eventos, a constatação é meio frustrante: não mudei em absolutamente porra nenhuma, apesar de ter acreditado, em algum momento, que mudaria.

Eu não sei o que sentir exatamente em relação a isso.

Não tem revolta.

não tem tristeza.

Nah, não tem nada aqui dentro.

A minha mente, porém, não perde tempo com esse silêncio interno.

Ela insiste em repetir que não importa o esforço, a tentativa, ou a quantidade de boas intenções acumuladas pelo caminho. Essa vontade que mora em mim sempre vai pedir mais. E eu sei que vou ceder como sempre cedo.

Talvez seja isso que me define.

Talvez isso simplesmente permaneça imutável, mesmo com toda a autoconsciência do mundo.

No fim das contas, a gente é o que é.

Não é?