Versão 005 - Século XIX

Versão 005

"Século XIX"
MiskaDe1800
É assim que eu vou ficar quando a idade bater, é?

Quando ela saiu do portal, me lembrei de quem acorda numa festa estranha: deu três passinhos meio sem graça, olhou pra tudo com cara de quem perdeu o GPS da vida. Além de confusa, era possível perceber uma tensão ali que dava pra cortar com uma colher.

Ela tava vestida igual uma figurante de livro de terror vintage: cartola alta, cabelo grande e ondulado que dava vontade de fazer rabo-de-cavalo só pra ver, casaca preta comprida, colete, gravata, calças folgadas e botas que pareciam querer andar sozinhas. Um reflexo meu, mas trazido do século XIX numa promoção relâmpago de dimensões. Sem contar que parecia bem mais velha do que os outros "eus" que apareceram até agora.

— Céus... que lugar é este? Que espécie de engenhocas são essas?? — ela sussurrou, tremendo a voz como quem entrou no set errado do tempo.

Ela olhou pros móveis, pros equipamentos, pros refletores; tudo parecia assombrá-la, ou ela assombrava tudo, vai saber. Aí ela correu pra produção e começou a examinar cada um dos meus amigos com o olhar de quem tá avaliando modelo pra museu do esquisito. Quase dava pra ver a lupa na mão.

— Uuuuh, você tá bem, cara? — Kenda falou, cruzando os braços, meio desconfiada.

— Não. Há algo terrivelmente errado aqui. Estas vestes, este modo de falar... nada disto é natural. — ela arfou.

Deu um passo pra trás, adotou postura de defesa e murmurou baixo, mas audível o suficiente pra causar tensão geral:

— Não consigo sentir a presença deles, mas jamais me deparei com algo semelhante a isto.

E do nada, ela levantou um machado. O tipo que se pegar na sua costela, já era. Seu rosto, antes assustado, agora virou pura raiva.

— VOCÊS... VOCÊS SÃO CRIATURAS DA NOITE, NÃO SÃO?! ISTO É OBRA DOS VAMPIROS! — berrou, pronta pra transformar o estúdio num campo de batalha medieval.

A plateia entrou em parafuso, gente correndo, câmera tremendo, uma tentativa de fuga em massa. Ela já tava com a postura de quem ia lançar o machado e faturar o prêmio de pior árbitra de paz.

— MEU DEUS, ALGUÉM FAZ ALGUMA COISA! — Jellie gritou, colocando as duas mãos na boca, em choque.

Mas, no último segundo, eu consegui intervir. Segurei o braço dela com força, segurando o instrumento assassino. Ela se virou pra mim com ódio puro, olhos afiados como lâmina. E eu só fiquei com uma cara de idiota, internamente implorando pra todos os deuses existentes me ajudarem.

— Éééé, haha! Oii, euuu.. não sei do que você tá falando mas.. — gaguejei com as pernas bambas, podendo muito bem ser confundida com uma gelatina humana. — Que tal você abaixar esse machado enorme e.. conversarmos com um pouco mais de calma, pode ser? Que nem papinho de sofá!

























Depois daquele show de terror medieval, eu finalmente consegui convencer a mulher (graças a Deus) a sentar o rabo na cadeira e parar de querer abrir crânios. Depois disso, eu expliquei com toda a paciência do mundo que não tinha vampiro nenhum ali, nem lobisomem, nem bosta nenhuma do tipo. E que ela só tinha caído num mundo com um tempo diferente do dela.

























Ela coçou o queixo e estreitou os olhos pra mim.

— Então… quer dizer que não me encontro em meu próprio mundo, e que este lugar seria apenas uma era mais adiantada do meu tempo? — perguntou, desconfiada. — E agora, vós me dizeis que estamos em algo chamado programa televisivo, para que possais conversar comigo?

— Exatamente, é isso daí mesmo. — Eu disse, sorrindo e acenando igual quem acabou de explicar tabuada pra alguém pela 10ª vez.

Ela sorriu de leve, um sorriso do qual você podia ver a ironia escorrendo.

— Hah, sois hábeis na arte do engano, disso não há dúvida. — disse, cobrindo o rosto com uma das mãos. O olhar dela tinha mais julgamento que um grupo de tias em almoço de domingo. — Tudo o que sai de vossa boca tem o mesmo tom repulsivo de um vampiro tentando se passar por homem.

— Ô, desgraça! Eu não bebo sangue, não! — gritei, indignada. — Também consigo sair no sol, não sou alérgica a alho e meu dente é normal, ó! NORMAL!

Abri um sorrisão e fiquei lá, mostrando os dentes pra ela como uma criança mostraria uma nota boa pra mãe. Ela se aproximou devagar, analisando minha boca com a concentração de um dentista que cobra por hora.

Foram oito minutos inteiros de pura inspeção bucal até que, finalmente, ela recuou, e coçou o cabelo.

— Hm, talvez estejais dizendo a verdade. — disse, ainda meio contrariada. — Mas deixai que eu vos alerte: ainda não deposito plena confiança em vós. Se ousardes qualquer gracinha… — levantou o machado, só pra reforçar o ponto.

— Tá, tá, já entendi! — levantei as mãos igual uma refém. — Sem gracinha e sem mordida, pode ser?

Ela abaixou o machado, ainda com aquele olhar desconfiado, mas pela primeira vez parecia de boa.

— Bom, desde sua chegada, você deixou bem claro que não é muito fã dos caras que chupam sangue. — falei, tentando soar casual. — E, pelo visto, não pensa duas vezes antes de meter o machado neles. Qual é a razão? Você é uma caçadora, é isso?

Ela piscou, e pela primeira vez parecia interessada na conversa. Até a alma dela pareceu dar “sinal de vida”.

— Sim. — respondeu. — Venho caçando essas criaturas imundas desde meus vinte anos, quando perdi minha família por causa de uma delas.

O clima pesou por meio segundo, e ela continuou, agora com aquele equilíbrio perfeito entre ódio puro e paz de cemitério:

— Foi em meio àquela carnificina que conheci o presidente Abraham Lincoln. Imagino que, se viveis num "tempo mais adiantado", deveis saber quem ele foi, e também o que significou a Guerra Civil.

— Ah, sim, claro! — respondi rápido. — Li muito sobre isso nos livros de história.

— Pois bem. — ela continuou, cruzando os braços. — Lincoln descobriu uma série de mortes estranhas nos campos de batalha e, com o tempo, percebeu que aquelas pragas haviam se infiltrado até mesmo no coração do governo. Foi então que me chamou, para que eu desse fim a tal infâmia.

Eis que, no fundo, Ash resolveu abrir a boca:

— Uuuuui! Braço direito do presidente, que chique! — disse, batendo palminha igual foca empolgada. — Será que se eu ligar pro presidente, ele me contrata também em troca de panquecas? E olha que as minhas panquecas são incríveis, hein!

— Você mal limpa o quarto, quem dirá trabalhar pra um presidente! — Jellie retrucou, rindo.

Ash fez bico, ofendidíssimo.

— Aí! Trabalhar pro presidente é bem mais maneiro do que limpar o quarto, tá? Prioridades!

Minha versão alternativa olhou pros dois com a cara de quem tava prestes a decretar a primeira guerra interdimensional por pura irritação.

Mas, antes que ela falasse qualquer coisa que envolvesse sangue, morte ou amputações, eu toquei no ombro dela, tentando puxar a atenção de volta.

— Relaxa, relaxa, eles têm um parafuso solto desde o nascimento. — falei, forçando um sorrisinho.

— Ah, está tudo bem. — ela respondeu, com a maior calma do mundo. — Ao menos posso ter certeza de uma coisa: eles não são vampiros. — Deu de ombros e completou, com aquele arzinho debochado: — Duvido que criaturas da noite se portassem de modo tão... antiquado.

— EI, EU TÔ OUVINDO, SUA EMO DE CARTOLA! — Jellie gritou, com Ash do lado, indignado.

Meu “eu” do passado limpou a garganta, ignorando completamente o alvoroço dos dois.

— Enfim, dei cabo daqueles demônios também. — disse, cruzando as pernas com a elegância de quem já decapitou uns dez por esporte. — Não foi tarefa simples, é claro. Nem todos eram tão frouxos quanto aparentavam ser. Mas nada que eu não pudesse resolver com meu próprio machado. Quando a guerra terminou, tudo pareceu voltar ao normal. Sem corpos misteriosos, sem cartazes de caçada..

— E aí você se aposentou, né? — Ashley perguntou, já metendo um sorrisinho debochado. — Largou o machado, comprou um sofá e ficou maratonando série na televisão com uma cervejinha na mão. Acertei?

Ela balançou o dedo indicador num gesto de “errou feio, errou rude”.

— Não, de forma alguma. — respondeu, arqueando a sobrancelha. — E diga-me, afinal: o que em nome de Deus seria uma tal de ‘televisão’? Mais uma das bruxarias modernas deste vosso tempo insano?

— Ah, é que televisão é tipo... — Ashley começou, tentando bancar a professora, mas já tava tropeçando nas palavras igual bêbado no escuro. — É tipo.. um quadro que brilha e tem gente dentro, mas não tem gente de verdade lá! É tipo magia tecnológica e... ai, esquece! Continua!

Ela desistiu no meio, claramente derrotada pelo próprio cérebro.

— Hm… então, certo dia, o senhor Lincoln me convidou para assistir a uma peça de teatro. Não achei uma má ideia, o homem só desejava um pouco de descanso, depois da guerra. Mas havia algo de errado naquela noite, e não era o cheiro do teatro, era o ar em si. Um silêncio tão estranho que até os grilos pareciam temer fazer barulho. Tentei alertá-lo, mas ele riu e disse que eu andava paranoica, com a cabeça virada de tanto caçar vampiros. No fim, fomos assim mesmo.

— É, eu já tô ligada no final dessa novela. — falei, interrompendo. — Vocês foram assistir a peça, o assassino chegou, atirou, matou ele, e puff! Sumiu igual boleto pago.

— É isso que todo mundo acredita. — disse, com aquela voz grave de quem tá prestes a soltar um plot twist. — Mas a verdade é que ele não fugiu. Não enquanto eu ainda respirava. — E ergueu o machado, como se fosse troféu. — Quando vi o presidente cair ao chão, algo em mim se rompeu. Senti o sangue ferver nas veias. Lancei o machado com tanta força que o peito do desgraçado foi cravado à parede do teatro.

Ela respirou fundo, revivendo o trauma, e continuou:

— Quando fui arrancar o machado para acabar o serviço, vi os olhos dele. Vermelhos como brasa. Os dentes, afiados, ele não era humano. E então o corpo se desfez, virou fumaça negra diante de mim. Foi nesse instante que percebi: o assassino de Abraham Lincoln era um vampiro. E depois daquele dia…

E então, sua explicação se cessou, foi interrompida por um som peculiar.. eram roncos.

Ela parou de falar e piscou umas três vezes. Olhou em volta… e tava todo mundo dormindo. Ash de boca aberta, Jellie roncando que nem um trator, Jeffrey babando no teclado.

— O quê?! Vocês estão me ouvindo? — perguntou, mais por educação do que por esperança.

Nada. Só mais um ronco sincronizado.

Ela suspirou, largando o machado no chão.

— Imbecis.