— Uuuhh… — murmurei, ainda tentando entender em que buraco eu tinha me enfiado e a razão do universo me odiar tanto.
Olhei pros lados de canto de olho que nem um gato assustado, enquanto aquela plateia gigante me encarava com um olhar tão invasivo que eu quase senti minha alma querendo escapar do meu corpo. O silêncio do lugar só era quebrado por uns sussurros aleatórios do povo cochichando coisas como “Quem é essa doida?”, “Que bicha feia!”, “Já tá um tédio, já!”, o que me fez considerar, por um breve momento, arrebentar o vidro atrás de mim e dar um mergulho rumo ào suicídio.
E antes que venha me julgar: tenta você ser o centro das atenções no meio do nada, cercado por uma plateia que parece mais um culto, sem nem saber como você foi chegar ali. É pra surtar mesmo, porra!
— Tááá?? Tudo bem, senhoras e senhoros—
Parei na metade e me dei um tapa na cara, na hora. Que inferno era “senhoros”? O erro saiu tão feio que dava pra sentir o constrangimento tomando forma do meu lado.
A plateia, é claro, caiu na gargalhada. E a produção? Tava se mijando de rir atrás das câmeras também. Parecia até que todo mundo tinha combinado de se divertir com o meu colapso linguístico ao vivo.
— M-me desculpem, é o nervosismo, haha! — falei, rindo de nervoso, pegando um pano que apareceu do além e começando a limpar o suor da testa. — Tudo bemmmm… meninas e espirros—
Aí eu também mereci, na moral.
Dessa vez não rolou tapinha na testa, foi um socão direto.
A plateia explodiu de novo.
A produção ria igual um monte de hienas dopadas. E eu? Só queria cavar um buraco no chão e virar adubo.
Depois daquela palhaçada toda, eu soltei um suspiro tão profundo que dava pra abastecer um balão de ar quente, passei a mão no cabelo e fiz o que fazia sentido pra mim na hora: Jogar tudo á merda.
— Tá bom, FODA-SE! — berrei, com o pulmão cheio de ódio e vergonha acumulada. A plateia calou a boca na hora. As caras de riso se transformaram em expressões de choque coletivo, parecia até que eu tinha xingado a mãe de cada um ali. (Não que essa não fosse minha vontade também.)
— Eu não faço a MENOR ideia de quem são vocês, como demônios chegaram aqui e, pra completar, nem sei COMO EU VIM PARAR NESSA PORRA DE LUGAR! — continuei, apontando pra “produção” com um dedo acusatório. — Mas uma coisa eu sei: tem dedo dessas pragas! Podem chamar de produção, embora eu prefira chamar de Cavaleiros do Apocalipse!
— É ISSO AÍ, GALERA! — Ash gritou de um jeito tão animado que me deu raiva, levantando as mãos e fazendo sinal de “paz e amor”.
— Fala aí, rapaziadaaa! — Jellie e Ashley berraram juntas, pulando igual duas crianças surtadas.
Laetitia e Kenda só sorriram e acenaram.
A plateia, claro, começou a bater palma e assobiar, parecendo mais fãs de boy band do que gente normal.
Eu fiquei ali, de queixo apoiado na mão, olhando aquela cena ridícula se desenrolar e pensando se dava pra desistir ainda. Por uns segundos, esqueci até que eu estava ali.
— Francamente, eu DUVIDO que eles saibam SEQUER o que tão fazendo! — disparei, revirando os olhos tão forte que quase vi o meu próprio cérebro. — Vocês tão aplaudindo um bando de capeta com crachá, porra!
— Aí, ô! Olha como fala, tá? — Ash retrucou. — Eu sei mexer nas coisas, sim! Eu sou responsável pelos efeitos especiais! É só apertar um botão e pronto, tranquilo demais! Observa e aprende, bebê!
E foi aí que ele apertou um botão completamente aleatório.
Aí, do nada, o chão começou a tremer. Primeiro de leve, depois o bagulho virou praticamente um terremoto dos mais violentos possíveis.
As paredes vibravam, o teto rangia, e eu só pensei: “É hoje mesmo.”
Olhei pra trás, e o que eu vejo? Um meteoro ESTRONDOSO DE ENORME vindo em direção ao estúdio. E, claro, não bastava mirar no prédio, o troço tava vindo reto pra mim.
Ash começou a rir nervoso, coçando o cabelo igual quem sabe que fez uma merda colossal.
— Éééé… hehe… partiu! — Ele disse, correndo para longe do estúdio com uma velocidade tão absurda que parecia até um desenho.
O resto da galera e até a plateia saíram junto, correndo igual barata quando acende a luz. E eu? Fiquei sozinha com um meteoro gigante vindo na minha direção.
Comecei a coçar a testa, irritada, respirando fundo pra não mandar o universo tomar no cu.
— Ai, meu Deus do céu… — murmurei, já que iria virar panqueca cósmica.
— Como eu falei, esses caras não sabem nem um pouco o que tão fazendo. Acho que isso já ficou bem claro, né? — falei, virando os olhos pra plateia que me encarava com aquele mix de julgamento e risadas nervosas.
— Ei! Foi só um acidente, deixa eu só te mostrar esse aq—
Antes que o Ash terminasse a frase, Kenda meteu um tapão no braço dele que fez ecoar pelo estúdio. O grito dele pareceu o de um gato sendo pisado, e a reação foi instantânea: pulou pra trás segurando o braço, com cara de quem acabou de descobrir o conceito de dor.
— Nem pensa nisso, seu imbecil. — Kenda mandou, com uma voz tão carregada de desprezo que dava pra sentir o julgamento atravessando o ar.
A plateia caiu na gargalhada, parecendo ter acabado de ver um comediante de stand-up levar um tombo. E o Ash, irritado, estava a um passo de mandar todo mundo pra aquele lugar.
Ironia do destino, né?
— Tá bom, tá bom, CHEGA! — gritei, batendo palma forte o suficiente para a plateia congelou na hora. — Ahem..! Enfim. De acordo com a minha gloriosa e altamente incompetente produção, hoje eu vou entrevistar as VÁRIAS versões de mim espalhadas pelo multiverso.
A plateia soltou aquele “oooh” sincronizado, cheio de curiosidade fajuta, como quem finge entender o que tá acontecendo só pra não ser chamado de "burro".
Eu não ficaria curiosa pra ver isso se eu fosse eles, eu ia era correr pra marcar um psiquiatra. Urgente.
— Eu sei, ideia absurdamente narcisista á primeira vista. “Uau, olha pra mim, eu sou tão incrível que vou entrevistar EU MESMA!”. Mas eu já falei, eu nem sei como eu cheguei aqui! Se fosse por mim, eu tava deitada no meu quarto e vivendo minha melhor vida de vegetal. — falei, gesticulando. — Mas, como podem ver, tô presa nessa desgraça toda, então bora logo pra essa palhaçada antes que eu enfarte.
Peguei o papel que tava jogado em cima da mesa e dei uma olhada rápida. Lá estavam os nomes dos meus “eus” alternativos, e, meu amigo, só o primeiro já parecia uma piada. E não era nem um pouco engraçada.
— Certo. Nossa primeira convidada se chama… Miska Punk? Tá de sacanagem? — abaixei o papel e olhei pra produção, que só acenou positivamente com a cara mais sonsa do planeta.
Soltei um suspiro que veio direto da alma.
Tava na cara que quem batizou essas versões alternativas foram os meus amigos imbecis, baseados no que viram por aí. E puta que pariu, era só nome feio. Parecia até nome de personagem que eu veria numa fanfic!
Massssss fazer o quê? Não tinha pra onde correr. No final das contas, só restava aceitar o destino e mergulhar de cabeça no esgoto.
— Meh… beleza, traz essa aí pra cá. — falei, apoiando o queixo na mão.
Adivinha o que aconteceu? Nada.
Três minutos de silêncio. Quatro, talvez. Parecia até que o tempo tinha parado pra rir da minha cara.
— Uhh, eu disse… TRAZ ELA PRA CÁ! — repeti, agora num tom de autoridade misturado com desespero.
E… ainda nada.
Minha cabeça já tava fervendo. Era pra Laetitia ter usado o poderzinho dela de.. sei lá, abrir portais? Estalar os dedos e invocar a convidada direto pro sofá? Mas não, nada disso. Não teve nada disso. Só eu, o eco da minha própria voz e uma plateia que claramente tava adorando aquilo.
Mas aí eu olhei pra Laetitia e descobri o motivo do nada ter acontecido: A filha da mãe tava jogando videogame.
No meio do estúdio, no meio de um PROGRAMA. Totalmente fora de órbita, hipnotizada pela telinha do console, encarando aquilo com a concentração de quem tenta hackear a Matrix no braço.
Eu fiquei uns três segundos em silêncio, tentando processar a audácia. Depois explodi:
— LAETITIA!
O grito fez ela pular da cadeira, quase jogando o console longe e, logo depois, me olhou com aquela cara de quem acabou de acordar no meio do apocalipse.
— A-Ai! O que… quê? O que? O que houv—
E antes que terminasse a frase, o som clássico de explosão de joguinho 8-bit ecoou pelo estúdio, indicando que ela morreu no jogo. E pelo olhar dela, devia ter sido um processo infernal que somente alguém com vida social ZERO iria se submeter a fazer.
Laetitia olhou desesperada para o console, os olhos arregalados, não acreditando no que acabara de ver.
— NÃO, NÃO, NÃO, NÃO! NÃÃÃÃOOO! — ela começou a berrar, apertando os botões igual uma condenada, balançando o console como se aquilo fosse trazer o bonequinho de volta à vida. — OLHA O QUE VOCÊ FEZ! EU TAVA QUASE BATENDO MEU RECORDE, SANTA CRIAÇÃO!
— Para de graça, Laetitia! — retruquei, já de saco cheio. — Eu vivo falando pra você não ficar levando essas coisas pra cá quando temos coisas importantes pra fazer! Mas você nunca me escuta, né?! Bem feito!
— Mas é que, é que.. o jogo é tão legal! — ela respondeu, com aquela carinha de criança pega colando. — E até agora ninguém bateu meu recorde de oitenta bilhões de pontos! Eu só queria—
— Tá, tá, tá! — interrompi, gesticulando igual uma professora em colapso. — Que se dane o recorde, Laetitia! Só invoca logo essa coisa!
— Ugh, tá bom, tá bom! Que grosseria! Eu, hein! — resmungou, bufando.
Ela deu um passo pra frente, suspirou alto igual uma diva dramática e apontou o dedo indicador pra entrada por onde os convidados deveriam aparecer.
E então, um portal se abriu na entrada.
De dentro dele, saiu uma mulher que, à primeira vista, era bem parecida comigo. Mas calma lá, não era tão parecida assim. A criatura tinha, no mínimo, uns 1,78m de pura presença e músculo. Sério, parecia que malhava levantando carros.
O cabelo dela era um caos organizado tipo um moicano selvagem.
A roupa então, poooorra, piorou!
Era um top cropped preto, calça cargo igualmente preta, botas pesadas estilo militar com detalhes brancos e cadarço perfeitamente amarrado. Um cinto largo com fivela metálica, umas correntes penduradas pra completar o look e luvas amarradas com mais voltas que o raciocínio do Ash.
Resumindo: fazia jus ao nome feio que a produção me arrumou pra ela.
Ela entrou no estúdio com a calma de quem já tá cansada de tudo, tirou um cigarro do bolso e acendeu. Deu uma tragada tranquila, fechando os olhos e soltando fumaça igual propaganda de perfum. Era quase poético, se não fosse o fato de eu estar ali imaginando quanto tempo levaria até o detector de fumaça apitar.
Dava pra ver que ela e o cigarro estavam em um relacionamento sério — os dois exalavam a mesma vibe blasé de “foda-se o sistema”.
Mas aí… a plateia, sempre muito útil, resolveu começar a bater palma.
No exato segundo em que o som dos aplausos ecoou, ela abriu os olhos, deu um pulo e derrubou o cigarro. O olhar dela gritava confusão, o que, sinceramente, era uma reação bem justa.
A primeira convidada tinha acabado de chegar, e já tava tão perdida quanto eu. Não à toa nós somos a mesma pessoa, né?
— Ai! Que porra é essa? Quem são vocês?! — berrou a recém-chegada, os olhos rodando pelo estúdio igual um radar procurando explicação.
— Ahem! Calma aí, durona. — falei, levantando a mão em modo paz e amor. — As perguntas agora quem faz sou eu, beleza? Só senta aqui e a gente, sei lá, conversa ou algo assim.
Ela virou o pescoço pra mim, depois pra poltrona, depois de novo pra mim, com uma cara que misturava não somente a confusão típica da situação como também a aparente vontade de me dar um murro na cara.
— Tá de brincadeira comigo, é? Tá pensando que é quem pra ficar me dando ordem ass—
Ela parou no meio da frase. Deu uns passos lentos até mim, bem o suficiente pra invadir minha bolha pessoal, e me encarou direto nos olhos.
E aí, deu um sorrisinho. Os olhos dela brilharam por um segundo, e assim eu apenas confirmei que a encrenca tava oficialmente começando.
— Mano, tu é igualzinha a mim! Deixaram uma irmã pra mim pelo mundo e não me avisaram, é? Hahaha! — falou, me olhando dos pés à cabeça com um olhar entre curiosidade.
— Pois é, longa história. — respondi, cruzando os braços com toda a calma do mundo. — Mas resumindo: eu sou você desse universo, e você sou eu de outro. E você foi uma das sortudas convidadas pra participar desse programa maluco.
Ela piscou, paralisada por um instante, com a expressão clássica de quem tá processando (ou pelo menos tentando) a situação. Os olhos dela se arregalaram como quem está prestes a dizer “tá de sacanagem comigo?”, mas dava pra ver lá no fundo um brilhozinho de esperança, talvez torcendo pra ser verdade porque provavelmente seria engraçado demais no ponto de vista dela.
— AHAHAHAHA! NÃO ACREDITO! Então você sou eu desse mundo?! — ela perguntou, passando a mão no queixo, com um brilho no olhar. — Eu achei que esses papo era só coisa de desenho! QUE IRADO, PORRA!
— É, sou. — respondi, revirando os olhos. — E agradece àqueles “anjos” ali por essa genialidade. — Apontei pros meus amigos, que já tinham cara de quem aprontou.
Na mesma hora, ela virou o pescoço pra olhar. A produção, claro, começou a acenar feito uns pinguins animados, cheios de orgulho da própria desgraça. E o meu eu punk? Foi andando até eles com o entusiasmo de uma criança entrando em loja de brinquedo.
— Então esses são meus amigos desse lugar? Tudo um bando de figura, hahaha! — disse, rindo e cumprimentando cada um com um bate-aqui barulhento.
Mas o caos começou quando ela parou de repente, os olhos dela travaram em Kenda. A expressão mudou na hora: sorriso de lado, sobrancelha arqueada, mão na cintura.
— Eita! E essa aí do cabelo rosa? Tu é maneeeeeeeeeeeeira, mina! — falou, erguendo a mão pra um cumprimento. Kenda, convencida, correspondeu. O aperto de mão foi tão forte que dava pra ouvir os músculos gritando respeito mútuo.
— Tu tem mó cara de quem saiu da guerra, hein? Mas é bem menos fresca do que a Miska do meu mundo! — Kenda debochou, já rindo.
As duas começaram a gargalhar juntas como velhas conhecidas de longa data.
— EI! EU AINDA TÔ AQUI, TÁ?! — gritei, completamente indignada, mas obviamente ignorada.
— Caaaaalma aí, outro eu! — ela respondeu, entre risadas. — A mina tá só brincando! Tu é muito tensa, relaaaaaaaxa! — e começou a rir daquele jeito histérico de quem claramente precisa de terapia.
Quando finalmente parou de rir, ela começou a se afastar da produção, mas jogou um olhar de canto pra Kenda e soltou:
— Quer saber? Curti você! Se eu der um jeito de voltar pro meu mundo, vou te levar comigo! — disse com o maior sorrisão. — Os caras da prisão vão te adorar!
Silêncio.
A produção, que segundos antes tava rachando o bico, congelou com os olhos arregalados. A plateia inteira fez aquele “OOOOH” coletivo de novo, mas, dessa vez, numa mistura de choque e medo.
O estúdio ficou parado como comida no micro-ondas: silêncio total, só quebrado pelos passos da minha versão punk vindo até a poltrona.
Jeffrey, todo moscão e tremelicando, levantou a mão com cara de quem tinha engolido limão.
— Éééé… prisão? — falou o Jeffrey, a voz fina, parecendo que tava pedindo permissão pra Deus.
Minha outra eu se virou devagar, abriu aquele sorriso maroto e soltou uma risada de quem não tá nem aí.
— É, ué? Eu vim da cadeia! Lar doce lar! — falou, botando a mão na cintura e assumindo o ar de quem manda no lugar. — Eu juro que não notei quando saí de lá, eu tava andando pela penitenciária, distraída, e do nada cheguei aqui! E quer a real? Eu ainda prefiro a penitenciária, porque esse lugar aqui é feio pra caralho, hahaha!
Eu fiquei em choque, porque foi como ver um meme vivo.
Aquilo era uma colcha de estranhices: perturbador, esquisito e um tanto preocupante. Escutar palavras e discursos como esses saindo da boca de alguém normal já causava, agora ouvir essas barbaridades saírem da boca de alguém que, tecnicamente, é a minha cara.. foi tipo ver seu reflexo te xingar: humilhante.
— Ei, segura as explicações! — cortei, tentando segurar as pontas do programa. — Ainda tenho que te entrevistar, não lembra?
— Eu ouvi da primeira vez, beleza? Não sou surda, não! — retrucou, exibindo o sorriso malicioso que parecia tatuado no rosto. Em seguida, jogou-se na poltrona como quem cai na cama depois de um dia pesado. — Ufaaaa, e então? Do que tu quer saber?
— Já que você já mandou essa bomba toda, responde: como diabos você foi parar na cadeia? Ou eu? Tanto faz! — falei, a voz meio tremida que nem gelatina com medo de cair.
A resposta foi um silêncio pesado que durou uns cinco minutos inteiros. Ela não se moveu, não piscou, só me encarou. Ficar colada nela dava a forte sensação de posar com uma bomba-relógio, um passo em falso e eu levaria trocentos socos e chutes.
No meu caso, já tava quase aceitando que ia ser agredida ali mesmo. Mas não. A mulher simplesmente cruzou os braços e arreganhou o sorrisão dela, pronta pra dar uma TED Talk sobre como fuder a própria vida.
— Uuuui, pergunta boa, hein? Essa é a minha história favorita! — disse, me encarando com aquele brilho de “vem bomba aí”. — Seguinte, se eu e tu somos a mesma pessoa, então dá pra presumir que nossas origens são tipo cópia e cola! Pai merda, mãe sumida e um monte de trauma fodido, tô certa?
— Sim..? — respondi, meio travada.
— Então cê me entende, porra! — Ela estalou os dedos e continuou empolgadona. — Se liga, tudo começou com o desgraçado do meu pai, que vivia batendo em mim e na minha mãe, gritando e tratando a gente como resto de lixo! Eu sei lá como foi contigo, mas tu deve ter chorado num cantinho e aceitado, né? Cê tem cara de quem faz isso! — disse, e ainda soltou uma risadinha debochada.
Minha cara de “eu preciso urgentemente de um psiquiatra” virou indignação.
— Ei, calma lá—
— Caaaalma lá você, que eu ainda nem comecei, sua otária! — Ela rebateu, virando o rosto e levantando a mão diante do meu rosto.
Enquanto isso, o grupinho da produção, lá no fundão, começou a fofocar que nem velhas na fila do mercado.
Jellie se inclinou pra Laetitia, que tava encolhida no canto, parecendo uma criança que acabou de ver o bicho-papão.
— É, Laetitia, acho que você pescou uma Miska meio… problemática, não acha? — sussurrou, quase rindo.
— Pfff! E daí? Tá ótimo! Ver duas versões surtadas da mesma pessoa é ouro! — Ash rebateu, empolgado igual cachorro vendo a coleira.
— A gente literalmente já passou por isso, cara. Tu tem amnésia? — Ashley jogou de volta, passando a mão no cabelo, com uma cara de quem pede desesperadamente para ser tirada dali para não conviver com tamanha burrice.
— Calem a boca vocês dois. — Laetitia resmungou, abraçando as pernas com mais força e balançando igual quem tá prestes a pedir arrego. — Eu perdi meu recorde, tô pouco me lixando pro que vem depois.
— Ah, Laetitia, pelo amor de.. — Kenda respirou fundo, pronta pra dar um sermão, mas antes que ela pudesse abrir a boca…
— Será que dá pra vocês calarem a boca aí?! Eu tô querendo falar! — ela detonou, e a "produção" se calou no mesmo instante. Ela deu um sorriso maroto ao ver a cena. — Valeu. Continuando!
E então virou a cara pra mim:
— Como eu já disse, não faço ideia de como você lidou com toda aquela merda envolvendo aquele cara, mas olha: eu não fiquei parada no cantinho chorando! Eu fiquei só o ódio! — ergueu o punho, cerrando a mão. Ela girou o braço devagar, quase hipnotizando a galera. — Aqui você tem esses seus amiguinhos, né? No meu canto eu só conheci porrada primeiro. Prioridades diferentes.
Ela abaixou o braço, deixou a mão pousar no joelho e continuou, dando uma risada sarcástico:
— Eu era só uma criança ingênua na época, totalmente guiada pelo sentimento, então a raiva me pegou fácil. A treta começou na escola e tudo foi ladeira abaixo quando eu acabei dando um vacilo aí.
Fiquei coçando a bochecha, tentando processar o absurdo que tava saindo da minha boca-irmã. Eu não sabia como reagir áquilo nem fodendo, mas claro que eu tinha que falar alguma merda.
Sério, eu odeio o Ash por isso.
— Hmmm, e o que tu fez? — perguntei, fingindo calma.
— Haaaaaah, deixa eu te contar uma coisinha, garota! — ela se inclinou, cutucou meu braço com o cotovelo e retornou à poltrona com o ar de quem acabou de soltar um spoiler. — Me envolvi numa briga com um moleque, devia ter tipo 15, 16 anos. Mas tanto faz, porque o filho da puta esbarrou em mim, me empurrou e ficou falando umas merdas. Aí o resto é história: pulei em cima e meti soco até ele desmaiar! Hahaha!
Fiquei sem som. Só o silêncio estava grudado no estúdio. Ela, alheia, reclinou com a satisfação de quem cumpriu o expediente.
— Cachorra, tu não tem noção! O filho da puta voltou pra casa praticamente banguela! Claro que passou no hospital antes, eu dei tanta porrada que o cara apagou de vez! Acho até que lembro o que ele gritou enquanto eu o metia a mão, foi foda! — Ela fez um gesto com os dois indicadores, imitando uma pistola.
Logo em seguida a cara dela mudou: deu uma bugada, coçou a cabeça como quem tenta puxar uma memória travada.
— Merda, eu não lembro direito. Foi tipo “ME AJUDAAAA, ME AJUDA POOOR FAVOR”, não, espera! Não foi isso! — fechou os olhos dramatizando a falha da lembrança. — Ahhh, já sei! Foi “CHAMA MINHA MÃE, PELO AMOR DE DEUS! ALGUÉM CHAMA A PROFESSORA!”
Eu, a plateia e até a produção, todo mundo virou estátua. Não era somente choque naquele silêncio, havia uma necessidade coletiva de entender o que diabos nós estávamos ouvindo. Tenho CERTEZA que essa história entra fácil no top 3 das merdas que eu já vi.
— No fim eu me dei mal, lógico! — continuou ela, divertida com a própria confissão — fui chamada na diretoria, apanhei do meu velho quando ele soube, ficou mais violento ainda. Mas não acha que eu fiquei aceitando, não senhorinha! Eu partia pra porrada com ele também! Saía amassada? Saía. Mas morria com os punhos na mão!
— Ok, ok. Tu é beeeeeeeem explosiva. — Eu disse com um tom irônico — Você deixou isso bem claro pra todo mundo já. — Cruzei os dedos, tentando manter a calma. — Mas, tipo… não dava pra resolver isso de um jeito menos violento?
O sorriso dela não sumiu, mas sua expressão escureceu por um segundo. Ela inclinou o rosto pro lado, estreitou os olhos de leve e ergueu a sobrancelha, como quem pondera se cara ou coroa seria a solução.
— Eu sou engraçada mesmo, né? Óbvio que não, porra! — ela riu, com aquele olhar de deboche. — O que foi, mulher? Ficou com pena, é? Tudo bem, leva pra casa, mas aquele comigo não durou, hahahaha!
Ela feito lunática por uns dois minutos. E, quando finalmente parou, emendou:
— Relaxa, eu não vou te impedir de pensar desse jeito, morô? Porque tinha uma pessoa no meio daquela bagunça que me fazia segurar a onda de vez em quando: nossa mãe. — Ela encostou o cotovelo na minha mesa e apoiou o queixo na mão. — Ela era a única que parecia gente em casa no meio do caos com o velho, você sabe disso. Me tratava com cuidado, tentava me tirar um pouco daquela merda toda. Então por respeito a ela eu tentava ficar mais na minha… massss…
O meu eu, então, voltou a se jogar na poltrona com aquele jeitão relaxado. Eu levantei a sobrancelha.
— Mas…?
— Aí quando eu fiz 14 anos, pá! — ela estalou os dedos. — Minha mãe sumiu e me largou com o cara. Aquilo foi o gatilho, eu explodi. — Sorriu com maldade, como quem lembra com prazer. — Eu virei o próprio capiroto! Faltava com as aulas, provocava professor, enchia o saco da molecada, sabotei até os jogos de basquete e futebol americano dos boys! Quem vinha me encher? Levava porrada. Saiam com olho roxo, dente lascado, era uma carnificina. Diretoria? Pffftt! Tudo entrava por um ouvido e saía pelo outro. Eu até discutia com o diretor, hah! Era uma beleza, mas claro, tudo que é uma beleza acaba um dia! Já ouviu essa, eu?
— É… eu… — tentei falar, mas nem deu tempo, ela já tinha tomado a linha.
— Pois é, mó óbvio! Com tanto barraco na escola, me expulsaram fácil. Aí, dos 14 aos 17, virei só bagunça: comecei a fumar, fiquei descontrolada, meti o pé em briguinhas de rua, e ganhei uma grana com isso. Claro que somei inimigo também, mas na moral? Naquele período eu tava me sentindo viva pra caralho.
“Não, droga, eu não saco nada!”, pensei, presa num mix de nojo e incredulidade.
A tensão começou a subir cada vez mais dentro de mim. Eu podia ouvir as batidas do meu coração, mas havia algo de errado, os batimentos eram lentos no começo, mas começaram a acelerar do nada.
Caralho, eu vou infartar por causa dessa malu—
— Espera um pouco, vaca. — ela falou, tacando a mão na minha frente como quem fecha a transmissão.
Ela deu um pulo, saiu da poltrona e foi direto pra produção, olhando pro Ash como quem foi chamado pra cobrar dívida. E aí, percebi que o barulho não era meu peito, era o idiota do Ash tamborilando os dedos na mesa, afoito.
— Ei, ei, CALMA AÍ! TENHA PIEDADE! EU SÓ SOU INQUIETO, CALMA! — gritou ele, fazendo pose de vítima.
Ela pegou o Ash pela gola, levantou o sujeito feito um saco de batata e arrastou até o vidro do estúdio. A plateia começou a gritar, pedindo socorro no melhor estilo de uma novela das oito, mas ninguém ali contou com o fato de que aquele "meu eu" tava com zero paciência e menos ainda com limites.
— E aí, sua bicha! Já testou suas asinhas hoje?! — ela perguntou, encarando o Ash com aquele sorrisinho torto de psicopata em início de carreira.
— C-CÊ TÁ MALUCA?! É CLARO QUE NÃO, PORRA! ME SOLTA, DESGRA—
Mas ela nem deixou o coitado terminar. Levantou o Ash mais alto ainda, ajeitou o corpo como quem vai arremessar um peso olímpico e mandou:
— Pra tudo tem uma primeira vez! Voa, passarinhoooo!
Ela arremessou ele com tanta força que o vidro do estúdio virou farelo instantâneo. O Ash atravessou o negócio, e por um segundo o tempo pareceu desacelerar. Ele olhou pra baixo e viu o abismo, o vento batendo no rosto, o terror estampado na alma.
— ... Me dei mal. — disse o condenado, aceitando o destino.
E lá foi ele, caindo, gritando:
— CUIDA DOS EFEITOS ESPECIAIS PRA MIIIIIIIIIIIIMMMMMMM!!!
A voz dele foi ficando cada vez mais longe até sumir no ar, substituída por um sonzão de “whuuuuuuuuush–PÁÁÁÁÁ!” vindo dos alto-falantes. O chão tremeu como se o prédio tivesse levado um terremoto de 8 graus.
E aí, do nada, o microfone ainda pegou um som distante, abafado e incrivelmente vivo:
— Eu tô beemmmm..!
Eu pisquei.
A plateia piscou.
A produção piscou.
Como diabos ele sobreviveu? Nem Deus sabe.
Mas olha só, isso é BEEEM a cara do Ash.
Mas espera..
— De onde que saíram esses efeitos sonoros..?
— Ele pediu pra cuidar dos efeitos, né não? — Ashley retrucou e, em seguida, apertou um botão aleatório, fazendo com que o som de uma batucada dramática tomasse conta do estúdio.
— Ahaaaaa.. muito.. obrigado, Ashley! — a voz do Ash ecoou, mais abafada, provavelmente porque ele tinha acabado de beijar o chão.
— De nada, querido! — ela respondeu, toda faceira.
— Prontinho, problema resolvido! — minha outra eu anunciou, batendo as mãos como quem seca sujeira de uma superfície imaginária e indo sentar de novo na poltrona ao lado da mesa. — Então, onde é que eu parei?
— … Você tava dizendo que, mesmo metida em confusão, se sentia viva, lembra? — comentei, ainda meio em choque com o que tinha rolado ali.
— Ah, sim! — ela estalou os dedos, tipo lâmpada acesa. — Bem, mesmo curtindo a adrenalina, sempre aparece alguém pra foder a vibe. No meu caso, o grande trouxa foi, adivinha quem? Meu pai. Eu já fumava escondida, porque eu não tava afim de ouvir meu pai dando pitaco no que eu fazia ou deixasse de fazer. Mas claro, o capeta trabalha nos pequenos detalhes! Então, o vacilão OBVIAMENTE me pegou com a fumaça. Aí já sabe, né? Deu briga. Porééém, essa briga virou beeeeeeem, beeeeeeeeem diferente.
— Hm.. seria um erro eu perguntar o que aconteceu nessa briga? — Perguntei, naquele típico tom de quem já sabe que uma coisa vai dar merda, mas continua só pra ter certeza.
— Ahhh, nenhum! — ela sorriu marota. — A gente foi pro soco como sempre, só que digamos que eu meio que… matei ele sem querer! — falou, puxando a língua.
A plateia, lógico, começou a cochichar entre si, todo mundo tentando não chamar mais atenção daquela bomba ambulante. Confesso eu que, naquele instante, queria estar sentada lá atrás, fingindo que nada disso existia, em vez de estar cara a cara com esse desastre.
— Você.. — Eu engasguei com as próprias palavras. — Matou.. o seu, o nosso.. pai?
— Ééé, mateeeeiii.. — Ela respondeu, sibilando igual uma cobra debochada. — E foi iiiraaaaado! Tipo, no começo foi meio bad, confesso. Eu não planejava mandar o velho pro além justo naquele dia, sabe? Então fiquei lá, olhando o corpo e pensando “ih, fodeu!”. Mas durou pouco! Engoli o choro, peguei minhas coisas e ó, vazeeeeei! Virei uma fugitiva por SETE anos, bicho! Isso sim é currículo, fala sério!
Ela jogou o cabelo pra trás com aquele ar de orgulho criminoso.
— Mas ó, a parte mais engraçada vem agora. Quando eu fiz 24, sabe quem foi que resolveu dar as caras? A mãezinhaaa! — Ela juntou as mãos, fazendo carinha de anjinho falsificado. — Olha que reencontro fofo, né?
— Ah, então vocês se acertaram? Conversaram? — perguntei, tentando me enganar que ainda existia um pingo de humanidade nessa mulher.
Ela me olhou e começou a rir. Mas rir com vontade mesmo, aquelas risadas que começam como um deboche e terminam parecendo uma possessão demoníaca.
— HAHAHAHAHA! Reconciliação?! Eu sou tão fofa nesses outros mundinhos, né gente?! — Ela gritou pra plateia, cobrindo um olho com a mão e quase se jogando no chão de tanto rir.
Dois minutos de risada maníaca depois, ela travou o olhar em mim. Aquele sorriso sádico ainda estampado na cara.
— Reconciliação é o meu piru, porra! Eu matei ela também! — disse, dando um toque violento na minha testa com o dedo indicador. — Pois é, os dois foram pro saco! E quer saber? Nem me arrependo! Tá certo que depois daquilo me enfiaram na cadeia e eu ganhei estadia vitalícia e tudo, mas ó... Nem lá eu fiquei quieta! Porque, minha filha, criminosa mesmo não perde o ritmo, só muda o cenário!
Ela se levantou da poltrona, botou as mãos na cintura e me encarou como um predador vendo seu prato principal num circo de horrores.
— Já ralei com cada preso sinistro que nem conto mais quantas vezes tentaram me enfiar uma faca no pescoço! — ela disparou, com aquele ar de quem já comeu e dormiu confusão. — Mas ó, era só tentativa, tá? Eu sempre achava o cabra e... resolução final, entende? — deu de ombros, deixando claro que, pra ela, aquilo não passava de um detalhe. — Claro que isso inflou minha pena, né? Mas ganhei moral na cadeia, miga! Respeito total! Show, né não?
— .. Ahhh e que tal não? Você realmente me faz temer o futuro, e eu espero DE TODO O CORAÇÃO que eu não me torne você um dia, viu? — eu respondi, fazendo cara de quem quer desaparecer e mirando a plateia só pra evitar o olhar dela.
Quando falei, o sorriso debochado dela evaporou. O rosto, que tinha sempre aquela risadinha marota, puxou pra uma expressão de raiva pura. Cruzou os braços e avançou dois passos.
— É mesmo, é? Relaxa, filhota! Vamos resolver isso lá fora, então! — falou, vindo na minha direção enquanto estalava os dedos.
Levantei na hora, assumindo uma pose ridícula de defesa, balançando as mãos com mais coragem do que habilidade.
— Ô! Ô! Não vem com essa merda! Sai pra lá! — berrei, recuando a cada investida dela.
Em pouco tempo, eu já estava encurralada perto das janelas do estúdio. Minha versão punk estava tão próxima que dava pra sentir o mau hálito de sarcasmo. Sorriso cortante no rosto; mão erguida, punho fechado, pronta pra entregar aquele soco que desfiguraria qualquer um.
— Tá de cu doce, é? Eu tava looooouca pra uma briga! — disse ela, misturando ironia com aquele ranço que daria medo até no demônio.
“Meu Deus, perdão pelos meus pecados! Eu já tô indo, tá bom?!”, pensei, fechando os olhos, encolhendo o corpo todo e levantando as mãos.
Mas, antes que ela pudesse descer um socão na minha cara, Laetitia surgiu do nada, e acertou a cabeça dela com uma bigorna colossal, acompanhada de um sonoro “PONNNG!” como um extintor de incêndio batendo em uma panela.
Minha outra eu girou igual uma beyblade possuída umas cinco vezes, com os olhos rodando que nem slot de caça-níquel. Ainda zonza, apontou pra Laetitia e balbuciou:
— Tu não vai com a minha cara mesmo, né, desgraça...?
Então, caiu no chão, apagada, parecendo um boneco de posto depois do expediente.
A plateia, claro, reagiu do jeito mais aleatório possível: gargalhando. Porque aparentemente, ver uma versão alternativa sua levando uma bigornada na cabeça é o auge da comédia.
Abri os olhos, tentando entender se eu ainda tava viva. E lá estava ela: Laetitia, segurando aquela bigorna comicamente gigante com cara de quem acabou de resolver um problema da maneira menos recomendável possível enquanto o meu outro eu dormia no chão.
— .. Uh? Quê? Onde? Quando? O que houve? Onde cê conseguiu isso? O que aconteceu? — perguntei, mais perdida que estagiário no primeiro dia.
— Ah, eu meti isso na cabeça dela. — respondeu Laetitia, girando o pulso como quem acabou de bater pó da roupa. — Eu precisava descontar minha raiva em você de alguma forma, não é? — deu de ombros.
— E... e quanto a ela? — perguntei, apontando pra minha versão punk, que tava ali no chão parecendo um bug do sistema.
— Ah, relaxa. Ela vai voltar pra dimensão dela já já. Mas antes… — disse Laetitia, com aquele sorrisinho de quem claramente vai fazer besteira.
E do nada, ela arremessou a bigorna de novo, com tanta força que o estúdio inteiro quase abriu um buraco pra Nárnia. Minha versão punk sumiu na hora, esmagada, e o chão afundou junto.
E quando eu digo afundou, não é exagero.
Foi que nem um elevador descendo direto pro subsolo do inferno.