Depravação

Depravação


Depravação

Ou ao menos era o que eu pensava.

Como mencionei antes, tudo começou a desmoronar quando você completou seus dez anos. A partir desse marco, as coisas tomaram um rumo que, se dependesse de mim ou de qualquer outra mãe com um mínimo de amor no peito, jamais teria sequer sido cogitado, nem mesmo em mil vidas eternas.

O comportamento estranho do seu pai, aquele que eu achava ter deixado para trás, ressurgiu com uma força que eu não estava preparada para enfrentar. E aquilo que, em algum momento, eu tratei como uma paranoia minha, ou uma preocupação materna exagerada, foi se tornando dolorosamente real.

No começo, era tudo sutil. Pequenas atitudes, quase imperceptíveis, que poderiam facilmente passar por cansaço ou distração. Ele começou a se afastar de novo, de mim, mas principalmente de você. Quando você o chamava pra brincar, ele recusava com uma frieza cortante. Dizia estar ocupado, ou soltava um “vai brincar com sua mãe” num tom impaciente, irritadiço. E, olha... a princípio, eu tentei normalizar aquilo. Achei que podia ser só um dia ruim, o acúmulo do trabalho, o estresse que ele nunca sabia nomear, até porque ele nunca foi de compartilhar muito do que sentia. Então talvez fosse só isso, né?

Mas, mesmo com todas essas tentativas de racionalização, nada apagava a cena que se repetia com frequência cada vez maior: o brilho nos seus olhos se apagando toda vez que seu pai recusava um momento com você. E, em silêncio, meu coração doía com o seu.

Pra tentar contornar isso, eu me esforçava pra estar presente em dobro. Parava o que estivesse fazendo, me abaixava no chão com você e inventava mundos mágicos, só pra ver aquele seu sorriso surgir de novo. Era o mínimo que eu podia fazer. Mas, ainda assim, era insuficiente. Porque o vazio deixado por uma ausência não se preenche com boa vontade, e isso começou a ficar claro demais.

Com o passar dos dias, o comportamento dele deixou de ser apenas frio. Tornou-se mórbido. Silencioso demais. Incômodo. Ele parou de te responder por completo. Deixou de interagir, como se você sequer estivesse ali. E, não bastasse isso, a desconexão se estendeu até mim. Ele já não me dava “bom dia”, não dizia “boa noite”, não deixava nem mesmo aquele beijo automático de despedida antes de sair. Convivíamos com um espectro, presente fisicamente, mas ausente de toda forma emocional e humana possível.

Ele havia se desligado do mundo de novo. E, dessa vez, parecia definitivo.

Até que, numa manhã de quinta-feira, algo se partiu de forma definitiva, e o homem que eu achava conhecer há tantos anos simplesmente deixou de existir.

Eram cerca de oito horas da manhã. Eu já estava de férias do trabalho, então aproveitei para levantar sem pressa. Notei, no entanto, que a cama ao meu lado já estava vazia. Seu pai tinha acordado antes de mim, o que, por si só, já era um pouco fora do padrão. Não pensei muito a respeito. Saí do quarto, com a intenção de seguir até o banheiro e iniciar o dia normalmente: escovar os dentes, tomar um banho, preparar um café. Mas algo, algo profundamente inquietante, me fez interromper todos os meus movimentos.

Seu pai estava parado diante da porta do seu quarto.

A porta estava semiaberta, e ele simplesmente... te observava. Só que não era uma cena comum, daquelas que aquecem o coração, um pai encantado vendo a filha dormir. Não. Havia algo errado naquela postura, e principalmente naquela expressão.

O rosto dele estava morto. Sem raiva, sem tristeza, sem qualquer emoção reconhecível. Era o tipo de vazio que não se interpreta com facilidade. E havia uma tensão em seu corpo que me gelou o sangue. As mãos cerradas com força, numa luta visceral contra um impulso interno, um ato de contenção extrema para se impedir de agir. Ele também tremia, e não era um tremor de frio, fragilidade ou algo do tipo. Era de fúria contida.

— … Amor? Tá tudo bem? — perguntei, hesitante, tentando esconder a apreensão que já subia pelas minhas costas como uma onda gelada.

Nenhuma resposta.

Ele permaneceu ali, imóvel, encarando você por mais alguns minutos. Quatro, talvez. Tempo suficiente para transformar desconforto em pânico. Me aproximei devagar, quase sem respirar.

— Por que você tá... olhando pra ela desse jeito? O que é essa cara? — murmurei, desviando o olhar para os braços dele. — E por que suas mãos estão... tremendo assim?

Foi nesse instante que ele, enfim, se virou para mim. E eu juro, querida, que nunca esqueci aquele olhar. Não era só vazio. Havia nele uma frieza que atravessava minha alma inteira, tornando-a rígida, imóvel, incapaz de reagir. E havia algo mais ali, algo sutil mas cortante, um tipo de desprezo que doía mais do que qualquer grito.

Ele não disse nada. Apenas se afastou da porta, andando em passos largos, apressados, como quem foge de um pensamento perigoso. Eu precisei sair do caminho, não por educação, mas por puro instinto de sobrevivência. Ele teria me atravessado sem hesitar.

Fiquei ali, parada, com o coração acelerado e um medo novo se instalando no meu peito. Algo estava muito errado. E, naquele momento, eu entendi que não dava mais pra fingir que era só estresse, ou que ele estava "passando por algo".

Porém, por um breve instante, minha atenção foi desviada ao vislumbrar seu rostinho sereno através da fresta da porta. Você estava sentada na cama, cercada pelos seus lápis coloridos, completamente envolvida em um daqueles mundos que só você sabia criar. Seus olhos brilhavam com a inocência de quem ainda acreditava que o mundo é bom, e aquele simples detalhe foi o que me impediu de desmoronar de vez.

Entrei no seu quarto com passos lentos, sentindo que adentrava um pequeno santuário feito de sonhos e papel sulfite. Você estava sentada na cama, concentrada em algo que me fez sorrir de imediato. A luz da manhã filtrava pelas frestas da janela e tocava seus cabelos escuros com uma delicadeza poética.

— E aí, minha estrelinha, o que anda aprontando por aqui? — perguntei, sentando-me ao seu lado.

Você ergueu o rosto e, como sempre, me desarmou com aquele par de olhos que pareciam carregar galáxias inteiras. E então veio aquele sorriso, o tipo de sorriso que faz o mundo girar mais devagar por alguns segundos.

— Tô desenhando você e o papai, olha! — disse, empolgada, enquanto estendia uma folha de papel na minha direção, atribuindo àquele simples papel a importância de um prêmio de valor inestimável.

Peguei o desenho com cuidado, como quem segura um segredo precioso, e ali estava: uma paisagem simples, com árvores esverdeadas, um sol radiante no canto da folha, um gramado vibrante e, no centro de tudo, nós três. De mãos dadas, sorrindo, em perfeita harmonia.

Era mais do que um desenho infantil, era sua visão de mundo, sua forma de nos eternizar no seu pequeno universo imaginativo. Um retrato daquilo que você acreditava que éramos, ou talvez do que desejava que fôssemos. E aquilo me atravessou com uma ternura que só as mães conhecem.

Abracei o papel como quem abraça um relicário. Você me observava com aquele sorriso bobinho e travesso e, como sempre, tive de conter a vontade de apertar suas bochechas até que elas desaparecessem dentro do rosto.

— Você gostou? — perguntou, com os olhos tão brilhantes que parecia que havia uma constelação se formando dentro deles.

Em resposta, te envolvi num abraço apertado, daqueles que dizem mais do que qualquer palavra. Você retribuiu com seus bracinhos pequenos, tentando me envolver toda, como se quisesse me proteger também, do seu jeitinho.

— É claro que eu adorei, meu amor. De verdade. — murmurei, fazendo carinho nos seus cabelos curtos, sedosos, tão finos que escorriam entre meus dedos como fios de seda preta. — Que tal mostrar isso pro papai? Aposto que ele vai amar tanto quanto eu!

Você assentiu com entusiasmo, os olhinhos faiscando de alegria. Em seguida, se levantou num pulo e correu porta afora, rindo alto, com o desenho firme nas mãos e o coração cheio de expectativa.

Aquela sugestão foi uma tentativa genuína, talvez até um pouco ingênua, de tocar alguma centelha adormecida dentro dele. Uma forma de, quem sabe, reanimar o homem que ele já foi. Porque, apesar de tudo, havia uma parte de mim que ainda insistia em acreditar que seu distanciamento era apenas reflexo de algum fardo externo que ele não conseguia ou não sabia verbalizar.

Enquanto você caminhava pela casa à procura dele, com sua vozinha doce carregada de expectativa e esperança, eu me dirigi ao banheiro. Comecei a escovar os dentes, ainda com a mente parcialmente ocupada por aquela mistura de esperança e receio. Foi então que ouvi.

O som.

Não foi só um ruído comum, desses que a gente ignora no dia a dia. Foi um estalo ríspido, seguido de um baque no chão, um som que, para qualquer mãe, ativa todos os instintos de sobrevivência num único segundo. E então, como uma punhalada, o choro alto, agudo e desesperado.

A escova voou da minha mão sem que eu percebesse. Meu corpo reagiu antes da razão processar qualquer coisa. Corri do banheiro na pressa desesperada de quem foge da própria sentença. Não precisei ver para acreditar, a ameaça já queimava dentro de mim.

E quando cheguei à sala, a cena me dilacerou.

Você estava no chão, sentada, as pernas meio dobradas, os olhos marejados de lágrimas grossas que escorriam com violência pelo rosto. Chorava como quem tivesse levado um golpe não só no corpo, mas na alma. E ali, a poucos passos de você, estava seu pai. Parado e inerte com aquele olhar vazio. O mesmo olhar que eu já conhecia e temia. Só que agora, havia algo a mais: os punhos cerrados, tremendo com uma fúria silenciosa, prestes a se transformar em mais um ato de violência.

E então vi o desenho. Aquele que você havia feito com tanto carinho. Estava amassado, pisado, como se o mundo inteiro tivesse desabado em cima da sua pequena criação. Era como ver a cruel representação da sua inocência sendo esmagada.

Ele fez isso. E, naquele momento, não havia mais espaço para dúvidas.

— KYRAN! — gritei, tomada por uma mistura de raiva e horror — VOCÊ É MALUCO?! O QUE FOI ISSO?!

Meu corpo se moveu até você por puro reflexo, impulsionado pela esperança de que tentar te proteger ainda pudesse desfazer o que já havia sido feito. Te abracei com força, buscando acalmar, consolar, proteger... qualquer coisa que pudesse te fazer sentir menos dor.

Seu rosto trazia a marca nítida do tapa. A forma da mão dele gravada em vermelho vivo na sua bochecha, contrastando com a palidez da sua pele e as lágrimas incessantes. Tentei acariciar seus cabelos, te dizer que estava tudo bem, mesmo sabendo que não estava, porque a gente tenta, né? A gente tenta criar um abrigo mesmo em meio ao desastre.

Mas o que você fez depois me partiu de forma irreversível.

Você se desvencilhou dos meus braços e saiu correndo, desesperada, movida por um impulso que dizia que apenas a fuga poderia aliviar o aperto no peito. Entrou no quarto e trancou a porta com uma força que eu nunca imaginei que uma criança pudesse ter.

— FILHA! MISKA! POR FAVOR, VOLTA AQUI! — gritei, a voz escapando como um soluço.

Estendi a mão, acreditando que apenas o gesto pudesse aproximar você de mim. Mas você já não me ouvia mais. O som da porta se fechando com violência foi o ponto final.

E então vieram os murmúrios. Os soluços abafados do outro lado da porta.

Aquilo me atravessou de um jeito que poucas coisas já haviam atravessado. Era uma mistura densa, sufocante, impossível de digerir: tristeza profunda, uma dor aguda, decepção amarga, mas, acima de tudo, um ódio. Um ódio tão denso que parecia querer sair da minha pele em forma de fogo. Meu corpo inteiro fervia, e eu sentia que estava à beira de explodir.

Levantei-me devagar, respirando com dificuldade, e encarei o homem à minha frente, aquele que um dia chamei de companheiro. Meu olhar era um vulcão prestes a romper. Não havia mais espaço para cautela.

— QUAL É O SEU PROBLEMA, SEU IMBECIL?! — minha voz ecoou pela sala como um trovão descontrolado. Eu nem me importava se os vizinhos iam ouvir, na verdade, talvez fosse até melhor que ouvissem. — ELA SÓ FEZ UM DESENHO, PORRA! SÓ QUERIA TE MOSTRAR UM POUCO DE CARINHO! ELA É SUA FILHA, VOCÊ CONSEGUE COLOCAR ISSO NESSA SUA CABEÇA, SEU MERDA?! SUA. FILHA. E VOCÊ TRATA ELA COMO SE NÃO VALESSE NADA!

Eu gritava como quem sangra. Cada palavra saía carregada de mágoa acumulada, de noites em claro, de todas as vezes em que eu tinha tentado justificar o injustificável. Mas ele não reagiu como um ser humano em crise. A transformação que vi naquele instante foi de arrepiar: sua expressão endureceu, congelou, os olhos perderam qualquer traço de humanidade e deram lugar a algo frio, sombrio, puro rancor.

E foi então que ele avançou. De um jeito brutal. Agarrou meu rosto com uma força desmedida. Seus dedos cravaram na minha pele e forçaram meu olhar a encontrar o dele, impondo que eu visse o monstro em que ele havia se transformado.

E então ele falou.

Com a voz arrastada, venenosa, carregada de um ódio que parecia enraizado há muito mais tempo do que eu gostaria de admitir:

— Sinceramente? Que se foda. — ele disse, cuspindo as palavras como se estivesse se livrando de um peso. — Eu já menti pra mim o suficiente. Já banquei o bom moço e fiz suas vontades por tempo demais. E cê quer saber de algo? Eu NUNCA quis essa coisa. NUNCA quis ser pai. NUNCA quis viver essa porcaria de vida de “família perfeita” que você tanto teve a nojeira de ficar se afundando em ilusão. — Ele me encarava com a intensidade de alguém que via em mim o erro central de sua existência. — Eu me meti nesse buraco POR SUA CAUSA. Só pra ver se você calava essa boca, pra ver se eu conseguia tirar algum sorriso idiota dessa sua cara.

Por um instante, o mundo parou. As palavras dele pairaram no ar como objetos cortantes. Eu já não sabia se aquilo era realidade ou algum pesadelo torpe que minha mente havia criado pra me punir por alguma coisa. Estava diante de um estranho, não, pior: diante da ruína do homem que um dia eu amei.

E então veio o tapa.

Rápido e cruel.

O impacto foi tão violento que, por um segundo, tudo ficou borrado. As lágrimas saltaram antes que eu tivesse tempo de entender o que estava acontecendo. Meu corpo cambaleou e minha visão tremeu. Tudo que eu conhecia, tudo que eu tinha construído com ele, começou a desabar diante de mim como um castelo de cartas que alguém, sem aviso, decidiu destruir.

— Mas, a partir de agora, eu não vou mais bancar essa palhaçada. — ele disse, com uma frieza cortante. — Acabou. Chega de mentir pra mim mesmo só pra agradar os outros. Isso tudo já deu o que tinha que dar.

Eu ainda estava imóvel, atordoada, encarando o vazio da sala, não por escolha, mas porque o tapa me obrigou a olhar pra um canto qualquer, afastando-me da realidade. Minha mente vagava entre lembranças desconexas, fragmentos do que a gente foi, do que a gente quase foi... e do que ele se transformou.

— Você tem noção do estresse que essa peste me causou? — ele continuou, sem remorso. — A gente quase morreu naquele maldito acidente de carro por causa dela. E, como se isso não fosse o suficiente, você quase morreu por culpa DELA! Por causa dessa garotinha infeliz!

As palavras dele me atingiam como estilhaços. E, sinceramente, eu já não sabia o que estava ouvindo. A lógica dele era um emaranhado doentio, distorcido, impossível de acompanhar. O que ele dizia... era como ser forçada a assistir meu próprio coração sendo arrancado, lentamente, sem anestesia.

E então ele falou algo que me congelou por inteiro.

— Pra ser bem sincero...? Se ao menos você tivesse saído viva, eu não ligaria nem um pouco de ver ela morr—

Ele não terminou.

Eu não deixei.

A raiva que fervia dentro de mim finalmente explodiu. Em um movimento que mais parecia um reflexo de puro instinto, virei o rosto na direção dele e, com um grito rasgado, surtei. Acertei um soco com tanta força que quase pude ouvir o estalo seco dos ossos e ver um dos dentes dele voando da boca. Ele cambaleou, levou a mão ao rosto com um grunhido animalesco de dor e, quando me encarou, seus olhos já estavam inflamados, puro ódio espelhado no meu.

Mas eu não recuei. Eu não tinha mais nada a perder.

— Vai se foder, Kyran! VAI SE FODER! — eu berrei, a garganta em brasa, cada sílaba cuspida com o peso de anos de frustração e revolta. — ENGOLE ESSA MERDA QUE VOCÊ CHAMA DE VOZ PRA FALAR DA MINHA FILHA, SEU DESGRAÇADO FILHO DA PUTA!

E então ele veio pra cima de mim.

Avançou como um animal encurralado, os braços estendidos com a intenção de me estrangular, de apagar minha existência ali mesmo. Instintivamente, consegui interceptá-lo, agarrando seus braços no ar antes que me alcançasse. Mas era como tentar segurar a fúria com as mãos nuas. Usei toda a força que me restava pra manter distância, pra impedir qualquer contato... até que ele usou a perna e me acertou um chute seco no abdômen. O golpe foi preciso, forte o suficiente pra me arrancar o fôlego. Senti meu corpo dobrar, caí de joelhos, as mãos pressionando a barriga enquanto tentava recuperar o ar que parecia ter sido arrancado à força dos meus pulmões.

Mas já era tarde demais.

Num segundo, senti o impacto de um soco brutal contra meu rosto. Caí no chão, meu corpo completamente desorientado, sem nenhuma noção de equilíbrio. Sem forças pra reagir, fui jogada num pesadelo real e físico. Ele se ajoelhou sobre mim e começou a descarregar os punhos no meu rosto, um após o outro, com fúria descontrolada. Eu só conseguia levantar os braços como uma última defesa, como um escudo frágil tentando proteger o que restava de mim.

A dor era insuportável.

Os golpes não dilaceravam só minha pele, mas tudo que eu tinha dentro: a confiança, a dignidade, a esperança, minha história, meu amor próprio, minha sanidade. Fiquei presa naquele purgatório por algo em torno de doze minutos, doze minutos que mais pareceram uma eternidade sendo consumida viva. Meus braços tremiam, cobertos por hematomas, e o sangue escorria pelo nariz, pela boca, formando poças rubras no chão.

Até que ele parou.

Exausto, arfando como um predador após o ataque, ele se aproximou do meu ouvido. Sua respiração era quente, úmida, e cada sílaba sussurrada parecia gotejar veneno.

— E é por culpa daquela miserável que chegamos a isso. Culpe ela pelo que aconteceu aqui... e pelo que ainda pode acontecer. Não só ela... se culpe também. Você escolheu colocá-la no mundo. Você pariu essa aberração.

Foi nesse instante que percebi: algo nele quebrou. Não sei se foi remorso, medo ou apenas mais uma faceta do monstro que ele vinha se tornando. Vi quando ele se levantou cambaleando e olhou para as próprias mãos como se, pela primeira vez, realmente enxergasse o que tinha feito. Deu um leve surto, puxou os cabelos com força, bagunçando-os, enquanto fixava o olhar numa direção específica da casa: o seu quarto.

Resmungava coisas desconexas, palavras que minha mente atordoada não conseguiu decifrar. Então, algo pareceu convencê-lo de que aquilo era suficiente por hoje, e ele simplesmente se foi. Abriu a porta da frente e desapareceu para algum lugar que eu desconhecia e, sinceramente, que eu preferia continuar desconhecendo. Eu não queria saber pra onde ele ia. Só queria que ele sumisse. Longe de mim. Longe de você.

A porta bateu com violência. O estrondo ecoou pela casa como um ponto final naquele capítulo de dor.

E lá estava eu: jogada no tapete da sala como um fardo humano esquecido. Cada tentativa de me erguer era interrompida por ondas de dor que percorriam meu corpo como choques elétricos, resultado direto da brutalidade de alguém que já não podia mais ser chamado de homem, apenas de um monstro cego, deformado pela própria frustração.

Lutei contra a vertigem, tentando encontrar alguma âncora entre o sangue seco no canto da boca e os hematomas que começavam a se revelar em tons púrpura na minha pele. E foi nesse meio-termo entre o desespero e a paralisia que senti um toque suave pousar sobre a minha cabeça.

Era quente. Pequeno. E extremamente gentil.

Você.

Você tinha se aproximado em silêncio, com suas mãozinhas trêmulas, e me envolveu num abraço que, mesmo frágil, foi o único gesto humano que eu recebi naquele dia. Um abraço de alguém que não sabia direito o que estava acontecendo, mas que, intuitivamente, compreendia que havia algo profundamente errado. Você encostou sua testa na minha e ficou ali, olhando nos meus olhos com a sinceridade cortante que só uma criança consegue ter — aquela sinceridade que é pura não por falta de inteligência, mas por excesso de sensibilidade.

Por um instante, deixei meu corpo ceder ao conforto. Senti seu abraço como um cobertor lançado sobre brasas, não apagava o incêndio, mas me fazia lembrar que eu ainda era alguém que merecia amor.

E então, como uma faca atravessando o pouco fôlego que me restava, você me fez uma pergunta:

— Mamãe.. por que o papai não gosta de mim?

Aquilo me dilacerou.

Senti as lágrimas escorrerem sem resistência, cada músculo meu agora estava rendido ao choro. Aquele era o tipo de pergunta que não deveria habitar a mente de uma criança. Era crueldade do mundo ver você, tão pequena, tentando racionalizar um abandono que não era culpa sua. Que nunca foi.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, talvez segundos demais. Eu não sabia o que dizer. Como se responde à dor de um filho que só quer ser amado?

Mas, mesmo com a garganta arranhando de tanto chorar por dentro, mesmo fraca, ferida, e emocionalmente despedaçada, eu respondi. Não por honestidade, mas por necessidade. Porque você precisava de alguma coisa, qualquer coisa, pra se apoiar.

— N-Não fala isso, filha... — engasguei, num tom forçado entre repreensão e ternura. — Ele gosta de você, sim... só... só não tá num dia bom, tá? Ele te ama, sim. E eu... eu também te amo. Muito.

Sua expressão continuava confusa, tentando encaixar algo impossível numa situação que não fazia sentido. Mas, em vez de discutir, você só apertou o abraço, como se tentasse me proteger de mim mesma.

— Eu também te amo muito, mamãe... — você disse, e seu sussurro foi a única coisa doce num dia amargo demais.

Com esforço, levantei um pouco o braço e acariciei sua cabeça com a ponta dos dedos, sentindo os fios macios deslizarem pela palma da minha mão, o gesto mais simples, e ao mesmo tempo mais sagrado que eu podia oferecer naquele momento. Era minha maneira de te dizer que, apesar de tudo, eu ainda estava ali.

Por você.

Sempre você.


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