Cartas Que Guardei em Silêncio

Cartas Que Guardei em Silêncio


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Minha Miska.

Quando tudo começou a ruir ao nosso redor, você ainda era apenas uma criança. Dez anos, tão pequena e ainda com o olhar cheio de inocência sobre o mundo. Eu me lembro com nitidez. Aquele período marcou o início do fim para muitas coisas, inclusive para o meu casamento.

Palavras que um dia soaram como poesia, promessas de amor eterno, votos silenciosos que guardei como relíquias no coração, hoje ecoam como sussurros de um tempo que já não reconheço. Na época, acreditei genuinamente que carregaria cada beijo, cada gesto de carinho, até o último dos meus dias. E, de certo modo, ainda carrego, só que não mais como doces lembranças, e sim como cicatrizes que o tempo não apagou. Marcas que doem, mesmo depois de tanto silêncio.

Assisti, com o coração em ruínas, o homem que amei se transformar. Tentei de tudo, dei chances, palavras, gestos, esperanças. Tentei moldá-lo, suavizá-lo, acordar nele o que eu achava que havia de melhor. Em vez disso, vi nascer algo sombrio. Um monstro. E não só para mim.

Você era só uma menina, minha pequena, e ele foi cruel até com você. Eu sei. E isso ainda me corrói. Mas nada disso aconteceu de forma aleatória, ainda que, à primeira vista, parecesse que o mundo desabava do nada. Houve um processo, um desgaste, um conjunto de escolhas dele, minhas e nossas.

Eu sei que tocar nesse passado pode machucar. Por isso, antes de continuar, quero te pedir algo: caminhe comigo. Dê-me sua mão, como você fazia quando era pequena. Vamos andar juntas por esses caminhos de dor, porque entender é parte do processo de cura. Você não precisa enfrentá-lo sozinha, nunca precisou.

Eu não fujo mais da minha história, Miska. E não quero que você fuja da sua. Porque mesmo dentro da dor há espaço para reconstrução. A mamãe continua aqui, forte por você, e por mim também.

Vamos?




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