Desde aquele dia, tudo começou a desmoronar de forma irreversível. Seu pai já não era o mesmo homem, e não digo isso como figura de linguagem ou exagero dramático. Ele havia se transformado. Se antes havia sombras no olhar, agora só restava vazio. Aquele que um dia compartilhou uma vida comigo deu lugar a alguém completamente diferente, alguém corrompido, perigoso e sem qualquer resquício de humanidade visível.
As agressões físicas tornaram-se recorrentes. O abuso psicológico, constante. Nossa rotina parecia ter sido completamente redesenhada pelo medo. Medo de palavras, de olhares, de passos no corredor. Medo de existir dentro da própria casa. Raramente havia um dia em que eu não precisasse me colocar entre você e ele, como um escudo malformado feito de carne e desespero. Raramente eu terminava um dia sem algum ferimento no corpo, ou pior: na alma, só para impedir que você acumulasse mais um hematoma, mais uma cicatriz invisível que só o tempo seria capaz de revelar.
Perdi a conta das vezes em que ele me ameaçou, não de maneira direta, mas com aquele tipo de ameaça que se aloja no inconsciente, que se camufla em frases soltas, ditas como se fossem nada, mas carregadas de intenção. Aquelas palavras que diziam, basicamente: se você continuar, eu vou acabar com você. Ou pior: vou acabar com ela.
A parte mais cruel? Ele não falava isso gritando. Ele dizia calmo, dizia de um jeito metódico. Como quem já decidiu o que vai fazer, só está esperando o momento certo.
Teve uma vez, que nunca saiu da minha memória, em que ele sugeriu me livrar de você. Sim, ele queria que eu te colocasse pra adoção. Como se você fosse um peso morto, um erro descartável. Ele até construiu uma narrativa pra justificar isso, cheia de mentiras baratas, mas que, ditas com frieza suficiente, talvez convencessem alguém lá fora. A sorte foi que não convenceram a mim.
E como se tudo isso não fosse o bastante, ele ainda perdeu o emprego. A justificativa? Comportamento violento com colegas, com clientes. Aquilo que já nos devorava por dentro estava agora transbordando para o mundo exterior. Foi o estopim. Ele se afundou de vez no álcool, mergulhando nas garrafas em busca de um álibi, de um esquecimento, de uma desculpa. Mas tudo que ele encontrou foi mais violência. E nós, que já vivíamos com medo, começamos a viver em pânico.
A casa virou trincheira.
Eu passei a sustentar tudo: contas, comida, seus remédios, a escola e até as garrafas dele. Porque, se eu não as comprasse, ele surtava. Me ameaçava. Dizia que ia resolver as coisas do jeito dele. Eu entrava num estado de alerta constante. O corpo tenso o tempo inteiro. A mente dividida entre a sobrevivência e a culpa.
E o pior era ver o jeito como ele olhava pra você quando estava bêbado. Não era só raiva. Era um tipo de aversão que me dava calafrios. Parecia que ele via em você o símbolo de tudo o que odiava. E isso já era suficiente pra me colocar entre vocês, sempre. Eu fazia o que fosse necessário. Gritava, apanhava, bloqueava a passagem dele com o corpo, qualquer coisa para te impedir de sofrer mais.
Mas, Miska… eu não era forte o suficiente. Eu dava tudo de mim, mas às vezes simplesmente não bastava.
E o que mais me partia ao meio era te ver tentando me proteger. Você, tão pequena, tentando usar seu próprio corpo como escudo. Ficava ali, com os bracinhos abertos, os olhos cheios de lágrimas e coragem, tentando impedir que ele chegasse até mim. Tentando inverter a lógica da dor, como se dissesse: machuca a mim, não a ela.
E isso me destruía de um jeito que nenhuma agressão física jamais conseguiu. Porque ali, naquele olhar, espelho do meu, havia a dor compartilhada, a impotência mútua, o amor desesperado de quem tenta segurar o mundo com as mãos e vê tudo escorrendo pelos dedos.
Lembro com uma clareza cruel de uma noite em que precisei suplicar por você. Era uma sexta-feira qualquer, mas marcava 00h43 quando tudo aconteceu. Seu pai e eu fomos arrancados do sono pelos seus gritos. Não eram gritos comuns, daqueles que crianças soltam quando têm um pesadelo leve. Eram sons agudos, desesperados, com um tom que parecia vir de algum lugar profundo e intocado da sua mente infantil. E isso, Miska, foi o que mais me doeu. Aquilo não era só medo. Era pavor. Era uma dor que você ainda nem sabia nomear.
Seu pai acordou transtornado. Bastou um olhar para que eu soubesse o que ele planejava. A forma como ele cerrava os dentes, como os olhos dele se estreitavam e o corpo todo ficava tenso… era o mesmo padrão, sempre. Raiva, impaciência, intolerância com qualquer coisa que não estivesse sob controle e, naquele momento, o foco era você.
Ele saiu da cama em um rompante e marchou até seu quarto. Eu fui atrás sem pensar. Era automático. Meu corpo já sabia o que precisava fazer: me colocar entre você e o caos.
Quando entrei, o que vi me quebrou por dentro.
Você estava no chão, abraçada a um travesseiro para se proteger do mundo. Seu rosto estava inchado, os olhos vermelhos, as mãos apertadas contra o tecido como se, se soltasse, algo terrível fosse acontecer. Parecia que você tinha visto um fantasma, ou algo ainda pior, algo que só existia no seu universo particular de dor e medo.
Ele começou a berrar. Queria saber por que você estava “gritando daquele jeito”. A voz dele cortava o ar como navalha, sem nenhum traço de compaixão. E foi nesse momento que eu me pus entre vocês dois. Minha expressão era um retrato do cansaço: raiva misturada com medo, com exaustão, com um resquício de coragem que ainda restava só porque você precisava de mim.
Cerrei os punhos, olhei nos olhos dele e disse:
— Se você quer bater em alguém, se precisa descarregar sua frustração em alguma coisa, então que seja em mim. Mas nela, não. Por favor, não encosta um dedo nela.
Minha voz estava trêmula, engasgada, mas havia firmeza ali. Era a fala de alguém que já não tinha mais forças pra brigar, mas que ainda tinha força pra proteger. Era uma súplica, não mais por mim, mas por você. Era o pedido desesperado de uma mãe diante de um monstro que só sabia se alimentar de sofrimento.
Eu esperava o pior. Esperava que ele me agredisse como fazia sempre quando eu tentava “interferir nos assuntos dele”, palavras dele, nunca minhas. Mas, surpreendentemente, não foi isso que aconteceu.
Ao invés disso, ele sorriu.
Um sorriso debochado, desumano, que parecia divertir-se com a minha impotência. Era o tipo de sorriso que não pertence a um rosto humano, um sorriso que carrega escárnio, poder, prazer pela humilhação do outro. E então, sem uma palavra, ele me empurrou com força. Meu corpo foi lançado para perto da sua cama, e caí de joelhos, a dor nas costas mal registrada diante do que realmente doía: a humilhação, a frustração e a raiva impotente.
Olhei pra ele com ódio, mas tudo que consegui foi ver aquele sorriso se alargar. Ele parecia existir apenas para isso, para destruir o pouco que restava da minha dignidade.
E então, como se tudo fosse absolutamente normal, ele simplesmente virou as costas e voltou pro nosso quarto. Voltou a dormir, ignorando completamente o que havia acontecido.
Assim que a porta se fechou, fui até você.
Então, eu imediatamente fui em sua direção. Eu passei a mão pelos seus cabelos, você estava tremendo, tremendo demais. Não conseguia tirar o rosto de dentro do seu travesseiro, você parecia.. traumatizada.
Toquei seus cabelos devagar, sentindo suas ondas trêmulas sob meus dedos. Você estava em estado de choque, os olhos ainda enterrados no travesseiro, o corpo rígido. Era como se cada músculo seu estivesse congelado. E eu… eu me senti inútil. Porque mesmo ali, mesmo viva, eu não tinha conseguido impedir o trauma. Eu só conseguia tentar amenizá-lo, dar algum consolo na forma de um carinho tardio. E mesmo assim, era pouco.
Você parecia quebrada por dentro. Uma criança tentando se esconder num travesseiro de algodão enquanto o mundo desabava à sua volta.
Perguntei a você, ainda trêmula, o que tinha acontecido. Queria entender de onde vinha aquele medo, porque, mesmo com tudo que já havíamos passado, aquilo não era só um susto, era pânico. E pânico, especialmente vindo de uma criança, não aparece do nada.
Foi então que você me contou. Disse, com a voz engasgada e os olhos marejados, que tinha visto seu pai entrar pela porta. Mas ele não era “ele”. Segundo você, ele parecia um monstro, e essas foram exatamente as palavras que usou: “um monstro literal”. Sua descrição era tão vívida, tão crua, que por um momento meu estômago virou. No início, confesso, não entendi. Mas aos poucos, a ficha caiu.
Era ele. De novo ele. Não bastava ferir seu corpo, agora ele estava quebrando sua mente. Estava conseguindo se infiltrar nos seus sonhos, nos seus pensamentos, no seu sono. O medo dele já não se limitava ao concreto. Havia virado um vulto. Um espectro que te perseguia mesmo com as portas trancadas.
Senti meu peito apertar e, instintivamente, te abracei com mais força. Minhas mãos percorreram seu cabelo num gesto automático, na esperança de que aquilo te trouxesse alguma paz, por menor que fosse. Eu sussurrava que estava tudo bem, mesmo sabendo que não estava. Mas era tudo o que eu podia te oferecer naquele momento: uma mentira suave o suficiente pra você conseguir respirar.
Foi então que meus olhos se voltaram para o chão do quarto.
Lápis de cor espalhados. Pontas quebradas. Papéis amassados, rasgados, uma tentativa sua de apagar imagens que sua mente insistia em registrar. Me abaixei, peguei um dos desenhos, depois outro. E então percebi. Todos eles contavam mais uma história. A sua.
Só que, dessa vez, o seu mundo não era mais feito de cor.
No lugar da alegria, havia ruído. No lugar do colorido, havia manchas de grafite e traços agressivos. Seu pai, que antes aparecia com sorrisos e braços abertos, agora era representado como uma figura distorcida, com olhos negros e dentes afiados, como um pesadelo com forma humana. Um corpo grande, disforme, sombrio, uma presença que não pertencia a um lar, mas a um filme de horror.
E nós… nós duas… antes tão felizes nos seus rabiscos infantis, agora chorávamos em silêncio no papel. Em todos eles.
Era o retrato fiel de uma infância que estava sendo arrancada à força.
E ali, sentada no chão, com você nos meus braços e os seus desenhos espalhados ao redor, eu entendi. Você estava tentando gritar.
Não com palavras, mas com cores.
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