Rooooosquinhas!

Rooooosquinhas!

Folha 030 - Diário de Miska

Rosquinhas

Dei três batidas discretas na porta da casa dela.

E, sinceramente, isso já era uma pequena vitória pessoal. Normalmente, eu meteria a mão na madeira até alguém abrir ou ficaria berrando o nome da Miska feito uma completa insana. Só que eu sabia que, desta vez, nada disso era apropriado. Não dava pra bancar a palhaça agora. Eu consigo separar as situações, mesmo que, às vezes, não pareça.

A verdade é que eu estava tomada por uma ansiedade absurda.

Não aquela ansiedade boa, elétrica, que sempre surgia quando eu ia chamar a Miska pra sair, jogar conversa fora ou simplesmente dividir o dia com ela. Era um aperto mais pesado, uma urgência silenciosa. Eu só precisava saber se ela estava inteira, de algum jeito.

As mensagens dela ecoavam na minha cabeça. Ela tinha reencontrado a mãe, mas não de forma alegre, muito menos simbólica. O reencontro veio embalado numa tragédia amarga. A mãe não apareceu sozinha: junto dela, veio o monstro que destruiu a infância e o coração da Miska, deixando cicatrizes que insistem em latejar até hoje.

Aquele homem não só a machucou: ele tentou arrancá-la de todos nós, principalmente de mim. Mas, no fim, recebeu o destino que merecia, ironicamente pelas mãos da própria mãe dela. Só que nada vem sem consequência. O preço cobrado foi alto demais: a mãe da Miska perdeu a liberdade, a vida social, qualquer chance de retomar a relação de antes.

Ela foi condenada pra sempre. Não haverá retorno, abraços espontâneos ou conversas despreocupadas no sofá. Ainda assim, nem tudo desmoronou por completo. Miska me contou que tinha o direito de visitá-la dois dias por semana, e faz isso religiosamente. Fala sobre tudo, leva comida decente, porque a da prisão não presta nem pra cachorro, e tenta manter, teimosamente, o que sobrou desse vínculo.

Mas não era o suficiente.

Miska estava se esfarelando por dentro.

Ver a própria mãe naquela situação era um peso insuportável. A sensação de que tudo poderia ter sido diferente a corroía como ferrugem. E isso começou a aparecer nas atitudes dela. Ela mesma me confidenciou que já não conseguia comer direito por causa da angústia. Às vezes passava o dia inteiro sem colocar nada no estômago. E, claro, o corpo cobra: você ficou mais fraca, mais cansada, incapaz de se concentrar como antes. Seu humor, então, nem se fala, oscilava como se alguém tivesse desligado todas as luzes internas de uma vez.

Soltei um suspiro longo, encarando o chão por alguns segundos enquanto apertava, sem perceber, a caixa de rosquinhas entre as mãos. Tinha comprado para nós duas, não apenas porque ela precisava, mas porque imaginei que qualquer instante ao lado dela, mesmo fazendo o mínimo, poderia amenizar um pouco o peso que vinha carregando.

Escolhi cuidadosamente os sabores que ela mais gostava, torcendo para que isso despertasse ao menos um fragmento de apetite.

Ai, é complicado demais.

Minha mente estava tomada por pensamentos pessimistas, uma espiral de cenários horríveis que só se intensificava a cada minuto em que Miska não atendia. A espera arranhava minha paciência e deixava meu peito apertado.

Olhei outra vez para a porta, prestes a bater novamente. Porém, no momento exato em que ergui a mão, a maçaneta girou com lentidão, e a porta se abriu numa hesitação dolorosa.

Foi então que a vi.

Seus cabelos estavam completamente bagunçados, denunciando horas de descuido. E o seu olhar, meu Deus. Tão exausto, triste, afundado numa miséria silenciosa. Parecia ter chorado a noite inteira, e não seria a primeira vez. O sono dela virou um inimigo desde que tudo aconteceu.

— O-oi! — murmurei, tentando soar animada, mas minha própria voz saiu trêmula. — Caramba, Miska, cê tá horrível. — acrescentei, sem pensar, tentando manter algum traço da nossa intimidade habitual e, ao mesmo tempo, implorando mentalmente para não falar mais nenhuma idiotice. — Eeeeeeu trouxe rosquinhas! Pra gente comer juntas! Peguei só os seus sabores favoritos! Pensei que… talvez ajudasse um pouco.

Forcei um sorriso tímido. Ela, no entanto, inclinou a cabeça de leve, fechou os olhos e soltou um suspiro arrastado, visivelmente exausta.

— Não precisava disso tudo, Ashley. — respondeu, num tom tão baixo que quase se perdeu no ar. Ela passou a mão pelo rosto com pressa, como quem tenta acordar à força. — Eu não tô com fome.

Eu suspirei ao ouvir essas palavras.

— Miska, pode parecer que não, mas você precisa comer. É sério. — insisti, observando o estado dela dos pés à cabeça. — Você tá muito fraca. Vai piorar, se continuar assim.

Ela cruzou os braços em torno do próprio corpo, acariciando a pele com desconforto. Olhou para o lado, fugindo do meu olhar, afundada numa mistura de vergonha, cansaço e dor que me deu vontade de abraçá-la ali mesmo, sem pedir permissão.

— Eu já disse que tá tudo bem, eu não que—

— Miska. — interrompi, erguendo levemente a voz, o bastante para forçar sua atenção de volta a mim. — Olha, você até pode tentar se convencer de que está tudo normal, mas comigo esse truque não cola. Você tá em frangalhos, e piorando a cada dia! Você sabe disso, mesmo quando tenta negar. Eu não vim aqui só pra bater papo ou fazer cena. Eu vim porque me importo, porque sou sua amiga. Então deixa eu te ajudar nem que seja um pouco, deixa eu segurar sua mão enquanto você atravessa esse inferno.

— … Hm. — murmurou, o rosto denunciando que já não tinha argumentos, acuada pela sinceridade que eu derramava ali sem filtro.

— Por favor. — pedi, numa súplica quase silenciosa, encarando aqueles olhos apagados que, por si só, contavam uma história inteira.

O silêncio que se instalou entre nós durou poucos segundos, mas teve o peso de horas. Até que, finalmente, Miska respirou fundo, baixou os ombros e assentiu. Um gesto mínimo, porém decisivo.

Ela recuou um passo, abrindo espaço para que eu entrasse.

— Tá, tudo bem. Pode entrar. — murmurou, desviando o olhar enquanto encarava o interior da casa. — Só não liga pra bagunça, eu só—

Antes que pudesse concluir a justificativa, eu simplesmente a puxei para um abraço apertado e quente. A reação dela foi um sobressalto leve, até cômico, de tão desprevenida.

— E-Eii, Ashley! O que é isso?! — perguntou, atônita.

— Obrigada, muito obrigada. — sussurrei, com um alívio tão profundo que eu mesma me surpreendi; parecia alguém escapando vivo de uma batalha interminável.

Ela não respondeu com palavras, talvez porque já não tivesse nenhuma força emocional para gastá-las. Mas respondeu com o corpo: depois de alguns segundos travada, devolveu meu abraço de maneira tímida, insegura. E mesmo assim, para mim, foi suficiente.

Se aquele gesto mínimo conseguiu iluminar um resquício de sentimento bom dentro dela, então já valia a visita inteira.

Assim que nos separamos do abraço, finalmente atravessei a porta da casa dela, com Miska logo atrás, encolhida, trêmula e claramente desconfortável com a minha presença naquele estado de caos. Bastou um único olhar ao redor para entender que ela havia passado por um momento nada leve. A sala estava num estado lastimável: cacos de vidro espalhados pelo chão, manchas escuras nas superfícies e um cheiro forte de café velho impregnando o ar.

— Deus, Miska.. o que foi que rolou aqui? — perguntei, ainda atônita com a cena diante de mim. Virei-me na direção dela, esperando uma explicação minimamente coerente.

Ela desviou o olhar, encolhendo os ombros, visivelmente constrangida.

— É, desculpa por ter que ver essa zona toda… — começou, hesitante. — Fiquei remoendo esse lance com meus pais mais do que conseguia suportar.

— Miska, isso é preocupante.. — respondi, a voz carregada de preocupação, uma sobrancelha arqueada enquanto tentava decifrar até onde aquilo tinha ido.

— Eu sei, eu sei. — apressou-se a dizer, quase irritada consigo mesma. — Eu já falei que não precisa ligar pra bagunça, de qualquer forma. Eu vou limpar isso agora. — concluiu, dando dois passos em direção ao centro da sala, calculando por onde começar.

Mas antes que pudesse se afastar, segurei o braço dela.

— Ei! Não! — exclamei, instintivamente.

Ela girou o corpo imediatamente, surpreendida pelo toque.

— Ashley, por gentileza?! — reclamou, tentando libertar o braço.

Assim que percebi o que havia feito, soltei-a na hora, com o rosto queimando de vergonha.

— A-ahh, desculpa! Foi reflexo, eu juro! Eu nem pensei! — me apressei a explicar, o tom meio trêmulo. — Eu só queria dizer que… você não precisa limpar nada agora, tá? Vai descansar um pouco. Inclusive, toma, fica com as rosquinhas. Come alguma coisa enquanto eu dou um jeito nisso tudo, eu arrumo pra você!

Estendi a caixa na direção dela. Miska pegou sem hesitar, mas aceitar minha proposta já era outra história. Passou a mão pela testa, exausta, e soltou um suspiro longo enquanto encarava a caixa com uma mistura de vergonha, culpa e desalento.

— Ashley, essa é minha casa. — ela afirmou, com uma sinceridade bruta. — Isso não é responsabilidade sua. Eu quebrei, eu conserto. Então, não precisa se preocupar, eu cuido disso.

Eu poderia ter dito que entendia. Poderia simplesmente ter assentido, deixado ela lidar com os próprios destroços e fim de conversa. Mas, claro, ela esqueceu de um detalhe fundamental: meu nome não é Ashley Evans por enfeite.

Um sorriso completamente idiota brotou no meu rosto antes que eu pudesse impedir. Assim que Miska percebeu, fechou os olhos e balançou a cabeça, resignada, já antecipando o desastre.

— Nãããããão… não começa, Ashley, pelo amor de Deus. — ela pediu, recuando alguns passos com a mesma expressão de quem vê um trem vindo em sua direção.

E aí, obviamente, comecei.

Sem aviso, corri até ela, a abracei pela cintura e a ergui com cuidado, apoiando seu corpo no meu ombro. Miska arregalou os olhos imediatamente.

— Cê para de ser teimosa, vai! — provoquei, rindo, enquanto a carregava rumo ao sofá, como um saco de batatas de luxo.

— Argh! Me solta, Ashley, caralho! — ela protestou, contorcendo-se e debatendo-se com toda a força que achava que tinha.

“Tentar” era realmente a palavra. A resistência dela era praticamente simbólica, mas ainda assim tinha algo surpreendentemente fofinho em vê-la se debatendo toda irritada, como um gato estressado demais para admitir cansaço.

Levei-a até o sofá, onde a depositei com certo cuidado, não tanto quanto ela teria preferido, claro. Assim que caiu sentada, fiz questão de me jogar ao lado dela, soltando risadinhas leves.

Miska pousou a caixa de rosquinhas ao seu lado, cruzou os braços com toda a indignação possível e mirou qualquer ponto do universo que não fosse o meu rosto. O ar ao redor dela vibrava de frustração.

— Não fica assim comigo, vai! Foi só uma brincadeira! — murmurei num tom manhoso, tentando aliviar o clima enquanto meus dedos se enroscavam distraidamente no cabelo bagunçado dela. Mas, assim que percebeu o gesto, ela deu um tapa certeiro na minha mão, afastando-a sem nenhuma delicadeza.

— Pois é. Igual TODAS as outras vezes, né? — rebateu, a voz ganhando altura à medida que a frustração transbordava. — Você sempre faz isso, Ashley! Sempre! E agora vem repetir essa palhaçada justo hoje, no pior momento possível! Que inferno! — concluiu, levando as mãos à cabeça, puxando os próprios fios num gesto desesperado.

Aproximando-me devagar, segurei suas mãos com delicadeza. Com um gesto suave, tirei-as de sua cabeça, afastando a tensão que ela parecia estar prestes a arrancar junto dos fios. Inclinei-me um pouco e ofereci um sorriso leve.

— Calmou, calmou, mulher. — comecei. — Eu só tentei te fazer rir um pouco, sabe? Achei que uns gestos idiotas pudessem te dar um fiapinho de alegria. — expliquei, observando o olhar dela mudar, a raiva se dissolvendo até virar algo mais brando. — Mas se te incomodou desse jeito, me desculpa, tá? Eu pego leve na próxima.

— Hum, tá. — respondeu, ainda emburrada, porém receptiva, com uma compreensão lenta surgindo entre as rugas da irritação.

— Heh… vai tomar um banho, vai. Cê tá cheirando a café queimado, depois você come. — brinquei, dando um beijinho rápido em sua bochecha.

Ela apenas assentiu, resignada, e finalmente se levantou para ir até o banheiro. Eu, satisfeita por vê-la ceder um pouco ao cuidado, levantei logo em seguida e segui para a lavanderia. Peguei a vassoura e alguns produtos de limpeza, pronta para enfrentar o campo de batalha que se tornara sua sala.

Era hora de, pelo menos, começar a colocar algum pedaço da vida dela nos trilhos novamente.

Depois de longos minutos esfregando o chão, recolhendo cacos e lutando contra manchas de café incrustadas, a sala finalmente parecia outra. Um pequeno milagre doméstico. Nesse meio-tempo, Miska ainda continuava no banho, então subi as escadas e parei ao lado direito da porta do banheiro. Dali, dava pra ouvir com nitidez o som das gotas do chuveiro caindo, criando um ritmo suave contra o piso.

— Ooooi, Miska! — anunciei, animada. — Já terminei de limpar a sala! Tá um brinco agora!

Assim que falei, o barulho do chuveiro foi diminuindo até cessar completamente.

— Espera um pouco aí. Eu tô só me vestindo, é rapidinho. — ela respondeu, prática como sempre.

E eu esperei.

Uns 10 ou 15 minutos se passaram, mas a espera compensou, e muito. Quando Miska finalmente abriu a porta, precisei de alguns segundos para reorganizar meu cérebro. Ela estava irreconhecível em relação à figura abatida que eu havia visto mais cedo.

Usava uma blusa branca com detalhes pretos e uma bermuda preta simples, roupas de ficar em casa. Ainda assim, nelas, tudo parecia impecavelmente natural, irradiando a pequena renovação que o banho acabara de lhe conceder.

É impressionante o que água quente e silêncio fazem por uma pessoa.

Miska parecia até mais tranquila, com os ombros menos tensos e o semblante suavizado.

— Ai. Meu. Deeeeeeeeeeeeeeus! — exclamei, colocando a mão na cintura e abrindo um sorriso de pura provocação. — Assim eu me apaixono, mulher!

— Não viaja. — ela rebateu, revirando os olhos antes de caminhar em direção à escada. É claro que eu a segui, rindo da reação.

Descemos juntas e seguimos para a sala. Assim que Miska viu o ambiente completamente limpo, um lampejo tomou conta do rosto dela. Foi rápido, mas marcante. Um brilho vivo, bonito, tão forte quanto o que eu sempre soube que ela carregava, mesmo quando tentava escondê-lo.

Era um brilho que combinava com ela. Um brilho que era ela.

Miska levou a mão à boca, ainda assimilando a cena diante dela. Seus olhos iam da sala impecavelmente organizada para o meu rosto, tentando processar as duas informações ao mesmo tempo.

— Uau. — murmurou, quase sem reação. — Isso ficou muito mais bonito do que eu pensava. Você fez um trabalho incrível, Ashley.

— Hah, pois é, né?! — respondi, cheia de falsa modéstia, entrelaçando as mãos atrás da nuca. — Aposto que agora você não me acha tão encapetada assim. Como pode ver, eu sei separar as coisas direitinho!

— Sim, eu tô percebendo. — disse ela, com uma sinceridade tranquila, caminhando até o sofá. Em seguida, deixou o corpo cair sobre ele, exausta mas visivelmente mais leve.

Fui atrás e me sentei ao seu lado. Miska soltou um suspiro longo, daqueles que trazem meio alívio, meio peso.

— Obrigada, sério. Eu podia ter dado conta de tudo sozinha; você realmente não precisava ter se preocupado tanto. — ela disse, encarando o meu rosto com um misto de culpa e gratidão que quase doía de ver. — Agora eu tô me sentindo péssima.

Soltei uma risadinha abafada e dei um peteleco delicado na testa dela.

— Sua boba, eu só fiz o mínimo! Não precisa se sentir culpada! — provoquei, rindo. — Mas, agora fala pra mim: como você tá? No que está pensando?

O olhar de Miska escureceu imediatamente. Ela desviou o olhar para o nada, o corpo ficou rígido por alguns segundos, travada em um lugar que eu não podia alcançar. Depois abaixou os olhos.

— Na semana que vem. — respondeu, seca, quase num sussurro.

— Ah, tá falando dela, não é? — perguntei, desta vez com mais cuidado.

Ela apenas assentiu.

— Uhum. Eu visito ela sempre que posso. — disse, entrelaçando os dedos, um gesto que denunciava nervosismo. — Não gosto de perder nenhuma oportunidade quando se trata dela.

— Eu sei. Sei o quanto isso é importante pra você. — respondi, tentando passar acolhimento na voz. — Desculpa perguntar, mas.. como ela tá?

Ao ouvir isso, Miska ergueu o olhar. Havia nele uma mistura devastadora de preocupação e tristeza, algo tão profundo que parecia borrar os contornos do rosto dela.

— Ela está mal, muito mal. — começou Miska, a voz ficando cada vez mais pesada. — Começou a ter febre alta, tosse constante e uma fraqueza tão forte que ela mal conseguia formar uma frase. Eu não faço ideia do que desencadeou tudo isso, se foi a comida da penitenciária, alguma contaminação, não sei.

— Ai, Miska.. — murmurei, passando a mão pelos cabelos, tomada por um incômodo que eu tentava disfarçar. — Ei, respira. Sua mãe vai melhorar, ok? Lá dentro, por mais horrível que seja, ela ainda tem direito a atendimento médico. Alguma coisa eles precisam fazer. Não vai ser do jeito mais humano do mundo, mas… vai ficar tudo bem.

— Sim… eu sei… eles não deixariam minha mãe… minha mãe… né? — perguntou, a voz quase se rompendo no meio.

Ela estava à beira de um colapso. Antes que a espiral tomasse forma de vez, puxei Miska para um abraço firme, envolvendo-a com cuidado enquanto fazia carinho em seus cabelos, cortando qualquer chance de ela completar a frase.

— Ei, não vai por esse caminho, mulher! Você tá se torturando por antecipação! — exclamei, afastando só o suficiente para segurar seus ombros e forçar nossos olhares a se encontrarem. — A sua mãe é resistente pra caramba. Foi forte o bastante pra te criar, pra te proteger do jeito que conseguiu, mesmo cercada de caos. Ela não vai ceder pra uma doença dessas. Ela aguenta! Me diz: ela não é dura na queda?

Miska piscou algumas vezes, ainda tomada por incerteza, era possível ver o medo batendo na porta. Mesmo assim, ela assentiu, trêmula.

— É-É, eu acho que sim. — sussurrou, sem muita convicção.

Eu deixei um sorriso suave escapar.

— É claro que é! Sua mãe já encarou coisas que muita gente nem conseguiria imaginar, e continuou de pé. E quer saber de uma coisa? — perguntei, deslizando os dedos pelos fios claros de seu cabelo, num gesto espontaneamente afetuoso.

— … O quê? — respondeu ela, confusa e vulnerável.

— Ela me deu alguém tão forte quanto. — finalizei, com um tom que pretendia abraçar o que ela não conseguia colocar em palavras.

Miska desviou o olhar, claramente descrente do que eu tinha acabado de dizer. E, sinceramente, quem poderia culpá-la? A mente dela estava tão saturada, tão tomada por um nevoeiro pesado e imóvel, que qualquer migalha de esperança parecia artificial demais pra ser tocada. Foi então que ela soltou:

— Isso não é motivo de orgulho, Ashley.

— Ora, Miska, mas é claro que é—

Antes que eu completasse a frase, ela virou o rosto de volta na minha direção com um olhar completamente destruído. Os olhos, antes só cansados, agora reluziam com lágrimas acumuladas, lágrimas que já não tinham força pra se segurar. Bastou vê-las ameaçando cair para que minhas palavras se esfarelassem na garganta.

— Não, não é! Eu não gosto de "ser forte"! — ela disparou, a voz rachando em sofrimento. — Se isso significa engolir todas essas porcarias, se “ser forte” significa mastigar cada lembrança podre, se “ser forte” significa ver a MINHA MÃE naquele estado… então eu não quero isso. "Ser forte” me deixa ansiosa, me deixa perdida, me deixa apavorada. Ser forte é injusto, ser forte cansa. E cansa pra caralho.

E então ela desmoronou de vez.

O choro veio bruto, desesperado, sem nenhuma tentativa de se conter. Doía assistir. Doía de um jeito físico. Eu a puxei novamente para um abraço, um abraço que eu queria que fosse do tamanho do desespero dela, como um travesseiro enorme onde ela pudesse despejar tudo sem ser julgada, sem precisar fingir que estava bem.

— Miska… — murmurei, erguendo o rosto dela com cuidado, como quem segura algo frágil demais para ser apressado.

Com a ponta dos dedos, comecei a limpar as lágrimas que escorriam sem trégua, como quem tenta conter uma enxurrada usando um copo.

— Eu odeio tudo isso.. o que eu fiz pra merecer? — ela perguntou, exausta, a voz quase sumindo entre um soluço e outro.

Fiquei ali, imóvel por alguns segundos, talvez minutos. O som do choro dela parecia preencher a sala inteira, sufocante, mas também honesto demais pra eu interromper. Mesmo assim, eu sabia que não podia continuar em silêncio. Não dava pra ver minha amiga se quebrando e ficar calada.

Então respirei fundo, reuni a coragem que não estava sentindo e, finalmente, me forcei a falar.

— Miska, você não fez nada. — comecei, ainda acariciando de leve o rosto dela, tentando amenizar a tensão que latejava em cada traço seu. — E, olha… eu sei. Sei que é injusto, sei que pesa nos ombros de um jeito que ninguém deveria suportar, sei que é cansativo pra caramba ter que enfrentar tudo isso sem ter escolha.

Fiz uma breve pausa, respirando fundo, buscando palavras que realmente alcançassem o que ela sentia.

— Mas você não precisa “gostar” de ser forte. E, aliás, o fato de você detestar isso só mostra que você é humana, que você quer só viver sem esses fardos desumanos. Você não tem que achar bonito, não tem que admirar… só precisa lembrar que não está caminhando sozinha, tá? Porque eu tô aqui com você, Miska.

Ela permaneceu em silêncio, absorvendo cada frase. Talvez estivesse processando, talvez estivesse simplesmente cansada demais pra responder. Mas, de algum jeito, ela parecia compreendê-las.

— E eu não falo só por mim. — continuei, ajeitando uma mecha do cabelo dela atrás da orelha. — A Jellie, a Kenda, o Ash, o Jeffrey… todos têm um carinho por você. Mesmo quando te irritam, eles te adoram. Você é importante pra gente, todos nós te amamos. Assim como eu te amo muito, meu bombonzinho. — toquei o nariz dela de leve, brincando, tentando suavizar o ar.

— Me desculpa, Ashley… me desculpa por ser tão—

— Ei, ei, ei. Respira, mulher. — interrompi, com um sorriso tranquilo. — Você não precisa se desculpar por nada. Nada disso é culpa sua. Só fica aqui comigo um pouco, que tal? Você merece carinho, cuidado, repousar nesse afeto. E eu vou garantir isso pra você, entendeu?

Ela finalmente ergueu os olhos, ainda brilhando de lágrimas antigas. Com a ponta dos dedos, limpou os resquícios que teimavam em escorrer, como se estivesse tentando recuperar o próprio rosto depois de um temporal.

E então, num raro instante de alívio que o mundo parecia conceder, Miska me deu um presente raro: um sorriso. Pequeno, tímido, mas sincero, tão sincero que parecia iluminar o próprio ar ao redor dela. Um sorriso frágil e bonito o suficiente para fazer todo o esforço valer a pena.

— Heh, obrigada. Obrigada de verdade… de novo, sua idiota! — Miska reclamou com aquele tom meio rabugento, meio carinhoso, enquanto me empurrava de leve no ombro. A cena me arrancou um riso que escapou antes mesmo de eu perceber.

— Ora, eu só tô fazendo o básico que uma amiga deveria fazer. — respondi, fingindo importância com o gesto, antes de lhe dar um peteleco rápido na testa. — E, aliás, sabe o que mais você tá merecendo?

Ela franziu a sobrancelha, desconfiada, um clássico dela quando pressente minhas ideias questionáveis.

— Hm? O que? — perguntou, inclinando a cabeça para a direita, tentando entender minhas intenções.

Sem dar tempo para ela raciocinar, puxei uma rosquinha de morango da caixa e levei até a boca dela, fazendo um movimento exagerado.

— Rooooosquiiinhaaa! — cantei num tom infantil ridículo, girando a mão como um avião prestes a pousar. — Você não comeu até agora, achou que eu ia esquecer? Vai, abre a boca! “Ahhhh”!

Miska revirou os olhos de um jeito tão teatral que quase parecia uma acrobacia.

— Ashley, por Deus, né? — resmungou, entre a indignação e o riso contido.

Ela até tentou tomar a rosquinha da minha mão para interromper minha palhaçada, mas, obviamente, eu fui mais rápida, experiência de anos praticando caos.

— Ihhh, criança teimosa comigo não funciona! — provoquei, aproximando de novo a rosquinha de sua boca. — Olha o aviãozinhoooo…

Dessa vez, Miska soltou um sorriso curto, derrotado, e acabou cedendo, mordendo a pontinha da rosquinha. Ela mastigou devagar, mas o olhar denunciava tudo: ela estava adorando, mesmo tentando esconder.

Quando engoliu, a expressão dela mudou para algo entre “isso é vergonhoso” e “quero mais". Eu só ergui a sobrancelha em resposta, porque já tinha entendido.

Entreguei a rosquinha completa pra ela, e Miska agarrou o doce imediatamente, parecendo até que tinha sido a primeira refeição dela em dias, devorando-o com uma fome sincera e inesperada.

Eu apenas ri com carinho e passei a mão pelos cabelos dela, bagunçando-os de leve, aproveitando o pequeno momento de paz que se formava entre nós.

— Quer saber? Eu vou contigo! — anunciei de repente, interrompendo o momento quase religioso em que Miska saboreava a rosquinha de morango. Ela me encarou como quem leva um susto silencioso.

— O que? Como assim? — perguntou, arregalando os olhos, embora eu percebesse que, no fundo, ela já intuía exatamente o que eu estava insinuando.

— Ué, visitar sua mamis, criatura! — respondi, dando de ombros com um sorriso despreocupado. — Acho que posso ser uma boa companhia! Não curto a ideia de você carregando sozinha esse peso todo, e, pra ser honesta, tô bem curiosa pra conhecer a mulher que criou você.

Para minha surpresa, ela não discutiu.

— Ah, claro. Pode ser. — disse, com uma naturalidade que me desmontou, quase dando a entender que já esperava por essa oferta. — Acho que você vai gostar dela. Mesmo lá dentro, ela nunca perdeu a delicadeza, o que é incrível. Algumas coisas realmente sobrevivem a qualquer tempestade.

— Concordo totalmente. — retruquei, aproximando a mão de seu rosto. — E olha, se ela for pelo menos metade do que você é, já é garantido que vou adorar ela. Tal mãe, tal filha, né?

Apertei suavemente uma das bochechas de Miska, que reagiu com um riso tímido, acompanhando com pequenos tapas na minha mão para que eu parasse.

Mas eu não parei.

Eu queria ouvir mais daquele riso que parecia iluminar o ambiente inteiro, mesmo após tudo o que ela enfrentou naquele dia.

Eu queria sentir mais daquela gentileza escondida por trás das explosões emocionais, das defesas e das dores não ditas.

Eu queria ela. Inteira, confusa, doce e teimosa.

E naquele segundo, enquanto segurava entre os dedos a bochecha dela, ficou ainda mais claro para mim do que já era antes.

Tiramos mais duas rosquinhas da caixa e, sem pressa alguma, retomamos a pequena refeição.

E, por alguns instantes, ficamos apenas ali, dividindo açúcar, silêncio e uma sensação discreta de conforto mútuo.

A cada mordida, o clima parecia ficar um pouco mais leve.

A cada mordida, ela parecia um pouco mais feliz.