Antes de ir embora

Posso pedir uma coisa?

Faca ensanguentada

Sua rotina sofreu uma ruptura irreversível desde o momento em que a penitenciária passou a ser seu endereço fixo. E essa nova vida ia muito além do simples ato de existir, perdida na solidão de uma cela abafada, entregue à deterioração do corpo e ao desgaste lento da mente. Não, aquilo, por mais brutal que fosse, jamais seria considerado punição suficiente para o peso de suas ações.

A alimentação servida ali beirava o grotesco; parecia refletir a mesma falta de critério que guiara suas escolhas. Ela rejeitava cada bandeja com obstinação, inventando desculpas cada vez mais absurdas para evitar sentir aquela mistura pastosa escorrer pela garganta. Porém, como acontecia com quase tudo naquele lugar, sua resistência tinha prazo curto: os guardas logo se encarregavam de contornar sua teimosia, obrigando-a a engolir o que fosse colocado à sua frente.

O trabalho compulsório, no entanto, era o ponto mais cruel de toda a experiência, e não apenas para ela, mas para qualquer um que respirasse o ar pesado daquele ambiente. Varrer as instalações diariamente era um martírio; recolher fezes e dejetos nas alas mais afastadas, dividindo espaço com ratos que pareciam prosperar na decadência, era uma humilhação constante; e suportar os guardas, que faziam questão de empurrá-la para a imundície enquanto exibiam sorrisos maldosos, tornava tudo ainda mais penoso. Cada risada dirigida ao seu sofrimento era um lembrete de que ali não havia espaço para dignidade.

Em certas ocasiões, era designada para a cozinha, encarregada de preparar refeições para outros detentos, indivíduos que deixavam claro, com olhares hostis e provocações silenciosas, que preferiam vê-la em qualquer outro lugar. As brigas que surgiam dali eram inevitáveis. Ela perdeu a conta das vezes em que teve de partir para o confronto direto, do número de ferimentos espalhados pela pele sensível, resultado de tentativas desesperadas de evitar desfechos muito piores. Defendia-se como conseguia, com a mesma resiliência que possuía do lado de fora, até o instante em que um guarda surgia para controlar a situação e, eventualmente, pedir reforço.

E ainda assim, no final de cada dia, permanecia calada. Não reclamava, não argumentava, não se dava o direito de esboçar protesto algum. Afinal, o que poderia dizer? Sabia perfeitamente que tudo o que enfrentava era consequência direta de seus atos, e, talvez mais doloroso ainda, sabia que qualquer palavra sua seria descartada antes mesmo de ser ouvida.

Toda aquela rotina degradante acabou corroendo sua estabilidade psicológica de forma irreversível. A saúde mental, já frágil, cedeu ao desgaste contínuo. E o corpo, antes resistente, sucumbiu junto: tornou-se fraca, febril, tão debilitada que, em alguns dias, erguer-se da cama exigia a pouca vitalidade que ainda restava. Foi nesse estado de exaustão que, pela primeira vez em muito tempo, ela permitiu que sua voz escapasse, fraca, trêmula, mas suficiente para lembrá-la, por um instante, de como soava quando ainda era alguém inteira.

Tentou pedir socorro. Implorou por atendimento médico, por qualquer intervenção que aliviasse o tormento físico que a consumia. Até foi atendida, mas a resposta que recebeu foi tão limitada quanto a estrutura que sustentava aquela instituição decadente. Os profissionais ali presentes pareciam sempre apressados, não por preocupação genuína, mas pela ânsia de terminar logo com mais uma obrigação desconfortável. O exame era superficial, quase protocolar; o tratamento, apressado, improvisado, como se o objetivo fosse apenas afastá-la da enfermaria o mais rápido possível. Ninguém queria prolongar a presença dela naquele espaço exíguo. No fundo, consideravam-na apenas outra detenta indigna de atenção, e ela, resignada, reconhecia esse julgamento.

Em síntese, o atendimento era inútil, um simulacro de cuidado. E ela teve de testemunhar, dia após dia, seu estado piorar, como se estivesse observando a própria ruína através de uma janela entreaberta.

Mazzi tossiu.

Depois tossiu outra vez. E outra. E mais uma, até que a repetição se tornou quase um ritmo fúnebre.

A cada espasmo, uma pontada aguda atravessava seu peito, fazendo-a pressionar a região com delicadeza, numa tentativa instintiva e inútil de conter a dor que reverberava sob a pele.

Eram 19h30.

Ela permanecia sentada na beira da cama estreita, encarando o retângulo opaco da porta com uma expressão vazia, sem qualquer traço de emoção. Os pensamentos corriam em círculos: quanto tempo ainda resistiria naquele estado? Haveria chance de sobreviver mais uma noite? Conseguiria manter-se firme, ou já estava no limite de sua própria força?

Foi então que o pensamento nela surgiu, sua filha.

A lembrança da menina rompeu o entorpecimento emocional que a envolvia, e o coração, já fragmentado, começou a desmoronar de vez. A imagem da jovem, tão viva em sua memória, desarmou qualquer tentativa de manter a compostura. Mazzi sentiu a garganta fechar, não pelo vírus, pela febre, nem pela dor física, mas pela súbita consciência do que mais temia perder.

Sem perceber, começou a murmurar perguntas ao próprio quarto, como se as paredes pudessem responder. Queria saber se teria a chance de ver a filha mais uma vez, contemplar seu rosto, ouvir sua voz, sentir o calor daquele abraço que sempre fora o único lugar onde encontrava paz. Queria saber se, mesmo privada de quase tudo, ainda poderia merecer esse último fragmento de felicidade.

Esse último presente.

A resposta inesperada chegou abruptamente: cinco pancadas secas contra a porta de metal, seguidas pela voz estridente e zombeteira de um dos guardas.

— Ooooolá, Branca de Neve! — provocou ele, ainda batendo. — Tá viva aí dentro? Seria uma péssima recepção pra sua visita sentir o cheiro do seu cadáver apodrecendo, então se mexe!

No instante em que a palavra “visita” atravessou o corredor e alcançou seus ouvidos, algo dentro de Mazzi se reacendeu. Os olhos opacos, fatigados até o limite, iluminaram-se com um clarão súbito, frágil, mas real. Ela sabia exatamente o que aquela palavra carregava. Significava sua filha. Significava um respiro de humanidade naquele inferno. Era um presente, breve e precioso, que mitigava um pouco da dor que insistia em consumi-la.

A porta se abriu num rangido áspero, expondo o corredor frio. Logo em seguida, Miska entrou às pressas, atravessando o limiar como quem corre para apagar um incêndio.

— Mãe! — chamou, praticamente correndo até ela, o rosto marcado por um misto evidente de preocupação e alívio.

— Finalmente, minha filha. — respondeu Mazzi, a voz quase um fio, levantando os braços com esforço, convidando-a para o abraço que tanto esperava.

E assim se entrelaçaram.

O gesto não tinha intensidade; era um encontro frágil e cuidadoso. Miska, ciente das limitações da mãe, evitava apertá-la, temendo provocar mais dor do que conforto. E Mazzi, sem forças, apenas se deixava envolver. Foram minutos que se arrastaram como se o tempo tivesse se rendido a elas e, mesmo assim, passaram rápido demais.

— Como a senhora tá? — perguntou, baixinho. — Tá se sentindo melh—

Mazzi começou a tossir com violência repentina, curvando-se enquanto a mão buscava instintivamente o peito, onde a dor latejava com cada espasmo. Miska imediatamente se posicionou ao seu lado, segurando-lhe o braço com suavidade, mas firme o bastante para oferecer apoio.

— Mãe, por favor, não força… — pediu, aflita.

Depois de alguns segundos que pareceram intermináveis, a crise diminuiu. Mazzi respirou fundo, recuperando o ar com dificuldade, e ainda assim encontrou espaço para sorrir.

— Não se preocupa, minha querida… — murmurou, forçando um pequeno riso. — Acho que isso já responde sua pergunta, haha…

A tentativa de leveza arrancou mais algumas tosses, mas, por um instante, trouxe um clima quase familiar àquela cela decadente.

Foi então que Mazzi percebeu outra presença. Uma garota tímida entrou devagar, segurando um pote médio com as duas mãos. No rosto, um sorriso discreto, acompanhado de um receio evidente. Os cabelos curtos, lisos, com uma franja longa parcialmente ocultando um dos olhos, chamavam atenção pela mecha violeta que contrastava com o restante, completamente preto. As roupas eram simples: calça escura, tênis branco e uma jaqueta jeans sobre uma camiseta clara.

Era uma figura incomum aos olhos de Mazzi. Ela já vira alguns amigos de Miska no passado, quando ainda estava escondida do mundo, mas não lembrava de ter cruzado com alguém com aquele visual sereno e ao mesmo tempo singular.

A garota respirou fundo, como se reunisse coragem para se fazer notar.

Aquela era Ashley.

— Oohh, e quem seria você, minha querida? Qual o seu nome? — perguntou Mazzi, inclinando levemente a cabeça. A pergunta fez Ashley desviar o olhar com um sorriso encabulado, enquanto os dedos mexiam, por reflexo, nas pontas do próprio cabelo.

— H-Hahh, o-oi! M-muito prazer, senhora! — respondeu ela, acenando rápido demais, tentando compensar o nervosismo com entusiasmo. — E-Eu me chamo Ashley Evans e… e sou amiga da sua filha!

Mazzi abriu um sorriso acolhedor.

— Ahh, Ashley? O prazer é todo meu! Me chamo Mazzi Ferland e, como você já deve ter percebido, sou a mãe dessa coisinha aqui. — disse, tocando suavemente na bochecha de Miska, provocando nela um riso pequeno e envergonhado.

Ashley acompanhou a risada e deu alguns passos à frente, estendendo o pote que segurava com as duas mãos.

— Toma, eu e ela fizemos essa comida pra você. É uma mistura bem nutritiva… espero que te ajude um pouco. — falou, tímida.

O sorriso de Mazzi se ampliou imediatamente, iluminando seu rosto abatido.

— Ora, meu doce, muito obrigada. — disse ela, recebendo o pote com um cuidado quase cerimonioso e apoiando-o no colo. — Isso é uma gentileza enorme da sua parte.

— Não há de quê! — Ashley respondeu, a voz saindo alta demais. Percebendo o deslize, corou imediatamente, juntando as pontas dos dedos. — A-Ah.. não há de quê, desculpa.

Mazzi arqueou o rosto num gesto suave, reconhecendo o embaraço evidente, antes de voltar-se para a filha.

— Ela é uma graça. Minha menina tem um bom olho pra formar laços, pelo visto. — comentou, passando a mão pelos cabelos de Miska, que relaxou sob o toque. — Estou orgulhosa de você, sabia?

— Ah, mãe.. não fala assim na frente de—

— Qual é, mulher? Eu não ligo não! — Ashley interrompeu, agora com tom leve e brincalhão. — Mas ó, eu não seguiria totalmente essa sua ideia não, viu, minha velha? — acrescentou com um sorriso malandro. — Eu sou um demônio na vida dessa aí! Fala tu, Miska!

Miska soltou uma risadinha e confirmou com um aceno resignado.

— É, nem me fale. — disse, cruzando os braços, embora ainda sorrisse. — Você não tem noção das situações em que ela e o resto daquelas pragas me colocam.

— Uhm, posso imaginar. Adolescentes como vocês raramente pensam nas consequências antes de aprontar alguma coisa. — comentou Mazzi com um sorriso cansado, mas divertido.

— Pois é, hehe! — Ashley respondeu, exibindo um tom nitidamente travesso. — Eu lembro direitinho quando essa criatura aí me negou um abraço. Aí eu resolvi vestir uma fantasia ridícula que o Ash tinha e dei o maior susto nela! Hahaha!

— Nossa.. foi meio demais, não acha? — Mazzi perguntou, rindo entrecortada por algumas tosses secas.

Miska revirou os olhos, o sorriso murchando ao recordar o episódio.

— Aquilo não foi engraçado, tá? Eu torci o tornozelo, perdi minha lasanha e ela ainda explodiu meu micro-ondas! — resmungou, cruzando os braços com um ar infantil.

— Nem vem com essa! Eu te comprei tudo depois, sua sonsa! — retrucou Ashley, empurrando Miska de leve, o que arrancou dela um sorriso involuntário.

— Aham. E comprou um tornozelo novo também? — Miska rebateu, agora já se permitindo entrar na brincadeira.

— Para de drama, ele sarou direitinho. — Ashley disse, até que seus olhos se arregalaram subitamente, como se uma lembrança tivesse acendido um gatilho. — Ah! Meu Deus, lembrei de outra coisa! Ela já te contou da vez que foi num karaokê?

Mazzi balançou a cabeça negativamente, inclinando o corpo para frente, curiosa.

— Ashley, cuidado com o que você fala.. — implorou Miska, a voz hesitante.

— Então! — Ashley começou, já segurando a risada. — Teve um dia que eu chamei ela pra sair e a gente acabou parando num karaokê!

— Ashley… — Miska tentou interromper, sem sucesso.

— Aí, aí, o Jeffrey entregou o microfone pra ela e ela simplesmente travou! Hahahaha! — Ashley explodiu numa gargalhada. — Depois saiu correndo pro banheiro e vomitou horrores!

A risada dela ecoou pela cela, tão espontânea e barulhenta que Mazzi acabou sendo contagiada, rindo junto como se esquecesse momentaneamente de onde estava.

— Eu não era boa em cantar! Cala essa boca, cara! — Miska protestou, o rosto agora vermelho como um tomate maduro. — E outra: eu melhorei muito na última vez, tá?!

— Aham, depois de errar um monte no começo também. — provocou Ashley, só para cutucar ainda mais.

Mazzi observava a cena com o peito aquecido.

Aquela troca leve, tão cheia de vida, parecia uma brecha luminosa no ambiente opressivo ao redor. Era reconfortante ver a filha se soltando, rindo, respondendo às provocações como qualquer adolescente que se sente segura. Havia ali, no meio daquela cela sombria, um vislumbre precioso: a certeza de que Miska estava cercada por pessoas que a amavam e, de algum modo, cuidavam dela com carinho.

— Ah, você mencionou uns nomes… Ash, Jeffrey.. — Mazzi começou, interrompendo a própria frase com um leve arquejo de curiosidade.

Ashley, já prevendo a pergunta, se adiantou:

— Eles fazem parte do nosso grupo! — explicou com entusiasmo contagiante. — Se der certo, eu trago o resto da galera pra te conhecer também, tá, tia?

— Oh, mas é claro, querida. Se forem tão divertidos quanto você, ficarei encantada em conhecê-los. — respondeu Mazzi, sorrindo com genuína cordialidade. — Não é, Miska?

Ela lançou à filha um olhar significativo. Miska, por sua vez, fez uma careta ambígua, algo entre “acho que sim” e “não prometo nada”.

— É.. só espero que o Ash não mate um policial no caminho ou resolva surtar aqui mesmo. Combina muito com ele. — ironizou Miska, revirando os olhos.

— Ora, ele é tão elétrico assim? — Mazzi perguntou, num tom que mesclava espanto e divertimento.

— Você não imagina o quanto, minha senhora! — Ashley disse, levantando as mãos como quem descreve um caso perdido. — Ó, eu lembro do dia em que a gente foi pra uma balada, esse idiota simplesmente ficou andando de cueca e uma roupa toda vagabunda de super-herói!

Mazzi visualizou a cena e soltou uma risada aconchegante, balançando a cabeça em desaprovação cômica.

— Eu que o diga. — acrescentou Miska, cruzando os braços. — Lembro de quando eu o encontrei. Eu tava na parte dos fundos daquela joça. Se eu não tivesse avisado, ele ia entrar pelado na balada ainda. Não que tenha adiantado de muita coisa, né? Até porque ele resolveu se vestir de palhaço.

— Cruzes.. esse garoto é realmente mais aflorado do que eu pensava. — Mazzi comentou, rindo de novo. — Mas tudo bem, um toque de loucura também tem seu charme.

— Ah, ela já te contou quando ficou com um cara nessa balada? — perguntou Ashley, do jeito mais automático e natural possível, como um jornalista comentando o clima.

— ASHLEY! — Miska gritou, sentindo o coração disparar no mesmo instante em que aquelas palavras foram pronunciadas.

Se para Miska aquilo já fora o suficiente para desestruturá-la, para Mazzi o impacto foi ainda mais devastador. O riso desapareceu como se tivesse sido arrancado da atmosfera. O sorriso se dissolveu num piscar de olhos. Lentamente, quase com solenidade, ela virou o rosto para a filha. À primeira vista, sua expressão parecia neutra… mas era fácil perceber a incredulidade por trás daquela súbita quietude.

— .. Me desculpe, o quê? — perguntou Mazzi, com uma serenidade tão afiada que transmitia ameaça.

— M-mãe, eu posso explic—

Miska tentou começar, mas não teve tempo de concluir. Mazzi, rápida apesar do cansaço, agarrou-lhe a orelha com força inesperada, o suficiente para arrancar um gemido de dor. Ashley, em vez de interferir, apenas levou a mão à boca e riu, claramente achando toda a cena cômica.

— A-Aiiii! Aiiii! Mãe, para! Tá me machucando! — Miska implorou, olhos fechados, dentes trincados enquanto tentava recuar.

— Isso já é demais, mocinha. — disse Mazzi, e seus olhos, antes suaves, tornaram-se sombrios, exigindo uma justificativa plausível. — Você tem noção do perigo?! Você enlouqueceu?! Eu não te criei pra esse tipo de—

A frase se rompeu no meio.

De repente, Mazzi sentiu uma dor lancinante atravessar o peito, como se algo tivesse perfurado seu interior. O impacto foi tão violento que ela imediatamente soltou a orelha de Miska e levou a mão ao peito numa tentativa desesperada de conter a dor. A tosse veio em seguida, primeiro áspera, depois brutal, e, quando ela enfim olhou para a própria mão, percebeu o vermelho vivo manchando a pele.

Sangue.

O próprio sangue.

Escorrendo entre seus dedos enquanto a respiração se tornava cada vez mais curta.

— M-Merda… — murmurou Mazzi, encarando as próprias mãos como se elas revelassem um presságio que ela não queria admitir.

A reação imediata de Miska e Ashley foi quase instintiva — um estado de alerta que percorreu o ar como eletricidade.

— Mãe! O que tá acontecendo?? — perguntou Miska, a voz falhando, tomada por um medo que ela não soube disfarçar.

— Senhora Mazzi, tenta não fazer força, por favor. — Ashley pediu, pousando uma mão firme no ombro de Mazzi na tentativa de ancorá-la.

Mas Mazzi ergueu a palma no ar, pedindo silêncio e espaço sem precisar articular mais nada.

— Não… tá tudo sob controle. — afirmou, ofegante, tentando manter uma compostura que se esfarelava.

— Não, mãe, não tá. — rebateu Miska, tremendo. — A gente precisa fazer alguma coisa, você precisa de um médico ago—

— Miska, não. — interrompeu Mazzi, levantando o rosto com uma serenidade que contrastava com o ar tenso da cela. — Pedir ajuda aqui não adianta. Eles não vão oferecer nada além de um diagnóstico impreciso e um tratamento ainda pior. Só… esquece isso, por favor.

— M-mãe… por favor… — sussurrou Miska, e as lágrimas deslizaram, silenciosas, até caírem no chão frio.

Mazzi então tocou o queixo da filha com extremo cuidado e o ergueu devagar, como se segurar aquele instante fosse a única força que lhe restava.

— Ei… não faz essa carinha, meu amor. — disse, num fio de voz, mas com uma ternura inabalável. — Não se deixa afundar pelo medo. Eu vou resistir. Vou suportar o que tiver que suportar pra continuar vendo seu rosto e ouvindo essa voz que sempre iluminou meus dias. Eu prometo. Por você. Como sempre foi.

Miska assentiu, tímida, ainda ofegante de tanto chorar, tentando convencer a si mesma de que aquela promessa era real.

Então, de súbito, o clima foi interrompido por duas batidas violentas na porta de metal. Um som seco que ecoou pela cela.

— Aí! Mal aí interromper o momento de família, mas vocês têm mais uns dois minutinhos só, então anda logo! — anunciou o guarda com um sarcasmo ácido que encolheu o ambiente inteiro.

Mazzi soltou um suspiro profundo, resignado.

— Bem… chegou a hora. — murmurou, sentindo o peso da despedida se acomodar no peito. — Se cuida, tá? A mamãe ama muito você.

E então, a mãe e a filha se abraçaram com a intensidade de quem tenta deter o tempo com os próprios braços, um abraço que costurava suas almas, tentando mantê-las unidas por mais alguns segundos. Um último gesto de afeto antes que a realidade as separasse outra vez.

Por fim, inevitavelmente, o momento terminou. As duas se soltaram, ainda presas pela vontade de ficar, mas obrigadas a seguir.

— Ah… e Miska… — chamou Mazzi, num tom suave que fez a filha interromper o movimento de virar de costas.

— Hm? O que foi, mãe? — respondeu Miska, ainda tomada pela despedida iminente.

— Só um conselho, tá? — disse Mazzi, arqueando um sorriso malicioso apesar do cansaço evidente. — Não se enfia em enrascada de balada. Você ainda vai encontrar alguém que realmente valha seu tempo.

Miska deixou escapar uma risada curta, tímida e derrotada.

— Tá, tá… eu entendi. — murmurou, corando levemente. — Até logo, mãe.

Ela enfim se virou, respirou fundo e caminhou em direção à saída da cela. Ashley a acompanhou em silêncio, mantendo-se a poucos passos atrás.

— .. Ei, Ashley. — chamou Mazzi.

A simples vibração da voz dela atravessou o ar com uma suavidade estranha, e tanto Ashley quanto, sobretudo, Miska, se voltaram num reflexo imediato. Mazzi inclinou levemente a cabeça, oferecendo um sorriso tímido.

— Venha aqui. Quero ter uma palavrinha com você, só por um instante. — pediu, com uma calma que parecia cuidadosamente construída.

Ashley lançou um olhar breve para Miska, buscando nela algum tipo de apoio silencioso.

— Me espera lá fora, tá? Eu já volto. — disse. Miska não questionou; apenas respirou fundo e deixou o ambiente.

Ashley caminhou até Mazzi outra vez, passos contidos, e parou a poucos metros da mulher.

— Sim? — perguntou, cuidadosa, quase temendo o que viria.

Mazzi inspirou devagar, puxando forças de algum canto esquecido da memória.

— Antes que você vá… deixa eu te contar uma história. É sobre alguém que, assim como você, vivia explodindo energia para todo lado, sempre inquieta, sempre com pressa de sentir o mundo. — disse, imitando pequenos movimentos de agitação com as mãos, gesto que arrancou de Ashley um sorriso discreto, ainda que hesitante.

— Claro. Pode falar, senhora. — respondeu Ashley, tentando manter o tom leve, mesmo sentindo que aquela conversa carregava algo mais profundo do que uma simples anedota.

Mazzi respirou fundo, deixando o ar escapar lentamente antes de abrir os olhos, como quem revive uma lembrança antiga que ainda dói nos cantos da memória.

— Nos meus tempos de escola, mais precisamente do quarto ano em diante, conheci alguém que, para muitos, era a própria definição do diabo. — começou, com um sorriso marcado por certa melancolia. — Perturbava professores, implicava com desconhecidos, e parecia colecionar advertências com a mesma naturalidade com que outras crianças colecionavam figurinhas. Não havia um único dia em que ela não terminasse na detenção, ouvindo sermões intermináveis pelas travessuras que cometia. Estudar, para ela, era quase irrelevante; sua missão diária parecia ser ou irritação de quem estivesse por perto.

Ashley soltou uma risada curta.

— Caramba… essa daí se dedicava à arte de fazer merda. Já sou fã! — brincou.

Mazzi acompanhou a risada, ainda que de modo contido, como se algo mais pesado lhe puxasse o peito.

— Pois é… — continuou. — E, por causa disso, ninguém suportava a presença dela. As pessoas se afastavam com rapidez, às vezes com uma crueldade que até hoje me dói. Batiam nela, empurravam, formavam grupos só para zombar. Pareciam ter decidido que ela não merecia sequer existir ao lado deles.

Um silêncio breve se instalou.

— Mas, no meio daquele mar de desprezo, eu apareci. — disse, com uma voz suave que quase falhou. — Eu gostava do jeito dela, daquela independência teimosa que parecia protegê-la do mundo. Admirava a forma como sorria mesmo quando tudo empurrava ela para o chão.

Mazzi tossiu discretamente, como quem tenta reorganizar os sentimentos.

— No começo, claro, ela fez o que sabia fazer: zombou de mim, tentou me espantar com piadas e provocações. — continuou. — Mas, para surpresa dela, eu não me desviei. Achei graça. Achei genuinamente graça. E acho que isso a desconcertou de um jeito bonito… porque, diferente dos outros, eu não reagi com ódio nem medo. Depois daquele dia, fomos nos aproximando até nos tornarmos praticamente inseparáveis.

Um sorriso maior surgiu no rosto de Mazzi, iluminando memórias que visivelmente faziam falta.

— Ríamos muito. Brincávamos o tempo todo. A presença dela trazia uma espécie de vida que eu não encontrava em mais ninguém. E, se me permite um pouquinho de orgulho… acabei conseguindo despertar nela um interesse sincero pelos estudos. Fui mostrando, aos poucos, que aquilo podia abrir portas, dar novas possibilidades.

Ashley balançou a cabeça, impressionada.

— Nossa… imagino que isso deve ter sido bem complicado.

Mazzi negou com suavidade.

— Na verdade, não foi. — admitiu. — Ela gostou tanto de ser acolhida, de alguém finalmente olhar para ela sem julgamento, que começou a mudar sem que eu sequer pedisse. Era como se, de algum modo, tivesse encontrado em mim um norte. Eu, que sempre fui estudiosa, sempre vista como exemplo, quis compartilhar com ela tudo aquilo que acreditava ser valioso. Houve resistência no início, claro… mas passou rápido.

A voz dela ficou um pouco mais baixa, tomada por um orgulho que vinha acompanhado de uma tristeza difícil de esconder.

— E então ela floresceu. De verdade. Suas notas, antes abaixo da média, subiram de maneira tão brusca que os professores ficaram boquiabertos. Para muitos, ela já era um caso perdido, alguém destinada ao fracasso. Mas eu sempre soube que aquilo não era verdade. Sempre soube que existia algo enorme dentro dela, só faltava alguém que acreditasse.

— Isso é incrível, senhora Mazzi! — disse Ashley, observando aqueles olhos apagados com uma mistura de ternura e admiração. — Sério, eu consigo imaginar o quão foda você era! Você era demais!. Aposto que essa sua amiga deve estar tranquila hoje em dia, né?!

Mazzi hesitou por um instante, e o silêncio que se instalou pareceu pesar mais que qualquer palavra.

— Eu gostaria que estivesse. — murmurou, e a luz em seu olhar pareceu diminuir ainda mais, cada lembrança parecendo drenar um pouco de vida.

Ashley franziu o cenho.

— O quê? Como assim?

Mazzi inspirou com dificuldade, como quem reúne coragem para abrir uma ferida antiga.

— Dentro daquela menina caótica, eu enxergava muitas coisas. — começou, a voz mais tensa. — Os machucados pelo corpo, as cicatrizes, eu sabia que não eram só resultado das brigas da escola. Havia algo muito pior por trás. Mas ela nunca se permitia explicar. Sempre que eu perguntava, ela jogava um casaco por cima, fazia piada, mudava de assunto. Era o jeito dela de existir.

O silêncio seguinte carregava um peso físico.

— Às vezes, ela tirava notas baixas porque simplesmente não conseguia estudar. E quando dizia isso, ela sempre parecia estar cansada, sempre existia uma exaustão que ela tentava disfarçar com aquela energia exagerada. — continuou, com um semblante entristecido. — Como se estivesse implorando para que alguém percebesse sem que ela precisasse dizer.

Mazzi piscou devagar, recordando cada detalhe.

— Isso durou até o segundo ano do ensino médio. Ela ainda era a garota barulhenta, brincalhona, cheia de histórias absurdas, mas havia algo diferente. Uma maturidade triste, pesada, que nascia à força. Ela estava mais velha e mais cansada de fingir. — disse, engolindo em seco. — E ela deixou isso claro no último dia de aula daquele ano. Tínhamos acabado de passar para a terceira série, o sino anunciava o início das férias. Deveria ter sido um momento alegre. Mas, no meio do corredor, ela parou de repente… e me chamou. Disse que precisava me contar algo.

Ashley, que minutos antes brincava e sorria, agora permanecia imóvel, o coração acelerado por uma ansiedade silenciosa, esperando por cada próxima palavra.

— E o que era…? — perguntou Ashley, a voz delicadamente trêmula.

Mazzi manteve os olhos baixos por um instante, parecendo preparar o próprio coração para revisitar aquilo.

— Ela me contou que, desde a infância até aquele momento, sua vida tinha sido deplorável. — começou, e sua voz parecia carregar uma dor antiga, arrastada. — Os pais dela não discutiam com ela no sentido comum, aquele conflito cotidiano que toda família enfrenta. Não. Eles a feriam. De formas cruéis, injustificáveis. Jogavam sobre ela a culpa por tudo, até pelas coisas mais absurdas, situações nas quais ela mal tinha participação. Aqueles hematomas, aqueles cortes, todos os sinais que ela tentou esconder por anos, vinham daquele lar. Um espaço que deveria ter sido seguro, mas só ofereceu violência. Ela cresceu sendo destruída por quem deveria tê-la amado.

A atmosfera ao redor das duas se tornou sufocante. Ashley sentiu o peito afrouxar, como se uma mão invisível pressionasse suas costelas.

— Meu Deus… isso é terrível… — murmurou, olhando ao redor como quem busca ar. — E… depois? O que aconteceu depois que ela te contou?

Mazzi inspirou, a expressão escurecendo ainda mais.

— Ela disse que iria se mudar.. — continuou, com um fio de voz. — Que buscaria um lugar onde pudessem enxergar o valor dela do mesmo modo que eu enxergava. Um lugar onde pudesse existir sem medo. Onde a acolhessem como eu acolhi ela.

— E ela conseguiu fugir? — perguntou Ashley, tensa, temendo a resposta. Ao ouvir a pergunta, Mazzi desviou o olhar para o lado, lentamente.

Foram alguns segundos longos, esmagadores, antes que ela finalmente respondesse:

— .. Sim.

O alívio tomou conta de Ashley de imediato. Ela levou a mão à testa, soltando um suspiro profundo.

— Graças a Deus… isso é maravilhoso, não é? — disse, com um sorriso tímido e esperançoso.

Mas havia algo estranho.

Mazzi permaneceu imóvel. Não havia alívio em seu rosto, nenhum traço de paz. Apenas um vazio silencioso, um peso antigo que não acompanhava o sorriso de Ashley.

A jovem arqueou a sobrancelha, sentindo a inquietação subir pela espinha. Algo, definitivamente, não estava certo.

— …Senhora Mazzi? — chamou Ashley, desconcertada, tentando puxá-la de volta do lugar sombrio onde parecia ter caído.

— Ashley… ela conseguiu se mudar, sim. — disse, cada sílaba arrastada por uma dor densa. — Mas não da maneira que eu queria que fosse, pois, na verdade, aquilo era somente uma forma que ela tinha de dizer que iria tirar a própria vida.. e eu percebi tarde demais.

O impacto foi imediato. O mundo de Ashley não apenas desabou, pareceu se rasgar ao meio. Sua mente ficou branca, vazia, como se todas as palavras tivessem evaporado do idioma. Nada fazia sentido, nada parecia real. O ar pareceu murchar ao redor, o ambiente inteiro afundando num breu sufocante.

— .. Deus. — murmurou, num fio de incredulidade.

— Ashley. — chamou Mazzi, suave, tentando recuperá-la daquele choque devastador.

Tremendo, Ashley ergueu o olhar. Havia algo despedaçado ali, algo que não conseguia esconder. Mazzi se aproximou com calma e pousou uma mão firme em seu ombro, um gesto simples, mas carregado de afeto e dor compartilhada.

— Você me lembra dela, sabia? — seus olhos brilhavam com uma tristeza profunda, sem qualquer máscara. — Há um brilho em você, aquele tipo de luz que ela também carregava. Uma força silenciosa, intensa… mesmo quando ninguém estava por perto para reconhecer.

Ashley mordeu o lábio, sentindo o coração pulsar de maneira irregular.

— Então, antes de você ir… — continuou Mazzi, com uma delicadeza quase quebradiça — eu posso te pedir uma coisa?

Ashley não conseguiu falar. Sua voz simplesmente não existia mais. Mas, mesmo assim, assentiu devagar, com um tremor visível, como quem diz sim apenas porque o não seria impossível de pronunciar.

— Saiba que, no fim, eu falhei. — começou Mazzi, e sua voz, já frágil, desceu a um tom devastado. — Falhei como amiga, falhei como mãe… e falhei como ser humano no instante em que escolhi o caminho que me trouxe até aqui. É por isso que estou nesta cela vazia, cercada pelo silêncio, pagando por cada erro que cometi.

Ela respirou com dificuldade, como se o ar já não colaborasse.

— Eu quero muito resistir, mas não sei por quanto tempo ainda conseguirei. Essa doença tá acabando comigo a cada dia, e, pra ser franca, não sei nem se vou conseguir despertar viva no próximo dia. — confessou, com uma honestidade que feria. — Então, por favor… comigo aqui ou não, cuide da minha filha. Proteja-a do mundo como eu a protegi. Seja o descanso dela, seja o abraço que salva, a companhia que sustenta ela. Esteja ao lado dela na alegria e na dor. E, acima de tudo… — sua voz falhou por um instante — Cuide de si mesma. Seja suficiente, pra você própria e pra ela. Eu não consegui ser suficiente com aquela pessoa. Mas você, eu sei que você consegue. Eu percebi isso quando observei vocês duas brincando aqui, percebi nas pequenas histórias que você me contou com tanta sinceridade.

O som seco de três batidas violentas ecoou pela cela, estilhaçando o momento.

Era o guarda novamente.

— Certo, chega de sentimentalismo! — reclamou, batendo na porta. — Vamos, garota. Para fora. Agora!

Ashley e Mazzi trocaram um último olhar. Um olhar que dizia mais que qualquer despedida longa. Mazzi inclinou a cabeça levemente, revelando uma expressão neutra, mas carregada de urgência.

— Cuide bem dela. Eu confio em você, Ashley. — disse, retirando a mão do ombro da jovem e voltando lentamente para sua cama, onde segurou o pequeno pote que Ashley havia lhe dado, como se fosse algo precioso demais para ser solto.

Por longos segundos, Ashley permaneceu muda, lutando contra o caos dentro do peito. Então, finalmente, encontrou um fio de voz.

— Eu… eu farei o possível, Mazzi. — disse, baixa, mas firme o bastante para não deixar espaço para dúvidas.

Mazzi sorriu. Não um sorriso alegre, mas um gesto suave, carregado de gratidão e um alívio profundo, como alguém que finalmente encontrou descanso após anos de tormento.

— Obrigada, muito obrigada.. Até logo. — murmurou, serena, permitindo que aquela paz recém-achada a envolvesse como um cobertor leve.

Ashley se ergueu com calma, dirigiu um breve sorriso a Mazzi e, após virar-se, despediu-se com suavidade:

— Até.

Em seguida, atravessou o corredor em direção à saída, acompanhada pelo guarda que a escoltava com a habitual rigidez institucional. Caminhar pelo interior da penitenciária nunca deixava de produzir um desconforto sutil: os olhares fixos dos detentos a perseguiam, avaliando-a com uma curiosidade predatória, como se ela fosse um fragmento frágil exposto diante de feras famintas. Ainda assim, nada disso importava naquele momento. Sua mente orbitava exclusivamente em torno das palavras de Mazzi. Era difícil nomear aquilo que sentia; parecia carregar um emaranhado de medo, melancolia, inquietação e, por trás de tudo, uma determinação sólida que se recusava a ceder.

Ela compreendia o peso do que havia recebido e sabia que, a partir dali, tinha uma responsabilidade a cumprir. E faria o possível, e o impossível, para honrá-la.

Assim que atravessou a porta de saída, avistou Miska alguns passos à frente, encolhida em si mesma, os braços cruzados como tentativa de se proteger do próprio nervosismo. Ao reconhecer Ashley, ela correu em sua direção com a ansiedade estampada no rosto.

— Ashley! E então? O que aconteceu lá dentro? — perguntou, a voz carregada de urgência.

Ashley não respondeu de imediato. Apenas aproximou-se e, com um gesto simples, deu um leve peteleco na testa de Miska, que soltou um gemido indignado.

— Ai! Ei! — resmungou, levando a mão à testa. — Qual é a tua? Por que fez isso?!

Ashley riu baixinho, permitindo que um sorriso despreocupado suavizasse o peso daquela noite.

— Relaxa. A gente conversa depois… mas, antes disso… — disse, inclinando o tronco para frente e flexionando as pernas, assumindo uma posição inesperada.

Miska a observou, confusa.

— O quê? O que que cê tá fazendo, hein? — perguntou, franzindo as sobrancelhas.

Sem mudar de postura, Ashley virou o rosto em sua direção.

— Ué? Não é óbvio? Sobe logo que eu vou te carregar nas costas. Depois de tudo isso, você precisa respirar um pouco — declarou, com um sorriso sereno, oferecendo um momento de leveza em meio ao caos.

— Você tá falando sério, Ashley? — questionou Miska, tentando entender se aquela cena improvável não passava de uma provocação. — Você não vai me aguentar nem por dois passos.

— Ihhh, olha só, tá fazendo charme agora? — Ashley rebateu, com uma expressão atrevida. — Já esqueceu que eu consegui te erguer no braço? A mãe aqui é de aço, sua bobona.

— Ugh, você é mesmo uma… — Miska começou a retrucar, mas suspirou e interrompeu a frase, acomodando-se cuidadosamente sobre as costas de Ashley.

Com surpreendente facilidade, Ashley sustentou o peso da amiga, endireitou a postura e iniciou o caminho adiante, segurando Miska com firmeza e naturalidade.

— Uma gênia, eu sei. Pode falar. — provocou Ashley, com um brilho travesso nos olhos.

— Eu ia dizer “imbecil”, mas você quem sabe. — Miska respondeu, entrando na brincadeira, deixando escapar uma risada curta. — E então… qual é o destino?

— Hmm.. pior que eu esqueci dessa parte. — Ashley declarou, mostrando a língua num gesto exageradamente infantil. No entanto, logo seus olhos se iluminaram com uma ideia repentina. — Ah! Já sei! Vou te levar pra um cineminha, que tal?

— Uau. — Miska arregalou um pouco os olhos, claramente animada com a sugestão. — É uma ótima ideia. Inclusive, estreou um filme ótimo que eu tô doida pra ver. Te mostro quando chegarmos.

Ashley assentiu, satisfeita.

— Maravilha! Aposto que vai ser divertido! — comentou, e então acrescentou com um ar inocente demais para ser sincero: — Ah, e só pra constar…

— Hm? — Miska arqueou a sobrancelha, já desconfiada.

— Esqueci minha carteira em casa. Então… bom, hoje é tudo por sua conta, tá?

A declaração mal terminou e Ashley desabou em gargalhadas. Miska ficou em silêncio por alguns segundos, encarando o nada, aceitando a tragédia que se anunciava: ela realmente teria que bancar a aventura causada pela irresponsabilidade voluntária da amiga.

Em resposta, deu um tapa estalado na cabeça de Ashley, que apenas riu ainda mais alto.

— Ai, Ashley, eu vou te matar. — reclamou Miska, derrotada, misturando frustração e carinho em uma só frase.

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