Pizzaria

Pizzaria

Já fazia uma eternidade desde a última vez em que eu tinha colocado os pés numa pizzaria, quase um evento arqueológico na minha rotina.

Aí o Ash, com aqueles berros energéticos que parecem vir de alguém que tomou café intravenoso, surgiu do nada numa das nossas ligações e me convidou pra sair.

Sério, é um entusiasmo tão constante que às vezes me pergunto se esse homem realmente possui uma casa ou se só passa lá pra trocar de camiseta. Ultimamente, ele vive perambulando por todos os cantos possíveis, explorando lugares que vão desde botecos suspeitos até cafés conceitualmente duvidosos. Não que eu esteja criticando; longe de mim fazer esse papel.

Afinal, quem sou eu pra apontar o dedo?

Particularmente, eu não estava muito afim de ir, até porque eu estava muito ocupada com... com...

Hah... com muitas coisas! (certamente todas mais urgentes e importantes, claro)

Mas, no final, fui assim mesmo. Arrastada e rendida ao caos que o Ash carregava embaixo do braço.

Não é como se eu tivesse muita margem pra recusar.

Billy Bob's Pizza Wonderland
Billy Bob's Pizza Wonderland, a pizzaria que ele me levou.

Assim que meus olhos bateram no letreiro da pizzaria, alguma parte adormecida da minha memória decidiu despertar, ainda envolta por um borrão considerável, claro, mas suficientemente nítida para provocar um incômodo familiar. Eu já tinha estado ali antes, embora apenas uma única vez.

Lembrei que minha mãe me trouxe para esse mesmo lugar após um dia de escola pra se esquecer completamente. Na época, bastou eu ver as luzes piscando na fachada para sentir uma onda de euforia infantil. Entrei correndo, sem a menor cerimônia, e percorri cada canto como uma pequena entidade travessa movida à pura curiosidade. A pizzaria parecia um pequeno universo iluminado, e eu me comportava como se fosse dona do sistema solar inteiro.

Recordo também do momento abrupto em que minha mãe me puxou pelo braço e nos arrastou para fora. Ela parecia estranha, inquieta.. assustada. Não sei definir. Só me lembro dela resmungando algo sobre a pizza ser uma bela de uma merda.

Depois desse episódio, nunca mais voltei. E não foi por falta de oportunidade; ela praticamente instaurou um decreto doméstico silencioso proibindo aquele estabelecimento. Estranho, considerando que comida ruim, por si só, não costuma gerar esse nível de vigilância materna. Pelo menos eu não lembrava de ter passado mal… ou talvez tenha passado e minha mente simplesmente decidiu censurar o evento.

De qualquer forma, quando eu e Ash paramos diante da entrada do restaurante, eu já fiquei com o pé atrás por conta da nostalgia torta.

— Ai, ai.. lar doce lar. Que nostálgico! — proclamou Ash, cheio de empolgação performática, entrelaçando as mãos atrás da nuca. Os olhos dele brilhavam, refletindo a luz exagerada do letreiro.

Eu, em contraste completo, continuei estática. Observei o lugar com a mesma emoção de quem encara uma parede branca e soltei um suspiro curto, apenas o bastante para demonstrar que eu estava viva. Ash, percebendo meu espírito moribundo, deu um tapinha nas minhas costas, suave, mas suficiente para me tirar do modo “tela de descanso”.

— E aí, mulher? Pronta pra encher a cara? — perguntou, exibindo aquele sorriso despreocupado que sempre parece sugerir que nada no mundo é urgente.

— De verdade mesmo? Tá dando vontade de me afundar em nicotina. — Minha voz soou entediada, acompanhando meu olhar igualmente apático, fixo na fachada do restaurante.

Antes que o silêncio se estabelecesse, Ash empurrou de leve meu ombro, numa reação quase automática.

— Nem vem, gata! — retrucou, num tom que oscilava entre bronca e preocupação. — Cigarro não combina contigo, hein!

Ele então se colocou diante de mim, segurando meus ombros como se tentasse me reiniciar manualmente. Me deu um leve balanço, nada agressivo, só o suficiente para passar a mensagem de “acorda pra vida”.

— Vamos, anima aí, garota! — exclamou, moldando os dedos da mão esquerda em formato de pistola. Ele apontou pra mim, fez um “pew!” exagerado e completou: — A noite é nossa: pizza, caos e zero drama!

Deixei escapar um sorriso discreto antes de empurrá-lo de leve, cruzando os braços logo depois, numa tentativa de recuperar minha postura de pessoa séria — fracassando miseravelmente, claro.

— Certo, desgraça ambulante… Vamos comer. — murmurei, acompanhando a fala com um revirar de olhos bem ensaiado. — Só me garante que eu não vou ter que pagar os prejuízos das merdas que você costuma aprontar por onde passa, se não, juro que te arrebento.. e tomara que a comida aqui esteja melhor do que antes também.

Não esperei qualquer resposta. Simplesmente caminhei em direção à entrada do restaurante, deixando Ash alguns passos atrás — o suficiente para ele entender que eu não estava no clima, mas não o bastante para afastá-lo totalmente.

Ele riu e correu para me alcançar.

Assim que emparelhou comigo, caminhamos lado a lado para dentro da pizzaria.

Interior da pizzaria
Interior da pizzaria.

Assim que atravessamos a entrada, Ash fez exatamente o que eu esperava: desapareceu pelo salão, vasculhando cada canto da pizzaria com a empolgação de alguém que reencontra um fragmento perdido da infância. Ele parecia orbitando em torno da própria nostalgia, tocando máquinas, espiando mesas, quase tropeçando em crianças e que se dane o mundo.

Eu, por outro lado, mantive meus pés no chão. Peguei as fatias de pizza que havia pedido e, ao provar a primeira mordida, precisei admitir: a culinária do lugar evoluiu drasticamente. Estava deliciosa, o tipo de sabor que te faz reconsiderar antigas mágoas gastronômicas.

Quanto ao ambiente… é, esse tinha mudado bastante desde minhas memórias nebulosas da infância. Nada surpreendente — épocas diferentes geram ideias novas — mas a transformação era evidente.

Ainda assim, certos elementos permanecem imunes ao tempo: guloseimas coloridas, máquinas de fliperama eternamente chamativas, trilhas sonoras infantis, festas barulhentas e aquela alegria exagerada que só crianças conseguem sustentar sem parecerem loucas.

Esses detalhes resumem bem o que encontrei ao cruzar as portas. Era, de certa forma, um retorno às raízes, uma versão modernizada do caos que me encantava anos atrás.

E, claro, impossível não mencionar os famosos animatrônicos. Sem dúvida alguma, eram minha parte favorita daquele lugar. O show mecânico, com aqueles bonecos ridiculamente expressivos tentando entreter uma plateia de crianças agitadas… aquilo sempre mexeu comigo. Eu acreditava piamente que eles estavam vivos, que bastava piscar pra um deles decidir segurar minha mão e me levar pra alguma aventura insana.

Lembro também de um episódio específico, quando um deles me abraçou com uma força surpreendente, brincando comigo enquanto eu gargalhava. Às vezes penso que, naquela época, eu teria seguido aquele bicho metálico até o fim do mundo sem hesitar.. eu era tão ingênua.

Enquanto observava o novo show, notei que nem todos os “animatrônicos” eram máquinas de fato. Alguns funcionários claramente assumiam o papel, com fantasias elaboradas e uma dedicação louvável. Uma tentativa óbvia de deixar o ambiente mais mágico e imersivo.

Justificável, vai.

Afinal, criança satisfeita significa pais gastando mais.

Eu continuava sentada à mesa, completamente absorvida pelos pedaços de pizza que restavam no meu prato, uma tarefa muito mais digna do que acompanhar as idiotices do Ash. Falando no diabo, ele tinha decidido “interagir” com as crianças do local. E eu digo “interagir” com toda a ironia possível, porque na prática ele estava roubando os copos de refrigerante delas, como um gremlin hiperativo e sem qualquer senso de limite.

As pobres crianças, evidentemente indignadas, tentavam revidar. Algumas choravam dramaticamente; outras partiam para chutes tortos que não acertavam nem o ar. A falta de coordenação motora ajudava, claro, elas eram pequenas demais para representarem qualquer ameaça séria.

A paz, porém, teve vida curta. Uns dez minutos depois, Ash reapareceu diante de mim coberto de arranhões, roxos recém-formados e a dignidade pela metade.

Motivo? O irmão mais velho de uma das crianças decidiu intervir. Mais alto, mais forte e significativamente mais consciente do ridículo da situação. Foi fácil entender o resultado.

No fim, sobrou pra mim dar conta dos ferimentos do irresponsável. Naturalmente, era praticamente meu contrato invisível de amizade: Ash apronta, eu conserto.

Enquanto aplicava curativos e escutava suas reclamações melodramáticas, a conversa fluía sem esforço. E, após todo esse cenário, eu segurava um copo de refrigerante quando Ash, de repente, me chamou com um brilho suspeito nos olhos. Disse, cheio de entusiasmo, que tinha encontrado algo “incrível”.

Considerando o histórico dele, já fui esperando alguma merda.

— Se prepara pra ficar de queixo caído, gatinha! — anunciou Ash, numa performance extremamente exagerada. — Pronta?

Assenti apenas por educação, porque sinceramente… pronta pra quê? Estávamos diante de uma parede absolutamente comum e miserável. A surpresa seria manifestarmos uma psicose coletiva ali mesmo?

— Ta-daaaa! — proclamou ele, puxando um pedaço da parede com o entusiasmo de um mágico apresentando seu truque final.

Não era uma parede, mas sim uma cortina absurdamente bem camuflada, o tipo de detalhe que passa despercebido por qualquer pessoa normal que não esteja ocupada demais aprontando com crianças. Ao afastá-la, Ash revelou uma abertura estreita, uma espécie de passagem oculta.

Uma entrada secreta? A pergunta que imediatamente me ocorreu foi: pra quê esconder algo aqui? A resposta mais plausível era óbvia: depósito de tranqueira. O tipo de lugar onde você enfia tudo o que não quer ver nunca mais: equipamentos capengas, peças quebradas, fantasias fedendo à naftalina.

Compartilhei minha teoria com Ash, que ficou alguns segundos encarando o vazio com uma expressão pensativa, o que, vindo dele, já era um avanço cognitivo respeitável. Sem esperar por conclusões profundas, decidi entrar. Queria confirmar logo minha suspeita. E, claro, acertei sem esforço.

O interior era úmido, impregnado de mofo até o talo. Poeira acumulada cobria praticamente tudo, e o ar tinha aquele cheiro característico de coisa esquecida por anos — uma mistura de tecido podre, ferrugem e abandono. Teias de aranha pendiam como cortinas improvisadas, e o piso rangia sob meus passos. Espalhados pelo espaço, havia instrumentos quebrados, equipamentos que definitivamente já tinham visto dias melhores, e fantasias tão desgastadas que parecia impossível acreditar que um dia alguém realmente vestiu aquilo.

Era um cemitério de memória alheia — restos de shows antigos, eventos esquecidos, funcionários que provavelmente já tinham saído dali décadas atrás. Um limbo de tudo o que a pizzaria preferiu ocultar em vez de jogar no lixo.

Animatrônicos deteriorados
Os animatrônicos estavam em um estado deplorável.
De longe, já pareciam ruins; de perto, então, fediam que só, pareciam ter sido abandonados ali desde a Era Paleolítica. Credo.
Animatrônicos deteriorados
E, como se o odor não fosse suficiente para acabar com qualquer resquício de encanto, os bichos eram feios que dava dó!
Quando criança, eles pareciam bem mais convidativos e mágicos.
Agora.. parece que saíram de um pesadelo.

Após alguns minutos explorando o espaço, senti algo amassar sob meu pé. Inicialmente, imaginei que fosse apenas mais um pedaço de papel esquecido, jogado ali com o mesmo descaso que todo o resto. Porém, ao olhar para baixo, percebi que não era isso.

Era uma fotografia.

Fotografia antiga
E ela era medonha.
Quando criança, lembro de quando eu queria muito participar das fotos da pizzaria, mas nunca conseguia por estar ocupada devorando alguma guloseima.
Agora, vendo aquela imagem… ugh. Ainda bem que não participei. Só de encarar aquilo já dava um arrepio desconfortável na espinha.

Nesse instante, Ash entrou empurrando a cortina com tanta força que quase me jogou no chão. O impacto inesperado arrancou de mim um susto irritantemente leve, porém suficiente para me deixar de mau humor.

— Ugh! Esse lugar fede que só! — reclamou ele, tampando o nariz com a mão numa tentativa patética de se proteger do cheiro pútrido.

— Avisar antes de entrar também funciona, sabia? Evita ataque cardíaco. — retruquei, ainda frustrada pelo susto desnecessário.

— Nossa, olha isso aqui! — exclamou Ash, ignorando completamente minha reclamação. Ele encarava os destroços como tesouros arqueológicos recém-desenterrados.

Sem hesitar, correu até o canto onde instrumentos quebrados, fantasias despedaçadas e outros resíduos do passado estavam acumulados. Ele observava tudo com aquele brilho característico nos olhos — um misto de curiosidade infantil e imprudência crônica — mesmo diante de um cenário que gritava decadência por todos os lados.

— Mulher, isso é... PERFEITO! — exclamou, tomado por uma energia difícil de compreender.

— Do que é que você tá falando? — retruquei, em tom abertamente impaciente.

Cê só pode estar de sacanagem comigo.

E lá estávamos nós: em cima de um palco, enfiados em fantasias ridículas, diante de um grupo vibrante de crianças que pareciam ter energia suficiente pra alimentar uma usina. Ash, um verdadeiro devoto do caos performático, imitava movimentos robóticos com uma precisão desconcertante. Às vezes, ele exagerava tanto que parecia um animatrônico com defeito; outras, seus gestos surgiam quase humanos. Ele até cumprimentava cada criança com gestos personalizados, como se fossem pequenas estrelas de um espetáculo grotesco.

Uma cena digna de um pesadelo.

A verdade é que ele podia fazer aquilo à vontade. Para aquelas crianças, qualquer coisa ali ganhava vida, a suspensão de descrença infantil é como um poder místico, capaz de transformar sucata enferrujada em magia. E eu não posso sequer criticar: já estive exatamente na mesma posição.

Tentei acompanhar os movimentos dele, juro que tentei, mas não tava rolando. Eu tava suando como um porco dentro daquela fantasia amaldiçoada. O tecido colava na pele, grudava nos braços, prendia o ar quente, me deixando cada vez mais desconfortável e irritada. Era um purgatório portátil.

Mas as crianças tavam felizes, não é?

Riam, pulavam, batiam palmas.

Pois é, que merda.

Assim que nossa "apresentação" terminou, saí correndo em busca de um lugar isolado, longe da plateia e, principalmente, daquele palco dos horrores. Arranquei a cabeça da fantasia sem cerimônia, e logo em seguida tirei o traje inteiro, como quem se livra de uma maldição.

Sem pensar duas vezes, chutei a fantasia com toda a força que tinha. Foi catártico. Liberador. Quase terapêutico... Hah, quanto poder.

Mas Ash, sempre imprevisível, ainda vestido, surgiu subitamente por trás de mim e me envolveu em um abraço que me fez pular de susto.

— TA-DAAAAAA! NÃO ESPERAVA POR ESSA, NÉ? — gritou com entusiasmo, sua voz agora adotando um tom quase musical. — VOCÊ FOI ESPETACULAR!

Empurrei-o com força suficiente para derrubá-lo no chão. Bufei de raiva, cruzei os braços e desviei o olhar, recusando-me a encarar aquela máscara idiota estampada em seu rosto.

— PARA COM ESSA MERDA!! — explodi, exausta. — Sério, que inferno! A ideia não era só comer? Relaxar? Se divertir? Fazer algo minimamente normal?

— E estamos fazendo isso, pô! — retrucou Ash, finalmente retirando a máscara. Seu sorriso permanecia intacto, irritantemente sereno. — Estamos comendo e fazendo um SHOWZAÇO! É divertido!

Eu abri a boca para responder, mas nenhuma réplica à altura surgiu. Apenas bati o pé no chão, revirando os olhos com a precisão de quem já tinha treinado essa coreografia inúmeras vezes. No fundo — e eu odiava admitir — ele não estava completamente errado.

Sem encontrar melhor defesa, fiz o único movimento lógico: dei meia-volta e simplesmente retirei.

Que idiota. Pensando melhor, deve ser um inferno trabalhar enfiado naquelas fantasias sufocantes.

Sinceramente? Um pouco de compaixão pelos funcionários não faz mal.

Ao deixar o restaurante, encostei-me na parede externa e mordi o pedaço de pizza que havia trazido comigo. Estava impecável — quente, crocante e temperada na medida exata. Uma delícia comovente, especialmente depois do tormento recente.

Enquanto finalizava a última mordida, algo chamou minha atenção. Um homem se aproximava com passos tranquilos. Sem pronunciar uma única palavra, posicionou-se ao meu lado, também apoiado na parede, perto o suficiente para incomodar, mas distante demais para justificar pergunta.

A presença dele carregava uma normalidade tão exata, tão artificial, que em vez de tranquilizar, acendeu todos os alarmes internos. Cada gesto dele — o ajuste da postura, o toque breve no bolso, o olhar fixo em nada — parecia amplificar uma tensão invisível, deixando meus sentidos em hiperalerta. Bastava um movimento errado para eu partir para cima.

Por precaução, afastei-me imediatamente, virando o corpo em direção à entrada do restaurante, pronta para mergulhar de volta na segurança relativa do caos lá dentro.

???
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