2交代制 - segundo turno

2次代制

Segundo Turno

21h00.

Dessa vez decidi acordar antes do despertador tocar. Não sei o que deu em mim — talvez um raro surto de disciplina ou pura insônia acumulada. Já estava completamente pronta: roupa no lugar, cabelo decente e café tomado. Preparei meu ranguinho de sempre e devorei sem pressa, sentindo aquela empolgação boba de quem acha que o dia vai dar certo.

Sabe aquela sensação de “caralho, tô pronta pra qualquer coisa!”? Pois é. Ridícula, mas real. Fiquei até rindo sozinha da minha própria animação, como se fosse um prenúncio de algo bom... ou uma ironia cósmica prestes a acontecer.

Foi então que me lembrei: o pacote.

Aquela caixa misteriosa que eu havia largado na mesa na noite anterior e simplesmente ignorei o dia inteiro. Passei horas fazendo tudo — menos abrir aquilo. Talvez fosse medo, talvez preguiça. Mas agora, enfim, era hora de ver o que tinha lá dentro.

Peguei a caixa, examinei o lacre e abri com cuidado, meio curiosa, meio desconfiada. Dentro havia apenas uma fita de videocassete.

Fiquei olhando praquilo sem entender.

Sério? Quem em pleno século XXI manda uma VHS pelo correio? Qual é o ponto?

Revirei os olhos e murmurei um “ugh” impaciente. Mesmo achando tudo aquilo uma perda de tempo, levei a fita até o videocassete — sim, ainda tenho um — e a encaixei no aparelho.

Com um clique seco, a fita começou a rodar.

Cena 001

A gravação se inicia de maneira frenética, e não se fala isso em um bom sentido, um homem estava correndo desesperadamente de algo e suplicava por ajuda de qualquer um que estivesse presente no lugar, porém aparentemente não era o caso, o lugar parecia carente de pessoas naquele horário, vazio. O homem seguia com a pequena brincadeira de "gato e rato", porém se recusava a olhar para trás para que se pudesse identificar o que estaria o perseguindo.. Uma coisa chama atenção, enquanto ele corria, percebe-se que ele estava correndo em direção á loja na qual Miska trabalha, ele estava correndo em direção á parte dos fundos da loja e acabou por tropecar, coincidentemente ele havia caído bem próximo ao buraco na parede que Miska havia visto ontem. Ofegante e desesperado enquanto caído no chão, o homem se vira rapidamente para trás, não havia nada. O homem começava a recuperar sua respiração aos poucos depois de saber que estava supostamente sozinho, porém, no momento em que o homem começou a se levantar, um grande impacto acertou a câmera. A maior tendência é de que seja lá quem fez aquilo deu ou um soco na câmera ou acertou o braço do homem de uma maneira que o fez derrubar a câmera, porém de qualquer maneira isso não importava naquele momento, já que a única visão que se podia ter agora sobre o vídeo era do pobre homem sendo brutalmente esfaqueado pelo sujeito misterioso.

Cena Final

O corpo brutalizado e sem vida do homem é arrastado para fora da visão da câmera, sons de madeira e fitas se partindo podem ser ouvidas ao fundo. Pode-se ter a visão das pernas que, julgando pela estatura, pareciam as de uma mulher, ela estava usando um vestido que parecia desgastado e sujo com lama e sangue, a gravação se encerra com ela quebrando a câmera com um chute.

Levei uma das mãos à boca, o coração acelerado, observando a tela mergulhar em pura estática. O som chiado preenchia a sala, agudo e irritante, como se quisesse se infiltrar nos meus ossos.

Aquilo era algum tipo de piada? Se for, é de um gosto terrivelmente duvidoso.

...

Eu prefiro acreditar que tudo aquilo não passou de uma encenação — muito bem feita, por sinal. Talvez um vídeo experimental, ou alguma brincadeira mórbida de internet. Sim, é isso. Só pode ser isso.

O relógio me lembrou que eu já estava atrasada. Suspirei, desliguei a TV e desci as escadas, ainda sentindo a estranha vibração do chiado ecoando dentro da cabeça. Peguei minhas coisas e segui em direção à porta, pronta — ou tentando estar pronta — para mais um turno de trabalho.

Assim que saí, percebi algo diferente. O bairro estava mais escuro do que de costume, como se o próprio ar tivesse engrossado. Nenhuma luz de poste, nenhum farol distante — nada além do breu absoluto. Liguei minha lanterna, o feixe cortando a escuridão como uma navalha fraca demais para o tamanho do vazio.

Que merda... por que tá tudo tão escuro assim?

O caminho até a loja pareceu interminável. As sombras pareciam se mover nas bordas da visão, mas talvez fosse só o cansaço. Quando finalmente alcancei o local, as luzes do interior eram o único ponto visível naquela massa de escuridão.

Entrei.

O som familiar da sineta me arrancou de um breve devaneio.

Atrás do balcão, lá estava Michael com o mesmo sorriso cansado de sempre.

Será que ele vai me contar outra piada idiota igual no turno passado? Tomara que não. Hoje, definitivamente, eu não estava no clima pra brincadeiras.

Ai, que saco! Esse cara me tira do sério, sério mesmo!

Ainda bufando, entrei atrás do balcão e fui direto pra sala das câmeras de segurança. Bati meu ponto com a eficiência automática de quem já tá cansada antes mesmo de começar o turno. Assim que o relógio apitou, a lembrança do vídeo estranho voltou à minha cabeça como uma agulha fina cutucando o fundo da mente.

Será que o Michael sabe de alguma coisa sobre aquilo? Talvez ele tenha visto o mesmo vídeo? Ou... pior, talvez tenha sido ele quem mandou.

Pensei em perguntar, mas quando olhei ao redor — nada.

Ué? Ele já tinha ido embora? Caralho, que rápido! Nunca o vi sair tão depressa assim. Deve estar realmente no limite, coitado.

Soltei um suspiro e peguei o bilhete amassado que o gerente deixara sobre o balcão.

Revirei os olhos.

— Vejamos o que vai ser dessa vez... — murmurei, abrindo o papel.

Puta que pariu! Por que que logo eu fui a primeira a ler?

Michael ficou lá por horas e em nenhum momento entrou nesse troço pra checar? Sério, que preguiça alheia. Ugh.

Bufando, peguei um repelente e fui para os fundos da loja. Aquilo era nojento demais — o cheiro úmido, as latas entornadas, os ratos sumindo entre as caixas me davam vontade de vomitar. Fiz questão de borrifar tudo sem piedade; se não afastasse os roedores por um tempo, ao menos daria uma chance ao lugar de respirar.

Voltei para dentro e conferi as câmeras: na externa, um carro estacionava em frente. Cliente chegando. Corri pro balcão, pronta pra atender.

O sujeito veio com tanta pressa que parecia que o mundo fosse terminar hoje.

"É O SEGUINTE, FILHA, TÔ COM PRESSA! ME VÊ UM MAÇO DE CIGARRO E UMA CAIXA DE CERVEJAS! RÁPIDO!"

berrou.

Olha que desgraçado. Ele realmente entrou bufando, peito estufado, com aquela postura de quem come prego no café da manhã e e já me manda essa.

Eu realmente não precisava desse desespero todo. Aaaaaaahhhh, meu amigo, eu juro que se eu não estivesse trabalhando, eu iria botar minhas mãos em você de uma forma que você não ia sair daqui.. pelo menos não reconhecível.

Peguei o maço, larguei no balcão, e fui ao freezer. A caixa de cerveja era pesada demais; o frio do compartimento me cortou o rosto e cada movimento me exigiu força. Levantei o trambolho empurrando com o corpo e, sinceramente, tava quase me custando a coluna.

"RÁPIDO, MINHA FILHA, EU NÃO TENHO O TEMPO INTEIRO!"

"VAI TOMAR NO CU, SEU BOSTA!"

pensei, respirando fundo — fundo de verdade — para não explodir, porque a paciência tava no talo.

Nunca senti tanta raiva de um cliente, e olha que é só o meu segundo dia aqui. Se esse tipo de atendimento for rotina, que Deus abençoe o gerente, porque eu não garanto minha sanidade.

Joguei a caixa no balcão com força, mais aliviada do que eu deveria admitir, só querendo que o desgraçado fosse embora logo.

"LEVE A CAIXA ATÉ O MEU CARRO."

... Mas, claro, Murphy não ia me dar essa colher de chá. Porra, Deus, tô sendo testada hoje, né?

Eu não vou ser demitida no segundo dia de trabalho, Deus.. me ajuda nessa situação, HUUUUUUFF!

Alguns minutos depois eu estava ofegante e destruída, tendo carregado aquele fardo até o porta-malas do sujeito. Ele ainda me lançou um olhar de desprezo antes de entrar no carro e desaparecer rua afora — e que suma mesmo, seu merda. Voltei para dentro, enxuguei o suor do rosto com um pano que eu trouxe de casa (quem diria que ia ser útil?) e tentei recompor o fôlego.

Instalei-me atrás do balcão para vigiar as câmeras e, por reflexo, fui logo olhar a porta de entrada. Vi-a se abrindo na tela — mas não havia ninguém ali. Ugh, que saco. Esperei, mirando a imagem externa, até notar um detalhe: havia uma criança na calçada. Sério? Então era por isso que essa droga ficava abrindo e fechando sozinha toda hora, uns pivetes estavam mexendo na porta, fingindo que aquilo era uma brincadeira, abrindo e fechando só pra me provocar.

Oh, como eu adoro viver.

Saí da loja e olhei para a esquerda, avistando a pequena peste correndo despreocupada. Tentei repreendê-la do modo mais calmo que consegui — mesmo morrendo de vontade de fazer o oposto. Depois de ouvir minha bronca, ela saiu disparada, indo direto para os fundos do estabelecimento.

“Ei! Volta aqui, moleque!” — gritei, correndo atrás dele antes que se metesse em alguma encrenca. O problema é que aquela área estava repleta de repelente pra rato; se respirasse aquilo por muito tempo, passava mal na certa. Quando cheguei, percebi algo errado: as tábuas e as fitas amarelas que bloqueavam a passagem na parede estavam jogadas no chão, quebradas, como se alguém as tivesse arrancado à força. Um arrepio percorreu minha espinha — a lembrança daquele vídeo bizarro me atravessou de novo.

A criança tinha entrado lá, e eu não podia simplesmente deixá-la se machucar.

Quer saber? Foda-se.

Respirei fundo, firmei o passo e entrei, chamando por ela. Nenhuma resposta — só o vento assobiando entre a vegetação alta. No meio do matagal, havia uma cabana solitária, meio escondida, e, sem pensar muito, decidi me aproximar.

Entrei na cabana e senti o estômago revirar, a cena que vi ali vai ficar gravada em mim para sempre. O lugar estava tomado por um silêncio fétido, ratos mortos espalhados pelo chão eram a primeira coisa que meus olhos captaram. Pior ainda: havia dois corpos humanos. Um deles, tenho certeza absoluta, era o homem do vídeo; reconheci cada detalhe daquele rosto distorcido. O outro... era o meu gerente??

Que porra tá acontecendo aqui?

Disparei para fora, correndo sem pensar, tropeçando em raízes e folhas molhadas. Cheguei à loja em pânico e me dirigi direto ao banheiro, porque precisava vomitar, expulsar de algum modo a imagem daquela cena. Arremessei o conteúdo do estômago, puxei a descarga e lavei o rosto com água fria, tentando recompor os fragmentos da consciência que teimavam em tremer.

Então ouvi uma batida seca: a porta do banheiro havia sido fechada com força. Agarrei a maçaneta e tentei abrir, apavorada — trancada.

"ABRE ESSA PORRA!" — gritei, golpeando a madeira com as mãos.

Nada funcionou.

Respirei fundo, reuni forças e me lancei contra a porta; com um estrondo, ela cedeu. O impacto me deixou no chão, o corpo ardendo, especialmente o ombro direito, que havia levado a pior. Levantei-me aos poucos, mancando, e comecei a vasculhar o ambiente com o olhar, esperando encontrar alguém responsável por tudo aquilo — mas não havia ninguém visível.

Então virei o rosto e vi algo que congelou meu sangue: uma mulher me encarava do outro lado do balcão. Ergueu uma faca num gesto lento, quase ceremonial. Seu vestido estava sujo de lama e algo que lembrava sangue; o rosto, desfigurado de modo grotesco, era a própria imagem do horror. Ela não disse nada — apenas manteve o olhar fixo, imóvel, enquanto a lâmina brilhava sob a luz inútil do teto.

Gritei de pavor e tentei me virar para escapar, mas ela foi rápida demais: a lâmina abriu minhas costas num corte cruel. A dor veio como choque, me derrubando no chão frio. A mulher avançava devagar, implacável, e eu tentava recuar, cada movimento custando um esforço enorme. Sem piedade, ela cravou a faca novamente — agora no peito — e começou a golpear na mesma região, uma sequência repetida que transformava cada respiração em agonia. O som da lâmina entrando na carne misturava-se aos meus gritos, e senti a proximidade do meu próprio fim como algo quase palpável.

Instintivamente, coloquei os braços em frente ao corpo para reduzir a violência dos golpes. O sangue escorria por entre meus dedos e respingava no meu rosto; o piso logo formou uma poça crescente. Não podia me entregar ali — não ainda. Reuni o pouco de força que me restava e desferi um soco brutal no rosto dela. O impacto a fez cair. Aproveitei a abertura e, com dificuldade, me ergui, pressionando o braço sobre a ferida para tentar deter a hemorragia.

Vi um extintor à minha frente e agarrei-o como quem encontra uma tábua de salvação. Antes que conseguisse usá-lo, a mulher se lançou na minha direção novamente, berrando de forma histérica. Atirei o extintor com toda a força que tinha; a peça acertou-lhe a cabeça e ela desabou, inerte — pelo menos por um instante. O susto e a exaustão me tomaram, mas não havia tempo para alívio genuíno.

Lancei-me para dentro do balcão, trêmula, e peguei o telefone com dedos que mal obedeciam. Disquei para a polícia entre frases partidas e soluços; as palavras saíam atropeladas, mas a urgência era clara na voz. Mal comecei a explicar a situação quando senti algo frio tampando minha boca e uma mão forte me puxando do aparelho. Era ela outra vez. Lutei como pude, mas a pressão de seus dedos revelou uma força desumana.

Em seguida, num movimento violento, senti minhas costas baterem contra as prateleiras. Produtos caíram com estrondo, vidros se quebraram.

O impacto foi brutal, uma descarga de dor percorreu cada fibra do meu corpo, e o sangue escorria quente, pintando o chão em vermelho. Minha visão oscilava, a consciência se dissolvendo num turbilhão entre o pavor e a fraqueza. A mulher permanecia à minha frente, os olhos dilatados de ódio, empunhando a faca com a fúria de um predador enlouquecido. O metal descia repetidamente contra meu abdômen, abrindo fendas ardentes na carne, e os sons que ecoavam — meus gritos, os dela, o rasgar da lâmina — se fundiam em um coro grotesco.

Mas, entre o caos e a dor, um lampejo de esperança se destacou: uma escopeta caída entre as prateleiras quebradas, parcialmente escondida sob destroços. Meu corpo parecia um peso morto, mas a vontade de sobreviver falou mais alto. Com as mãos trêmulas e o peito arfando, estendi o braço, sentindo o metal frio sob meus dedos ensanguentados. Apontei com toda a precisão que o desespero permitia.

O estampido do tiro quebrou o silêncio sufocante como um trovão. Por um instante, tudo pareceu congelar — o som, o tempo, a dor. A última coisa que vi antes de desmaiar foi o corpo da mulher tombando, a cabeça destruída num borrão grotesco de sangue e fragmentos. Logo depois, o clarão intermitente das luzes vermelhas e azuis inundou o ambiente, seguido pelo som distante das sirenes que ecoavam como um alívio tardio.

A escuridão me envolveu, e, enfim, cedi.

Quando despertei, já estava em um quarto de hospital. O ar tinha cheiro de antisséptico e o bip ritmado das máquinas me lembrava que eu ainda estava viva — por algum milagre. Evitei me mexer demais, sentindo cada costura do curativo pulsar junto com meu coração. O médico me informou que alguns amigos haviam passado ali, mas decidiram me deixar descansar. Eu só conseguia suspirar. Cansada. Dolorida. Com medo até do silêncio.

A doutora me chamou de guerreira, disse que sobreviver àquilo foi quase impossível, que se a polícia tivesse demorado mais alguns minutos, eu não estaria ali. Fiquei sem saber se devia me sentir orgulhosa… ou simplesmente amaldiçoada por ter vivido algo assim.

É oficial: Eu me demito dessa porra.

Diálogo

Miska
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