最初のラウンド - primeiro turno

最初のラウンド

Primeiro Turno

O som estridente do despertador rompeu o silêncio da noite, marcando exatamente 21h30. Restavam apenas trinta minutos até o início do meu turno. Soltei um suspiro pesado ao desligar o aparelho, sentindo a irritação se espalhar lentamente pelo meu corpo. Esfreguei os olhos, tentando dissipar a névoa do sono que ainda me prendia, e me forcei a levantar da cama, que parecia me chamar de volta, oferecendo o alívio de um descanso que eu não podia aceitar mais.

Heh, as desvantagens de acordar tarde. A cama se torna um ímã, e resistir a ela exige mais força de vontade do que encarar o turno inteiro. Às vezes me pergunto se fiz a escolha certa ao trabalhar à noite, já que passo metade do tempo lutando contra o desejo de simplesmente voltar a dormir.

Enfim... eu precisava comer algo, tomar um banho e pegar minha lanterna antes de sair. Não podia me atrasar, se não, já viu, né? Fodeu.

Segui a rotina de sempre: banho demorado, uniforme limpo, e uma refeição rápida antes de sair. E que refeição era essa? Lasanha, claro. Minha verdadeira religião gastronômica. Nada me deixava mais satisfeita do que começar a noite com uma boa lasanha, ainda que de micro-ondas.

Depois de comer, peguei a lanterna e fui até a porta. Tranquei-a com cuidado, por puro hábito. Aqui raramente acontecia alguma coisa, mas vai que. Prudência nunca fez mal a ninguém.

Caminhei pelas ruas quase desertas até chegar à loja de conveniência. Parei por um instante em frente ao estabelecimento. Havia algo naquele lugar que sempre me causava um misto de nostalgia e melancolia. As prateleiras visíveis pelas janelas estavam meio vazias, e a iluminação fraca fazia tudo parecer cansado. A loja parecia carregar o peso dos anos, talvez já tivesse vivido dias melhores e agora apenas sobrevivesse à própria rotina.

Minha breve contemplação foi interrompida por um som estranho vindo do fundo, próximo às máquinas de lanche e refrigerante. A princípio, pensei ser algum ruído comum do sistema de refrigeração, mas logo percebi que havia alguém ali. Um morador de rua, talvez.

À medida que me aproximei, os sons se tornaram risadas abafadas — baixas, mas perfeitamente audíveis. O homem estava encurvado, sorrindo de forma torta, com um brilho perturbador nos olhos. Algo naquela risada, naquele sorriso, me fez gelar por dentro. Ele não parecia exatamente bêbadom, apenas errado, errado de um jeito difícil de descrever.

Entrei na loja às pressas, sem vontade alguma de prolongar o contato com aquele sujeito esquisito. Ainda assim, as palavras dele ecoavam na minha cabeça: “Você não sabe o que aconteceu aqui.”

O que ele quis dizer com isso? “Passar pelo que aconteceu aqui”… passar pelo quê, exatamente?

...

Quer saber? Que se dane.

Por que estou sequer me dando ao trabalho de pensar nisso? Provavelmente era só um bêbado delirando — e eu aqui, perdendo tempo com paranoia. O foco agora é trabalhar, nada mais.

Além do mais, lembro perfeitamente do chefe comentando que havia uma arma guardada para emergências, “autodefesa”, como ele dizia. Não que eu pretendesse usar aquilo, mas a simples lembrança trazia uma sensação de segurança.

Esses pensamentos se dissiparam quando, distraída, acabei esbarrando no balcão. Lá estava Michael, meu colega de turno. Pedi desculpas de imediato, meio envergonhada pela minha falta de coordenação, mas ele pareceu nem notar. Estava tão aliviado por me ver que qualquer irritação se dissolveu no mesmo instante.

E eu entendo perfeitamente, ficar ali, madrugada adentro, ouvindo o zumbido das máquinas e o relógio se arrastar, deve ser uma tortura. A sonolência é foda; chega uma hora em que o corpo pede arrego. Eu no lugar dele também estaria contando os minutos pra ir embora.

Entrei atrás do balcão soltando um suspiro irritado. Sério, parece que nem no meu próprio trabalho eu tenho um minuto de paz. Ugh. Que idiota.

Ainda assim… a história que ele contou era estranhamente específica. Confusa, mas específica. Será que eu devia investigar esse lugar depois?

Hmm, melhor não. Curiosidade demais só traz dor de cabeça.

De qualquer forma, bati meu ponto e deixei Michael seguir o ritual de sempre — ele saiu quase correndo, visivelmente exausto.

Respirei fundo e olhei ao redor, tentando mentalmente me preparar para uma longa madrugada. Sobre o balcão havia um papel deixado pelo gerente, cheio de anotações rabiscadas com as tarefas do dia — ou melhor, da noite. Era a minha deixa para começar a rotina.

Terminei de ler o bilhete e saí do galpão, pronta para encarar a primeira tarefa da noite: conferir as prateleiras e separar os produtos vencidos. Vasculhei fileira por fileira até juntar um bom volume de itens inutilizáveis e coloquei tudo em um saco preto.

Com o saco na mão, atravessei o corredor silencioso que levava à parte externa da loja. Alcancei a lixeira metálica, levantei a tampa e me preparei para jogar o saco dentro.

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Um grito escapou da minha garganta antes que eu sequer conseguisse pensar.

De dentro da lixeira, aquele homem maluco de mais cedo surgiu abruptamente, respirando de forma ofegante, o corpo inteiro trêmulo e sujo. Por um instante, fiquei paralisada. Ele não disse uma palavra. Só me encarava com aquele olhar insano, parecendo querer atravessar minha alma.

O silêncio entre nós era sufocante. Ele estendeu o braço, num gesto firme e autoritário, queria algo. Segui o movimento do olhar dele até o saco em minhas mãos. Engoli em seco. Sem saber o que fazer, apenas entreguei o saco com as comidas vencidas.

O homem agarrou o plástico com força e começou a se afastar lentamente, cambaleando, até desaparecer na escuridão da rua. Fiquei ali, imóvel, com o coração batendo forte.

Quem era aquele sujeito?

Por que diabos ele estava dentro da lixeira?

Santo Deus, tomara que eu nunca mais veja esse maluco de novo.

Tentei respirar fundo e apagar da mente aquele encontro bizarro, só queria fingir que nada daquilo tinha acontecido. Voltei para dentro da loja e continuei o que tinha começado: vasculhar as prateleiras atrás de produtos vencidos. Claro que não eram poucos. Enchi mais alguns sacos e fui descartando tudo na lixeira, já meio no automático.

Foi então que percebi algo diferente. Na parede dos fundos, meio escondido entre caixas empilhadas, havia um buraco. Estava coberto por tábuas velhas e algumas faixas amarelas, daquelas que lembram as de cena de crime. O gerente sempre dizia que o local estava interditado para manutenção. Mas, mesmo assim, o aviso improvisado parecia mais alarmante do que necessário.

Porra, e a curiosidade? Ela me corroía por dentro. Parte de mim queria arrancar aquelas tábuas na hora e descobrir o que diabos tinha ali. A outra parte, a parte racional (e que gostava de continuar empregada), lembrava que o gerente teria um surto se me pegasse fuçando onde não devia.

Fiquei nesse impasse entre o impulso e o bom senso até ouvir o tilintar da sineta na frente da loja. O som me fez gelar por um segundo, era outro cliente. Droga! Precisava voltar logo antes que achassem que a loja estava vazia.

Corri pela porta dos fundos e retornei ao balcão. Lá estava o tal “cliente”, parado, me esperando. Só que, ao me aproximar, percebi que não era cliente nenhum, era um entregador noturno.

De início, imaginei que fosse um novo carregamento da loja, talvez algum pedido de reposição urgente. Mas então o homem olhou para o meu crachá, conferiu uma folha de papel e disse que a encomenda... era pra mim?

Voltei o mais rápido que pude para o balcão por meio da porta dos fundos para atender ao cliente e, ao identificar o sujeito, percebo que não era um cliente e sim um entregador noturno. Teorizei que seria um novo estoque de produtos que a loja incomendou em caso de necessidade de reabastecimento de alguma prateleira contendo tal, porém, o homem me identificou pelo meu crachá e a encomenda era.. Pra mim?

Que situação estranha. Eu não tinha encomendado nada.

Quem, diabos, teria me enviado aquilo? Provavelmente algum dos meus amigos tentando me pregar outra peça — não seria a primeira vez. Já aconteceu de me mandarem um pacote vazio só pra me ver surtando de curiosidade. Então, talvez fosse mais uma dessas brincadeiras idiotas.

De qualquer forma, meu turno já estava acabando e tudo que eu queria era ir pra casa. Saí de trás do balcão, segurei o pacote debaixo do braço e deixei a loja, sentindo o ar frio da madrugada bater no rosto. O caminho até em casa parecia mais longo do que o normal, e o peso da caixa, por algum motivo, me incomodava mais do que deveria.

Assim que entrei, larguei as chaves na mesa e soltei um suspiro de puro cansaço. Eu estava exausta — completamente drenada. Tirei o uniforme, vesti algo confortável e deixei o pacote sobre a mesa da cozinha.

Depois eu via o que era aquilo. No momento, só o que me importava era dormir.

Me joguei na cama sem cerimônia, o corpo pesado, os olhos ardendo de sono. Em poucos segundos, apaguei, como se o dia tivesse me sugado até a última gota de energia. Apesar das esquisitices da noite — aquele homem, o buraco, o pacote misterioso —, o trabalho tinha sido uma distração bem-vinda. Às vezes é bom se ocupar com o banal pra não enlouquecer com o inexplicável.

Antes de o sono me engolir por completo, uma última pergunta ecoou na minha cabeça como um sussurro:

O que será que tem dentro daquele pacote...?

Diálogo

Miska
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