Familiar

Familiar

Música
Meus olhos? Eu os abro lentamente.

Minha cabeça? Uma fiel hospedeira da confusão.
"Onde estou?"

A pergunta ecoa sem resposta, reverberando na vastidão de um mistério inquietante.

Percebi que estava deitada sobre um gramado impecável, quase artificial de tão perfeito. Cada folha parecia recém-colocada ali, sem um único defeito: ausência total de buracos, depressões, acúmulo de água, níveis estranhos de acidez… nada. Era a representação exata daquele tipo de paisagem que só existe em catálogo de imobiliária ou em sonho de arquiteto rural.

Ao me erguer e observar melhor, notei que a área era cercada por tábuas de madeira muito bem alinhadas, como uma moldura rústica, abrindo espaço para um caminho estreito, limpo e absurdamente simétrico que levava até uma casa, simples, porém carregando um charme inquietante, como se escondesse mais do que mostrava.

Tudo ali dizia fazenda. Tudo, exceto o que realmente importa numa fazenda: vida.

Não tinha gado.

Na verdade, tirando o ambiente plastificado que já descrevi, não tinha praticamente nada.

Nada além da quietude absoluta, com o tipo de silêncio que não trazia paz, trazia desconforto. O único som audível vinha da grama se mexendo suavemente quando eu arrastava os pés, como se até o vento tivesse decidido abandonar aquele lugar.

Num impulso meio idiota, tentei chutar o gramado. Talvez para quebrar a ilusão, talvez só para provar que ainda tinha algum controle sobre meus eixos.

Nenhum dano.

O ponto atingido permaneceu perfeitamente intacto. Nem uma folha fora do lugar. Nem um vestígio do impacto. A sensação era de que aquele campo recusava ser marcado, programado para permanecer eternamente imperturbável, imune a qualquer tentativa de mudança, inclusive as minhas.

"Agh! Merda! Porra!"

Uma dor aguda irrompe na minha coxa direita, tão violenta que minhas pernas simplesmente cedem. Caio no chão sem qualquer dignidade, contorcendo-me enquanto tento entender o que acabou de acontecer. A sensação é tão abrupta e precisa que parece ter sido devolvida pelo próprio ambiente; Talvez só quisesse retribuir o favor, né? Justo.

Ughh! Tá bom, lugar estranho, perdão.. Não sabe nem brincar.

Respirei fundo, recolhi o pouco de compostura que me restava e, mancando, obriguei-me a levantar. A dor goi diminuindo aos poucos, deslizando do insuportável para o tolerável. Meus olhos retornaram para a casa à frente, e a curiosidade latejou com insistência.

Será que alguém mora ali? Será que algo mora ali?

Movida pelo meu espírito enxerido, e, honestamente, um pouco autodestrutivo, comecei a caminhar em direção à construção. A cada passo, a grama emitia aquele som abafado e repetitivo, como se eu estivesse andando sobre uma almofada viva. O eco único reforçava o isolamento absoluto, um vazio tão compacto que parecia pressionar os tímpanos.

E olha… não é exagero. A falta de qualquer ruído se infiltrava na minha cabeça como um zumbido fantasma, lento e irritante. Garanto que, se alguém não sentir ao menos um fio de agonia aqui, essa pessoa já abandonou a própria sensibilidade há muito tempo.

Continuo avançando. A casa se aproximava, mas junto dela vinha um desconforto crescente. Um arrepio percorria minha espinha inteira, minhas mãos tremiam discretamente e meu coração se lançava em um ritmo descompassado.

Mas por quê?

O que tava desencadeando isso em mim?

Meu corpo parecia tentar me avisar no silêncio, implorar: voe para longe, você ainda tem tempo.

Mas, claro, resolvi ignorar completamente esse senso de autopreservação.

Cheguei enfim à frente da tal casa. A arquitetura era simples e direta: paredes brancas quase luminosas e um telhado vermelho que contrasta com o verde ao redor, como um sinalizador discreto. Me aproximei da porta com cautela, debatendo internamente se eu deveria bater ou esperar. O medo de incomodar um possível morador — por mais irracional que fosse — me paralisa por alguns segundos.

(Duuuhh.. Na verdade, também era muito por medo de falar com um desconhecido, mas não queria admitir de primeira. Perdoe minha total incapacidade social; às vezes sou um desastre ambulante.)

Com a mão trêmula, ergui os dedos e bati duas vezes na porta, esperando uma resposta, um som, uma voz, qualquer coisa.

Toc toc!
"Olá?! Alguém em casa??"

Ninguém respondeu.

Soltei um suspiro pesado, frustrada por mais uma esperança vazia, e comecei a me virar, pronta para procurar qualquer indício de vida em outro canto daquele cenário surreal. Porém, antes mesmo de dar o primeiro passo, um som discreto capturou minha atenção.

Um gotejar.

Instintivamente, baixo o olhar, esperando encontrar água, talvez um vazamento do telhado ou algo igualmente banal. Mas não. A substância era mais densa, mais escura... e mais perturbadora.







































Era sangue.






































O choque me paralisa.

Meu olhar se fixou no líquido vermelho que se acumula no chão, e o pavor começava a crescer, implacável. Minha mão tremia enquanto a levava ao rosto para tentar controlar minha respiração acelerada, mas o verdadeiro terror vem quando olho para a minha própria pele.

Era o MEU sangue.

Lágrimas vermelhas escorriam pelo meu rosto, marcando minhas bochechas como trilhas grotescas. Eu solucei sem conseguir me controlar, enquanto notava minhas mãos manchadas, parte da minha roupa tingida, o gramado ao redor salpicado com o meu próprio líquido vital.

E, justamente nesse estado de pânico absoluto, um som inesperado rompe a rigidez do silêncio: uma porta rangendo.

Levantei o olhar de imediato.

A porta da casa estava se abrindo.

Minhas batidas cardíacas aceleraram a ponto de doer.

Ainda tremendo, aproximo a mão, empurrando-a um pouco mais para dentro, como quem tenta decifrar se aquilo é um convite, uma armadilha ou simplesmente inevitável.

Engoli em seco. Meu corpo inteiro protestava, mas a curiosidade — ou a insanidade — decidiu por mim.

Dou um passo, depois outro.

Respirei fundo, atravessei o limiar e, por fim, entro na casa.







































E então, num piscar de olhos, o sangue sumiu.

Minhas roupas estavam impecáveis novamente, minha pele limpa, e aquele pânico sufocante deu lugar a uma calma suspeita, tão artificial que parecia imposta, como se alguém tivesse apertado um interruptor emocional dentro de mim.

A sala onde eu permanecia era tão estéril quanto o exterior da casa. Nada fora do lugar, nenhuma poeira, nenhum objeto minimamente pessoal. Apenas um sofá solitário, um abajur simples e uma cortina branca que parecia mais uma presença simbólica do que funcional. Intrigada, e ainda tentando entender o que era realidade ali, caminhei até a cortina e a puxei, imaginando encontrar uma janela ou pelo menos algum indício do que havia atrás dela.

Mas não.

Atrás do tecido impecavelmente branco… só havia parede.

"É… se fosse pra isso, nem colocava, né?"

murmurei, num tom que oscilava entre ironia e tremor.

Arqueei a sobrancelha, me afastando como quem pensa: tá bom, então… se você diz. Pousei o olhar mais uma vez no ambiente estéril e, depois de respirar fundo, me dirigi ao próximo cômodo, tomada por uma mistura de receio e teimosia. A cozinha foi a escolhida.

Se a sala parecia um showroom minimalista, a cozinha era o extremo oposto.

Um contraste tão brusco que quase me fez duvidar se ainda estava na mesma casa. O fogão exibia uma panela e uma chaleira metálica esquecidas sobre as bocas, como se alguém tivesse se levantado no meio do preparo de algo. No balcão, potes e copos espalhados ocupavam o espaço sem qualquer critério.

Acima do micro-ondas, uma prateleira escancarada revelava caixas amassadas, latas abertas e pacotes vazios, todos amontoados, parecendo terem sido usados há poucos minutos. A pia, então, completava o espetáculo: talheres, pratos e utensílios jogados sem cuidado, enquanto a torneira despejava um fluxo contínuo de água, insistente e suave.

Aproximei-me e tentei fechar a torneira. Girei o registro, empurrei, puxei, forcei. Nada. A água continuava jorrando, indiferente aos meus esforços e, a cada tentativa frustrada, uma sensação de absurdo crescente se instalava no peito.

Depois de inúmeras tentativas falhas, simplesmente desisti. Dei um passo para trás, respirando fundo, e saí de lá com aquele frio na barriga que só o surreal consegue provocar.

Enquanto eu me afastava da cozinha, ainda tentando ignorar o absurdo que havia acabado de presenciar, um som inesperado fez meu corpo travar. Passos. Mas não eram passos tranquilos nem cadenciados, alguém estava correndo.

Meu olhar se virou imediatamente para a direção do barulho, e só então percebi que a casa tinha um segundo andar.

"Olá?! Quem tá aí?!"

Minha voz saiu trêmula, a respiração curta depois do susto repentino. O corpo inteiro entrou em modo de alerta: mãos frias, pernas bambas, coração acelerado.

Nenhuma resposta.

Engoli em seco, tentando reunir coragem, e comecei a subir as escadas com a máxima cautela que consegui reunir. Eu não fazia a menor ideia do que estava comigo naquele lugar, mas, sinceramente, não estava disposta a descobrir do pior jeito.

Alguns segundos depois, alcancei o segundo andar.

Olhei ao redor com atenção, procurando qualquer sombra, qualquer movimento. Nada. O corredor estava vazio e horrivelmente silencioso. Até que um novo som emergiu, um rangido lento e arrastado. Olhei na direção da origem e vi uma porta se abrindo sozinha, como em um convite silencioso: "Vem cá, tem algo pra você."

Dentro de mim, a luta foi instantânea: curiosidade contra autopreservação.

E adivinha quem ganhou? Sempre a curiosidade, uma desgraça sedutora que faz a gente tomar decisões questionáveis.

Respirei fundo, tentando manter uma dignidade inexistente, e caminhei até a porta. Quando olhei para dentro, descobri que se tratava de um quarto.

Era um ambiente pequeno, meticulosamente organizado, com uma decoração infantil suave. As paredes eram pintadas de azul-claro, adornadas por um friso de nuvens ao redor do teto. O mobiliário branco contrastava de forma harmoniosa com o tom pastel das paredes. Sobre a cama, repousavam algumas pelúcias, e no canto próximo à janela, alguns brinquedos estavam espalhados, mas não o suficiente para parecer bagunça.

Apenas… vida. Vida que não deveria existir ali.

Mas o que realmente capturou meu olhar foram os papéis e lápis de cor espalhados pelo chão. Havia muitos, tantos que pareciam formar um pequeno mar colorido ao redor da cama. No entanto, algo me incomodou profundamente: nenhum dos papéis tinha um único desenho. Nenhum rabisco, nenhuma linha torta, nada.

Ajoelhei-me, hesitante, e apanhei um deles. Virei, observei contra a luz inexistente daquele corredor, esperei por algum detalhe escondido, mas era apenas uma folha em branco.

“…”
“Isso me lembra de quando eu era criança.”
“Lembra de quando eu passava horas desenhando sem parar.”

Esse pensamento surgiu enquanto eu me erguia lentamente, ainda segurando a folha em branco entre os dedos.

“Mas… quem deixou isso aqui? E por quê? Que coisa estranha…”

Estranho, porém, era uma palavra tímida demais para descrever aquela sensação.

Enquanto analisava o quarto com mais atenção, uma inquietante familiaridade começou a se instalar dentro de mim. Era como se aquele ambiente, que eu sabia nunca ter visto antes, tentasse reivindicar um lugar na minha memória.

Mas por quê agora? Por que esse cômodo específico? Eu nunca pisei nesse lugar. Seria obra da própria casa, tentando me manipular com uma nostalgia fabricada? Francamente… a probabilidade é bem alta. Mas a verdade é que eu não fazia ideia.

E, pra ser sincera, não saber era tão sufocante quanto irritante.

Então, outro som ecoou.

Vinha de fora do quarto.

Me levantei num sobressalto, fitando a porta com uma mistura de confusão e puro medo. Dei passos cuidadosos em direção à saída, ainda segurando a folha e com a mente disparada, imaginando todos os cenários possíveis — especialmente os ruins.

Assim que deixei o quarto e examinei o corredor, notei ao fundo o que parecia ser uma janela da casa. Ao lado direito dela, repousava uma televisão de tubo sobre um banquinho de madeira. O aparelho exibia apenas estática, zumbindo num branco granuloso, sem qualquer motivo plausível. Embora, considerando o histórico de bizarrices daquele lugar, aquilo nem chegava a ser tão surpreendente.

Mesmo assim, senti meu corpo se mover quase sozinho. Fui atraída para a janela e para a TV como se ambas emanassem algum tipo de chamada silenciosa, uma hipnose suave que me puxava para frente. A folha escorregou da minha mão sem que eu percebesse.

E quando finalmente cheguei perto o suficiente… eu não fiz nada.

Pois é, anticlímax total, eu sei. Mas não havia muito a ser feito. E, naquele instante, eu nem queria fazer nada. A vista pela janela era simplesmente deslumbrante. Parecia o céu visto de perto, uma calma tão profunda que dava vontade de mergulhar nela.

Era reconfortante.

Acolhedor de um jeito quase impossível.

Como se, pela primeira vez desde que cheguei, algo naquele lugar quisesse que eu respirasse.































Era uma calma benevolente.