???
O que você quer?
Vai embora.
???????
Por favor.
O que quer de mim?
Vai embora.
???????
O que você quer?
Por favor.
O que quer de mim?
????????????????????????????
Me deixa em paz.
????????????????????????????
Me deixa em paz.

???

▶ Música

O susto que eu levei veio de um lugar tão profundo que parecia ter sido arrancado da alma. Fiquei paralisada por alguns segundos, respirando curto, enquanto meus olhos percorriam a paisagem pela janela. Não houve transição suave, nenhum indício, nem mesmo um sussurro de aviso. O céu, antes sereno e quase celestial, havia se transformado num breu desolado, distorcido, horrendo.

E isso foi apenas o começo.

Percebi, então, que tudo ao meu redor assumira um tom avermelhado, como se um filtro sanguinolento tivesse sido imposto sobre a realidade. Não era só o corredor; era tudo, absolutamente tudo. Meu olhar, agora completamente desperto, voltou-se instintivamente para a televisão que antes me atraíra até ali… e a visão me arrepiou inteira.

O aparelho estava destruído, mas não como um objeto que simplesmente quebrou. Aquele estado tinha algo de violento, como se tivesse sido ferido, agredido de forma deliberada.

Dei passos trêmulos para trás, movida muito mais pelo instinto do que por qualquer raciocínio coerente. Estava pronta para correr, abandonar aquela casa e fugir daquele pesadelo absurdo no qual eu mesma tinha me enfiado por pura curiosidade estúpida.

Foi então que ouvi passos.

Passos leves, precisos, frios em sua essência.

Eles se aproximavam.

Cada vez mais.

Implacáveis.

E cada passo atingia minha alma como em um golpe direto, esmagador.

Os passos continuaram.

… e eu simplesmente não aguentei mais.

Tentei engolir o pânico, ou ao menos empurrá-lo garganta abaixo, e me virei de uma vez, no reflexo rápido de um gato aterrorizado, só que muito mais traumatizado, pronta para encarar seja lá quem estava ali.

E então… eu vi.

















































...
Uma silhueta.
Um homem.
Adulto? Sei lá… adulto demais pra ser inocente, jovem demais pra ser sábio.
















































Ele pisou no papel que eu tinha deixado cair.
E, quando seu pé tocou o chão, inclinou o rosto com uma tranquilidade irritante, parecendo estudar meu próximo erro.
Cinco segundos depois, o papel simplesmente implodiu numa explosão grotesca de sangue, respingando pelas paredes estreitas do corredor.
Ele ergueu o olhar novamente para mim e sorriu
Um sorriso torto, perturbador... e tragicamente familiar.
















































...
Eu reconheço.
















































Eu reconheço essa sombra.
Eu reconheço você.
Esse seu contorno maldito me é mais íntimo do que deveria.
















































O que você tá fazendo aqui?
O que exatamente veio buscar?
Não precisa responder, eu já sei.
Ou acho que sei.
Ou me convenço de que sei, o que, no fim das contas, dá na mesma.
















































Ah, sim... eu lembro.
















































Lembro de cada detalhe apodrecido da sua presença, de cada fissura que você abriu em mim.
Lembro de como me tratava como quem trata um objeto sem nota fiscal: usável, dispensável, esquecível.
Você exalava desprezo como quem respira.
Automático, contínuo, sem a menor sombra de culpa.
















































E eu fico me perguntando: será que eu merecia aquilo?
Hah. Claro que não.
Mas, vamos lá, isso importa pra você?
Desde quando mérito funciona como escudo contra gente como você, não é?
Você, esse poço seco que tenta fingir que transborda alguma coisa.
Amor, talvez?
Respeito? Por favor. Nunca foi sobre isso.
















































E agora você retorna. Outra vez.
Se aproximando como quem não aprendeu nada.
Como quem sempre acreditou que eu continuaria imóvel, frágil, esperando.
















































Eu podia fingir que não sei sobre as suas intenções, podia me enganar, criar uma ficção bonita pra aliviar a tensão... mas, sinceramente?
Conhecendo você tão bem quanto conheço, fica impossível não adivinhar com clareza o que tá fervendo nessa sua cabeça torta.
















































... Vai embora, por favor.
Ou melhor: vai embora antes que eu esqueça de pedir com educação.
Porque, sinceramente, já tô cansada de ser educada com quem nunca soube sequer o que isso significa.
















































Acordei num sobressalto, daquele tipo que faz o coração pular no peito, como quando você sonha que está caindo. A diferença é que, desta vez, eu não estava caindo coisa nenhuma.

Já estava no chão. Estirada. Largada como um boneco esquecido. No meu próprio quarto.

Beleza... mas... por quanto tempo eu apaguei?

Minutos? Horas? Vai saber.

E, claro, a pergunta de sempre: como diabos eu vim parar aqui?

Essa é clássica. Toda vez acordo como se fosse a primeira, fingindo surpresa diante de um cenário que denuncia tudo por si só, basta olhar o caos espalhado pelas quatro paredes.

Um gemido escapou, involuntário, meio humano, meio bicho ferido. Cada músculo do meu corpo latejava de um jeito quase pessoal, como se quisesse me lembrar de uma dívida que eu nem lembro de ter contraído.

Tentei me levantar. Devagar, porque, honestamente, qualquer movimento exigia uma negociação diplomática com a dor.

— Merda.

O meu quarto estava uma calamidade. Parecia que alguém tinha detonado uma bomba emocional ali dentro. Ou talvez... seja só o retrato fiel de quem vive aqui.

Tudo fora de lugar.

Como eu.

Com as pernas bambas e a cabeça vacilando entre a consciência e o delírio, me deixei cair na cama. Um grunhido abafado escapa — porque, claro, a dor resolve intensificar só pra deixar claro quem manda.

— Péssima ideia, sua idiota. — penso, rindo por dentro, chorando por fora, ou o inverso. Nem sei mais.

Viro o rosto com esforço e encaro o relógio:

19:33 da Noite.

É, acho que realmente dormi até demais.


◀ Retornar