Música
Hoje vai rolar um rolê e a Ashley me chamou pra ir. Eu disse que eu queria ir? Não. Eu nem dei uma resposta definitiva, só falei que ia pensar. Foi uma saída estratégica só pra escapar daquele interrogatório sem fim, cheio de perguntas repetidas e 1000 juras que soavam mais como obrigações disfarçadas.
A real é que, no fundo, pouco importa o que eu fosse escolher. Ashley daria um jeito de me arrastar pra isso de qualquer maneira.
"Huh?"
Um som discreto me tira dos meus devaneios. Olho pra minha mesa, onde o celular vibra, era mais uma notificação piscando, me puxando de volta pra realidade.
Era uma mensagem, e, curiosamente, de alguém que eu nunca tinha visto na vida. Não tinha um nome conhecido, muito menos uma única foto familiar. Apenas um número aleatório iluminando a tela do meu celular com toda a banalidade do mundo.
Por um momento, fiquei encarando a notificação como quem observa um animal desconhecido na floresta. Poderia ignorar, claro. Mas alguma coisa me fez desbloquear o aparelho. Talvez fosse o tédio, talvez aquela curiosidade idiota que insistia em aparecer quando eu menos precisava. No fim, já estava feito.
Eu juro que ainda mato a Ashley, cara.
Eu já falei 900 vezes pra ela parar de sair por aí distribuindo meu número que nem panfleto de pizzaria. Mas NÃÃÃÃÃÃÃO, né? Parece que a filha da puta tem o cérebro completamente liso, sem uma ruga de bom senso sequer.
Agora, graças à minha queridíssima amiga, terei que me arrastar pra fora da minha zona de conforto pra aguentar gente gritando no meu ouvido e, claro, lidar com esse tal de Jeffrey, que, vou te contar.. sei não.
O sujeito já chegou com uma energia meio suspeita, e eu sinto que ele fez questão de deixar as intenções dele no ar, mas ainda assim muito bem perceptíveis. Ou não, né? Talvez eu só estivesse paranoica, como sempre. Vai saber. Mas, de qualquer forma, a tortura social só começa às 20h, então até lá, tento não fritar minha cabeça com isso.
Enquanto isso, o meu dia foi o mais irrelevante possível. Fiquei basicamente vegetando na frente do computador, navegando por esse universo imprevisível chamado "Internet". Rolei por alguns posts que, honestamente, me fizeram questionar se estou mesmo certa em manter minha existência nesse tipo de rede social. Cada publicação me fez sentir a minha inteligência escorrendo pelo ralo.
Depois disso, acabei me rendendo a vídeos de gatinhos. Sim, eu gosto de gatinhos. E não, eu não tenho nenhuma vergonha disso. Considero eles perfeitas entidades peludas que dominarão o mundo e eu vou apoiar, pode ter certeza disso!
Agora, nesse exato momento, estou assistindo meu programa favorito. A personagem principal está prestes a receber uma rosa de alguém misterioso. Ainda não consegui identificar quem é, mas a cena tá tão fofa que eu praticamente derreti aqui. Gameeeeiii!
Ugh, credo. Acho que tô virando uma nerd socialmente desajustada, mas à minha própria maneira. Blerg.
O jeito como esse programa trabalha os significados por trás das pequenas ações... sério, é brilhante. Cada episódio parece entregar uma mensagem filosófica, ainda que venha disfarçada de romance bobo.
Agora, falando em bobo… tô com fome.
Vou ali fazer uma lasanha. Isso sim é decisão inteligente.
3 HORA DEPOIS
HORA DE SAIR
Deu o horário. Era hora de sair.
Me arrumei com uns 20 minutos de antecedência, o que já é um milagre considerando meu histórico de procrastinação crônica. Mas preferi isso a sair correndo como uma alma penada e chegar lá toda fodida.
Quando cheguei no ponto de encontro, o meu ILUSTRE “clube da esquizofrenia social” já estava todo reunido. Sim, eu fui a última a chegar, tradição é tradição. Fui recebida calorosamente, no estilo peculiar daquele grupo que, de alguma forma, ainda me suporta.
Rolou aquele tradicional “bate aqui!” coletivo com quase todos, menos com a Ashley, claro. Ela, sendo apenas ela, correu igual uma doida pra me abraçar com tanta empolgação que acabou me jogando com tudo no chão.
Machucou pra caramba, mas pelo menos teve a decência de me levantar do chão, mesmo que rindo igual uma pateta da minha situação.
A segunda exceção foi o Jeffrey, que, pelo visto, já parecia estar cheio de moral com o resto da galera. Eu só não devia saber disso ainda. Digo isso porque ele, ao chegar em mim, se achou completamente no direito de passar a mão no meu cabelo, me tratando como um gato de rua que ele acabou de adotar, enquanto ficava me dizendo coisas casuais como:
“Oiii! Tá de boa?”“Cê lembra de mim ainda, né?”
“Tá bonita, hein! Cortou o cabelo?!”
Tudo com uma animação que ele não parecia fazer nem questão de esconder. Eu não tava esperando nada além do pior vindo dele, considerando a nossa interação de mais cedo, Mas aquilo? Aquilo foi pior do que eu pensava.
Foi a gota d'água.
Eu reagi praticamente no automático, dando um tapa forte na mão dele que fez ele se afastou na hora, resmungando de dor. Eu só virei o rosto pra qualquer direção que não fosse a cara dele, porque se eu olhasse por mais um segundo, eu provavelmente iria ser presa.
O grupo, claro, caiu na gargalhada como se já esperasse por isso. Eles já se acostumaram bem com minha aversão a contato físico. Mas Jeffrey claramente não recebeu esse memorando. Ele ficou ali, meio sem graça, tentando processar o tapa e minha fúria repentina. Mas honestamente? Ele que lute.
Depois de superada a recepção nada convencional, começamos a discutir pra onde ir.
Jellie nos recomendou ir até a um fliperama.
Hmmmm, interessante.Ash deu a ideia de irmos tomar um banho de spa.
Ééé... Nem fodendo?Kenda deu a ideia de irmos pra um karaokê.
Eu vou me matar.Jeffrey, com os olhos virados em mim, nos aconselhou a ir até um restaurante
Alguém me tira daqui.
Mas é claro que Ashley teve a melhor ideia de todas: fazer absolutamente tudo. Spa, fliperama, karaokê, restaurante, pular de paraquedas, reconstruir o Egito Antigo, sei lá. Se deixasse, ela fazia um cronograma com direito a planilha no Excel.
Resumo da noite? Prático e direto:
Começamos no fliperama. Jogamos horrores, literalmente. Fomos todos humilhados pela Jellie, que, aparentemente, nasceu com um chip gamer embutido no cérebro. A mulher não errava uma jogada. Enquanto isso, eu mal conseguia entender em qual botão apertar. Mas valeu pela diversão e pela catarse de descontar minha frustração nas máquinas.
Depois, seguimos para o tão falado “momento de relaxamento” no spa. E aqui eu preciso abrir um parêntese gigantesco: quando digo que tomamos banho de spa, entenda as aspas. Eu mesma fiquei a quilômetros de distância da possibilidade de tirar qualquer peça de roupa e entrar naquela poça fervente cheia de corpos alheios. Preferi manter minha dignidade intacta e ficar sentada, enrolada em mim mesma e no meu senso crítico.
A terceira etapa do pesadelo foi o karaokê. A tragédia começou assim que o Jeffrey me estendeu o microfone como se estivesse me oferecendo um punhado de veneno. Mal consegui segurar o aparelho sem tremer. Quando a música começou, minha voz resolveu me trair de todas as formas possíveis: falhou, sumiu, engasgou. Não consegui cantar nem dois versos.
Resultado? Saí correndo pro banheiro e vomitei. Glamour zero. Trauma cem.
E então veio a parte final da jornada: o famigerado restaurante. Dizer que foi a mais torturante talvez soe dramático, mas não estou exatamente buscando ser razoável aqui.
A comida até que estava ótima, e o refrigerante caiu bem. A verdadeira tortura foi psicológica, personalizada e servida em forma de Jeffrey, que insistia com aqueles diálogos que não levavam a lugar nenhum. Ele passou o jantar inteiro falando coisa com coisa, um fluxo ininterrupto de frases desconexas, piadas internas que só ele entendia e uma tentativa desajeitada de criar intimidade que me causava vontade de me atirar pela janela.
E o pior é que ele já vinha fazendo isso desde o início da noite. Parecia uma criança de sete anos apaixonada tentando esconder seus sentimentos de forma absolutamente fracassada.
Sério, era só ele olhar na minha direção e dizer logo:
“Ui Misskaaa, eu... eu eStOu ApaIxONADooo”
Fala de uma vez, cacete! O “não” você já tem, criatura. Para de me torturar com esse teatro bizarro.
Enfim, agora estou de volta ao meu habitat natural: minha casa, meu silêncio, minha sanidade (mais ou menos intacta). E eu torço, com todas as forças do universo, pra nunca mais ter que interagir com aquele ser novamente.Mas, claro, sei que isso é pedir demais. Afinal, ele é “um dos nossos” agora.
E isso, meus caros, é o verdadeiro terror.
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