UMA DATA LEGAL

16h34 PM.

Hoje foi um daqueles dias que mereciam ser apagados da existência, sabe? Tipo, arrancados da memória com uma lobotomia ou sei lá, uma praga pesada que levasse junto todo esse inferno.

Quer saber o que rolou? Beleza, senta aí.

A desgraça começou logo que eu abri os olhos. Se eu soubesse o que tava por vir, tinha ficado na cama e pedido pra ser atropelada por um trem enquanto dormia. Enfim, levantei, tomei um café amargo pra combinar com o humor e resolvi ir ao mercado. Fome, né? Me arrumei de qualquer jeito e parti. Tudo certo até aí, não é? Pois é, até que tava.

Saí do mercado com as sacolas e comecei a andar pra casa, só que aí o universo resolveu mostrar o dedo do meio pra mim.

Percebo um carro vindo a todo vapor em minha direção, como se tivesse fugindo do apocalipse. O motorista estava fora de si no volante, claramente mais bêbado que o capeta em open bar. Hah, regras de segurança para quê, né?

Bem, a sorte é que eu fui mais rápida e consegui saltar longe o suficiente para não virar patê de gente e... Pera, NÃO NÃO NÃO NÃO!

Olhando para trás, estava uma garota distraída olhando aos arredores do lugar. Em poucos segundos, ela percebe o carro em sua direção. Eu tento correr o mais rápido que possso para tentar salvar a garota, mas eu claramente não era rápida o suficiente e estava ainda muito longe dela.

— PARA, PARA! CÊ VAI ATROPELAR EL- — Eu exclamo, porém já havia sido tarde mais.

Eu tapei meu rosto para não ver a cena, mas eu já tive a plena certeza de que o carro havia atingindo ela, meu corpo tremia de desespero e, com muita força, tentei olhar para a cena e... Ela estava bem?

— Ei! Olha por onde anda ô marginal! — A garota grita para o motorista dentro do carro, colocando as duas mãos em sua cintura de maneira "cômica", lembrando alguém que acabou de derrubar um moleque no recreio.

É o que?.. O impacto do carro parece não ter feito nada com ela. O impacto aparentava ter causado mais estrago no próprio veículo do que na própria garota.

Sem a menor cerimônia, ela marchou até a janela esquerda do motorista, os olhos faiscando de irritação.

— E aí, meu irmão? Tá tentando matar a protagonista? Nunca viu um desenho, burrão? — Ela provocou, juntando as mãos acima da cabeça e descendo em um movimento dramático. E então, do nada, um arco-íris cintilante se formou sobre ela, e no meio das cores brilhantes, a palavra "DESENHO" apareceu, cada letra se espalhando no espectro como um efeito de animação bizarro.

Protagonista? Do que ela tá falando?

Minha linha de raciocínio foi quebrada ao ver que, de dentro do carro, o motorista havia sacado uma espingarda, apontando-a no nariz da garota, que ficou em choque imediatamente.

— Éééé.. hehe! Vamos conversar? — Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, o motorista saiu do carro e a agarrou pela gola, a espingarda ainda colada no rosto dela, deixando claro que a situação tinha ido direto pro inferno sem escalas.

— Tá pensando que pode destruir meu carro assim e safar, sua peste!? — O homem grita, chacoalhando a garota com moderada força.

A tontura faz com que as pupilas da garota se transformem em um "zigue-zague", ela dá leves murmúrios devido a tontura.

— Calma, moço! Por favor, se acalma! Ela é só uma criança! — Eu tento dialogar com o homem, que olha pra mim com um sorriso sádico, fazendo eu engolir em seco.

— Mamãe, eu quero sorvete.. — Ela diz, desconcertada por conta da tontura, porém rapidamente retoma a consciência balançando sua cabeça da esquerda pra direita em grande velocidade e, assim, olha para mim com um semblante de dúvida. — Ehmmm, na verdade, eu tenho 20 anos!

— Quieta! — O homem aplica mais força na espingarda perto do rosto da garota. — ... Agora, irei contar até três, e, após isso, miolos serão estourados!

O homem diz, agora colocando a arma na testa da pobre garota, pondo o dedo no gatilho, pronto para atirar.

— 1... — O homem inicia a contagem.

— Você não entende! Tenha dó, moço! Pense na sua humanidade, pense na solidariedade! — A garota exclama em desespero.

— 2...! — O homem prossegue, seu sorriso se alargando até as orelhas.

— PENSE NOS GATINHOS! — A garota cobre o rosto com as duas mãos, em uma inútil defensiva.

— TRÊ—.. — O homem congela sua contagem. — Oh, os gatinhos? Hmmmm..

O homem olha para cima, colocando a arma em seu queixo enquanto começa a pensar, a cima da cabeça do homem, materializa-se uma espécie de balão de nuvem, com várias imagens de gatinhos fofos aparecendo dentro do mesmo.. Mas que merda que tá acontecendo, meu Senhor?

— Hmm, nah! — O homem mira a testa da garota novamente e atira.

— NÃÃÃÃO! — Eu grito, desesperada e tremendo.

Uma onda densa de fumaça surgiu ao redor da cabeça da garota, e seus braços, que antes estavam levantados na tentativa de se proteger, caíram, moles e sem mais forças. O homem, sem piedade, largou o corpo dela no chão e saiu correndo, fugindo dali, numa pressa desesperada, como quem tem a própria vida em jogo.

Quanto a mim, só consegui me aproximar do corpo dela. Não consegui pronunciar uma palavra. Apenas lágrimas escorriam sem parar, e uma sensação de culpa pesava sobre mim, um peso impossível de carregar.

— M-Me.. D-Desculpa.. — Eu caio de joelhos frente ao corpo dela. — E-Eu não consegui te..

— A-A-AAAAAAHHHH! ME AJUDAAAAA! — Eu olho para frente ao ouvir o grito, perplexa.

— O-O que...? — Eu olho a cena, minha mente? um deserto de pensamentos que não consigo organizar vendo aquilo.

A fumaça se dissipa do rosto da garota, revelando que a cabeça da mesma estava girando em um 360º perfeito repetidas vezes. Conforme o tempo foi passado, a cabeça da mesma estava girando tão rápido que começou a girar seu corpo inteiro junto e, devido a isso, começou-se a deslocar enormes volumes de ar para onde a mesma estava.

Ela estava criando um furacão.

— NÃO CONSIGO PARAAAAAAAAAAAAAAAAAR! — A garota grita.

E então, sem qualquer controle, ela começou a se mover para longe, levando tudo que estava pelo caminho – carros, árvores, o que estivesse ao alcance de sua força descomunal. A velocidade aumentava, e o caos se espalhava como uma onda de destruição. Logo, avista-se o mesmo homem que antes havia atirado na garota.

Ele vira-se para trás, e seus olhos se arregalam ao extremo, com seu queixo caindo aos chãos ao ver o furacão vindo exatamente em sua direção.

— Dancei. — Ele empina seu boné com uma tentativa desesperada de se manter tranquilo.

O furacão consome o homem, que obviamente morreu devido aos destroços dentro do mesmo. Passou-se uns 20 minutos de pura destruição da garota e, aos poucos, eu conseguia ver ela se aproximando novamente de mim.

— Merda! — Eu grito para mim mesma, e quando eu me preparava para correr para longe de lá, eu ouço a garota gritando para mim:

— AH! O BOTÃO! — Sua voz, distorcida e abafada pelo furacão ecoa pelo local.

— UHHH!!?.. O QUÊÊÊÊÊ?? — Eu grito de volta, esperando uma resposta imediata dela.

— O BOTÃO! AÍ NO CHÃO! APERTAAA! — Ela grita, dessa vez mais alto.

Eu olho para baixo, avistando o botão que ela havia dito, nele, estava escrito a caneta permanente em uma fita a palavra PARAR. Eu corro em direção do mesmo e o pego, porém, eu olho para frente e o furacão começou a me consumir, me sugando para dentro do mesmo.

Dentro do furacão, eu começo a girar freneticamente em sintonia com o furacão e, em meio a gritos de desespero, eu acabo soltando o botão, fazendo-o se perder em meio ao furacão.

— MERDA! — O desespero aumenta devido a minha tamanha burrice.

Já tinha aceitado que ia virar um smoothie de furacão, mas, então, algo estranho aconteceu. Eu pude ver a garota resmungando algo após eu ter perdido o botão.

— Ughhh, mas é muita burrice. — Ela diz e, de alguma forma, consegue cessar os giros do corpo.

Ela retira um papel e um lápis, não me pergunte de onde, e começa a escrever algo no papel. Obviamente não pude identificar de primeira, mas ao menos, essa escritura fez com que o furacão simplesmente sumisse. Sim, ele simplesmente sumiu, sabe quando algo some do tipo SUMIR SEM EXPLICAÇÃO? Então, foi o que aconteceu com esse furacão.

— ISSSOOOOOO! IIHUHUUUU! CONSEGUIMOOOOS! — Ela comemora infantilmente, fazendo várias acrobacias impossíveis aleatoriamente.

Mas espera, se o furacão parou, isso significa que...

— Hmmmm, é, fodeu. — Ela diz, olhando para baixo, estávamos a uma distância SUPER longa do chão.

E assim, começamos a caír á uma velocidade insana. Eu e ela estávamos nos abraçando enquanto gritávamos desesperadamente.

— O QUE VAMOS FAZER? — Eu pergunto em meio a soluços desesperados.

Ela, depois de muito pensar, de repente retira um colchão das costas.

— Aqui! Vou colocar esse colchão em baixo de nós duas, vai amortecer a queda! — A garota diz. — E assim, ESTAREMOS SAL—

Sua frase foi interrompida. Havíamos caído com tudo no chão, nem havíamos percebido que já estávamos tão perto assim, meu corpo todo tava doendo pra um senhor cacete.

Eu, com MUITA, mas MUUUUUUITA força, eu consigo levantar meu rosto, que antes faltava se tornar parte do solo. Logo, eu ouço um som, parecia de uma folha de papel caindo, eu direciono lentamente meus olhos para cima, e confirmo minha hipótese, a folha caiu e descansou no meu rosto.

Eu pego o papel do meu rosto, e começo a ler, nele estava escrito:

"PARAR FURACÃO"

— T-Tá querendo me dizer que... V-Você simplesmente escreveu em uma p-papel pro furacão parar.. — Eu tento me levantar, mas meu corpo tava literalmente destruído. — E o furacão.. Aii! Simplesmsnete parou?..

Ela não responde verbalmente, mas levanta a mão fazendo um sinal "joinha" com a mesma e, logo em seguida, deixa a mesma cair ao chão novamente. Sabendo disso, eu relaxo meu corpo no chão de novo.

— Ugh, que idiotice.. E-Eu também não tô nem aí. — Eu levanto meu rosto de relance. — Meu corpo tá todo dolorido.

Quando eu termino minha frase, meus olhos são recepcionados por uma luz branca intensa e ofuscante, e o som constante de bipes eletrônicos preenchia o silêncio do lugar. O cheiro característico de desinfetante me atingiu e, dando uma leve olhada pelo lugar, consegui confirmar que eu simplesmente estava em um hospital.. Tipo? Do nada?

As paredes da sala eram brancas, limpas e frias, nenhum som vinha da parte de trás da porta da sala, parecia até que eu estava sozinha. Como eu vim parar aqui?

— Hmmm, vejamos. — A garota entra na sala, segurando um bloco de notas, fazendo anotações sobre alguma coisa.

Algo agora parecia diferente nela, ela parecia bem mais alta do que na última vez que eu a vi. Ela, agora, olha para mim com um olhar sério, endireitando seus óculos enquanto anda calmamente á esquerda da cama em que eu estava.

— Vejamos, como você está, Miska? — Ela pergunta, esperando uma resposta enquanto preparava sua caneta para anotar em seu bloco de notas novamente.

— ... C-Como você s-sabe o meu nome? — Eu indago.

Ela aperta o botão da caneta algumas vezes, olhando para o bloco de notas.

— Hmm, vamos lá, sua nota diz que seu nome é Miska Vestergaard, tem 17 anos e está sofrendo com severas fraturas externas que vão desde o torso até os membros inferiores. — Ela diz. — Felizmente, seu crânio resistiu ao impacto.. De alguma maneira.

Ao terminar de ouvir suas palavras, dou uma leve examinada no meu corpo: Ele estava todo engessado. Ao desviar meu olhar do meu corpo, vejo a garota agora desenhando no meu gesso. O desenho era uns rasbiscos bem mal feitos tentando formar a sua própria imagem, em baixo havia uma mensagem escrita:


"MISKA PASSOU POR AQUI!!! XDDDDDDDDD"

...

... Mas como assim?

— Espera, qual é o seu nome? — Eu pergunto, em busca imediata de uma resposta.

A garota olha pra mim de relance, jogando um peixe imediatamente de volta ao seu aquário, ela tava brincando de falar com ele. (?)

— A-Ah! É.. Meu nome é Miska Vestergaard, senhora. — Ela.. digo, Euuu (!!??) digo?

Ao ouvir a declaração dela, eu não fiz nada a não ser ficar olhando para ela sem fazer qualquer movimento.

Os bipes eletrônicos aumentaram a velocidade a cada segundo que se passava e, assim, o monitor cardíaco explodiu.























em ARCO-ÍRIS

O monitor cardíaco explodiu em ARCO-ÍRIS























Espera, o que?

QUE FOI??

NÃO PODEMOS MOSTRAR CENA VIOLENTA!!

Mas você...?

Você...

























...



















N aㅤ c a s aㅤ d eㅤ K e E e E e n D A a A a

PARAAAAAAAAAAAAAAA!





















— Então, tá querendo me dizer que você simplesmente se encontrou com você mesma e que esse seu "eu" simplesmente foi lá e fez a louca? — Kenda pergunta.

— Aham! Aham! — Eu digo, aflita, mas Kenda e o restante não pareceu acreditar em mim.

— ... Olha, grupinho secreto da conversa! — Ashley diz.

Eu, Kenda, Jellie, Ash e Ashley formamos uma roda, colocando os braços um ao redor do pescoço um do outro.

— Olha, Miska, eu acho que essa anti-socialidade tá te matando por dentro. — Ashley sussurra.

— É, tipo.. Blarg! Uma Miska diferente? Só temos uma e já tá ótimo. — Ash sussurra em concordância.

— Sinceramente, eu não ligo não, eu tava pra zerar uma fase muito importante e cês me foderam, caralho. — Jellie sussurra, revirando os olhos.

— Jellie, pelo amor de Deus.. — Kenda bota a mão na testa. — Não vê que estamos tentando.. Ver se isso que a Miska tá falando é papo pra hospício?

— Do que vocês tão falando? — A outra Miska pergunta, também aos sussurros.

— Ah, a Miska tinha dito que tinha visto um outro Eu dela, maluco, né- — Ash dizia, mas acabou por congelar sua própria sentença ao ver ela.

A segunda Miska, de algum jeito, entrou no meio da roda sem que nem percebessemos a sua presença, que, ao notarmos, olhamos para a mesma com um olhar de aflição. 10 minutos de posição estática depois, todos nós gritamos em pavor ao ver a segunda Miska.. Falar esse nome é tão estranho.

Ela gritou junto conosco, sem entender muito da situação.. Eu acho.

— SAI DA MINHA CASA, SUA PESTE! — Kenda avançou em direção da segunda Miska com um taco de baseball com pregos.

— EI, EI! CALMA! — Ela exclama, mas Kenda não queria ouvir.

Kenda tentava acertar ela de todas as formas, mas ela sempre se esquivava pulando de um lado da casa para o outro.

— Huff... Ngh... Que desgraça, é muito rápida! — Kenda diz, sucumbindo ao cansaço intenso. — Luta comigo como mulher, sua otária!

A outra Miska ouve o desafio de Kenda, que tenta entrar em pose de luta, mas claramente estava difícil devido á fadiga que estava sentindo. Porém, Miska deu de ombros.

— Tá bom. — Ela diz.

Ela, de algum lugar, retira um enorme estilingue junto com um óculos de natação, logo depois ela coloca o enorme estilingue em uma posição considerável, rapidamente vestindo o óculos de maneira cômica. Ela se prende ao elástico do estilingue, se pressionando para trás para pegar o máximo de impulso possível.

Ela sorri, seu sorriso era cômico como a de um desenho antigo.

— PREPARAR! APONTAR!... — Miska grita, em uma espécie de contagem regressiva, Kenda engole em seco, tentando se preparar para o que desse e viesse. — VAIIIII!

Ela relaxa no elástico do estilingue, o que a fez ser jogada em direção de Kenda em alta velocidade. Ela levanta os braços e começa a forçar seus próprios músculos.

— SUPER FORÇAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA! — Os músculos dela aumentam consideravelmente e, após isso, ela certa um soco de extrema força no estômago de Kenda, a fazendo vomitar sangue.

— KENDA! — Nós 4 gritamos vendo a cena.

Após isso, Kenda é jogada aos céus girando como um peão; devido ao impacto do soco, ela foi jogada tão longe que foi parar na literal lua. A força de impacto do corpo da Kenda gerou uma cratera em fiel forma ao seu corpo na lua, ela estava completamente fraca e imobilizada. Ela consegue força para conseguir ao menos um olho, nem que minimamente, para tentar ver o que havia acontecido.

— D-Droga.. — A voz de Kenda estava tão frágil que saiu apenas aos sussurros. — J-Justo p-pra lua...? Ai...




























— Xiiii.. Acho que exagerei! — Ela faz uma pose tímida infantilmente, desviando o olhar para qualquer canto com vergonha.

Eu, Jellie, Ashley e Ash olhamos com os olhos arregalados aos montes para ela.

— O que foi? — Ela pergunta. — Eu não sabia que seria tão forte!

— Cara... — Jellie abaixa a cabeça. — Isso... foi... DEMAIS! — Ela levanta a cabeça novamente, seus olhos brilhando em mil maravilhas.

A outra Miska se surpreende com a reação de Jellie, que correu em direção da mesma, abraçando a fortemente. Jellie abraçou com tanta força que a outra Miska acabou por se inflar como um boneco de borracha. Ashley e Ash também ficaram maravilhados e também andaram em direção dela, admirando sua aparência.

— Espera...! Cês.. Cês tão falando sério? — Eu tento impedir uma interação por que.. Né? Essa coisa é perigosa, mas eles nem se quer me ouviram.

— Own, mudezo! Você é tão bonitinha! — Ashley brinca com as orelhinhas de gato da outra Miska. — Eu vou te chamar de... de....

— Hmmm, ela tem a aparência de um desenho animado e é parecida com a Miska.. — Ash coloca a mão em seu queixo, tentando pensar em algum nome.

— Miska Cartoonesca! Que tal? — Jellie grita, declarando para todos na sala.

Sério, nome mais genérico e rídiculo não tem.. Mas fazer o que? Ela e o resto desses mongolóides aceitaram de boa, então quem sou eu pra negar, né?

— Isso é incrível! Uma Miska que toma banho e que faz esse monte de coisa incrível? É um sonho realizado! — Ash diz.

— Eu ainda tô aqui ô seu cuzão do caralh—!

— Aiiii, diz pra gente, como é que cê veio parar aqui, coisinha? — Ashley pergunta, interrompendo minha sentença.

— Beeeeem.. Vamos lá. — Miska Cartoonesca diz, agora retirando um óculos de suas costas. Ela pega seus dentes centrais e os estica consideravelmente para baixo, em seguida levantando seu dedo indicador. — É, na verdade, o multiverso pode ser imaginado como um "conjunto" de realidades paralelas coexistentes, cada uma com suas próprias leis físicas, constantes fundamentais, e estruturas espaciais e temporais.

o tom de Miska Cartoonesca era uma mescla do tom de um nerd de quinta série e um tom que tentava ser sério, mesmo que uma tentativa fracassada. Jellie pegou pipoca para nós seguirmos ouvindo a explicação dela.

— Essas dimensões podem ser espaços bolhas ou um multiverso inflacionário, definidas como regiões distintas do espaço-tempo, separadas por barreiras de energia; Branas da teoria das cordas, sendo universos "membrana" flutuando em um espaço maior ou dimensões quânticas paralelas! — Miska Cartoonesca acaba, de maneira repentina, perdendo o seu fôlego, porém ela inspira fortemente, recuperando seu ar novamente. — Essas podem ser uma interpretação de muitos mundos, ou seja, realidades divergentes criadas por escolhas quânticas ou eventos probabilísticos!

Jellie, Ashley e Ash pareciam estar compreendendo bem a explicação de Miska Cartoonesca.. Mas onde é que eles arranjaram essas roupas de cientista?

— Então, enquanto eu brincava de caçar marmotas, eu acho que eu acabei fazendo força demais ao bater a minha marreta no chão, a energia extrema deve ter rasgado a membrana entre branas e, assim, criou-se uma barreira energética separa as dimensões, a qual nós chamamos de portais! — Miska Cartoonesca agora estava vestida igualmente com um traje de cientista, mas não tirando aquele rosto rídiculo de nerd da cara, ao seu lado, havia um enorme quadro negro repleto de anotações e cálculos matemáticos aleatórios. Ashley, Ash e Jellie agora seguravam um bloco de notas para anotar tudo o que ela dizia. — Então, eu fui reconectada à estrutura quântica desse universo! E cá estou eu!

— Ehhhmm, explica de um jeito mais resumido? — Ash diz.

— Fiz merda e acabei parando aqui! — Ela olha para todos com um sorriso aos pés da orelha.

Os 3 batem palmas pra explicação dela, enquanto eu apenas passei a mão na minha testa, frustrada, me recusando acreditar que isso era uma coisa simplesmente possível. Miska Cartoonesca percebe minha reação e, então, se aproxima um pouco perto de mim, ela move a cabeça pra esquerda, logo depois move para a direita, parecendo estar analisando algo no meu rosto.

— Ehh.. Que que cê tá fazendo? — Quando eu termino minha pergunta, ela aponta para a minha bochecha.

— Tá escrito na sua cara. — Miska Cartoonesca aponta para a minha bochecha.

Eu olho para a minha bochecha, nela estava escrito, com tinta de caneta não permanente:

ME FAZ RIR!

— Mas o que? — Eu toco minha bochecha, com os três idiotas atrás da Miska Cartoonesca rindo da minha cara.

— Bem, amigos, eu acho que terei de ter uma conversinha a sós com o meu... Eu dessa dimensão. — Miska Cartoonesca diz, com um sorriso levemente maquiavélico.





















É, me fudi, vou me matar.

N Ã O

N Ã Oㅤ F A Zㅤ I S S O!



Será que dá pra você parar de atrapalhar a maldita da escrita do meu diário ô caralho?

































Agora, estou simplesmente em um parque de diversões, e o meu eu cartoonesco está simplesmente saltitando em frente à barraca de algodão-doce com a empolgação de uma criança em dia de promoção. Girava em círculos, ria sozinha e praticamente gritava para o universo que aquilo era o auge da existência. Uma completa caricatura... minha caricatura. Acreditem, isso tem 20 anos, exatamente, 20 anos de idade.

— Ei, usa isso! — Ela me entrega, com brilho nos olhos, uma daquelas caixinhas-surpresa com manivela. Sim, aquelas com um palhaço demoníaco dentro, feito pra te dar um mini-infarto.

— Tenho certeza de que você vai morrer de rir! — Completou, tratando aquilo como um presente mais precioso do que deveria.

Peguei a caixa com a resignação de quem já sabe que vai se arrepender. Soltei um suspiro longo e existencial, e comecei a girar lentamente a manivela. A musiquinha mecânica e levemente desafinada tocava em sincronia com cada giro, enquanto eu encarava o brinquedo como quem encara uma armadilha disfarçada de piada.

— Olha, não quero ser a chata que acaba com a sua diversão, mas... — Comecei, tentando me proteger psicologicamente da inevitável tentativa de susto — ...Eu não vou me assustar com iss—

A frase foi interrompida, claro. A tampa da caixa se abriu de repente, e de dentro saltou uma figura.

— BOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!! HAHAHAHAHAHA! — gritou o ser saído da caixa. Era um clone do meu eu cartoonesco. Sim, outra versão caricata e histérica de mim mesma, agora em versão miniatura e de mola.

Fiquei parada. Sem reação. Literalmente imóvel.

Por cinco segundos. Depois dez. Talvez trinta.

E então, meus olhos se arregalaram com lentidão dramática, seguidos de um suspiro longo, quase filosófico.

Desmaiei. Simples assim. Corpo inteiro no chão, como uma boneca de pano.

— Uhhh? Cê tá bem, garota? — Ouvi a voz da criatura elástica se esticando até meu rosto, visivelmente confusa com a minha completa falência neurológica.

































Uma Montanha-russa agora, lá vamos nós.

Escolhi meu lugar na fila e me acomodei no carrinho da atração. Atrás de mim, uma horda de adolescentes e crianças — cheios de energia e prontos pra se esgoelar — aguardava ansiosamente sua dose de adrenalina. Eu, por outro lado, estava ali por um motivo bem menos nobre: guardar o lugar daquela desgraça ambulante que disse “vou só no banheiro rapidinho” e sumiu como se tivesse sido engolida pelo encanamento. Que merda.

— TODOS A BORDO? — uma voz ecoou, e meu sangue gelou.

A voz vinha debaixo de mim. Literalmente.

Essa filha da puta de desenho travesso — aquela entidade bizarra de humor duvidoso e personalidade instável — tinha se fundido à montanha-russa. Ela era o carrinho agora. Simplesmente virou a própria estrutura da atração. Porque claro, por que não?

— VAAAAAAAAAAI! — Ela berrou, e num segundo o mundo virou um borrão em alta velocidade.

O carrinho — ou melhor, ela — disparou, deixando para trás não só a física, mas qualquer consideração básica por segurança. O grupo inteiro gritou. Curiosamente, de alegria. Sério. Os pirralhos estavam se divertindo enquanto eram quase desintegrados pelo ar.

A velocidade só aumentava. Subíamos, despencávamos, girávamos, e em algum momento viramos apenas uma faixa tremeluzente de cor e som. Um borrão animado. Um show de horrores pra mim, mas aparentemente um espetáculo de felicidade pra quem vinha atrás. Os cabelos dos moleques quase sendo arrancados do couro cabeludo e eles rindo como na melhor terça-feira da vida.

Quanto a mim? Gritando de puro desespero. O vento quase me tirando do carrinho, o corpo sendo prensado em todas as direções, enquanto eu implorava pra não virar estatística num jornal sensacionalista.

E então, após o que pareceram horas (mas foram só alguns minutos de insanidade em alta rotação), meu eu-cartoon decidiu que já era hora de desacelerar. Só que claro, do jeito dela. Em vez de frear com qualquer senso de delicadeza ou engenharia mecânica básica, ela simplesmente parou de uma vez.

Resultado?

Crianças e adolescentes foram lançados pra puta que pariu, provavelmente quebrando a quarta parede no processo. Eu, por alguma força divina (ou por mero sadismo do universo), fui a única que permaneceu no carrinho.

Ofegando, tremendo, com os cabelos parecendo que tinham passado por uma tempestade de relâmpagos, tentei recuperar o fôlego.

— Cê tem noção... cough — Pigarreei entre respirações — de que acabou de assassinar uma quantidade considerável de crianças e adolescentes, né?

Ela riu. Claro que riu.

— Quem disse que eles estão mortos? — Ela apontou pra uma clareira na floresta ao lado.

Lá estavam eles. Todos. Saltando num gigantesco pula-pula que parecia ter saído diretamente de um pesadelo colorido. Riam, pulavam, comemoravam. Alguns, claro, começaram a vomitar com intensidade surpreendente uns quatro minutos depois — o que, na real, parecia parte do ciclo normal daquele lugar.

— Humf.. Espera.. — Eu digo com dificuldade, pois senti meu estômago se virar.

Abaixei a cabeça pra fora do carrinho, pela lateral esquerda, e vomitei.