Thrauma repousava sobre a relva macia, parecendo parte intrínseca daquela paisagem. A grama, vibrante e perfeitamente aparada, não apenas sustentava seu corpo, mas curvava-se em reverência à sua presença, a terra parecia reconhecê-la como algo além do ordinário. Diante dela, flutuando com imponência, um holograma de proporções generosas projetava imagens com a nitidez de uma televisão de última geração, mas com uma aura sutilmente divina, dando a sensação de que a própria realidade ali estava sendo exibida em tempo real.
Ela assistia. Observava tudo. E o que via a corroía por dentro com um misto de indignação e repulsa. Era um espetáculo grotesco de decisões idiotas, de fracassos encadeados, e o mais ofensivo de tudo: o protagonista dessa desgraça cômica era ninguém menos que sua irmã. Seu reflexo distorcido.
— Ó Santa Ruína... — murmurou entre dentes, balançando a cabeça com lentidão, como quem lamenta a falência de algo que um dia teve potencial. — Como é possível, irmã de minha linhagem, seres tão desprovida do zelo por tua sagrada incumbência?
Com um suspiro profundo, pesado o suficiente para deslocar a própria atmosfera ao redor, Thrauma se ergueu com a postura de quem carrega mais do que o próprio corpo. A palmas secas, o holograma se dissolveu em partículas de luz, desaparecendo sem cerimônia. Ao virar-se para se retirar, foi surpreendida por uma presença repentina, e absolutamente indesejada.
A figura surgiu num pulo, tentando pregar-lhe um susto, como uma criança que não entendeu que o mundo já não gira em torno de brincadeiras. E claro, Thrauma sequer se moveu. Apenas lançou-lhe um olhar carregado de desprezo, daqueles que não precisam de palavra alguma para comunicar o quanto uma presença pode ser insuportável.
— Laetitia, tu me lanças ao abismo da decepção. — declarou, a voz dura como rocha, crua como uma lâmina sem polimento.
— Ah, rogo-te, não profiras tais palavras, irmã bem-amada! — rebateu Laetitia, fazendo uma pose exagerada, dobrando o braço como um personagem de desenho animado tentando parecer forte, o que só tornava a situação ainda mais ridícula.
— Sabes que este semblante que ora apresentas não é teu verdadeiro ser. — retrucou Thrauma, seus olhos cravados nos da irmã como se quisessem atravessá-la. — Gravai bem em tua mente: com tais atitudes, tu não fazes senão diminuir o esplendor que em ti foi divinamente plantado. Teu proceder pueril faz-me duvidar se o Altíssimo, em Sua perfeita sabedoria, não falhou ao conceber criatura tamanha em desrespeito a Ele.
Mas Laetitia, como sempre, permaneceu imune às críticas. Nenhum traço de tristeza, de culpa ou mesmo de dúvida apareceu em seu rosto. Ao contrário: ela simplesmente mostrou a língua, produzindo um som irritante com a boca, uma provocação barata, infantil, mas que teve seu efeito.
Thrauma franziu o cenho. Uma mistura de fúria contida e exaustão espiritual transpareceu em seu semblante.
— Hmpf.. vã e perdida. — sussurrou entre os dentes, virando as costas e começando a caminhar para longe. — Jamais serás digna da herança que repousa sobre teus ombros.
Seguiu em silêncio. A cada passo, tentava se afastar não só fisicamente, mas também simbolicamente da presença da irmã. No entanto, mal havia dado alguns passos quando sentiu um peso súbito sobre os ombros.
Era Laetitia. De novo.
Com um chapéu de caubói na cabeça e um sorriso travesso nos lábios, ela montava a irmã como se esta fosse um cavalo indomado.
Thrauma congelou. Seus olhos se arregalaram em puro horror diante do absurdo da situação.
— AFASTA-TE DE MIM, EM NOME DO ALTÍSSIMO, AGORA MESMO! — vociferou, lutando para se desvencilhar do agarro, mas Laetitia segurava firme, divertindo-se com cada segundo daquele espetáculo.
Laetitia, por sua vez, apenas deu um sorriso brincalhão para sua irmã e disse.
— Cavalos não proferem palavras, irmã.
Kenda diz...
Pelo amor de Deus, eu fiz merda! Eu não devia ter saído da lua! Eu tô vagando pelo espaço por horas!
... Olá?? ALGUÉM?!