Era pra desestressar

Era pra desestressar

Eu poderia muito bem começar dizendo que estava deitada na cama, rolando o feed do celular à procura da mais absoluta irrelevância para anestesiar meu cérebro exausto no fim do dia como eu sempre faço na esmagadora maioria das noites.

Mas, não, hoje foi diferente.

Eu não estava na cama.

Hoje, senhoras e senhores, eu tava deitada no chão frio, duro e hostil pras costas.

Aí você me pergunta:

“Por que é que você tava deitada no chão frio e duro, sua doente?”

E eu respondo com a maior serenidade de todas: porque eu quis, duh. É isso que um dia realmente cansativo faz com a gentem, ativa uma procrastinação onde qualquer superfície plana e minimamente horizontal é automaticamente um sofá de luxo.

O dia já começou horrível.

Trabalhei até ficar só o osso. E, para melhorar, precisei ouvir meu chefe reclamando de absolutamente tudo que você possa imaginar, inclusive de coisas sem sentido como um misterioso incidente envolvendo sorvete no escritório na sala dele. Não perca seu tempo me perguntando como ou por quê, porque eu também não sei e já aceitei que nunca vou entender.

Depois, fui obrigada a acompanhar a Jellie na compra de uma “miniatura” do Homem de Ferro que o Ash pediu. E quando digo “miniatura”, quero dizer o mesmo que uma estátua pesando o equivalente a um aluno de engenharia civil no último ano. Eu também não sei o por quê de ele ter pedido isso, mas eu cansei de entender esse cara. A única coisa que eu entendo é que aquilo não foi barato não, viu? Custou dois braços, um rim e provavelmente parte da minha alma.

E, como se pra testar ainda mais a minha paciência, terminei a noite acompanhando o Jeffrey num circo dos horrores. Ele queria ir “pra rir”. E eu até ri, não de medo, mas pela qualidade questionável das atrações, que pareciam ter sido arquitetadas com um orçamento de $37,50. O detalhe? O corajoso Jeffrey, que me arrastou até lá, implorou para ir embora no meio do show, alegando que estava com medo. M-E-D-O!

Sério, só faltou se agarrar no meu braço gritando “salva-me, ó heroína destemida!”

Dá pra acreditar? O cara começa com a bagaça mas é incapaz de terminar com ela, impressionante. Foi tão ridículo que me senti na obrigação de fazer com que ele acabasse aquele evento todo na marra.

Vai pro inferno! Ele queria simplesmente desperdiçar dois ingressos inteiros! Eu que não ia permitir tamanho crime econômico!

E agora cá estou eu: descabelada, exausta e com o estômago gritando por misericórdia. É, eu comi pizza até demais. Eu não deveria ter pedido tantas, mas olha, é tudo culpa das malditas promoções, tá? Elas me tentam muito!

Revirei os olhos com a força dramática de quem já desistiu de argumentar com o próprio destino, e comecei a me levantar do chão. Lentamente. Mais lentamente do que um elevador de prédio velho indo pro último andar. E, olha, com muito mais dor do que eu imaginava. Moral da história? Deitar no chão não foi exatamente a epifania existencial que eu achei que seria.

Lição aprendida… talvez.

Quando finalmente consegui ficar de pé, embora parecendo um dinossauro idoso recém-descongelado, comecei a me alongar com todo o cuidado do mundo. A ideia era simples: evitar que algum osso estalasse como pipoca no micro-ondas ou que um músculo revoltado gritasse ainda mais alto do que já estava reclamando.

Porém, no meio desse balé trágico, senti meu celular vibrar na mão. Suspirei com a resignação de quem já espera o pior e olhei de relance para a tela.

Era a Jellie.

“O que é que a peste quer agora, hein?”, pensei comigo mesma, já me preparando para encontrar qualquer coisa que fosse desde memes absurdos até piadas completamente fora de contexto, enviadas nos momentos mais inoportunos possíveis.

Abri a notificação e, sem enrolar, toquei no aplicativo de mensagens.

Comecei a ler.




NOVAS MENSAGENS
Jellie
22:56
UEEEEPA, mulher do céu! Bora jogar Roblox? Bó? Eu catei uns jogos que são a sua cara, juro! Tipo, tem de tudo: desde atravessar um corredor infinito cheio de portas suspeitas até defender torre com personagem de anime gritando mais que cadela na hora do sexo E não para por aí, viu? Também achei umas pérolas aleatórias tipo simulador de lavar roupa às três da manhã ss, isso existe n questiona E SIM eu joguei por mais tempo q eu deveria Ah, e n me vem fazer cu doce não, vem logo
Miska
22:56
mas eu nem tenho roblox.
Jellie
22:56
tá de sacanagem? eu pedi pra tu instalar isso tem mó tempão ô ameba preguiçosa tá mais desleixada que quando a gente foi pro brasil
Miska
22:57
primeiramente, balneário camboriú era muito bonito pra eu não me desleixar. e segundo, não precisa pagar de coach de vida. eu vou instalar. espera.
Jellie
22:57
eu acho bom mesmo tu sabe q eu vou te infernizar caso eu perceba enrolação.
Miska
22:58
não se preocupa, eu silencio. tá bom, tô só brincando. daqui a pouco eu aviso.
Jellie
22:58
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk se mata te amo


Eu já tinha visto uns poucos vídeos no YouTube de gente jogando esse jogo. E, olha, não posso mentir: tinha uns mapas que até pareciam bem produzidos, considerando que era Roblox e não, sei lá, a Unreal Engine em 8K rodando num PC da NASA.

Massss, sendo bem honesta, Roblox sempre me pareceu aquele tipo de prato do restaurante que você olha no cardápio e pensa: "Será que não tem outra coisa? Um pastel, talvez?" Era tudo muito… bobo. Não me prendia nem com supercola industrial.

Mas agora, bem, aparentemente chegou a hora de dar uma chance. Não é como se eu tivesse opção, na verdade. A Jellie vai me infernizar no WhatsApp, no Discord, no Instagram e, se bobear, vai mandar pombo-correio se eu não jogar.

Olhei pro meu computador, que já estava ligado (sim, também fui preguiçosa o suficiente para não o desligar), e caminhei até a cadeira com a velocidade de uma tartaruga deprimida. Sentei, dei aquele suspiro existencial e murmurei:

— Hm… fazer o quê, né?

Comecei a pesquisar sobre o jogo e como baixar.

Só espero que dessa vez não apareça nenhuma criatura do além, igual na vez em que eu joguei Minecraft. POR FAVOR, sério.

Cliquei no site, baixei o instalador. Foi rápido, coisa de uns minutinhos. Vantagem de ter internet decente: é como pedir comida e ela chegar antes de você fechar o iFood. Instalei o jogo, e aí sim começou o rolê: criar conta, inventar nome criativo (que obviamente já estava em uso), e finalmente me preparar para mergulhar nesse grande e com certeza super intrigante universo robloxiano.

E, meu amigo, a quantidade de jogos lá dentro é absurda. Tem aventura, drama, ação, tristeza, terror… e provavelmente uma simulação de como é ser uma geladeira (?). Fiquei descendo a página, buscando algo digno para minha estreia, até que achei um jogo chamado "Happy Home in Robloxia".



A capa do jogo era o equivalente visual de um “oi” sem emoção: uma casa simples, um parquinho tímido no canto esquerdo, uma trilha pavimentada indo em linha reta até a porta, e três árvores genéricas plantadas como se o designer tivesse dito “bota aí pra não ficar vazio”. Enfim, nada extravagante.

E sabe o que isso significa? Exatamente: simples, comum… perfeito!

Meu dedo já estava ali, prestes a clicar no glorioso botão de Play, pronto pra iniciar minha jornada épica rumo ao desconhecido. Porém, lembra quando eu disse “prestes”?

Pois é..

— MIIIIISKAAA, MEU DOCE! VEM AQUI JOGAR ESSAS CAIXAS DE PIZZA NO LIXO E O BOTE LÁ FORA, AGORA!

Era a minha mãe.

— Maaass mããããe, eu tô ocupada aqui! Não dá pra esperar um pouco, não?! — gritei de cima, sabendo muito bem que minha súplica tinha tanta chance de funcionar quanto eu ganhar na loteria sem jogar.

E, como esperado…

— Nananinanão, mocinha! Eu já disse que você tem que parar de pedir fast food e comer outra coisa! — ela rebateu. — Venha já aqui colocar isso pra fora, já!

Suspirei fundo. Levantei da cadeira, com passos arrastados, como se estivesse indo pra forca.

— Mas tava na promoção, mãe… — tentei murmurar, ainda agarrada a um fiapo de dignidade que claramente já tinha se esfarelado no chão.

E lá fui eu, refletindo sobre minha própria estupidez.

Ugh, que merda!

Eu REALMENTE não deveria ter pedido TANTA pizza! Parabéns, Miska… mais uma vez você conseguiu se colocar no papel de palhaça da própria vida.



































Uma BOOOOOOA limpeza depois..



































Ooookay, missão cumprida! Foi, tipo, um PESADELO levar toda aquela quantidade de caixas de pizza pra fora. Parecia que eu estava carregando provas criminais que precisavam ser destruídas antes que a perícia chegasse. Mas, no fim, valeu a pena: minha mãe me recompensou com um abraço gostosinho e dinheiro vivo pra comprar o que eu quisesse!

“Haaaaaaaahhh, no fim de tudo, eu me dei bem!”, pensei, saltitando pelo quarto com um sorriso tão idiota que dava pra usar como emoji. Me senti igual criança quando os pais compram aquele brinquedo que “era muito caro” até cinco minutos atrás.

E foi então, no auge da minha energia, que a memória me atingiu como um soco no meio do almoço: o jogo. Meu olhar girou dramaticamente em direção ao computador, que ainda estava ali, firme e forte, com a página do Roblox aberta, me esperando desde antes da minha "missão'' no mundo real.

Caminhei até minha cadeira com o olhar de quem ia encarar o destino. Sentei, encarei a tela e falei com a confiança de quem sabia que ia se arrepender:

— Tá certo, eu já tenho pra mim que isso vai ser quaaaase chato, mas.. não custa tentar! — Eu disse, um pouquinho mais determinada.

Cliquei no botão de Play e o programa do Roblox começou a abrir, com aquela clássica transição que parece dizer “prepare-se para algo incrível”… ou não. Mas, quando o jogo estava prestes a começar…

Tela preta.

O gabinete ainda estava ligado, piscando como se nada tivesse acontecido, mas o monitor… nada.

Tentei de tudo: mexer o mouse, apertar botões aleatórios, desconectar e reconectar cabos como se estivesse desarmando uma bomba em filme de ação.

Resultado? Zero.

Monitor: 1.

Miska: 0.

Suspirei fundo, olhando para o vazio. Talvez fosse o monitor. Talvez fosse o computador. Talvez fosse o universo dizendo: “Menos Roblox, mais terapia.”

— Maravilha… — murmurei, levantando-me da cadeira na velocidade de um idoso levantando do sofá depois de maratonar três novelas. — Parece que a Jellie vai ter que esperar até eu… levar meu computador pro conser—

Não terminei. Porque foi exatamente aí que, do nada, uma onda de raios saiu de dentro da minha tela. Não é nenhuma metáfora poética, eram raios de verdade.

E não foi bonito. Nem engraçado. Foi perturbador… e dolorido. MUITO dolorido.

Os raios me acertaram em cheio e eu gritei, me contorcendo igual personagem de desenho animado tomando choque de tomada mal colocada. Foram uns oito segundos eternos, e, sim, eu contei mentalmente, porque quando você tá sofrendo, seu cérebro acha que é boa ideia fazer coisas inúteis.

Quando acabou, meu estado físico poderia facilmente virar uma figurinha de WhatsApp: cabelo arrepiado como se tivesse acabado de sair de um secador industrial, roupas todas amarrotadas, e minha pele num tom “cinza carvão”.

Respirando como se tivesse corrido uma maratona, ainda senti alguns espasmos elétricos nos dedos. E, claro, porque o instinto humano é estúpido, eu tossi. Por quê? Não sei. Talvez meu corpo tenha pensado: “Se tossir resolve quando engasga, deve funcionar pra choque elétrico também.”

— Claro… era só disso que eu precisava mesmo. — resmunguei, sacudindo o corpo igual cachorro tirando água do pelo. Em questão de segundos, já estava “ok” de novo, como se nada tivesse acontecido. (Entre aspas, porque, né…)

Então, olhei para o computador. Confusão e… choque. Sim, trocadilho intencional.

— O que que… aconteceu? — perguntei para mim mesma, me aproximando da tela com cautela.

Cheguei perto o bastante para sentir aquele frio na espinha, e outro raio veio, tão rápido quanto o primeiro, me atingindo em cheio. Mas dessa vez, não foi só dor.

Eu simplesmente comecei a cair.

— Q-QUE PALHAÇADA É ESSA?! — gritei, tentando manter a compostura (falhei miseravelmente), enquanto olhava ao redor.

Tudo era escuro, mas com padrões brancos brilhando, como se estivessem carregados de energia elétrica. Pareciam nervosos, crepitando ao meu redor… e não, eu não iria encostar neles nem sob tortura.

Perfeito.

Absolutamente perfeito.

Era só o que me faltava.
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