Algum lugar em Robloxia...

Algum lugar em Robloxia...

Eu despencava do céu aos berros, já com a certeza inabalável de que o impacto era questão de segundos. Instintivamente, coloquei os braços na frente do rosto, na esperança de que isso impedisse que eu me transformasse em purê humano. O quê? Você achou que eu ia ter algum tipo de plot armor salvador, como 'voar no último segundo' ou 'ser pega por um dragão pixelado'? Nah, desista.

Eu caí com tudo mesmo.

E, claro, fiquei estatelada no chão por uns bons segundos, gemendo e me contorcendo de dor. Enquanto isso, lá no céu, dava pra ver um portal, provavelmente o mesmo que tinha me sugado e cuspido aqui.

Parecia tão tranquilo flutuando lá em cima, como se não tivesse acabado de arruinar a minha coluna.

— A-Ai... e-essa... d-doeu... m-merda... ai! — murmurei, com a voz fraca, cada sílaba pesando como um halter de academia

Levantei uma mão na direção do portal, meio que numa tentativa dramática e totalmente inútil de “puxá-lo pra mim”. E foi aí que percebi algo que apagou minha dor mais rápido do que analgésico de hospital.

Meu braço... tava RETANGULAR.

— O QUE? MAS QUE PORRA É...

Num surto instantâneo, me levantei e comecei a apalpar meu corpo inteiro, tentando confirmar se minha pele ainda era pele.

Mas não era.

Era tudo quadrado.

Retangular.

Um kit completo de formas geométricas do pesadelo. Minha cabeça, pelo menos, era cilíndrica, o que não sei se era consolo ou humilhação a mais.

E minhas roupas... ah meu Deus, minhas roupas. Pareciam que tavam coladas no meu corpo. Não tinham costura, não tinham textura. Era pura tinta de jogo infantil.



Eu me vi deitada nessa coisa quando me levantei às pressas. Parece um bloco achatado com um símbolo no meio.. sei lá, um sol? Uma estrela?

O chão também era todo esquisito, cheio de saliências retangulares repetitivas.

Isso quer dizer que..





























































... Ah, não.































































Eu já vi o mundo desabar na minha frente várias vezes. Mas ISSO? ISSO É O CÚMULO!

Como? Onde? Quando? E, acima de tudo, POR QUÊ? Por que isso tinha que acontecer? E, principalmente... POR QUE COMIGO?

Coloquei minhas “mãos”, que agora são dois blocos geométricos enormes, na cabeça e comecei a andar de um lado pro outro, num looping desesperado, sem a menor ideia do que fazer.

Como eu poderia saber? Eu literalmente virei um boneco do Roblox dentro da PORRA do Roblox.

E, pra completar o deboche, cada passo meu emitia um som esquisito de 8 bits. Para quem assistia de fora, provavelmente era engraçado. Mas pra mim? Era um pesadelo do qual eu queria acordar... se eu ainda tivesse dedos pra beliscar.

Respirei fundo. Tentei manter a compostura. Coloquei minha mão quadrada no queixo (sensação zero, mas a pose tava lá) e olhei pro alto, tentando raciocinar.

— Não! Não! Se acalma, Miska! Você só tá... HAHAHAHAAAAAAAAAAAAA! — e aí saiu uma risada histérica, involuntária, do tipo que denuncia que minha sanidade já tinha pegado um ônibus só de ida. — Você só foi puxada pelo seu computador e agora tá... no ROBLOX! HAHA! CLARO! Isso é super comum, né? Qualquer um passa por isso no meio de uma quinta-feira normal! Tá tuuuudo bem!

As palavras saíam num tom desesperado e sarcástico, intercaladas com risadas que pareciam a trilha sonora da minha queda mental.

Claro que não tava nada bem.

Eu só queria sair dali.

Eu queria minha mãe.

— Desculpa, mãe... nunca mais reclamo de levar lixo pra fora... só... — pausei, cerrando os dentes, os olhos e segurando os cabelos na tentativa de segurar minha sanidade. — alguém me tira dessa porra de lugar, PELO AMOR DE DEUS!

Foi então que, no meio do meu surto, eu escutei um som.. era uma música. Uma música pacata, comum, acho que típica desse jogo ou de algo envolvendo ele, sei lá. Eu só sei que foi o suficiente para fazer com que eu olhasse na direção de onde o som vinha.

Foi então que vi.. um homem?



Não, aquilo não era um homem. Quer dizer, tecnicamente era, mas na mesma proporção que um boneco de posto é um atleta olímpico. Obviamente, era um personagem do jogo: torso, braços e cabeça num amarelo gritante, pernas azuis e absolutamente zero detalhes que o tornassem memorável. Era praticamente a foto de passaporte do mundo do Roblox.

O cidadão estava deitado num cobertor de praia listrado de branco e azul, com uma limonada à esquerda e, à direita, um rádio (parecia mais uma caixa de sapato com botões). Notas musicais flutuavam acima do rádio, como se alguém tivesse achado que colocar emoji no ar fosse a melhor forma de explicar que ele estava tocando música.

Cenário perfeito para um dia relaxante na praia... exceto pelo pequeno detalhe de que NÃO HAVIA praia nenhuma. Será que alguém podia avisar ele?

Ngh.. o que que eu tô dizendo? Deixa pra lá.

De qualquer forma, talvez ele soubesse alguma coisa. Talvez.

Aproximei-me e fui recebida por aquele sorriso plastificado do boneco. Só aquilo já me fez cogitar voltar e tentar descobrir as coisas sozinha, porque, sinceramente, era difícil levar a sério uma cara que parecia ter sido colada com cola quente. Mas, como eu não tinha muitas opções, engoli o orgulho.

Não custa tentar, né?

— E-eerrr... O-oi, moço! — falei, com a voz mais tímida e trêmula que já saiu da minha boca. — Então... eu não te conheço, você não me conhece, mas eu vou tentar explicar isso de um jeito resumido e sucinto, fechou?

Ele continuou deitado, inerte, com a cara apontada pro céu, parecendo esperar a aparição de um deus em forma de cubo.

“Que saco... isso é agoniante!”, pensei, enquanto minha cara estampava confusão e um leve arrependimento de estar viva.

Mas, já que eu estava ali, por que não insistir?

— Bemm... digamos que eu estava na minha casa... no meu... mundo? É, no meu mundo! — corrigi, soltando uma risada desconfortável e passando minha mão quadrada pelo cabelo, no clássico gesto de “eu sou uma idiota, mas vou continuar falando”. — Então, eu fui jogar o seu jogo e... quando cliquei no Play, meu computador simplesmente... me jogou aqui.

Ele? Nada. Nem piscava.

— Olha... eu sei que parece história de maluco, e realmente não dá pra acreditar. MAS FODA-SE, FOI O QUE ACONTECEU! VOCÊ SABE COMO QUE EU VOLTO PRO MEU—

Eu já ia entrar em modo criança no mercado que perdeu a mãe, pronta pra gritar e espernear, mas então vi algo. Algo que congelou meu começo de surto no meio da frase.



A “pele” do homem começou a ficar... avermelhada.

— U-uuuuhhh... t-tá bom, d-desculpa! E-eu... não queria te incomodar! — gaguejei, dando uns passos pra trás como quem tenta sair de fininho depois de puxar assunto com a pessoa errada na festa. A vergonha me atingiu na mesma intensidade de um coice de cavalo.

De início, achei que fosse só uma forma boba do jogo de indicar que ele estava irritado. E, sinceramente, isso faria sentido. Esse mundo já tinha me provado que adorava métodos ridículos de passar mensagens.

Mas não. Minha teoria caiu por terra mais rápido que minha dignidade em dia de mico público. Porque a cor dele não parou no “vermelhinho constrangido”. Ele estava ficando cada vez mais vermelho, tão vermelho que parecia uma usina nuclear prestes a explodir.



Sério, o homem já tava tão vermelho que parecia uma pimenta ambulante. Então, instintivamente, olhei pro céu. Mais especificamente pro sol e, num momento de iluminação, consegui ligar os pontos.

E a conclusão? Uma tese ainda mais estúpida que a primeira.

— ... Moço, acho que já tá bom de tomar sol por hoje, né? — sugeri, mas, claro, ele permaneceu parado como o bom NPC passivo-agressivo que ele era, ignorando solenemente o fato de estar mudando de cor como um camaleão com crise de identidade. — Ooooi? Tá me ouvindo? Sério mesmo, brother, daqui a pouco tu vai literalmente começar a—

E olha... muita coisa podia acontecer a partir daí. Câncer de pele, envelhecimento precoce, manchas, talvez até acne solar.

Mas não.

O corpo do cara simplesmente começou a PEGAR FOGO.



Eu não tava exagerando nem um pouco, muito menos citando algo que eu provavelmente veria no Discovery Channel: o corpo do cara começou literalmente a soltar fogo e fumaça.

Eu avisei que essa merda ia acabar com a pele dele, só não imaginei que seria no sentido mais literal da palavra.

— MEU DEUS DO CÉU, CARA! LEVANTA DAÍ! TEU CORPO TÁ PEGANDO FOGO! VOCÊ NÃO NOTOU ISSO!? SENHOR, AJUDA, AJUDA, AJUDA, AJUDA, AJUDA!!! — berrei, correndo em círculos feito galinha sem cabeça.

Comecei a olhar pros lados procurando qualquer fonte de água. Balde, mangueira, garrafa, água de coco, qualquer coisa que não envolvesse eu ter que cuspir nele como um bebedouro humano. Mas não, nada. Zero. Neca. Nem uma poça deprimente.

E aí, no meio do meu surto, percebi algo ainda mais bizarro: o cara, mesmo sendo uma literal tocha humana, continuava lá, paradão, com aquele sorriso de boneco barato que parece ter sido esculpido por alguém que desistiu no meio do trabalho.

Nenhum som.

Nenhum movimento.

Nada além do crepitar das chamas subindo pelo corpo dele, lembrando um churrasco de domingo patrocinado pelo capeta.

.. Essa coisa sequer tá viva?

Me aproximei devagar, inclinando a cabeça de um lado pro outro, tentando achar um ângulo que me desse algum sentido praquilo tudo. Mas já adianto: não achei.

Nem achei sentido, nem achei respostas.

— Cara? Você tá..

Não deu tempo de terminar. Do nada, o homem começou a tremer. Não era um tremor de frio ou de algo que fizesse mais sentido como o fato dele estar literalmente definhando em chamas. Nada disso, era algo mais tectônico do que qualquer outra coisa, porque o chão inteiro começou a tremer junto.

O desgraçado tava CAUSANDO UM TERREMOTO? Não é possível.

— A-Aiii, que meeeeeerdaaa! — gritei, tentando adotar uma pose defensiva, na esperança de que isso realmente me protegesse de ser soterrada ou cuspida pro espaço.

E então, tudo parou.

O fogo, o tremor... tudo. Se não fosse pelo cheiro de churrasco humano no ar, eu até podia acreditar que tinha imaginado.

— ... Hã?? — soltei, meio grogue, abrindo só um olho, como quem desconfia que o universo tá pregando uma peça de mau gosto.

Mas claro, né? Tudo era bom demais pra ser verdade.

Digo isso pois, no exato instante em que relaxei a pose e comecei a olhar ao redor, tentando entender o que tinha acabado de rolar, o corpo do cara simplesmente EXPLODIU. Não foi um “puf” tímido, foi um BOOM de proporções tão absurdas que estou disposta á apostar que nenhum físico conseguiria explicar sem enlouquecer da cabeça.

O impulso foi tão forte que me catapultou pra longe, dando a sensação de que o próprio ambiente decidira: 'vaza daqui, desgraçada'. E, de repente, tudo ao meu redor era céu. Céu pra todos os lados. Nenhum chão, nenhuma parede, nada que lembrasse realidade.

Se você quer uma imagem mental, pense numa cutscene de videogame em que o personagem principal é deletado do cenário, mas a engine ainda não processou um lugar novo pra ele existir.

Mas espera.. isso significa que..

Eu olhei para baixo, e então congelou tudo. Meus músculos, minha alma, meu senso de autopreservação. Como eu já disse, quando tudo explodiu, não havia absolutamente nada. Ou seja, também NÃO TINHA chão, óbvio, né?

Era um vazio sem fundo, sem borda, muito menos manual de instruções.

Basicamente um abismo DLC infinito.

Em outras palavras...

— ... Me dei mal. — murmurei, com aquele tom irônico e minimamente desesperado que só existe em cenas cômicas onde o personagem sabe que vai se ferrar, mas ainda assim tenta manter a dignidade.































































E então, Miska despencou para dentro de um vazio tão imutável e colossal que parecia zombar da própria ideia de movimento.

Obviamente, era um mundo que ela jamais escolheria visitar por livre e espontânea vontade, mas é como costuma acontecer com as grandes tragédias, você não tem poder de escolha quando o destino basicamente te empurra porta adentro.

A queda durou tempo demais para ser confortável e, no entanto, tempo de menos para que ela pudesse se acostumar. Quando finalmente atingiu um ponto que poderia ser chamado de “fim”, o corpo de Miska se fragmentou como uma explosão silenciosa; um estouro sem luz, sem fumaça e sem onda de choque. Apenas o ruído seco e cômico de um “Oof”, que ecoou por um instante antes de ser devorado pelo silêncio.

Nos segundos seguintes, nada.

Nenhum vestígio, nenhum fiapo de presença.

Miska evaporou com a mesma sutileza que um personagem secundário cortado na edição final e...

Será que dá pra você olhar pra cá?

O quê?! Onde?! Como assim?!

Aqui em baixo ô energúmeno!































































Oh... mas olha só que reviravolta! Miska não morreu, ou, pelo menos, não no sentido definitivo da palavra. Ela apenas... “respawnou”, reaparecendo no exato mesmo ponto de onde caiu ao chegar naquele mundo. Um orbe quase translúcido orbitava lentamente ao seu redor, acompanhado de pequenas faíscas que lembravam estrelas microscópicas, dançando no ar por uns bons cinco a sete segundos antes de desaparecerem, sem deixar vestígios. Uma mecânica clássica e previsível do jogo no qual ela estava presa, diga-se de passagem.

Sério mesmo que cê só percebeu isso agora? Todo esse tempo pra entender a cena? Meu Deus, os narradores de hoje tão com o QI mais baixo que tutorial de jogo de celular assim mesmo?

U-Uhhh.. desculpe, eu só estava...

Ugh, não interessa!

Coloquei a mão na testa e deslizei pelos olhos até o queixo com aquela força dramática de quem já está dois minutos de paciência atrasada para aguentar mais um episódio dessa joça toda.

Respirei fundo, tentando recobrar uma dignidade que, francamente, já tinha se despedido de mim na esquina. Então, notei algo peculiar: a ausência ilustre do cidadão que antes estava ali, curtindo seu “bronzeado” de forno industrial. O sujeito não estava mais ali, a não ser que você considere “estar” como estar reduzido a um montinho de cinzas tão literal que dava até pra varrer com uma pazinha de lixo.



Pois é, como se todo o circo de horrores que esse lugar já me proporcionou não fosse suficiente, agora eu tive que assistir a essa cena. Bom, se serve de consolo, acho que isso pelo menos deixou uma lição pra ele... embora dizer isso agora soe tão cruel quanto rir no velório.

Enfim, é, não adianta chorar pelo leite derramado, ou pelo humano carbonizado. O plano agora é seguir em frente, literalmente, porque eu ainda preciso achar uma saída desse sandbox do inferno.

E foi aí que eu vi: bem ali, à minha frente, estava uma casa. Simples, minimalista, o tipo de arquitetura que um youtuber provavelmente chamaria de “confortável” antes de morrer de tédio.

E sim, era a mesma casa da capa do jogo que, em um universo minimamente sensato, eu deveria estar jogando no meu computador, comendo biscoito e ignorando o mundo real.

Mas tá, você entendeu.



Era o mesmo combo visual de sempre: uma casa tão simples quanto aquelas maquetes que estudante de arquitetura faz quando tá na terceira noite sem dormir, um parquinho à esquerda que parecia ter saído de um catálogo de brinquedos dos anos 90, três árvores à direita (todas idênticas, como se tivessem sido copiadas e coladas com Ctrl+C e Ctrl+V), e, claro... a trilha genérica que liga tudo, porque nada grita “cenário preguiçoso” mais do que uma trilha de textura repetida. Blá blá blá.

E aí, num momento de pura genialidade (ou pura falta do que fazer), pensei: “Sabe de uma? Vou investigar o parquinho.” Não porque eu realmente esperasse achar algo útil lá, mas porque, sinceramente, se eu fosse morrer nesse mundo, que pelo menos fosse numa gangorra, dramaticamente, ao pôr do sol. Então, sem mais delongas, botei o pé na estrada e fui andando na direção daquele playground suspeito.





Uma gangorra e um escorregador. Dois brinquedos tão básicos que podiam facilmente ser resumidos a um pedaço de madeira com complexo de gangue e uma rampa inclinada com síndrome de parque aquático, só que sem a água, a graça ou qualquer noção de segurança.

Num momento de infantilidade, ou, talvez, apenas o estágio avançado da minha deterioração psicológica, decidi que ia testar os dois.

E eu já te adianto: foi bem decepcionante.





A gangorra parecia feita de concreto armado e orgulho ferido: dura, imóvel e provavelmente mais resistente que muito prédio por aí. Já o escorregador.. bom, ele conseguiu o feito de ser menos escorregadio que o chão da cozinha da minha avó depois de um vazamento de óleo. Eu subi, sentei, tentei deslizar, e nada. Foi só um constrangedor “pluft” seguido de eu descendo meio que de bunda, meio que por insistência, como quem não quer admitir que perdeu.

Enfim, fui tentar ter um momento de lazer e o universo respondeu com um dedo do meio.

Sem opções, só me restou ir pra dentro daquela casa e ver o que ela podia me oferecer. Já adianto que se, mesmo depois de tudo isso, ela não tiver pelo menos um café, um sofá e talvez respostas existenciais, eu vou me sentir pessoalmente ofendida.

Até porque, vamo combinar, ninguém é puxado pra uma realidade paralela dessas só pra fazer turismo de parquinho... né?



Hm... a casa, vista de fora, já gritava simplicidade. E por dentro? Bom, digamos que o arquiteto devia estar numa fase meio “tanto faz”. Era basicamente uma sala que decidiu ser tudo ao mesmo tempo. O dono devia ter pensado “quer saber? Vou tacar a cama aqui mesmo, na frente da TV, e dane-se as convenções sociais de mobiliário”.

Mas calma que piora. No meio da sala, entre a mobília que já parecia comprada num brechó que só aceitava criptomoeda, estava... uma máquina de arcade. É isso mesmo, uma máquina de arcade em uma sala. Parecia até um item decorativo da IKEA.

Eu até tentei racionalizar: talvez seja um toque vintage? Uma obra de arte interativa? Um símbolo da falência da civilização moderna? Mas não, é só esquisito mesmo.

Enfim, não é como se eu tivesse muita moral pra reclamar. Nesse ponto, eu já tinha passado por fogo humano, queda no vazio e parquinho bugado. Uma máquina de arcade no meio da sala é bem normal, até.

É só aceitar e ficar calada.



A máquina tinha quatro botões.

E, sinceramente, parecia que alguém tinha decidido que ergonomia é coisa de fraco. O botão vermelho era pra movimentação, e o resto servia pra executar ações do jogo.

E o jogo em si? Ah, prepare-se: era basicamente uma réplica digital desse mesmo mundo onde eu estava presa. Sim, você não leu errado. Um jogo dentro do jogo. Faz sentido? Claro que não. Mas relaxa, se até eu não entendi direito, você tem passe livre pra não entender também.

Óbvio que eu não resisti: fui jogar.

Resultado?

Uns gloriosos 10 a 15 minutos de gameplay digna de tutorial de mobile game. A grande mecânica era... comprar itens. Eu apertava botão, vinha uma caixa mágica direto pra minha casa do jogo, e pronto. Se fosse vida real, já teria chamado o entregador do iFood pra dar nota cinco estrelas só pela persistência.

Ok, tinha também um sisteminha de computador no jogo. Legalzinho, até dava pra fingir que eu estava hackeando a NASA quando, na real, só abria uma interface tosca. Fora isso? Tédio puro. Eu larguei porque parecia que tava jogando uma versão beta de “Simulador de Espera na Transportadora”.

Mas... apesar da chatice, eu sentia uma estranheza esquisita. Não sei se era porque a casinha do jogo era idêntica à que eu estava dentro (sim, até o detalhe brega da cama na sala) ou se era só meu cérebro fritando tentando achar lógica.

“Hmmm.. Naaah! Relaxa, tô só forçando correlação onde não existe. Viagem minha!”, pensei.

Quis até mostrar minha jogatina pra registrar a experiência científica do fracasso, mas, adivinha? Não tem gravador nesse mundo.

Então.. meh!



O computador, por sua vez, parecia ter sido configurado pelo estagiário mais preguiçoso do mundo. O papel de parede era só mais um daqueles bonecos bizarros do jogo, mas dessa vez todo pintado de amarelo. Detalhe: o sujeito segurava um taco mexicano e estava postado bem na frente de um Taco Bell.

E, como se isso já não fosse conveniente o suficiente, uma musiquinha começou a tocar no fundo. Não sei de onde vinha, porque não tinha absolutamente nada rodando. Nada! Nem barra de tarefas, nem ícone de player, nem Alt+Tab.

Era só a imagem estática do cara com o taco, embalada por uma música de... tacos.

Se você tá curioso, a música é essa aí:



A música era tão cafona que faria qualquer comercial de margarina parecer um documentário da BBC. E, mesmo assim, eu me peguei dançando. Não só dançando — mas dançando e CANTANDO, como se eu tivesse virado uma figurante de musical da Disney rodado num fast food de beira de estrada.

Quando finalmente percebi, travei na pose e dei um tapa na minha própria cara.

— ÊÊÊ, praga! — gritei, abraçando a mim mesma na tentativa de expulsar o vírus musical que já tinha tomado conta da minha alma.

Numa tentativa de reverter a situação, comecei a apertar o teclado igual uma imbecil. Esperei qualquer coisa: desligar a música, abrir um menu secreto, aparecer um minigame.

Mas no fim, nada.

O monitor continuava paralisado na mesma imagem surreal do boneco-taco-bell, enquanto a trilha sonora me consumia como uma maldição pop.

E sim, antes que pergunte: era viciante. Mais viciante do que deveria ser.

A prova? É que quando eu percebi, eu já tava dançando de novo.

MERDA!































































É, pois é.. não há mais nada que possa ser feito.

A casa? Um fracasso arquitetônico minimalista sem conteúdo. O parquinho? Um museu de brinquedos falidos que nem o demônio quis reivindicar. E eu? Fiz cosplay de Google Maps, andei cada pixel quadrado desse lugar e adivinha? Só encontrei o vazio existencial versão deluxe.

Agora tô aqui, plantada, contemplando o vazio, parecendo uma obra de arte moderna. Tipo aqueles quadros brancos em museu que custam milhões e o povo fica dizendo 'ah, mas é a representação do vazio interior do homem contemporâneo'. Pois é, só que aqui não tem nem crítico de arte pra fingir que faz sentido.

Gamer over pra mim.



Na real, não foi tão game over pra mim quanto parecia, porque no meio do rolê eu achei um cupcake largado no chão, assim... do nada, como se tivesse caído direto do inventário de um NPC distraído. E olha, não vou negar: dei aquela encarada meio desconfiada de quem já viu coisa demais nesse mundo esquisito, mas... parecia bom.

A textura? Comovente. Tipo, tão fofinha que eu quase chorei. Eu encarei aquele bolinho como a última esperança da humanidade compactada em 200 calorias. Juro que se tivesse uma trilha sonora, seria aquelas músicas emocionais de propaganda da Sadia, com violino e câmera lenta.

E é isso, né? Fico presa nesse limbo interdimensional, mas pelo menos não morro de fome. Quer dizer, não sei se era pra comer coisa caída no chão desse lugar, mas também não tinha um McDonald’s por perto. Então, prioridades.

Então, Miska aproximou o cupcake dos lábios e deu uma mordiscada precisa. No instante seguinte, foi praticamente engolida por uma pequena catástrofe sensorial: a massa macia se desfez na boca, liberando um contraste indecente entre a doçura cremosa da cobertura e da baunilha derretida no interior.

E logo depois...





























































Uh...

Créditos para:

Perfectly Legitimate Happy Home in Robloxia

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