desgraçada.

palavras verdadeiras

como eu ensinei.

Melanora já aguentou muito tempo.

Melanora já ignorou muito tempo.

Se houvesse justiça, Melanora teria recebido algum tipo de recompensa por isso. Mas, como sempre, nada veio para Melanora.

Porque Melanora foi uma criança mal criada.

Melanora tenta, até hoje, sair de cena deixando tudo impecável, sem vestígios do caos interior. Nada fora do lugar, nenhuma rachadura visível.

Tudo deveria ter ficado perfeito.

Mas, inevitavelmente, algo escapa. Como uma imperfeição intrínseca em Melanora, uma sabotagem interna. No fim, Melanora sempre dá um jeito de estragar tudo.

A culpa é da Melanora.

Melanora quem colocou fogo nas coisas.

Melanora sabe, melhor do que ninguém, que toda ação carrega uma consequência. E agora chegou a de Melanora.

Melanora ficou de joelhos, com o corpo trêmulo e a mente em colapso. Melanora encarou Ela — a figura que castiga, que corrige, que pune. Uma presença quase divina, ou talvez apenas uma projeção cruel da própria consciência.

Melanora estava com medo.

Melanora estava com MUITO medo.

Ela usou seus "poderes de castigo" em Melanora, se materializando como uma dor de cabeça lancinante, latejante, que parece querer rasgar a mente de Melanora por dentro.













































Melanora.

Melanora.

Melanora.

Melanora.

Melanora.













































Eu.

Caí — de novo — nesse chão maldito. Nesse chão que sequer parece existir de verdade.

Minha cabeça pulsa com uma dor que desafia qualquer descrição. Como se alguém tivesse enfiado as mãos dentro do meu crânio e estivesse tentando me espremer por dentro. Eu até tentaria colocar essa dor em palavras, mas não posso. Não aqui. Falar demais poderia irritar Ela ainda mais — e isso, aprendi da pior forma, nunca termina bem.

Isso tá doendo, e tá doendo muito.

É o tipo de dor que reorganiza tudo em você. Que transforma até o suspiro mais leve em um sacrifício.

Dez minutos. Dez minutos de tortura contínua, de uma agonia que não oferece descanso, nem espaço pra pensar em outra coisa.

Vinte minutos.

Cinquenta.

E tudo isso — esse tempo arrastado e elástico — preenchido exclusivamente por dor. Nada mais. Só a dor. Ela toma conta, apaga as memórias, engole a identidade.

Eu imploro.

Não por misericórdia, não por perdão.

Eu imploro por fim.

Por favor, apenas acabe com tudo isso.

Me mate.

E então, Ela fala. Sua voz chega com a mesma suavidade com que se arranca um curativo sobre uma ferida aberta:

"Que pedido imprudente, minha pequena."

E a dor cessa. Por um instante. Por alguns minutos, talvez. Não sei dizer.

Mas esse breve silêncio... é uma benção. Um tipo raro de paraíso entre os espasmos do inferno.

"Aqui, ninguém morre. Aqui, todos vivem — eternamente."

A eternidade, dita assim, não soa como um prêmio. Soa como uma condenação.

"Mas existem correções a serem feitas agora, não acha, minha pequena Melanora?"


















Oito horas. Oito longas horas de dores pulsantes, que não se limitaram apenas à minha cabeça — cada célula do meu corpo parecia vibrar em agonia, como se estivesse sendo desmantelada por dentro.


Agora, a chamada "correção" chegou ao fim. Pelo menos é isso que Ela diz.


Mal consigo mover um músculo sem que tudo em mim grite. A dor ainda vive em cada nervo, em cada osso, como uma lembrança viva daquilo que acabei de suportar. Por dentro e por fora, me sinto em ruínas — e é exatamente assim que Ela me queria. Jogada no chão, frágil, vulnerável, à beira de desaparecer, embora eu nunca vá ter esse direito.


E Ela apenas observa. Com aquele olhar que mistura curiosidade e prazer, com o ar de quem avalia uma escultura de agonia que, para ela, é a sua maior conquista.


Hah... Aquela desgraçada. Ela sempre se certifica de que cada punição seja meticulosamente planejada para durar o máximo possível, para ser sentida no mais íntimo de quem a recebe.


E a pergunta insiste em retornar, mesmo que eu já saiba que não há resposta aceitável: o que eu fiz de errado?


Ah, claro... quase me esqueci da parte mais poética dessa farsa.


Aqui, neste lugar supostamente perfeito, a morte não existe. A ideia de fim foi extinta. Todos que cruzam esse limiar se tornam eternos — eternos para desfrutar uma realidade moldada sob medida para o prazer e a felicidade.


Soa quase como um paraíso, não? Um conto de fadas eterno, cheio de cores vivas, risos constantes e promessas de satisfação sem fim.


Hah... mas devo te dizer, não se engane com a superfície. Olhe além dela. Tudo isso — as flores, os sorrisos, os banquetes intermináveis — não passam de uma cortina de fumaça.


É um teatro cuidadosamente montado para esconder o verdadeiro espetáculo: a crueldade.


Ela não matou o conceito de morte por compaixão. Ela o destruiu para garantir que ninguém pudesse escapar. A imortalidade, aqui, é uma jaula dourada. Um mecanismo perverso que a permite infligir dor sem fim, brincar de ser deusa em um mundo onde o sofrimento não encontra repouso.


Mas, obviamente, isso tudo é apenas ocultado com sorrisos, jogos para a vida toda, comida e bebidas que atendam aos gostos dos pobres brinquedos.










































































E o pior de tudo? Eu sou o brinquedo favorito dela. Não no sentido carinhoso, claro — mas como um objeto de fascínio cruel, um experimento emocional com prazo de validade. Ela me manipula como bem entende: coloca palavras na minha boca, me força gestos que não me pertencem, a fazer coisas que não quero. Às vezes, olho para mim mesma e mal reconheço quem habita esse corpo. Porque essa... essa definitivamente não sou eu.


Ela se apropriou da minha mente — um sequestro silencioso e constante — e me molda conforme sua vontade. E eu sei exatamente o que vai acontecer no fim: quando eu estiver gasta, quando minha utilidade como entretenimento acabar, serei descartada como lixo.


E o tormento não cessa. Como uma presença que nunca me abandona, deslizando pelas frestas da minha consciência. Eu tento, a todo momento, manter minha sanidade à tona, me agarrar ao que ainda resta de mim. Mas quanto mais eu resisto, mais Ela aperta. Como mãos invisíveis ao redor do meu pescoço, me sufocando com uma dor tão íntima que nem gritar eu consigo.


Mas tem algo — ou melhor, alguém — que me ancora: Miska.


Miska... Isso tudo não será eterno pra você. Você não vai se tornar um brinquedo como eu. Eu não vou deixar.


Consegui me levantar. Meu corpo ainda dói, mas há algo diferente agora.


Ela, generosa em sua perversidade, me concedeu um fragmento de sua energia. Um pequeno presente envenenado, para que eu continue desempenhando meu papel com perfeição.


Para que eu continue fingindo — sorrindo, caminhando entre vocês, representando o papel de quem está bem.







































Melanora os viu antes mesmo que eles percebessem sua presença.

Felisara e Denovo estavam completamente bêbados — rindo alto, tropeçando nas próprias pernas junto o mundo que parecia ter perdido o eixo junto com eles. Os cabelos de Miska estavam bagunçados, seu rosto iluminado por um riso leve, descompromissado, daqueles que só nascem depois de horas gastas em fliperamas, bebidas baratas e amizades que, por um instante, parecem eternas.

E então eu comecei a andar. Um passo de cada vez, cômico até, como uma caricatura mal desenhada invadindo um quadro feliz. Mas não era para todos que eu ia — não. Meus olhos estavam fixos em uma só pessoa: nossa nova convidada. A estrela de hoje, e, previsivelmente, a esquecida de amanhã.



Melanora se aproximou com movimentos que misturavam graça e instabilidade. Melanora estendeu a mão em direção ao rosto de Miska — não com violência, mas com algo mais perigoso: intenção. Por um breve momento, Miska olhou Melanora, confusa, como quem tenta entender se o gesto é de afeto ou de ameaça. Melanora cambaleou e, sem cerimônia, apoiou-se nela.

— Está tentando te enganar. Saia daqui... e jamais volte.

Miska arqueou as sobrancelhas. De primeiro momento, eu poderia facilmente dizer que ela estava embriagada demais para processar a ameaça de Melanora por completo. Mas não, só muito confusa.

— Hein? Como assim? Cê tá bêbada? Acho que o fogo subiu da bunda pra tua cabeça.

Melanora soltou uma risada vívida, quase teatral, que se espalhou pelo ar como um perfume estranho — doce demais, artificial demais.

— Acorde.

E então, num instante impossível, Miska desapareceu de dentro das mãos de Melanora — como névoa se desfazendo ao amanhecer, desvanecendo-se como algo que nunca foi sólido.

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