parque

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Música

013-02

O silêncio da noite sempre teve um efeito curioso sobre mim. Há quem se assuste com a solidão das horas mais tardias, mas, honestamente, é nesse momento que encontro uma espécie de refúgio emocional. Entre tantas sensações, o relaxamento é, sem dúvidas, uma das mais presentes. Era como sentir que o mundo, enfim, resolveu tirar o pé do acelerador e me deixou respirar.


Hoje eu não passei muito tempo em casa. A mesmice das paredes conhecidas e o tédio de não ter nada realmente interessante pra fazer começaram a pesar. Foi aí que decidi sair, sem nenhum destino em mente, apenas a vontade genuína de simplesmente andar. E olha, eu achava que conhecia bem minha cidade, mas a caminhada me provou o contrário.


Acabei me surpreendendo com o quão grande ela era. Sei que parece bobo dizer isso, mas, às vezes, eu vivo tanto no automático que esqueço de olhar em volta. Hoje, eu resolvi prestar atenção.


Passei por vários lugares. Lanchonetes cheias de vida, supermercados iluminados com a intensidade de um meio-dia, e centros de diversão que me deram aquela sensação nostálgica de infância. Não vou mentir: foi divertido. Muito mais do que eu esperava, pra ser sincera. Me esbaldei em comidas deliciosas, comprei algumas coisinhas que, entre nós, eram mais vontade do que necessidade (mas quem liga?), e me perdi nas máquinas de fliperama. Sério, eu devia considerar participar de algum campeonato, porque aparentemente tenho um talento oculto para jogos, haha!


Agora, nesse exato momento, estou em uma praça. Uma daquelas praças bonitas, com árvores grandes e bancos de madeira que já viram muita história. Mas, agora, ela está vazia. Afinal, já passou o horário em que pessoas "normais" ficam por aqui. Eu? Claramente não me encaixo nessa categoria, e sinceramente, não me importo. Vim aqui para descansar. Depois de tanto andar, minhas pernas decretaram greve. O banco, pequeno e simples, virou meu trono improvisado.


Curiosamente, minha companhia hoje é o sussurro das árvores, que dançam conforme o vento permite. E quer saber? Melhor companhia não há. Não cobram conversa, não julgam o silêncio. Apenas estão ali, compartilhando a noite comigo.


Depois de alguns bons minutos apenas existindo ali, levantei-me. Alonguei as pernas, respirei fundo e deixei o ar fresco preencher meus pulmões. A noite parecia me dizer: "Continua, tem mais pra ver."


E continuei.


Após alguns minutos de caminhada tranquila, encontrei um parque. Pequeno, de temática infantil, mas encantador à sua maneira. Brinquedos simples, balanços, gangorras, escorregadores, mas que carregam uma energia inconfundível. Eles me lembraram de como as coisas mais básicas podem ser, na verdade, as mais importantes. Um lembrete silencioso de que a simplicidade tem um charme que a vida adulta teima em ignorar.


Havia algo de hipnótico nos balanços daquele parque. Talvez fosse pela simplicidade do movimento, ou talvez fosse o jeito como me puxavam para longe do presente, direto para as memórias de uma infância que, vez ou outra, gosto de revisitar. Parques, de forma geral, sempre tiveram esse efeito em mim, cada brinquedo parecia um convite disfarçado para uma viagem ao passado.

Sem pressa, escolhi um dos balanços mais afastados, daqueles que parecem quase esquecidos, e me sentei. Envolvi as mãos nas cordas ásperas que sustentavam o assento e iniciei um leve vaivém. Os primeiros movimentos foram suaves, quase preguiçosos, mas suficientes para acionar a lembrança mais nítida: minha mãe, me empurrando com uma força calculada, entre risadas e gritos infantis que ecoavam no parque inteiro. Era um tempo mais simples, onde ir de um lado para o outro era o auge da diversão.


Sendo bem franca, a paz que senti ali foi algo difícil de descrever. Senti, por alguns instantes, que uma entidade superior, chame do que quiser, Deus, universo, acaso, tivesse colocado as mãos na minha alma e removido, com uma delicadeza cirúrgica, cada fragmento de preocupação. Uma espécie de purificação involuntária. E olha que, normalmente, minha mente é um verdadeiro campo de batalha, repleto de pensamentos desconexos se atropelando como carros numa estrada sem sinalização.


Sabe aquela estática barulhenta de uma TV fora de sintonia? Pois é. Minha mente é assim. E sentir essa confusão se organizar, ganhando forma e nitidez, é algo que só posso descrever com um honesto e simples: “wow”.


De olhos fechados, continuei a me balançar, permitindo que minha mente vagueasse sem a censura habitual. Era um momento raro, as vozes internas, aquelas que insistem em fazer companhia até nas horas mais impróprias, estavam em silêncio. Como se o parque em si funcionasse como um amuleto contra pensamentos indesejados. E eu? Eu simplesmente amei essa sensação.


Depois de um tempo, reduzi os movimentos do balanço até parar por completo. Levantei-me lentamente, quase com relutância, e dei uma olhada ao redor. Como eu já previa, não havia ninguém. Apenas eu, o parque e o sussurrar constante da brisa, que parecia envolver meu corpo com um carinho que eu não sabia que precisava.


O clima era reconfortante.


Sem muito pensar, me deixei cair sobre a grama. Não de forma dramática, mas com aquela intenção clara de me fundir ao chão, de ser parte daquele espaço por alguns minutos. O céu, naquela noite, estava absurdamente estrelado. Um verdadeiro espetáculo cósmico e brilhoso. Quando criança, eu tinha a fantasia boba de querer ser uma estrela. Na minha inocência, acreditava que seria a forma mais bonita de existir.


Hoje, olhando com mais ceticismo, ou talvez mais maturidade, essa ideia me soa diferente. Será que, se eu realmente pudesse me tornar uma estrela, aquela solidão que às vezes me ronda desapareceria? Será que brilhar no meio de tantas outras luzes resolveria algo?


Difícil dizer.


Mas uma coisa é certa: neste momento, deitada na grama, respirando o frescor da noite e envolvida por essa calmaria inusitada, eu só quero viver. Viver esse instante, absorver cada segundo desse cenário que, embora simples, carrega uma beleza inesquecível.


O resto? O resto pode esperar.


E então, ela fechou seus olhos e sorriu.

Um som nos arbustos pôde ser ouvido atrás dela.