Onde moram os doces podres
Onde moram os doces podres.

A mamãe foi fazer compras. Ela sempre faz isso, sabe? Fica olhando um monte de roupas no shopping, com uma cara de quem quer levar tudo pra casa. Acho que, se ela pudesse, ela comprava todas as roupas do mundo! Mãe é assim mesmo, né?

Ela me pediu pra ficar com o papai enquanto ela ia olhar umas coisas. Eu disse “tá bom” e fiquei quietinha, mas o papai não parecia querer ficar ali. Ele começou a bufar alto, igualzinho aquele touro bravo de um dos meus desenhos favoritos. Eu fiquei com medo, porque eu já sei o que pode acontecer quando ele faz isso.

Então, eu engoli seco e só fiquei torcendo pra nada ruim acontecer. Fiquei até sem mexer. Mas o papai simplesmente se afastou de mim e foi embora pra algum lugar que eu não conhecia… e eu nem sabia se podia ir atrás.

O shopping tava cheio, muito cheio. Tinha tanta gente que parecia que tudo girava. As vozes, os passos, os barulhos… era como estar perdido no meio de um monte de formigas gigantes.

“Papai! Papaaai!”

Eu gritei bem alto, tentando fazer ele olhar pra mim. Mas ele não olhou, não disse nada… não fez nenhum sinal com a mão, nem falou onde eu tinha que ir. A mamãe sempre faz isso, ela sempre me mostra o caminho, mas o papai nunca gosta dessas coisas. Eu não sei por quê.

Meus olhos ficaram molhados e quentes, e eu comecei a chorar. Gritei de novo, bem forte, “Papai!”, mas ele nunca voltou. E enquanto eu tentava o seguir, eu acabei perdendo o caminho da loja em que a mamãe estava.

Ninguém veio me ajudar.

Eu me senti igual aquelas baratinhas feias que eu peço pra mamãe matar quando elas aparecem no meu quarto. Eu tinha medo delas, e agora parecia que eu era uma. Uma baratinha assustada no meio de um monte de gente enorme que nem me via. Elas esbarravam em mim, quase pisavam.

Aí, alguém apareceu. Finalmente. Era um homem bem alto… e meio estranho também. Ele falou que tinha me escutado gritando, e que uma criança do meu tamanho não podia ficar sozinha assim, sem o papai ou a mamãe por perto. Depois ele perguntou onde eles estavam, mas eu só consegui dizer que eu não sabia mais.

Ele se abaixou, ficou de cócoras na minha frente, e sorriu. Foi um sorriso meio diferente, mas parecia legal. Aí ele perguntou se eu queria companhia, só por enquanto, até meus pais me acharem. Ele disse que podia me levar pra pegar todos os doces que eu quisesse! Todos! E também disse que, se meus pais aparecessem, ele explicava tudinho pra eles, pra eu não levar bronca.

Eu aceitei.

Eu queria os doces!

Eu amo doces! Muito! Principalmente os de morango!

Então eu segurei a mão dele bem forte e fui junto. A gente andou pra todo lado no shopping, pra cima, pra baixo, e fizemos um montão de coisas legais! Fui em brinquedos muuuito divertidos, comi doces (muitos doces!) e comemos outras comidas que pareciam feitas no céu. Foi tão legal que parecia sonho!

Depois, o moço disse que tinha uma surpresa pra mim. Uma surpresa tão, tão incrível que eu nunca ia esquecer na vida inteira! Mas ele disse que, pra surpresa dar certo, eu não podia ver nada antes da hora. Aí ele me deu uma coisa: uma venda!

Eu fiquei tão empolgada que nem pensei duas vezes. Peguei a venda e coloquei nos olhos, bem certinho, sem espiar nadinha. Ele segurou minha mão de novo e a gente começou a andar. Eu não fazia ideia de onde a gente tava indo, mas eu tava pulando de alegria por dentro!

Na minha cabeça, vinham um milhão de ideias: "Será que é um brinquedo?", "Será que é uma casa de doces?", "Será que vou ganhar um presente mágico?" Tinha tanta coisa passando que meu coração tava quase pulando igual eu.

De vez em quando eu perguntava: “Já posso tirar a venda?”, e ele sempre respondia rindo: “Ainda não… mas tá perto!” Eu tentava esperar quietinha, mas era muito difícil. Eu só queria ver logo a surpresa!

Enquanto a gente andava, mesmo com a venda nos meus olhos, eu comecei a perceber umas coisas estranhas. O barulho do shopping… sumiu. Não dava mais pra ouvir gente conversando, nem os passinhos das pessoas, nem música. Agora só dava pra escutar um ventinho bem baixinho e uns grilos fazendo cri cri. Igualzinho quando eu visito a vovó no sítio.

Não sei explicar direito, mas a minha empolgação começou a diminuir. Era uma sensação de que o meu coração estava começando a ficar apertado, mesmo sem eu saber por quê. Tentei não pensar muito, porque às vezes as surpresas são assim mesmo, né? Já vi umas assim na TV.

Aí eu escutei o barulho de uma porta abrindo. O moço falou que a gente tinha chegado e pediu pra eu entrar. Eu engoli em seco, porque meu peito estava meio apertado, e fui andando bem devagarinho. Entrei onde ele pediu e ele falou que agora eu podia tirar a venda.

Eu disse “tá bom”, fazendo um “sim” com a cabeça, mas bem devagar… minhas mãos estavam tremendo um pouquinho, teimando em não tirar a venda. Eu não sei explicar, antes eu queria MUITO ver o que era, mas agora… agora parecia que a venda me deixava segura, tipo um cobertor que a gente não quer soltar quando tem medo.

O moço riu e falou: “Ah, não precisa ficar tímida!” Mas isso não ajudou, não. Na verdade, só me deixou com mais vontade de ficar com os olhos fechados.

Mesmo assim eu sabia que não adiantava ficar parada pra sempre. Então respirei fundo, segurei o medo e tirei a venda.

Quando abri os olhos, vi que eu estava numa casa. Acho que era a casa dele. Ele fez uns barulhinhos engraçados, tipo aqueles de circo, quando o palhaço faz mágica, sabe? A casa era meio bagunçada numas partes, com coisas espalhadas, mas tinha uns cantos arrumadinhos também. Parecia uma mistura de brinquedo quebrado com castelo velho.

Eu olhei pra ele e perguntei: “Onde é que eu tô?”

Ele respondeu, como se fosse a coisa mais normal do mundo: “Na minha casa.”

Aí eu perguntei: “Por que você me trouxe pra cá?” E depois: “Cadê meu papai e minha mamãe?”

E ele disse que me levou pra lá porque queria que a gente virasse mais amigos, e pra gente se divertir ainda mais. Também falou que meus pais ainda não tinham aparecido no shopping.

De repente, tudo ficou estranho.

O lugar, o ar… até ele. Não parecia mais o mesmo moço legal que me deu doces e me levou nos brinquedos. Aquela energia boa que eu tava sentindo antes sumiu. Desapareceu como quando a luz apaga no meio da noite.

Por que será que agora ele me parece tão assustador? Por que será que meu coração tá batendo tão forte ao ponto de eu achar que ele vá sair correndo sozinho?

Ele levantou a mão devagar, querendo que eu a segurasse de novo. Mas dessa vez, eu não consegui. Dei um passo pra trás. Meu corpo todo tava tremendo, e meus olhos começaram a chorar sozinhos. Eu disse “não”. Disse que eu queria ver minha mamãe e meu papai. Pedi, gritei, quase mandei ele me levar de volta pra casa agora.

Ele só olhou pra mim, e riu.

Disse que eu era uma gracinha. Disse que eu era bobinha. Falou pra eu não me preocupar, porque meus pais iam me achar “uma hora ou outra”.

E aí, ele veio mais perto.

Disse pra eu não ter medo. Falou que ali eu podia ter tudo que eu quisesse — brinquedos, comida gostosa, doces mais gostosos ainda. Disse que agora a gente podia brincar o tanto que eu quisesse, o dia inteiro se eu quisesse.

Aí ele pegou minha mão. E acho que ele sentiu que eu tava tremendo, porque ele olhou pra mim com aquele sorriso enorme e deu um beijo no meu cabelo, como se fosse um pai.

Mas ele NÃO era meu pai. E aquilo não me deixou calma.

Tudo dentro de mim gritava pra ele sair de perto. Tudo dizia “corre! corre agora!”. Mas ele não se afastou. Ele só ficou ali.

Eu não tô achando isso tudo tão divertido assim mais.

Às vezes, ele fica meio triste comigo. Mas não é uma tristeza do tipo quando alguém perde um brinquedo ou fica de castigo. É uma tristeza estranha… feia. Daquelas que dá medo. Ele me olha de um jeito ruim, e eu sei que é raiva de mim só porque eu não tô brincando ou rindo do jeito que ele quer.

Quando isso acontece, ele vai pro banheiro e tranca a porta. E mesmo de lá, eu escuto. Escuto ele batendo nas coisas e falando palavrões bem feios, daqueles que a mamãe sempre falava que eu nunca podia repetir.

Quando isso começa, eu junto minhas mãozinhas bem rápido e começo a rezar. Peço pro Papai do Céu pra me proteger, pra não deixar ele fazer nada ruim comigo. E parece que Deus escuta, porque ele nunca me machuca de verdade, ele só me ignora o dia inteiro. E, pra falar a verdade, eu até prefiro assim.

Porque tem hora que ele fala comigo com tanta raiva que eu penso que ele vai fazer alguma coisa ruim. E eu não quero descobrir o que é.

Por isso… eu aprendi uma coisa que me deixa triste, mas que parece funcionar: eu finjo.

Fico quietinha, obedeço. Faço o que ele quer ver. Mesmo que por dentro eu só queria ir embora, só queria a minha mãe. Eu acho que, se eu fingir que tá tudo bem, talvez fique mesmo.. pro meu lado.

Mamãe sempre dizia que criança educada se dá bem. Então agora, mais do que nunca, eu tô tentando ser assim.

Do jeitinho que ela me ensinou.

O meu plano não deu certo.

Eu fiquei alguns dias fingindo que tava tudo bem. Tentei sorrir, brincar, obedecer… fazer tudo do jeito que ele queria. Achei que tava funcionando. Achei que eu tava conseguindo enganar ele. Mas… ele descobriu.

Ele começou a me fazer um monte de perguntas, bem de repente, quando eu menos esperava. E eram perguntas que me deixavam confusa, com medo. Eu travava, não sabia o que responder. E aí… ele percebeu. Descobriu que eu tava mentindo esse tempo todo. Talvez… talvez ele já soubesse, e só tava fingindo também, só pra ver até onde eu ia.

Mas eu tinha tentado tanto… tinha feito tudo direitinho.

Depois disso, ele ficou bravo. Mas bravo de verdade. Não era mais só gritar comigo quando eu fazia algo errado. Agora… ele me batia.

E não era só tapa. Eram socos de verdade, fortes. E, às vezes, ele pegava coisas… objetos duros, pesados, que doíam mais ainda. Eu gritava, chorava, implorava… falava que ia mudar, que ia ser mais boazinha, mais obediente. Mas ele não acreditava em mim. Só ficava mais bravo.

Dói. Dói muito. Mas… o que mais dói mesmo são as lembranças.

Porque eu já conheço essa dor. Eu já senti ela em casa. Quando o meu pai ficava nervoso do nada e me batia, me tratando como o motivo de tudo de ruim que existia.

E agora… passar por isso de novo, com outra pessoa… só me faz querer sumir.

Os dias estão ficando cada vez piores.

Agora ele não só me bate… ele me tranca nesse quarto escuro. O lugar é sujo, cheio de poeira que entra no meu nariz, na minha boca, nos meus olhos. Eu espirro, tosso e o cheiro é horrível, como alguma coisa estragada. Parece que tudo ali dentro quer me machucar.

E ele também não me dá comida. Minha barriga faz barulhos altos, que soam como um choro igual ao meu. E ela dói… dói muito, uma dor que clama por socorro. Eu gritei, pedi comida pra ele. Mas toda vez que eu faço isso, ele só fica mais bravo.

Ele abre a porta com força, grita comigo como se eu fosse um bicho. E aí ele me bate de novo. Fico quietinha, tentando me encolher, mas mesmo assim ele bate. Sempre gritando pra eu calar a boca.

Depois disso, só dá pra chorar. Eu fico encolhida no canto, abraçando minhas pernas, desejando sumir dali.

Ele tinha dito que ia ser uma surpresa. Ele tinha dito que eu ia adorar.

Mas eu não adorei.

Eu odiei.

Ele mentiu.

E no fim… eu fui só uma garotinha que acredita em mentiras de novo.

Minha barriga tava doendo muito. Doía tanto que eu comecei a arranhar a parede, igual um bichinho preso. Eu só queria comer alguma coisa, qualquer coisa. Aí, sem querer, enquanto eu arranhava a parede, apertei um botão. Foi o interruptor. A luz acendeu.

E aí eu consegui ver melhor o lugar onde eu tava.

Tinha um freezer no canto. Um daqueles grandes. E era de lá que vinha o cheiro horrível que eu sentia desde que cheguei aqui. Um cheiro podre, nojento, que parecia grudar no meu nariz.

Peguei uma cadeira, coloquei na frente do freezer e subi em cima dela. Foi difícil, mas eu consegui abrir a tampa.

Só que... quando eu vi o que tinha lá dentro… meu corpo travou.

Eu caí no chão com tudo, bati forte, mas nem doeu tanto quanto o que eu senti por dentro.

Lá dentro… tinha corpos. Corpos pequenininhos. Do tamanho do meu corpo.

Eles estavam todos horríveis. Parados, frios e quietos. E eu não quero nem imaginar o que aconteceu com eles. Mas uma coisa veio na minha cabeça, bem rápido:

Será que… será que ele ia fazer isso comigo também?

Será que quando eu ficasse fraca demais… eu ia parar ali também?

Meu coração tava batendo tão rápido que parecia que ia explodir. Minha barriga ainda doía, e agora eu também tava com vontade de vomitar.

Mas então eu lembrei da mamãe.

Ela sempre dizia: "Se um dia você tiver muito medo, me chama. Mas se eu não puder estar por perto… respira fundo, e tenta se acalmar. Criança esperta sabe pensar mesmo quando tudo tá feio."

Respira.

Eu olhei em volta, com os olhos ainda cheios de lágrimas. E então eu vi… no chão, num cantinho escondido tinha um machado. Um machado de verdade. Parecia bem pesado.

Corri até ele. Peguei com as duas mãos. Era muito difícil segurar, ele era quase maior que eu! Meu corpo quase foi junto com o peso dele. Mas eu segurei. Firme. E fui me acostumando com o peso, mesmo com os braços tremendo.

Foi então que eu ouvi a porta bater muito forte.

O homem mal gritou meu nome. Parecia louco. Tava bravo, mais bravo do que nunca. E aí eu escutei sirenes lá fora. A polícia! A polícia tava lá! Mas isso fez ele ficar ainda pior.

Ele começou a descer as escadas devagar. Gritava, chamando por mim, só pra me assustar. E eu vi a sombra dele aparecendo… e vi que ele tava segurando uma faca.

Eu me escondi num cantinho onde ele não podia me ver. Era um lugar escurinho, atrás de umas caixas. Eu sabia que ele não ia olhar ali.

Era a minha chance agora.

Ele começou a falar coisas horríveis. Gritava que ninguém ia me encontrar viva, que ia mentir pros policiais, que aquilo não era o fim. Disse que a gente seria “amigos pra sempre” depois que ele acabasse o que chamou de “serviço”.

Essas palavras me deram arrepios. Meu corpo inteiro ficou tremendo, quase deixei o machado cair. Mas eu respirei fundo e segurei ele bem firme. Não podia desistir agora.

Aí ele chegou perto. Já quase dentro do lugar onde eu tava escondida.

Foi quando eu levantei com toda a força que eu tinha e bati nas pernas dele com o machado. Eu errei uma, mas a outra eu acertei bem forte. Tão forte que eu vi a perna dele meio que… sair do lugar. Foi horrível.

Ele caiu no chão gritando muito, se mexendo de dor, e um monte de água começou a sair da perna dele. Ela tava vermelha e escorria rápido. Mas eu nem fiquei olhando. Eu só vi ele cair — e então corri.

Corri feito o vento. Subi as escadas o mais rápido que minhas pernas deixaram, e fui direto pra porta de saída daquele quarto horrível.

Quando eu finalmente saí daquele quarto horrível, ouvi um barulho muito alto na casa. Era a porta sendo batida, bem forte, até que ela quebrou. Alguém arrombou. Eram os policiais! Eles entraram correndo, gritando pra eu ficar parada.

Mas aí… eu vi.

Atrás deles estavam a mamãe e o papai!

Eles entraram tão rápido, com os olhos arregalados e o rosto cheio de medo. Minha mãe gritou pra que os policiais esperassem, que não fizessem nada.

Quando eu vi ela… eu não consegui mais segurar. Comecei a chorar, bem alto, com tudo que eu tinha. E corri. Corri o mais rápido que consegui até ela.

Eu pulei no colo dela e ela me abraçou com toda a força do mundo.

Foi o melhor abraço da minha vida.

Um abraço que não precisava de nenhuma palavra.

Era como se ele dissesse: "Agora tá tudo bem."

Quando a gente voltou pra casa, tudo parecia normal. Pelo menos até a madrugada.

Eu tava dormindo, mas acordei com uns barulhos estranhos. Eram vozes… vozes da mamãe e do papai. Peguei meu ursinho e fui andando bem devagarzinho até a sala, de onde o som vinha.

Cheguei perto e me escondi atrás da parede, só espiando. Papai sempre fala, com aquele jeito bravo dele, que eu não devo me meter nas conversas dos adultos. Mas às vezes... eu não consigo. Eu tento, juro que tento. Mas não dá.

Eles estavam brigando. De novo.

E foi por minha causa.

Mamãe dizia que foi culpa dele por ter me deixado sozinha no shopping, sem ninguém pra cuidar de mim. E papai respondeu gritando, dizendo que a culpa era minha, que eu era burra por ter acreditado num homem estranho.

Eles ficaram assim por um tempão. Gritando, falando coisas feias, ficando cada vez mais bravos. E eu só ficava lá, quietinha, com o coração apertado, com vontade de chorar. Só que… aí eu me mexi sem querer.

Minha cabeça apareceu um pouquinho mais do que devia. Eu senti isso na hora.

E foi quando o papai me viu.

Ele virou devagar, com os olhos muito abertos, com aquele olhar que me dá medo de verdade. Um olhar que fez meu corpo todo gelar, me paralisando por completo.

Eu conhecia aquele olhar. E ele nunca significava coisa boa.

Meu papai começou a vir na minha direção com os punhos fechados. Ele gritava que tudo era culpa minha. Dizia que eu só dava problema, que atrapalhava nossa família.

Na hora, eu me virei e corri pro meu quarto o mais rápido que consegui. Ele tentou correr atrás de mim, mas eu fui mais rápida. Quando entrei, peguei uma cadeira correndo, fechei a porta e tranquei ela com força.

Depois, pulei na minha cama e abracei meu ursinho com toda a força, tentando achar um lugar seguro no meio de tudo. Mas ainda dava pra ouvir ele. Ele batia na porta como um monstro, gritando pra eu abrir. Eu fiquei bem quietinha, e não abri.

Ele ficou batendo por um tempão, agitado e violento como um bicho bravo. Mas aí, do nada, a mamãe apareceu. Eu ouvi a voz dela dizendo pra ele parar.

E ele… parou.

Eu não sei como ela fez isso. Mas ele parou bem na hora que ela falou. O estranho não foi só ele parar… foi ele parar e não fazer mais nada depois. Ele só saiu, batendo a porta do quarto dele com raiva.

Eu escutei a mamãe suspirando. Ela chegou perto da minha porta e deu três batidinhas bem de leve.

Eu levantei correndo, destranquei a porta e abri.

Ela se ajoelhou na minha frente, chorando, e pediu desculpa por ter deixado tudo acontecer. Disse que tinha sido irresponsável.

Eu falei que tava tudo bem. Que não era culpa dela.

Ela me abraçou forte. Mas forte mesmo. Como se eu fosse um tesouro, uma coisa preciosa.

E eu abracei ela de volta, bem apertado. Eu não queria soltar.

Porque com a minha mamãe… eu me sinto protegida.

Retornar