trem

Música

006-01

Embarquei em um trem que rasgava a paisagem acinzentada como uma ferida aberta no humor já deprimente do dia. O céu, previsível como um velho hábito ruim, insistia em despejar sua chuva fina, de mãos dadas com uma brisa gelada que atravessava a estação e se infiltrava em cada pessoa ali presente. Sentei-me junto à janela e me permiti acompanhar o caminho errático das gotas d’água escorrendo pelo vidro, como se disputassem entre si quem chegaria primeiro ao nada.

O interior do trem era dominado por uma monotonia pesada, beirando o melancólico. Alguns passageiros permaneciam de pé, agarrados aos balaústres, com olhares vazios que denunciavam pensamentos distantes; outros se refugiavam em fones de ouvido ou em conversas silenciosas com telas luminosas, digitando mensagens que talvez nem importassem tanto assim. Havia também aqueles já vencidos pelo desgaste do dia, dormindo em posições desconfortáveis, como se o cansaço tivesse finalmente decretado sua rendição.

Cada um parecia ter encontrado um método próprio para sobreviver àquela rotina repetitiva, ainda que todos compartilhassem o mesmo propósito silencioso: chegar ao destino final e, quem sabe, descansar o corpo e a mente de mais um dia que exigiu demais e devolveu de menos.

No meu caso, eu voltava do trabalho, embora não exatamente para casa, e sim para a casa da Ashley. Mais cedo, quando eu e o resto do grupo deixávamos a escola após o término das aulas, ela anunciou, com aquele entusiasmo impossível de ignorar, que estava organizando uma festinha do pijama para nós. O evento, segundo ela, começaria pontualmente às 19h.

Obviamente, eu recusei.

Argumentei que não fazia a menor ideia de onde tiraria energia para isso depois de um expediente que, vale dizer, tinha sido um verdadeiro porre.

Como era de se esperar, minha tentativa de fuga falhou miseravelmente. Ashley, acompanhada do restante da galera, fez questão de me pressionar até que a ideia de não ir se tornasse praticamente inviável.

Em um determinado instante, a vibração insistente do meu celular me arrancou do transe silencioso que eu mantinha diante da janela do ônibus. Ao acender a tela para verificar o motivo da interrupção, o nome de Kenda apareceu em destaque.

"Deve estar querendo saber onde eu me meti.", pensei, enquanto tocava na notificação, sendo imediatamente redirecionada para o aplicativo de mensagens. A curiosidade venceu qualquer resquício de distração, e meus olhos desceram pela tela, prontos para decifrar o que quer que ela tivesse decidido escrever naquele momento.

Foi então que comecei a ler.

Kenda
Kendall_killer
online
eae, filha, vai vir quando pra cá?
18:01
a ashley pediu pra eu te mandar mensagem pra saber se você tá bem e quando tu vai chegar.
18:01
já que a maldita diz ser preguiçosa o suficiente pra n querer mandar por ela mesma.
18:01
eu vou pegar ela na porrada ainda.
18:02
Tô pegando o metrô aqui. Acho que já já eu vou estar aí.
18:05
É melhor mesmo, pq tô por um fio de te trazer pelos cabelos!
18:07
Ah, tá.
18:07
Como quiser, senhorita.
18:07
Só vem logo
18:08

"Eu sabia.", pensei, agora desligando a tela do meu celular e voltando minha atenção para qualquer lugar do trem, deixando os meus pensamentos correrem acompanhados pelo ruído monótono do trem que ecoava em meus ouvidos.

Havia um detalhe que eu tinha esquecido de mencionar, um detalhe nada irrelevante, diga-se de passagem: eu não tinha pijama nenhum. Pois é. Mesmo com toda a insistência deles, não vou mentir que ainda havia em mim uma resistência silenciosa que estava me encaminhando bem a não ir pra essa festa, o que fez com que eu sequer perdesse tempo procurando algo que pudesse servir como tal antes de trabalhar.

Por um breve momento, quase me xinguei por essa falta de planejamento gerada pela minha indecisão ignorante. Mas logo percebi que não fazia sentido dramatizar a situação. Ashley é o tipo de pessoa que coleciona roupas como quem coleciona hobbies: compra de tudo, em todos os estilos imagináveis. E não, isso não é força de expressão. O volume do guarda-roupa dela chega a ser quase desconcertante de tão excessivo. Diante disso, concluí que, muito provavelmente, ela teria um pijama sobrando para me emprestar. Sendo assim, tecnicamente, estava tudo sob controle.

Alguns minutos se arrastaram, e o cansaço finalmente começou a cobrar seu preço. O sono vinha devagar, pesado, e eu já permitia que minhas pálpebras se fechassem aos poucos, rendendo-me à ideia de descansar até chegar ao meu destino. No entanto, no exato momento em que cedi, um ruído abrupto de passos ecoou pelo corredor, alto demais para ser ignorado. Instintivamente, abri um dos olhos, ainda que a contragosto.

Foi então que o vi. Um homem alto, envolto por um capuz, avançava pelo ônibus como se estivesse avaliando cada assento disponível. Não parecia apressado; ao contrário, seus movimentos eram excessivamente tranquilos. Em dado momento, percebeu o lugar vazio ao meu lado e, sem hesitar, acomodou-se ali. Sua presença se impôs de imediato, como uma sombra espessa invadindo meu espaço pessoal, despertando uma inquietação sufocante demais para ser ignorada.

Os olhos dele, parcialmente ocultos pelo capuz cinzento, causaram-me um desconforto difícil de nomear. Eram profundos, opacos, lembrando buracos negros capazes de absorver qualquer vestígio de luz ao redor. A sensação persistente de que havia algo profundamente errado naquele sujeito contaminou o ambiente inteiro; o clima antes apenas melancólico transformou-se em algo perturbador.

E ali ele permaneceu, imóvel, silencioso, mais parecido com um espectro do que com um passageiro comum.

Eu até me repreenderia mentalmente, diria a mim mesma que tudo aquilo não passava de preconceito barato, fruto de um julgamento precipitado. Convenceria meu próprio senso crítico de que ele era apenas um sujeito estranho, nada além disso. Como eu disse, eu faria isso, se não tivesse acontecido o gesto que congelou minha alma por completo.

Senti um toque no meu joelho. Não foi um esbarrão acidental, nem um movimento descuidado causado pela falta de espaço. Aquilo foi intencional.

Meu corpo reagiu antes mesmo que minha mente conseguisse processar o que estava acontecendo. Comecei a tremer de forma incontrolável, os olhos presos no vazio, arregalados, incapazes de sequer considerar encarar aquele homem novamente. Tentei afastar a perna, romper aquele contato invasivo e sufocante. Em resposta, ele deslizou o joelho lentamente em minha direção outra vez, reafirmando sua presença de forma cruel, como se estivesse saboreando cada segundo daquela situação, se deleitando com aquilo, como o doente que era.

Aquele inferno se estendeu por intermináveis oito minutos. O tempo parecia dilatado, distorcido. Quando finalmente não aguentei mais, fui tomada por uma crise de ansiedade violenta. Gritei, num desespero quase animalesco, e me afastei dele de imediato. Olhei ao redor, soluçando, clamando por qualquer pessoa que pudesse me ouvir, que pudesse me ajudar.





































Mas quando dei por mim.. não tinha ninguém.

O trem estava completamente vazio.















Eu estava sozinha. Presa dentro de um trem em movimento, dividindo aquele espaço com aquele homem, sem testemunhas, sem socorro, sem saída imediata. Mas nada daquilo fazia sentido, eu sabia que não. Eu podia jurar que o trem estava lotado.

Pra onde todo mundo tinha ido? O que aconteceu?

Meu olhar percorreu o corredor à frente e, então, eu o vi: ele estava parado bem diante de mim. Seus olhos atravessavam minha pele, fixos, vorazes, como um predador faminto que se alimentava do meu medo e do meu desespero.

Como um vulto arrancado da escuridão, ele avançou sobre mim sem aviso.

Suas mãos se fecharam em torno do meu pescoço com uma força brutal, e o aperto veio rápido, impiedoso, como se não houvesse qualquer hesitação naquele gesto. Instintivamente, tentei reagir, me debater, arranhar, lutar de alguma forma, mas meu corpo parecia fraco demais diante da violência dele. Cada movimento era inútil, cada tentativa, esmagada com facilidade.

Em poucos instantes, senti o ar escapar dos meus pulmões, como se estivesse sendo drenado à força. Minha visão começou a falhar; as cores ao meu redor desbotaram, a luz se dissolveu em sombras indefinidas, e o mundo perdeu contorno e sentido. O som se tornou distante, abafado, como se eu estivesse sendo empurrada para fora da realidade.

A última coisa que consegui fazer, antes de tudo finalmente se apagar, foi gritar por socorro dentro da minha própria cabeça, que jamais saiu da minha garganta.

Depois disso, não restou mais resistência.

E então, eu cedi.

























































































Acordei em um sobressalto, sendo arrancada à força de um lugar que eu não conseguia identificar direito.

Levei alguns segundos até compreender onde estava. Eu me encontrava sentada em uma das cadeiras da área de espera da estação de metrô para a qual havia vindo originalmente. Olhei ao redor, ainda desorientada, e logo notei que o espaço estava vazio demais. Nenhum funcionário à vista, nenhum passageiro atrasado, nenhum som humano. Nada. Apenas eu e o silêncio pesado daquele lugar, quebrado apenas pela presença de um trem parado à minha frente, aguardando para ser usado, como se estivesse ali exclusivamente por minha causa.

Com um aperto no peito, puxei o celular para conferir as horas. O horário exibido na tela me fez gelar. Era muito mais tarde do que eu imaginava: 00h40. Além disso, a tela estava tomada por notificações. Várias mensagens da Kenda se acumulavam, como se ela estivesse tentando me alcançar havia tempo demais.

Kenda
Kendall_killer
online
eae, filha, vai vir quando pra cá?
18:01
a ashley pediu pra eu te mandar mensagem pra saber se você tá bem e quando tu vai chegar.
18:01
já que a maldita diz ser preguiçosa o suficiente pra n querer mandar por ela mesma.
18:01
eu vou pegar ela na porrada ainda.
18:02
Maluca, aonde é q tu tá?
00:23
Cê não disse que ia vir?
00:23
Ficou de cu doce, é? Tá todo mundo dormindo aq já, perdeu coisa demais. Mandou malzão.
00:23

Diante daquilo, fechei os olhos por alguns segundos, tentando organizar os pensamentos e acalmar a respiração. Levei a mão até o pescoço quase por instinto, procurando por marcas, hematomas, qualquer vestígio do aperto que eu jurava ter sentido. Mas não havia nada, minha pele estava intacta e não havia nenhuma dor real. Foi então que a explicação mais racional se impôs: eu devia ter apagado enquanto esperava pelo trem. O cansaço acumulado do trabalho tinha me vencido. Provavelmente tentei tirar apenas um cochilo enquanto aguardava o metrô, mas o corpo decidiu ir além e simplesmente desabou em sono profundo.

Levantei-me da cadeira com um movimento lento e soltei um suspiro longo, carregado de alívio. Agradeci mentalmente aos céus por tudo aquilo não ter passado de um delírio, nada mais. Com essa sensação de segurança, preparei-me para caminhar em direção ao trem parado à minha frente.

Mas, no instante em que dei o primeiro passo…













































Senti uma mão agarrar meu rosto com força brutal, comprimindo minha mandíbula e tapando minha boca, impedindo qualquer som de escapar.