Doce Como Dor

Doce como Dor


Levante-se!

É hora de acordar, Miska! O sol brilha lá fora, anunciando um dia maravilhoso!

Ficar aí, jogada nessa cama como se o mundo tivesse parado, não vai adiantar nada! É só mais um dia! Mais uma luta! E você sabe que, querendo ou não, vai ter que enfrentá-lo! Acredito que você não queira perder a luta, não é verdade? Nãããão é verdade?!

Hm… olá? Você está me ouvindo?

Eu já pedi pra você acordar! Seu café está esfriando na cozinha! Há pão na mesa, frutas frescas, um mundo inteiro girando lá fora fingindo que tudo estivesse centrado em você! E você aí, fingindo que pode se esconder do tempo.







































Heh. Interessante.

Você não quer acordar mesmo, né?

Eu entendo. Talvez mais do que você imagina. Aliás, talvez mais do que você mesma. Porque eu sei o que tem aí dentro. Sei o peso que te amarra, a sombra que te aperta o peito. E sim, sei que levantar parece uma afronta, e encarar o dia é o mesmo que render-se à existência.

Bem, é realmente uma pena, mas você sabe bem como as coisas funcionam nesse seu mundinho pacato, não é? Mesmo nesse silêncio aí dentro, o mundo não para. E você sabe disso. No fundo, sabe.

Você não tem nenhuma escolha.

Não há refúgio, não há esconderijo, não há nenhuma porta aberta onde você possa simplesmente desaparecer. Aqui, a regra é simples: ou você levanta, ou alguém te arrasta. E eu já estou de pé.

Não está ensolarado, está chovendo.

Então ouça o que eu estou te dizendo, menina.







































Levante-se. Agora. Sua inútil.

E se não for por bem, vai ser por mal. Eu não tenho nenhum problema com isso.

E você sabe disso.







































Ótimo, você finalmente resolveu acordar, não é? Nossa própria Cinderela!

Boa garota.







































Mas o que foi agora? Qual o motivo dessa expressão arrastada? Por que tanto resmungo só por sair da cama? Levantar-se não devia ser um fardo tão grande assim, não é? Essa cara de desagrado.. já sei: fome, sempre é fome. E eu arriscaria dizer que você está faminta, acertei?

Fique tranquila, como eu já te disse, seu café da manhã está te esperando lá embaixo. Nada de extraordinário, claro, mas o suficiente pra manter esse seu corpo funcionando.

Antes disso, porém, você já sabe o protocolo: vá até o banheiro, escove os seus dentinhos e tome um banho decente. Hoje você está oficialmente de folga, sem escola, sem trabalho, sem as tarefas que você tanto odeia e, ao mesmo tempo, usa como desculpa pra fugir de tudo. Então até que dá pra chamar de sorte, né? Mas ó, não se anime demais. Um dia "tranquilo" ainda pode te surpreender, e não necessariamente de forma boa.

Ah! Quase esqueci, hoje você vai sair, não vai? Aquele seu pequeno e seleto grupo de amigos te chamou de novo. O "grupinho da pesada", como você mesma ironizou outro dia. Você hesitou, como sempre. Fez cara de quem não quer, fingiu pensar, mas no fim cedeu. Cedeu como quem já nem lembra mais como é dizer não.

Sabe, às vezes eu realmente sinto pena de você, você é tão patética. E pra ser sincera, mesmo nessas horas, você nem merece.

Mas vamos lá: seja honesta comigo, Miska. Você realmente confia neles? Me diga com toda a certeza que eles te veem como parte daquilo. Que não vão, mais uma vez, rir de você pelas costas, te deixar de lado, esquecer de te chamar quando for mais conveniente. Me dê uma só prova de que você não está se enganando. Não consegue, né?

É claro que não consegue. Sua cabeça está cheia de dúvidas. Eu vejo, eu sempre vejo. Mas tudo bem, pensa com calma. Reflita. No fim das contas, isso é um problema seu, não meu. E sinceramente?

Por mim, é mais que merecido.







































Mas olha só… enquanto eu falava, você já escovou os dentes. Que aplicada, uma menina comportada! Sempre insegura com a sua aparência, não é? Esses dentes branquinhos, essa pele impecável, quase dá gosto de ver.

Quase.

Você é muito bonita, Miska. Uma beleza silenciosa, que tenta passar despercebida, mas nunca consegue por completo.

…Heh. Relaxa, tô só brincando.

De novo.







































Agora você se encara no espelho e, de repente, desaba em lágrimas. E por quê? Ah, você não sabe, ou prefere fingir que não sabe. Mas vamos ser honestas por um instante: eu sei exatamente o que está acontecendo. E você também. A diferença é que eu não minto pra mim.

Você está vendo ele de novo, não está?

A figura dele.

A sombra dele.

Aquela voz que gruda na sua mente como uma praga silenciosa.

Mesmo quando você tenta abafar os ouvidos com as mãos trêmulas, mesmo quando finge que é só barulho ao fundo. Você quer acreditar que ele já se foi, que eu não estou aqui, mas nós duas sabemos que esse teatro é só uma parte da rotina. Você finge. Eu assisto. E no fim, tudo se repete. Como sempre.

E quer saber? Eu acho adorável. De verdade. É... fascinante assistir você tentando fugir de mim.

Mesmo sem me ver, mesmo sem me entender, você ainda tenta escapar. Não tem como eu não me divertir. Sua resistência fracassada é uma poesia.

E agora? Agora veio aquele impulso cego e quente, que te faz bater em si mesma numa tentativa furiosa de destruir a própria existência refletida. Um ataque de raiva. Um pequeno espetáculo só pra mim. Um show privado da sua dor. E eu? Aplausos internos. De verdade, Miska, que presente. Que delícia é ver você se desfazendo.







































E então, claro, o clímax: você soca o espelho. Estilhaços por todos os lados. Vidro, sangue, a sua pele cortada tal qual tivesse suplicado por castigo. Bravo. Parabéns pela genialidade. Eu diria que é quase cômico… mas não quero te ofender demais. Já basta o que você fez com o próprio rosto, não é?

Limpe essa bagunça.

Você não vai querer que os seus adoráveis amigos, aquele grupo tão "próximo", tão "genuíno" vejam você assim. Não pega bem receber visitas com a mão rasgada, pingando sangue no chão. Isso, sim, seria embaraçoso. E nós não queremos isso, não é?







































Boa garota.

Você recolheu os cacos, limpou o chão que, por alguns minutos, parecia um pequeno altar de sangue. Depois, cuidou das feridas com gaze e fita adesiva, desajeitada, mas funcional. Uma tentativa patética de apagar o rastro na esperança vã de que uma atadura fosse suficiente.

Mas, veja bem, eles vão perceber. Claro que vão. Vão fingir que não, talvez. Vão sorrir torto e mudar de assunto. Mas perceber, ah, perceber eles vão.

O estrago, minha querida, já foi feito.

Bem, agora apenas fique quietinha. Logo tudo isso vai passar, ou, pelo menos, você vai acreditar que passou. E às vezes, isso basta.







































Depois do colapso, você foi até a sala. Os passos lentos, arrastados, cada músculo parecia relutante em obedecer. Você se deixou cair no tapete como quem perde uma batalha silenciosa e encostou-se no sofá, o corpo entregue ao vazio. Ligou a televisão num canal aleatório que só existe para fazer ruído. Imagens desconexas, sons indiferentes. Nada disso importa, claro. Nem para mim, nem para você. É apenas ruído. Ruído para não ouvir a própria cabeça.

E então… lágrimas de novo.

Você começa a chorar outra vez. De novo esse soluço abafado, esse choro contido, essa tentativa de ser discreta até no sofrimento. E vou ser honesta com você, Miska: está começando a me irritar. Seu choro é irritante. Uma nota repetida demais numa sinfonia que já perdeu o tom. Engole isso. Engole esse drama.

Você é inútil até para sofrer direito.

E o mais patético disso tudo? É que você sabe que ninguém pode ouvir. Absolutamente ninguém.. além de mim. Só eu. E por mais estranho que pareça, você parece confortável com isso. Você me oferece seu sofrimento atribuindo a ele algum valor. Como se, ao me deixar ver essas lágrimas, estivesse dividindo algo íntimo com uma amiga imaginária. Mas eu não sou sua amiga.

Eu sou só parte do que você é. E isso, ironicamente, é doce.

Mas guarde essas lágrimas. Elas têm valor demais pra serem desperdiçadas num tapete sujo e numa TV muda. Até mesmo o que parece trivial pode ter um propósito. E eu? Eu vou garantir que, se você chorar, que chore por algo que realmente valha a pena.







































Agora ouça. As batidas na porta. Eles chegaram.

Eles estão aqui, te esperando. Vão sorrir, te abraçar, talvez até elogiar sua aparência com aquela gentileza automática e ensaiada. Vá até eles. Ria, divirta-se. Você ainda lembra como faz isso, certo? Porque eles te fazem rir, não fazem?

Sinceramente? Eu não aguento isso.

Risos, finais felizes, esse teatro ridículo de normalidade... me causam náusea. Mas a sua risada em particular, que você força tentando, inutilmente, acreditar que estivesse convencendo a si mesma de que está tudo bem, essa sim, me soa como um verdadeiro inferno. Aguda, desesperada e uma paródia do que deveria ser alegria.

Mas vá lá, Miska. Vai, eu deixo.

Aproveite esse pequeno alívio antes que tudo volte a desmoronar.

Mas não se engane, minha criança.

Você pode ser resiliente. Pode suportar mais do que deveria. Pode até ter aprendido a se levantar depois de cada queda. E ainda assim...

Eu continuo sendo perfeitamente capaz de infligir a você uma dor que sequer consegue conceber.

Não quero que duvide disso. Não há espaço para dúvidas entre nós, basta observar.

Observe atentamente as figuras, Miska.

Veja bem essas figuras que cercam a sua mente, que habitam os seus silêncios. Repare com atenção nos rostos familiares, deformados agora pela memória e pela dor.

Observe aquele que te abandonou quando você mais precisava.

Observe aquele que jurou estar ao seu lado e te traiu sem hesitação.

Observe aquele que te tratava como nada. Que te desprezou com olhos frios e palavras rasgadas.

Observe aquele que cruzou a linha. Que te violou no corpo, na alma, no tempo.

Observe aquele que te feriu, devagar, todos os dias, até você confundir dor com rotina.

Não é fascinante, Miska?

Eles estão todos aqui.

Seus velhos "amigos". Os companheiros do passado. Tão alegres e tão solícitos. Tão ansiosos para brincar novamente com você.

Mas não se preocupe. Eu não vou tocá-la. Nem levantar um dedo contra você.

Eles farão isso por mim.

Eu só vou assistir.

Tudo o que você precisa fazer é o que sempre fez: obedeça. Seja uma boa menina. Finja que não sente nada, que não vê.

016-01

Fingir, afinal, é algo que você sempre fez tão bem.