culpa

CULPA

Música

Eu gostaria muito de conseguir resumir tudo o que aconteceu da forma mais simples e fácil possível. Mas a verdade é que nada é simples. Nem fácil. Muito menos da maneira como parece ser quando conto por alto. Faz sentido, considerando que minha mente está um verdadeiro labirinto desorganizado onde até as ideias mais básicas parecem se perder antes mesmo de chegar a algum lugar.

Ainda assim, vou tentar organizar esse turbilhão e explicar, do jeito que der. Peço desculpas antecipadamente se minhas palavras não fizerem o menor sentido em algum momento. Acredite, estou realmente me esforçando.

A princípio, era para ser apenas mais um dia comum, sem grandes acontecimentos.

Saí com a Ashley para um bar. Ela havia dito que tava precisando muito beber, enfatizando isso de um jeito que me deixou intrigada. Eu, que nunca tive o menor apreço por álcool, aceitei acompanhá-la por solidariedade. No fim das contas, ela é minha amiga, e seria irresponsável deixá-la perambular sozinha pela cidade depois de umas doses a mais. Conhecendo a peça, era melhor prevenir.

Chegando lá, o roteiro foi exatamente o esperado: Ashley bebeu como se não houvesse amanhã. Mas, pra ser justa, foi menos escandaloso do que de costume. Se eu comparar com os "recordes" que ela já quebrou em outras noites, e que nosso grupo, por pura diversão, fez questão de catalogar, essa saída foi até comportada.

Quanto a mim, mesmo com as tentativas (insistentes e nada discretas) dela de me empurrar um copo, mantive minha tradição pessoal de não tocar em bebida nenhuma. Já meio trôpega, ela tentou me convencer que seria só um gole, como se isso fosse uma grande vitória para ela. Mas eu declinei, obviamente.

O tempo passou num tédio arrastado, enquanto para ela era pura festa. Euforia seria pouco para descrever: o time de basquete dela havia vencido, e aquilo foi o combustível para uma animação sem freio algum. Admito, a partida foi boa até para quem não liga muito pra esportes. Mas a comemoração, essa sim foi uma maratona.

Quando a noite começou a pesar, levei Ashley até a casa dela. No caminho, entre tropeços e risadas, ela ainda teve a ousadia de me convidar para dormir lá. Disse que já era tarde, que eu já tava ali mesmo, e que não custava nada. Mas, novamente, recusei.

Nos despedimos ali, e eu segui meu caminho de volta pra casa. Foi nesse momento que a coisa começou a mudar de tom.

Enquanto caminhava, uma sensação incômoda começou a se instalar. A princípio, pensei ser apenas o desconforto natural de atravessar ruas desertas em plena madrugada. Mas tinha algo mais. Uma inquietação que se espalhava aos poucos, que me fazia sentir que eu não estava mais tão sozinha quanto deveria.

Instintivamente, meus olhos começaram a percorrer os arredores. Discretos, mas atentos, buscando captar qualquer movimento suspeito. E quanto mais eu tentava me convencer de que era só uma paranoia besta, mais forte aquela presença invisível parecia ficar.

Pra piorar, até meus próprios passos começaram a me pregar peças. O som das minhas pisadas ecoava de um jeito estranho, a ponto de não parecerem minhas. A cada estalo no asfalto, um pequeno sobressalto. A certa altura, o simples barulho das minhas botas me fez pular para trás, tomada por um susto idiota, mas incontrolável.

Apesar de tudo, consegui chegar em casa. A caminhada pareceu não ter fim, foi algo entre quarenta e cinquenta minutos de passos arrastados, silêncio desconfortável e cansaço acumulado. Não foi uma chegada nada triunfante, mas, no final das contas, eu havia conseguido. Estava de volta.

Quando finalmente atravessei a porta de entrada, meu único objetivo era simples: me jogar no sofá e apagar ali mesmo. Eu estava exausta demais pra pensar em qualquer outra coisa. No entanto, antes que pudesse sequer dar dois passos em direção à sala, um ruído vindo da cozinha interrompeu completamente esse plano.

Gavetas sendo abertas e fechadas sem cuidado. Objetos sendo deslocados. Talheres ou utensílios esbarrando uns nos outros com um tilintar seco e desordenado. Naquele instante, meu corpo inteiro congelou. Um pensamento simples e direto tomou conta da minha mente: havia alguém dentro da minha casa.

A hipótese mais plausível, e, também, a mais inquietante, era óbvia. Tratava-se de algum ladrão que estava revirando tudo em busca de qualquer coisa de valor.

Eu não conseguia entender como essa pessoa, seja lá quem fosse, havia entrado ali. Eu tinha plena convicção de que havia trancado a casa antes de sair. Conferi portas, janelas, tudo. Restavam apenas duas possibilidades. Ou eu havia cometido algum descuido absurdo e deixado alguma entrada aberta, ou o sujeito simplesmente tinha encontrado um jeito de destrancar a porta, talvez com alguma ferramenta, algum truque, alguma técnica que eu nem fazia ideia que existia.

De qualquer forma, refletir sobre isso naquele momento não ajudaria em absolutamente nada. Ele já estava lá dentro. E, aparentemente, não demorou para perceber que agora não estava mais sozinho.

Os barulhos vindos da cozinha cessaram de forma abrupta, e o silêncio que se seguiu foi ainda pior. Era pesado, palpável. Seus passos vieram rápidos e decididos, aproximando-se.

Foi nesse momento que meu corpo reagiu antes mesmo que eu pudesse formular qualquer plano racional. Movida por um impulso puro de autopreservação, algo muito mais próximo do pânico do que de qualquer estratégia lógica, virei e disparei escada acima sem olhar pra trás.

Subi os degraus praticamente de dois em dois, correndo em direção ao meu quarto como se aquela fosse a única rota possível de sobrevivência. Meu coração martelava no peito com violência, cada batida mais alta que a anterior, ecoando na minha cabeça como um tambor descompassado. Era tão intenso que, por um instante, tive a impressão de que o invasor poderia ouvir aquele som tanto quanto eu.

Trancar a porta sequer passou pela minha cabeça, não havia tempo para isso. A prioridade era me esconder, desaparecer do campo de visão de quem quer que fosse aquele invasor. E foi assim que, sem pensar duas vezes, me enfiei debaixo da cama, tentando ser menor que a própria sombra.

Ali permaneci, encolhida, quase sem respirar, forçando meu corpo a não emitir som algum. Pois eu sabia que, nesse momento, cada respiração era uma traição em potencial.

Do andar de baixo, continuavam a chegar ruídos perturbadores: passos firmes, objetos sendo arremessados ao chão, vidro se estilhaçando. Não dava para saber se era desespero por ter sido flagrado ou pura maldade gratuita. Talvez ambos. Eu, sinceramente, não estava disposta a descobrir.

Na tentativa de buscar socorro, peguei meu celular com as mãos trêmulas, e disquei para a polícia.

A ligação tocou.

E tocou.

E tocou.

Ninguém atendeu.

Em meio ao desespero crescente e à sensação sufocante de impotência, tomei uma decisão impulsiva: recorrer à internet em busca de ajuda.

Sem saber muito bem o que esperar, publiquei meu pedido em um fórum qualquer, um daqueles onde estranhos anônimos trocam conselhos improváveis durante as madrugadas. Para minha surpresa, e momentâneo alívio, fui respondida quase que imediatamente. A simples constatação de que alguém, em algum lugar, estava lendo minhas palavras já foi suficiente para amenizar, ainda que por pouco, o pânico que me consumia.

As primeiras orientações foram óbvias: insistir nas tentativas de contato com a polícia. Mesmo sabendo que já havia tentado antes, resolvi seguir o conselho e continuei ligando.

Dessa vez, a sorte finalmente sorriu, ou, pelo menos, piscou um olho cansado para mim. Após uma eternidade de toques que pareciam zombar da minha urgência, a ligação foi atendida. Com a voz embargada e trêmula, repassei meu endereço e relatei a situação da forma mais clara e rápida que consegui. Do outro lado, me pediram calma. Disseram que já estavam a caminho.

Se era verdade ou não, pouco me importava. Naquele momento, eu apenas me agarrava à ideia de que o socorro estava vindo. Era isso ou me render ao pânico.

Enquanto aguardava, as orientações do fórum continuavam, e eu me sentia acompanhando um filme de suspense em tempo real. Fui sugerida que eu me aproximasse da borda da cama, buscasse uma fresta no ângulo certo e tentasse visualizar o corredor. A proposta era, segundo ele, avaliar se o invasor se aproximava ou se já havia recuado.

“Porra, cara, isso é burrice! Você quer que eu me mate?”, foi exatamente assim que respondi no tópico. Qualquer um em meu lugar saberia o quão suicida seria espiar e me expor daquela maneira.

Ainda assim, ele insistiu. Argumentou que entender os movimentos do invasor era vital. Que saber onde ele estava poderia ser a diferença entre me manter oculta ou ser pega de surpresa. Mesmo assim, nenhum desses argumentos foi suficiente para convencer meus instintos de autopreservação. Meu corpo parecia colado ao chão, recusando-se terminantemente a obedecer qualquer ideia minimamente arriscada.

Mas então, algo mudou.

O barulho constante dos passos cessou de forma abrupta. O silêncio que se seguiu foi ainda mais perturbador do que os estalos no assoalho. Em meio a essa quietude repentina, escutei rangidos de portas, sons secos, arrastados, como se alguém estivesse mexendo em fechaduras ou vasculhando armários.

O mais provável, pensei, era que o invasor estivesse fugindo. Talvez tivesse percebido que estava em desvantagem, talvez assustado com a possibilidade de eu estar com mais alguém, embora essa hipótese não fizesse muito sentido.

Foi nesse momento de aparente trégua que, vencida pela curiosidade, ou pela falsa sensação de segurança, decidi abandonar meu esconderijo. Arrastei-me em direção à porta, na tentativa de espiar o corredor e confirmar se o invasor realmente havia se retirado.

Ingenuidade minha.

No instante em que projetei a cabeça para fora do quarto, mãos ásperas e implacáveis se cravaram em meus braços e pescoço. Ele nunca havia partido. Ele tava ali o tempo todo, apenas aguardando o momento oportuno para atacar. E eu, ingênua e vulnerável, ofereci exatamente a chance que ele queria.

O aperto em minha garganta aumentava sem piedade, a ponto de tornar cada tentativa de respirar uma batalha perdida. Não precisei de muito para entender suas intenções: ele queria me apagar, apagar minha consciência ali mesmo, com as próprias mãos.

Se continuasse daquele jeito, é inegável que teria sucesso.

No entanto, em meio ao torpor e ao desespero, encontrei uma única alternativa: me fingir de morta.

Afrouxei o corpo de forma quase instintiva, deixei os olhos vidrados e controlei a respiração ao mínimo, simulando um desmaio com a precisão de quem não tinha outra escolha. Surpreendentemente, funcionou. Após alguns minutos, embora o tempo, naquela situação, fosse impossível de medir com exatidão, senti suas mãos relaxarem. Ele me largou na certeza de que eu já não fosse mais uma ameaça, jogando-me no chão com um desprezo calculado.

Acho que, dadas as circunstâncias, posso me considerar uma atriz decente.

Enquanto me mantinha imóvel, observando pelas frestas dos cílios semicerrados, percebi que ele se apossou do meu celular. Com uma calma perturbadora, começou a digitar algo na tela. Não consegui identificar exatamente o conteúdo, talvez estivesse enviando mensagens para alguém, tentando forjar uma normalidade inexistente pra afastar suspeitas, dar a impressão de que estava tudo sob controle.

Porém, pouco me importava o que ele digitava no meu celular. O que de fato capturou minha atenção foi o momento exato em que ele se virou de costas para mim. Era a brecha que eu precisava, a única.

Sem fazer alarde, comecei a me arrastar lentamente pelo chão, deslizando centímetro por centímetro em direção à porta do quarto, enquanto ele permanecia absorto na tela do meu aparelho. Não mencionei antes, mas, quando me movi para espiar o corredor, deixei a câmera do celular estrategicamente posicionada, gravando tudo. Precaução básica, mas naquele contexto, tornou-se uma armadilha eficaz. Uma espécie de isca digital que, para minha sorte, funcionou como planejado.

Com um esforço sobre-humano, alcancei a soleira da porta e consegui escapar do quarto em absoluto silêncio. A cada movimento, agradecia mentalmente por ele não ter notado o som do atrito no assoalho ou minha respiração ofegante. Em situações normais, seria impossível ele não perceber, mas a adrenalina parecia ter suspendido as leis da lógica por um breve instante.

Levei uma das mãos ao pescoço, ainda dolorido e sensível, tentando recuperar o fôlego enquanto me levantava com dificuldade. Sem pensar muito, disparei em direção às escadas, decidida a alcançar a cozinha no andar inferior. Mas minha ausência não demorou a ser notada. Assim que percebeu que o “corpo” que ele imaginava inerte havia sumido, ele largou o celular de imediato e veio atrás de mim, furioso.

Ele me viu cambaleando em direção aos degraus e, como um predador farejando a fragilidade da presa, lançou-se contra mim em um movimento brusco, tentando me derrubar. Por sorte, e talvez puro desespero, consegui esquivar de seu ataque no último instante. Desci as escadas em disparada, ignorando completamente o risco real de tropeçar e despencar ladeira abaixo. Se eu me machucasse na queda, seria um problema menor comparado ao que me esperava caso ele me alcançasse.

Ao pisar no térreo, eu já estava determinada a sair de casa. Gritar por ajuda, esmurrar portas, arrombar janelas, qualquer coisa que pudesse me tirar dali. Mas ele foi mais rápido. Antes que eu pudesse alcançar a saída, suas mãos me agarraram pelo pescoço novamente, mas sem a intenção imediata de me asfixiar. Em vez disso, ele me lançou com brutalidade contra a geladeira da cozinha.

O impacto foi devastador.

A pancada me tirou o ar, e o chão gelado da cozinha se tornou meu novo ponto de apoio. Minha visão começou a turvar e, com ela, a realidade ao meu redor pareceu se dissolver. Cada tentativa de movimento era um esforço hercúleo, e a consciência parecia escapar aos poucos.

Vi, entre flashes de luz e sombra, a silhueta dele se aproximando, lento e calculado, como um predador saboreando a vulnerabilidade da vítima.

Estava a um fio de me render ao inevitável. A ideia de ser assassinada por aquele lunático parecia, por um instante, algo simplesmente incontornável. No entanto, no meio do chão frio da cozinha, meus olhos encontraram a salvação: uma faca de cozinha, caída a poucos centímetros da minha mão.

Não faço ideia de como aquele objeto foi parar ali. Talvez o impacto do meu corpo contra a geladeira tenha provocado um efeito dominó, derrubando utensílios até que a lâmina deslizasse da bancada. Mas nada importava. O que realmente tinha relevância era o fato de que ela estava ao meu alcance, como uma dádiva.

Quando o invasor se aproximou o bastante, com passos pesados e a vitória já estampada em sua expressão sádica, encontrei em mim forças que nem sabia que possuía. Lancei um chute certeiro, atingindo sua virilha com a precisão de quem não tem outra saída. Um gemido gutural que escapou de sua garganta devido a óbvia dor, e depois ele caiu aos chãos.

Num movimento rápido, agarrei a faca e, aproveitando a vulnerabilidade momentânea, me lancei sobre ele. O golpe foi direto e brutal: a lâmina rasgou sua garganta, rompendo carne e vasos com uma facilidade perturbadora. O sangue jorrou com violência, tingindo o chão e minhas mãos, enquanto ele se debatia em desespero, engasgado nos próprios fluidos vitais.

Quando, enfim, seu corpo parou de se mexer, a constatação veio como um soco: ele estava morto.

Mas, naquele instante, eu também estava.

O peso da culpa se abateu sobre mim como uma tempestade, grudando-se em mim como um fardo invisível. Nunca, em nenhuma hipótese, imaginei que seria empurrada para uma decisão tão extrema. Tirar uma vida não era algo que existia no meu mundo, muito menos algo que eu conseguiria imaginar fazendo com minhas próprias mãos. A imagem do seu olhar vazio, perdido, lutando inutilmente contra algo que já não podia ser detido se gravou na minha mente com uma nitidez cruel. Era como se meus pensamentos se recusassem a me poupar, repetindo aquela cena inúmeras vezes, quadro por quadro.

Minhas mãos tremiam. Eu as encarei por um instante, como se não as reconhecesse mais. Eram as mesmas mãos de sempre, as mesmas que eu usava para coisas banais do dia a dia, mas que agora pareciam carregadas com algo irreversível.

Não era pras coisas terem chegado a esse ponto.

Nada disso deveria ter acontecido.

Ainda que eu soubesse, racionalmente, que não tive escolha, que se não fosse eu a agir, quem estaria ali, triunfante, seria ele, meu coração se recusava a aceitar essa lógica fria.

O som das sirenes cortou o ar da noite. As luzes vermelhas e azuis dançavam nas paredes da minha casa, refletindo-se nas janelas com uma ironia dolorosa. A polícia finalmente havia chegado.

Eu larguei a faca como quem larga o pior dos venenos do mundo, e então as lágrimas começaram a se formar pelo meu rosto sem piedade.

Logo, eu abracei meus joelhos, abaixei minha cabeça e chorei.

Sirenes na escuridão

Eu não queria ter matado ele.

Quarto vazio

O mundo, convenhamos, nunca foi um lugar exatamente justo, não é mesmo? Às vezes, ele parece mais uma roleta russa do que qualquer ideia romântica de justiça.

E lá estava você, precisando relatar tudo à polícia, esperando, ou melhor, implorando em silêncio para que acreditassem na sua versão, mesmo que ela fosse a mais pura expressão dos fatos. Afinal, nem sempre a verdade tem peso quando confrontada com o olhar enviesado de um sistema corroído por suas próprias falhas.

Ainda bem que, dessa vez, a realidade estava ao seu lado. As marcas profundas no seu pescoço e a gravação do celular serviram como provas irrefutáveis: aquilo não foi um crime, foi legítima defesa. Um ato desesperado para preservar sua própria existência. O invasor não deixou outra opção.

Agora, com a poeira começando a baixar, você se encontra de volta ao que deveria ser um lar, embora hoje ele mais pareça um campo de batalha. Seus amigos, ao saberem do ocorrido, correram para lhe oferecer apoio, tentando aliviar o peso do trauma com palavras de conforto e abraços apertados.

Mas o que eles não percebem é o que acontece quando os olhares se desviam.

É no silêncio, longe das palavras de encorajamento, que suas lágrimas caem com mais liberdade.

E por quê?

Porque existe algo que a razão não consegue abafar: a culpa.

Sim, você está em segurança.

Sim, a justiça reconheceu seu lado.

Mas há uma parte sua que se recusa a aceitar o desfecho, que não consegue simplesmente virar a página e seguir em frente. Porque você nunca quis ser colocada naquela situação. Não queria lutar por sua vida com uma faca em mãos. E, muito menos, ser forçada a tirar a vida de alguém.

Você repetiu inúmeras vezes: “Me desculpe.” Gritou, chorou, implorou, mas a pergunta que não quer calar é:

Desculpe-se de quê, exatamente?

Essa culpa toda... será que ela faz sentido?

Você sabe muito bem o que aquele homem pretendia fazer. Não há dúvidas quanto a isso. Ele não veio para roubar um aparelho eletrônico ou levar dinheiro. Ele veio para te ferir, para te destruir. E se não fosse por sua reação, hoje o desfecho seria outro e não seria você contando essa história.

Então, por que chorar pela perda de um ser tão vil? Por que lamentar a morte de quem não hesitaria em tirar a sua?

Ele era insignificante, Miska.

Miserável, até.

Nenhum adjetivo parece suficiente para descrever o quão abjeto era aquele sujeito. Eu poderia, sem esforço, despejar uma enxurrada de ofensas na direção dele, mas ainda assim sentiria que não seria o suficiente.

Digo isso porque me conheço bem.

Por isso, deixo apenas uma pergunta no ar:

Faca ensanguentada

Por que, afinal, você ainda está chorando?

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