carne frágil, alma fria

FOLHA 24

carne frágil, alma fria

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Música

Você abriu os olhos e encontrou-se em um quarto branco.

Estava sentada no chão, com os braços envolvendo as próprias pernas, sendo essa sua única âncora possível em meio ao vazio. Lembrava-se do instante em que a consciência lhe havia escapado, mas não possuía qualquer memória de como chegara até aquele lugar.

Com esforço, ergueu-se lentamente e deixou o olhar vagar pelo ambiente.

Quarto branco vazio

Tratava-se de uma daquelas celas clínicas destinadas a isolar pessoas consideradas instáveis, uma prova de como o mundo não parece capaz de conviver com quem não se ajusta aos seus padrões.

Notou, também, que já não trajava as roupas comuns que usava ao adormecer.

A blusa preta e a bermuda escura haviam desaparecido. Em seu lugar, uma camisola hospitalar branca recobria-lhe o corpo, tão pálida quanto o espaço que a aprisionava, funcionando como um uniforme da própria clausura.

O quarto, embora limpo até a obsessão, exalava um odor estranho, uma mistura ácida de desinfetante e mofo que parecia impregnar-se na pele. Não havia portas, nem janelas, apenas paredes impenetráveis que silenciavam qualquer possibilidade de fuga ou de compreensão.

Um zumbido baixo e constante preenchia o ar, invadindo-lhe a mente como um parasita que se alimentava dos pensamentos, reorganizando-os até conduzi-la à loucura.

Você se sentia presa.

ESTAVA presa.

Encerrada dentro de uma caixa branca e quase vazia, reduzida à solidão de si mesma.

Mas…

Devo confessar: sua reação me desapontou.

Eu esperava o seu desespero habitual, seu grito agudo de socorro, seu olhar vidrado pela esperança inútil, as mãos desesperadas tateando as paredes em busca de uma saída inexistente.

Esperava a repetição da sua rebeldia previsível.

Mas nada disso veio.

Havia em você uma calma que não me parecia natural. Um controle frio demais para a situação. E isso me instigou.

Talvez você já tenha compreendido que você está apenas dormindo. Acertei?

Estamos, mais uma vez, mergulhados no território caótico da sua mente. Este quarto não existe fora de você, ele é um fragmento distorcido do seu próprio labirinto interno.

Se for assim, talvez já tenha se habituado a essas construções noturnas, e aprendido que, ao final, nada disso tem peso real.

Nada machuca.

Nada permanece.

Mas se essa hipótese for verdadeira, há algo em você que me interessa ainda mais.



























Precipício na névoa

O quarto branco, tão absoluto em sua frieza, simplesmente se dissolveu.

E, então, diante de seus olhos, restou apenas um precipício.

Diga-me, criança, este lugar lhe agrada? Eu desejo que sim. Permita-me saber.

Uma névoa densa e impenetrável dominava tudo, obscurecendo qualquer possibilidade de horizonte. Nada lhe era dado enxergar além do chão áspero que condenava seus pés nus a uma permanência silenciosa.

Você avançou lentamente como quem busca uma resposta que não existe. Tentou, em vão, perscrutar a paisagem encoberta, mas a névoa tornava inútil qualquer esforço. Então você permaneceu imóvel, vinte longos minutos de quietude absoluta. Sem palavras, sem gestos, apenas o silêncio se impondo como único testemunho da sua presença.

A brisa tocava seu corpo, e a névoa, como um véu cruel, confundia seus pensamentos.

E foi nesse instante que lhe toquei.

Estava ao seu lado.

Minha mão repousou sobre seu ombro e você estremeceu, frágil como um animal pequeno e acuado. Instintivamente, abraçou a si mesma, tentando encontrar algum conforto nos próprios braços, mas sabia melhor do que ninguém que aquele gesto não passava de um simulacro de acolhimento.

E comigo, não havia como disfarçar.

Diga-me, criança, o que fará a seguir? Permita-me saber.

No fim de tudo, é só um sonho.

E sonhos, criança, são apenas reflexos.

Reflexos de memórias fragmentadas, de experiências mal cicatrizadas, de sentimentos que sobrevivem até mesmo quando você acha que estão soterrados..

O seu não é diferente.

Ele também é um espelho de si.

Gosto de interpretar que o branco excessivo daquele quarto que lhe antecedeu não era mera estética, e sim o retrato exato do sufocamento que você sente. Vejo aquele quarto como a materialização do seu isolamento com a sua mente, da solidão que cresce em silêncio dentro de você, mesmo quando você está próxima de tanta gente.

Muitos pensamentos atravessam sua mente enquanto você permanece diante da falsa paisagem do precipício, imóvel, em silêncio absoluto. É possível que esteja fazendo exatamente aquilo de que acabei de falar: isolando-se dentro de si mesma, permitindo que sua mente se encarregue de abrir portas que talvez preferisse manter fechadas. Portas que revelam lembranças, boas ou más, não importa, porque todas insistem em retornar quando o silêncio se prolonga.

Risos esquecidos, lágrimas intensas, fragmentos de traumas, resquícios de momentos felizes. Abraços que aqueceram, discussões que feriram.

Tudo isso se move em desordem dentro de você, compondo um mosaico dissonante que apenas aumenta a confusão que já lhe pesa no peito. Foi provavelmente por isso que, após alguns instantes, deixou escapar um suspiro longo e profundo, como se, em uma só respiração, tivesse liberado parte do peso que não cabe em palavras.



























Então, lentamente, você caminhou até a beira do precipício. Um único passo adiante seria suficiente para extinguir tudo, e ainda assim, você não hesitou em se aproximar.



























Mas, em seguida, você se virou para mim.

Você olhou para mim, e eu olhei para você.

Com um movimento lento, abriu os braços, como quem suplica com a alma, em silêncio.

E, com uma voz serena, mas já sem vida, você sussurrou:



























"Me dá um abraço?"



























Eu escutei seu pedido e permaneci em silêncio por cinco minutos inteiros.

Era um pedido absurdo. Ridículo. E, acima de tudo, engraçado, dolorosamente engraçado. Não consegui conter a risada nem por um instante. Não que isso fosse um problema; pelo contrário. Havia algo delicioso na miséria estampada em você, na sensação de não ser levada a sério. Era como um banquete inesperado preparado apenas para mim, mesmo que eu jamais o tivesse solicitado.

Quando finalmente silenciei, ergui o rosto e deixei que um sorriso desdenhoso se formasse em meus lábios.

— Isso é algum tipo de piada? — perguntei.

Foi então que percebi. Seu corpo começou a tremer de forma quase imperceptível, e sua respiração, antes controlada, tornou-se acelerada, irregular, denunciando que minhas palavras atingiram diretamente uma fenda profunda no seu coração.

Meu sorriso apenas se alargou.

— O que houve, hein? Por que, em nome de qualquer coisa, eu faria isso justamente com VOCÊ? — Minha voz assumiu um tom zombeteiro enquanto eu inclinava a cabeça levemente para o lado, como quem saboreia o próprio sarcasmo.

Seus braços caíram lentamente, e seus dedos, trêmulos, buscaram uns aos outros em um gesto infantil, desesperado. A cabeça se curvou para baixo, quebrando qualquer tentativa de me encarar, carregando sobre si a própria vergonha como um peso insuportável.

Levantei-me, e com passos lentos e calculados, comecei a avançar em sua direção.

— Eu lhe fiz uma pergunta, garota. Nunca lhe ensinaram a responder quando alguém lhe pergunta algo? — Minha voz endurecia a cada palavra, cada sílaba proferida com a força e o peso de uma sentença.

E quando finalmente estive próxima o bastante, você ergueu o rosto com timidez, os olhos vacilantes, e tentou pronunciar algo. Palavras soltas, frágeis, que se atropelavam umas nas outras, sem coerência, sem força. Um esforço inútil.

E, como sempre, você fracassou.

Mas, claro, isso não significava que você havia desistido de tentar.

— E-eu… só achei que precisava de um abraço, sabe? Antes de tudo… se apagar. — Sua voz vacilava, mas havia, pela primeira vez, uma centelha de firmeza no olhar que lançava em minha direção.

Revirei os olhos, impaciente.

— Isso não respondeu à minha pergunta. — Cruzei os braços, como quem ergue uma barreira definitiva.

Você hesitou por alguns segundos, mas prosseguiu:

— Você sabe.. cê tá nos meus sonhos, você… Só existe neles. — Sua voz se quebrou, embora buscasse manter-se clara. — .. Apesar de que eu nunca ter visto nada parecido contigo.. você tá vestindo as mesmas roupas que eu e.. tem esses orelhões?

Hmpf.. que heresia!

Como ousa reduzir-me dessa forma, sua mortal imunda? Chamá-los de “orelhões” e ridicularizar aquilo que não compreende! Perdeu a noção do perigo?!

Você suspirou, pesado, como quem carrega o dia inteiro sobre os ombros.

— E.. ugh.. — você suspirou pesadamente mais uma vez. — Meu dia foi todo fodido, cansativo… eu só achei que precisava de um abraço. Nem que fosse por um instante. Porque eu sei que, em algum momento, eu vou acordar. E você… vai sumir. É assim que funciona, né?

Houve algo de ingênuo em suas palavras.

Mas, de certo modo, essa mesma ingenuidade se revelava comovente e até adorável. Era natural que acreditasse que eu não passava de uma criação da sua mente fatigada.

Talvez fosse melhor assim.

Talvez eu deva até me orgulhar, quem sabe me chamar de mestre na arte de me esconder atrás de suas próprias ilusões.

— Francamente… o que eu tenho a ver com isso? Além do mais, não poderia simplesmente pedir isso aos seus amigos, ou a qualquer outra pessoa real? E, no entanto, resolve pedir justamente a alguém que sequer existe? Você é estranha demais… — declarei, erguendo o dedo e pressionando suavemente sua testa, empurrando sua cabeça para trás com lentidão.

Você levou a mão até o ponto onde toquei, como se quisesse apagar a marca invisível que deixei. Abaixou a cabeça em silêncio, como se compreendesse que, diante de certas dores, nenhuma palavra é suficiente.

— ... Certo, me desculpa. — murmurou quase inaudível, como quem pede perdão ao vazio.

Deixei escapar uma risada fraca. Segurei seu queixo com delicadeza forçada e o ergui, obrigando seus olhos a encontrarem os meus. Você se contorcia em pequenos gestos, tentando escapar daquele contato incômodo, da intimidade que ele impunha.

Porém, como sempre, a resistência foi inútil.

— Desculpe-se por ser você. — sibilei, largando seu rosto de súbito, como quem descarta algo sem valor.

Você apenas assentiu, tímida, como quem aceita a sentença sem protesto. O silêncio que se seguiu foi breve, mas denso o suficiente para pesar no ar. E então, vi você dar um passo para trás, o último.

Seu corpo se entregou ao precipício sem resistência. A queda não era apenas um acidente, mas o encerramento inevitável de toda a situação.



























Espaço cósmico

O mundo ao redor começou a se dissolver, contorcendo-se em formas instáveis e disformes, todo o cenário parecia feito de matéria frágil e maleável, como um brinquedo moldado pelas mãos de uma mente cansada. Essa dança caótica durou apenas alguns instantes, até que, de repente, nos vimos suspensos em algo que lembrava o espaço.

Logo, eu percebi: Você estava acordando.

Confesso: para um “último cenário” antes do despertar, era belíssimo. O brilho do cosmos que sua imaginação arquitetara possuía uma força quase hipnótica. Estrelas errantes vagavam sem direção, as cores vibravam em ondas suaves, preenchendo o vazio com uma beleza rarefeita.

Hah, quem estou enganando? Aquilo era apenas nauseante.

Você, por sua vez, despencou de maneira patética sobre o “chão” daquele novo ambiente. O impacto fez seu corpo se contorcer em dor, e o som abafado do seu grunhido ecoou pelo espaço irreal. Eu, imóvel, apenas observei, tomada por um misto de tédio e desprezo, como quem assiste ao espetáculo mais ridículo possível.

— Ai…! Que… droga! — você exclamou, levando a mão à cabeça na tentativa inútil de conter a dor.

Seus olhos vagaram pelo cenário ao redor, e, assim como eu, logo compreendeu o que estava acontecendo. Seu rosto, antes marcado pela confusão, cedeu lugar a uma expressão entediada. Com lentidão e dificuldade, ergueu-se, o corpo ainda pesado pelo choque da queda.

Eu não contive o riso.

— Patética até nisso, não é? Que desperdício de existência. — minha voz soou carregada de desprezo, cada palavra impregnada do mais puro desdém.

— É… eu acho que sim. Não precisa me lembrar disso, de qualquer forma… — você murmurou, abraçando a si mesma. Seu olhar se desviou, morto, vazio, e percebi que segurava as lágrimas como quem tenta conter uma represa prestes a romper.

— Por que não? É enfrentando suas falhas que se aprende, não é verdade? Não seja uma chorona, garota… encare suas sombras e as abra—

Fui interrompida.



























De repente, senti algo apertar meu corpo. Você, rápida e desesperada, lançou-se contra mim e me envolveu em um abraço. Um gesto súbito, um abraço dado com toda a força que ainda restava em você.

No instante em que percebi o que estava acontecendo, uma repulsa visceral percorreu meu corpo. O contato queimava, corroía. E, à medida que os segundos se arrastavam, essa repulsa deu lugar a algo mais denso, mais sombrio: um ódio crescente, pulsante, impossível de conter.

— Largue-me! Agora! Não lhe dei permissão para tamanha audácia! — ordenei, sentindo meu estômago se revirar a cada segundo em que aquela cena grotesca se prolongava.

Meu punho já se erguia, pronto para romper seu rosto com um golpe seco que poria fim ao contato nauseante. Mas, curiosamente, no instante decisivo, nada fiz.

Permaneci imóvel.

Ao invés de descarregar minha fúria, apenas soltei um suspiro pesado de raiva e deixei meu braço cair, inerte, ao lado do corpo. Nos instantes seguintes, limitei-me a observar o empenho desesperado que você depositava naquele gesto deplorável.

Era cômico: você se agarrava a mim como se eu fosse um objeto banal, um urso de pelúcia gasto, mas no qual, por alguma razão inexplicável, havia depositado todo um valor inexistente.



























Miska e o Trauma

Você é desprezível… e, paradoxalmente, é exatamente essa miséria que torna impossível desviar o olhar de você.