Em meio a um universo qualquer que brota aos montes em um multiverso igualmente qualquer.. não acontece absolutamente nada. O quê? Você esperou que eu fosse mostrar alguma uma anomalia ou algum evento tão absurdo que justificasse isso? Pois então lamento informar… mas você não está totalmente errado. Só que também não está certo. Porque, veja bem..

Uhhh… o que a gente ia mostrar mesmo?

“Uma prisão.”

É sério? Uma prisão? Por que?

“Sei lá. É o que tá dizendo aqui no roteiro.”

Que roteiro lixo! O que eu vou poder contar pros outros indo pra uma prisão qualquer nos Estados Unidos, meu Deus?!

...

Na verdade, quem é você? E que roupa é essa? Mó roupa de bandido, cara. E desde quando você sabe do roteiro? Eu definitivamente não me lembro de ter..

Ah, sei lá, tanto faz.

Tem refrigerante lá na geladeira e uns salgados que eu não comi porque me deu dor de barriga.

“Uh, valeu.”

De nada, docinho de coco! Te amo!

Ahem!

Muito bem. Dado que fugir não é mais uma opção viável, vamos logo com isso antes que alguém tenha outra ideia ainda pior.

Em uma penitenciária pacata e decadente...

Indistinguível de tantas outras espalhadas pelo território norte-americano...

Miska era conduzida por dois policiais até a própria cela, os pulsos presos por algemas frias e impessoais. Talvez seja exatamente esse o momento, e torço para que não, que você começa a se perguntar:

“Uau, por que que ela foi presa?”

“O que que ela fez?”

“O que tá acontecendo?”

Primeiramente, aquieta o facho.

Antes de qualquer conclusão precipitada, é preciso deixar algo muito claro: não estamos lidando com o universo previsível da garota emo estereotipada, frágil, sensível demais e eternamente à beira das lágrimas com a qual você já deve estar acostumado.

Esqueça isso.

Estamos falando de uma realidade alternativa em que essa mesma garota é absurdamente mais casca-grossa, agressiva, violenta.. e, talvez, até mais interessante do que a sua realidade “original”.

Miska cresceu em um ambiente em que a violência era praticamente uma regra. A infância e a adolescência foram marcadas por agressões constantes, tendo o próprio pai como algoz principal. No entanto, ao contrário do que se espera de alguém submetido a esse tipo de trauma, ela não se encolheu em silêncio nem se refugiou no medo. O que nasceu ali foi um ódio corrosivo, que passou a ser despejado sobre qualquer um que cruzasse seu caminho, culpado ou não.

Na escola? Puuuuts, a presença dela era garantia de confusão; em casa, as brigas físicas com o pai eram como um ritual cotidiano. Contudo, o ponto de ruptura veio quando a mãe decidiu abandoná-la. A partir daí, o capeta saiu da jaula.

Expulsa da escola, Miska mergulhou de vez na merda: drogas, confrontos de rua, apostas ilegais. Lutava por dinheiro e, não raramente, por puro prazer em vencer e ferir. Eventualmente, ela matou o próprio pai que, vamos combinar, talvez ninguém fosse considerar uma grande perda.

Mas é lógico que, mesmo assim, ela não parou. Pelo contrário, ela achou que ir além seria uma ÓTIMA ideia.

Aos 24 anos, reencontrou a mãe depois de anos de ausência. E eu duvido muito que você precise de muito esforço para imaginar o desfecho. Ainda assim, vamos ao teste:

A) Elas se reconciliaram.

B) Tiveram uma conversa madura e civilizada.

C) Ela matou a mãe também.

Se você escolheu a alternativa C, parabéns! Você acertou em cheio!

A imbecil ficou com tanta raiva acumulada pelo abandono que encerrou aquela história mal contada da pior forma possível. Obviamente, a consequência veio rápido: condenação à prisão perpétua. Agora, aquela penitenciária esquecida pelo sistema não é apenas um lugar de passagem, é, para todos os efeitos, a sua casa.

Mas, ei.. você realmente acredita que algo disso tudo a levou a algum tipo de reflexão? Não, meu caro, desista disso. Essa versão de Miska já ultrapassou há muito o ponto de retorno. Estamos falando de alguém que se envolveu em confrontos brutais com outros detentos igualmente cascudos, sujeitos que não brincavam em serviço e tinham fama suficiente para intimidar meio mundo. Ainda assim, em cada um desses embates, havia um detalhe recorrente: ninguém jamais saiu vivo pra contar história.

Esse padrão de violência extrema não passou despercebido. Pelo contrário, foi justamente o que a consolidou como uma das figuras mais temidas dentro daquele presídio, se não a mais temida de todas. Ela era um verdadeiro mito carcerário que circulava em sussurros pelos corredores, misturando medo, exagero e uma pontada de admiração mórbida.

Bela história, não é? Não façam isso em casa, crianças!

Mas, enfim, chega de divagações. Depois de todo esse preâmbulo, é hora de retornar ao contexto central!

Lembra quando mencionei que Miska vivia trombando com qualquer preso que não fosse com a cara dela, e que o sentimento, quase sempre, era recíproco? Pois é. Você também deve se recordar de que esse comportamento repulsivo acabou lhe rendendo algo que, naquele ambiente, vale mais do que qualquer bom histórico disciplinar: respeito. Ou, sendo mais preciso, medo travestido de respeito.

Ainda assim, nem todos estavam dispostos a aceitar passivamente aquela hierarquia informal. Sempre há alguém que acredita poder desafiar o topo. No caso dela, um detento decidiu que seria uma excelente ideia invadir sua cela durante a madrugada e tentar matá-la com uma facada no peito enquanto dormia.

O infeliz, contudo, não contava com um pequeno detalhe: a lâmina sequer conseguiu perfurar sua pele. A cena beirou o cômico de tão absurda. A faca entortou ao colidir com o corpo de Miska, como se tivesse sido arremessada contra concreto. Ela despertou com o impacto, mais irritada do que assustada, sentindo apenas a pressão do objeto contra o tórax.

E eu acho que não preciso me estender muito, não é? O sujeito tentou fugir, obviamente. Mas não teve chance. Miska foi mais rápida, mais forte e infinitamente mais letal. Quebrou-lhe o pescoço sem esforço algum, como quem encerra um incômodo.

Os policiais chegaram logo depois e “conseguiram” imobilizá-la, e coloco aspas com toda a intenção do mundo. Duvido muito que dois agentes mal preparados e visivelmente cansados tenham sido capazes de subjugar alguém como ela à força. Prefiro acreditar que Miska simplesmente permitiu ser contida. Quando quis, acabou.

De qualquer forma, os guardas a conduziram de volta à cela sob uma enxurrada de xingamentos e reprimendas protocolares, todas solenemente ignoradas. Para ela, aquelas palavras não significavam absolutamente nada: entravam por um ouvido e escapavam pelo outro.

— Já é o décimo segundo que essa desgraçada mata só hoje! — rosnou o primeiro policial, cravando em Miska um olhar carregado de ódio.

Ela, por outro lado, parecia se divertir. Ergueu o rosto com desdém calculado, sustentou o olhar por alguns segundos e, num gesto infantil e provocador, mostrou a língua. Foi o suficiente para romper o último fio de autocontrole do agente.

Ele a agarrou com brutalidade, girou seu corpo e a lançou contra a parede de concreto. O impacto ecoou pelo corredor estreito, atraindo imediatamente o segundo policial, que avançou e pousou a mão com firmeza sobre o ombro do colega.

— Ei, já chega! — gritou, tentando conter a situação antes que degringolasse de vez.

— Já chega é uma pinóia! — explodiu o primeiro, fora de si. — Você é cego, porra? Não tá vendo o que essa coisa anda fazendo? Isolar, punir, aumentar pena, nada disso resolve! — completou, desferindo um chute violento na perna direita de Miska.

Ela respondeu encenando grunhidos de dor, exagerados, enquanto tentava erguer o rosto para encará-lo novamente. O sorriso insolente permanecia intacto, colado aos lábios como uma afronta permanente.

— A-ah… qual é, meu senhor… — disse, entre risadinhas curtas e debochadas. — Foi ele quem tentou me matar! Pura legítima defesa! Ou prefere chamar de Lei do Retorno? Cê sabe… aquilo que vai e volta. Você é da lei, né? Devia conhecer—

— Cala a porra da sua boca! — berrou o policial, interrompendo-a com outro chute, ainda mais forte, descarregando toda sua frustração acumulada. Em seguida, virou-se para o companheiro, os olhos incendiados. — A gente precisa executar essa vagabunda! É o único jeito desse lugar ter um pingo de paz!

O segundo policial não respondeu de imediato. Miska, ainda escorada na parede, apenas observava a cena com atenção curiosa, como se tudo aquilo fosse um espetáculo montado exclusivamente para entretê-la.

— Senhor… nós já tentamos isso. — murmurou o segundo policial, em voz baixa.

O primeiro agente congelou por alguns segundos, como se o cérebro precisasse de tempo extra para processar aquelas palavras. Em seguida, virou-se lentamente para o companheiro, o semblante carregado de incredulidade.

— ... O quê? — perguntou, quase num sussurro.

— É isso mesmo que você ouviu. — respondeu o outro, desviando o olhar, a voz levemente trêmula. — A gente tentou de tudo: injeção letal, câmara de gás, cadeira elétrica… nada funcionou! Essa coisa é simplesmente o diabo! Ela não morr—

Quando o policial voltou o rosto para concluir o pensamento, encontrou apenas o vazio. Seu parceiro jazia estendido no chão, desacordado, ou pior. E Miska havia desaparecido por completo.

— O-o quê?! Senhor, o que aconteceu?! Como... como isso—?! — gaguejou, o pânico se espalhando rápido demais para ser contido.

Instintivamente, ele recuou um passo e levou a mão ao rádio comunicador, pronto para pedir reforços. Mas ele sequer conseguiu apertar o botão. Algo frio e metálico envolveu seu pescoço de repente, pressionando com força suficiente para cortar o ar. O choque percorreu sua espinha antes mesmo da dor.

Era Miska.

Ela havia usado as próprias correntes das algemas, enrolando-as ao redor do pescoço do guarda com precisão. A respiração dele tornou-se caótica; os pulmões queimavam, implorando por oxigênio. Ele tentou reagir, se debater, alcançar qualquer coisa que o salvasse. Mas foi inútil. A força dela era absoluta.

Com um breve aumento de pressão, ouviu-se o estalo seco.

O pescoço cedeu.

O corpo sem vida do guarda caiu ao lado do outro, agora definitivamente morto.

— Hah... talvez os próximos prestem mais atenção da próxima vez. — comentou Miska, rindo com sarcasmo aberto. — Meeeh… cês são patéticos. Na moral, a polícia desse país tá pior a cada dia!

Ela então percorreu os corpos com um olhar impaciente, procurando as chaves para se livrar das algemas. Segundos se passaram, e nada. Ao que tudo indicava, os policiais não as carregavam naquele momento.

Isso foi o suficiente para irritá-la.

— Hã?! Tão de sacanagem comigo?! — explodiu, a voz ecoando pelo corredor. — Vocês vivem andando com essa merda pendurada no cinto, mas justo agora, quando ela realmente serve pra alguma coisa, resolvem não trazer?! Vocês são um monte de merda!

Num acesso de fúria, Miska desferiu um chute violento na cabeça de um dos cadáveres. O impacto ressoou de forma grotesca. Em seguida, ela bufou, tentando, inutilmente, recuperar algum resquício de autocontrole.

Embora, sejamos honestos: esperar equilíbrio emocional dela já é pedir demais.

Miska avançou lentamente pelo corredor da prisão, o som metálico das algemas acompanhando cada passo, enquanto observava as próprias mãos presas com uma mistura de irritação e impaciência.

— Ugh... e agora?! — resmungou, cerrando os punhos com força. — Como é que eu me livro dessa porra? Não tô nem um pouco no clima de sair quebrando soldado por aí só pra achar uma chave!

Entre xingamentos murmurados e pragas lançadas contra o universo inteiro, ela seguiu andando, a cabeça baixa, completamente absorta na própria frustração. Foi apenas depois de alguns metros que finalmente ergueu o olhar e passou a prestar atenção no que havia à sua frente. E, no instante seguinte, parou.

O que viu não fazia o menor sentido.

Sentada tranquilamente no piso branco e impecável do corredor, havia uma garotinha pequena, cercada por brinquedos infantis espalhados ao redor: dinossauros de plástico, ursinhos de pelúcia gastos e carrinhos coloridos. E, como se não bastasse, a criança parecia perfeitamente confortável naquele cenário que, para qualquer outra pessoa, seria um pesadelo institucionalizado.

— E agora, a gran finale! — anunciou a menina, erguendo dois bonecos com entusiasmo. — O Poderosíssimo Dinossauro contra o Temido e Feroz Urso das Florestas! Grrrrrrrr!

Ela sacudia os brinquedos com energia exagerada, tentando imitar os sons dos animais, completamente imersa na própria fantasia.

“.. Que palhaçada é essa?”, pensou Miska, franzindo o cenho.

Ao longo de sua estadia naquele inferno de concreto, ela já tinha visto de tudo: violência gratuita, sangue espalhado pelo chão, corpos caídos e olhares vazios demais para ainda serem humanos. Mas aquilo? Uma criança brincando, alheia a tudo, sentada no meio de um corredor de prisão de segurança máxima? Aquilo definitivamente não constava na lista.

— Awww, espera! — disse a garotinha de repente, interrompendo a própria encenação. — Acho que tá faltando alguma coisa…

Ela coçou a cabeça por um instante, pensativa, até que seus olhos brilharam de repente e uma literal lâmpada surgiu em cima de sua cabeça, como se tivesse tido uma grande revelação.

— Ah! Já sei! Um pirulito pra acompanhar a luta!

A menina ergueu a mão com naturalidade. No mesmo instante, uma pequena explosão de fumaça colorida surgiu acima de sua palma, rodopiando no ar. Quando a névoa se dissipou, um pirulito apareceu, com uma paleta de cores vibrantes em arco-íris, perfeitamente formado.

— Ahhhh! Meu favorito!! — comemorou, sorrindo de orelha a orelha.

“Isso é algum tipo de piada?!”, pensou Miska, agora mergulhada em pura descrença.

Ela passou a analisar a criança com mais atenção, varrendo-a dos pés à cabeça. A garota tinha cabelos longos, volumosos e cheios de camadas, de um vermelho vivo quase agressivo. As mechas eram despenteadas, com pontas irregulares que lhe davam um ar caótico e indomável. As roupas seguiam uma paleta limitada entre tons de amarelo e vermelho, chamativas demais para qualquer ambiente sério, quanto mais para uma prisão. Ou, mais precisamente, parecia ter saído direto de um circo e simplesmente decidido fazer dali o seu palco.

Havia ainda outro detalhe que não passou despercebido aos olhos atentos de Miska, e esse, em particular, a deixou genuinamente desconfortável.

Sua pele.

Ao observar com mais cuidado, percebeu que aquilo não se assemelhava em nada à epiderme humana. Não havia poros, textura orgânica ou variações naturais de tom. Pelo contrário: parecia tecido. Algo próximo de algodão, talvez feltro. Um material artificial demais para ser carne.

Instintivamente, Miska recuou um passo.

“Ela fez um pirulito surgir do nada… Isso é o quê? Magia negra? Truque? Alguma coisa muito errada?”, pensou, agora bem menos confiante em avançar sem cautela.

Enquanto isso, a garotinha continuava completamente alheia a qualquer tensão. Batia os brinquedos uns contra os outros, imitando rugidos exagerados de monstros, típicos da imaginação infantil. Ria baixinho, satisfeita, como se aquele momento fosse eterno, um pequeno universo particular onde nada de ruim jamais aconteceria.

Miska fechou os olhos por um instante e baixou levemente a cabeça, tentando organizar os próprios pensamentos.

“Na verdade, por que eu tô viajando tanto nisso? É só uma pirralha brincando com bonecos. Não é como se eu não pudesse simplesmente—”

— Ei, moça! — interrompeu a menina, animada. — Você tá aí parada com essa cara de vento faz um tempão! Tá passando mal?

De alguma forma rápida demais para ser normal, a criança já estava bem diante dela.

— A-Ai! Ô, po███! — gritou, antes de ser abruptamente interrompida por um som agudo e estridente que ecoou pelo corredor, cortando sua fala no meio da palavra.

Ela piscou, atônita, e começou a olhar em volta, confusa.

— ... Ué? Mas que me███ de som foi esse? — o mesmo ruído surgiu novamente, ainda mais alto. — DE NOVO?!

A irritação veio quase instantaneamente. Já não bastasse a situação absurda, agora nem xingar direito ela conseguia. Contudo, antes que pudesse explodir de vez, a garotinha ergueu a mão e esticou o dedo indicador até o rosto de Miska, balançando-o em reprovação.

— Nananinanão! — disse, com um tom infantilmente severo. — Falar palavrão é muito feio!

Ao ouvir aquelas palavras, Miska cerrou os dentes com força, a mandíbula tensionada a ponto de quase estalar. O contraste era quase ofensivo: uma criatura estranha, possivelmente antinatural, dando lição de moral com a autoridade de uma professora de jardim de infância.

— Você só pode tar de brincadeira com a minha cara, não é? — rosnou, a voz carregada de ameaça, dando um passo à frente, quase avançando sobre a criança. — Por acaso perdeu a noção do perigo, sua pirralha? Ugh... se eu não estivesse com essas malditas algemas, você ia—

— Espera... algemas? — interrompeu a pequena, com curiosidade genuína.

Antes que Miska pudesse continuar a ameaça, os olhos da garota já haviam deslizado para os pulsos presos, analisando as correntes com atenção exagerada. Ela se aproximou sem cerimônia, o que fez Miska recuar instintivamente.

— ... O que car███ você acha que tá fazendo? — perguntou, irritada, sentindo o sangue ferver diante daquela falta absoluta de instinto de autopreservação.

Ignorando completamente o tom hostil, a criança enfiou a mão no bolso e retirou uma lupa, exageradamente grande para o seu rosto. Aproximou-a das algemas, examinando cada detalhe com uma seriedade comicamente profissional.

— Hmmmm... — murmurou para si mesma, mantendo o sorriso doce e constante. Em seguida, levou um dedo ao queixo, encarnando uma espécie de detetive mirim concentrada em desvendar um mistério complexo.

Naquele ponto, Miska já estava prestes a resolver a situação do jeito mais direto possível: um chute bem dado, distância garantida e problema resolvido. Porém, no exato instante em que tensionou o corpo para atacar, a mesma fumaça de antes começou a se formar ao redor de suas mãos.

O pânico veio de imediato.

— Não! Tira essa p████ da minha mão, agora! — gritou, afastando-se num salto enquanto sacudia os braços freneticamente. — Eu juro que, na primeira chance que eu tiver, eu... eu...!

Ela falhou em concluir a ameaça, tomada pela certeza de que havia sido amaldiçoada ou marcada por algum feitiço bizarro. No entanto, algo estranho aconteceu. Ao balançar as mãos, Miska percebeu que o som metálico das correntes simplesmente havia desaparecido.

Confusa, abriu os olhos com cautela.

As algemas não estavam mais lá.

— O quê...? Sumiram? — murmurou, encarando os próprios pulsos enquanto os movia devagar, apenas para confirmar que aquilo não era alucinação nem mais um surto psicótico patrocinado pelo estresse.

Ela estava livre.

Então, um som ridiculamente cômico ecoou pelo corredor.

Fon fon!

Miska ergueu o olhar a tempo de ver a garotinha apertando o próprio nariz vermelho, como um palhaço satisfeito com a própria piada.

— Duuh! — disse a criança, com ironia descarada, erguendo os bracinhos de leve. — Não tá na cara?

Miska não respondeu de imediato. Por alguns segundos, permaneceu em silêncio, avaliando a cena com olhos atentos, até que, pouco a pouco, um sorriso torto começou a se desenhar em seu rosto. Primeiro discreto, quase contido. Depois, impossível de segurar. Logo, a risada escapou, baixa no início, solta em seguida, até se transformar em uma gargalhada aberta e franca.

Ela se aproximou da garota, abaixou-se até ficar à sua altura e, sem pedir licença, começou a bagunçar seus cabelos com um carinho bruto e exagerado. A criança reagiu com risinhos leves, aceitando a invasão com naturalidade, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.

— Hahahahaha! Pirralha, tu é estranha pra cara████! — disparou Miska, rindo sem o menor filtro.

— Haaah! Para com isso, para! Hahah! — reclamou a menina, entre gargalhadas, segurando a mão de Miska com as próprias mãos de pano, macias demais para parecerem reais.

Quando o acesso de riso finalmente perdeu força, Miska respirou fundo e passou a observar a garota com mais atenção. Ela ainda sorria, tranquila, como se aquele breve caos tivesse sido apenas uma brincadeira inofensiva. Miska inclinou levemente a cabeça para a esquerda e falou, agora com um tom mais calmo e curioso:

— Ei, fala comigo! Quem seria você, neném? E qual é o seu nome?

— Ooooh, meu nome?! — respondeu a pequena, abrindo os braços com entusiasmo exagerado. — Ahhh… então… euuuu tenho vários!

— ... Vários nomes? — repetiu Miska, franzindo o cenho. — É o quê?

Antes que pudesse questionar mais, algo ainda mais absurdo aconteceu. Do nada, surgiu nas mãos da garota um enorme pedaço de papel, tão extenso que se desenrolava pelo chão do corredor, avançando metros à frente como um pergaminho sem fim.

— Ehh... que p████ é essa, garota? — perguntou Miska, encarando a cena com incredulidade.

— Ah, isso? — disse a menina, despreocupada. — É só a lista dos nomes que as pessoas me chamam!

Ela então colocou um par de óculos que também não existiam segundos antes, pigarreou e começou a ler:

— Uuuh... Elizabeth, Olivia, Aurora, Serena, Celeste, Naomi, Safira, Selene, Cassandra...

Miska escutava tudo de boca entreaberta, sem saber exatamente o que a deixava mais desconcertada: a idiotice de alguém ter dado tantos nomes diferentes àquela criatura estranha por puro capricho ou a constatação de que a lista parecia não ter a menor intenção de acabar tão cedo.

— Tá bom, tá bom, já saquei! — interrompeu Miska, erguendo a mão num gesto impaciente. — Então... você não tem um nome fixo, é isso?

— Ah! — exclamou a garota, deixando o papel gigantesco despencar no chão. — Se for assim, meu nome é Aurora! Mas, se eu tivesse que escolher outro... algumas pessoas gostam de me chamar de “Miska” também!

Miska congelou por um segundo.

— Pera aí... Miska? — repetiu, estreitando os olhos. — Esse também é o meu nome. Isso é mais uma das suas maluquices ou o quê?

— Siiim! — respondeu Aurora, rindo com leveza. — Eu realmente não sei por que me chamam assim, maaas... sei lá, nunca liguei muito! Haha! — deu de ombros. — E não é como se esse fosse meu nome de verdade, né? Como você viu, eu tenho vários!

— ... Isso é esquisito pra car████. — murmurou Miska, fazendo um gesto vago com a mão. — Mas tá, vou fingir que isso não me deixou desconfortável. Segue o jogo, morô?

Aurora, porém, pareceu perder um pouco do brilho habitual. Ela levou a mão ao próprio braço direito, esfregando-o de leve enquanto olhava para o chão, visivelmente constrangida, uma reação inesperada vinda de alguém tão espalhafatosa momentos antes.

— Uhhh, tá, mas... você podia parar de falar essas coisas, por favor? — pediu, com a voz mais baixa. — Isso é muito feio.

Miska ouviu, suspirou fundo e revirou os olhos.

— Ai, ai, e essa agora, viu? — resmungou, claramente entediada. — Me diz uma coisa, guria, quantos anos você tem? Onze? Doze?

— Uhh, eu tenho 13—

— Cê tá de put████, né? — cortou Miska, sem qualquer delicadeza. — Menina, você tá numa prisão! Tu nem devia estar aqui, pra começo de conversa! — disparou, sem freio. — E o que tá te incomodando são palavrinhas? Para de frescura, vai por██!

— Não é frescura! — rebateu Aurora, batendo os braços contra as próprias pernas numa birra caricata. — A mamãe sempre dizia que palavrão não é coisa legal! Palavrão é só pra pessoa achar que é durona, mas não é!

— Ah, pelo amor de—

Miska se interrompeu no meio da frase.

Sentiu o impulso de explodir outra vez, mas conteve-se no último instante. Aquela insistência em algo tão banal, aos olhos dela, quase a fez perder a paciência de novo. Ainda assim, forçou-se a respirar fundo.

No fim das contas, discutir seria inútil. Aurora ainda era só uma criança, estranha, irritante, talvez até um pouco demoníaca... mas, ainda assim, uma criança.

— ... Tá. — respondeu Miska, com a voz arrastada. — Já que você me ajudou a me livrar dessa mer██, vou deixar passar o cascudo que eu ia te dar.

Ela fez um gesto vago com a mão, já descartando completamente o assunto, e retomou a caminhada pelo corredor, os passos firmes ecoando no silêncio do lugar, deixando Aurora para trás.

— Ei! — chamou a garota, apressando o passo. — Pra onde você vai?!

— Eu? — respondeu Miska, parando por um instante para se alongar. Os estalos secos das articulações quebraram o ar, como se tivesse passado uma vida inteira contida, acumulando tensão. — Vou arranjar algum trouxa pra quebrar a cara. Hoje eu acordei naquele pique!

— Q-quebrar a cara de alguém?! — repetiu Aurora, visivelmente alarmada. — Mas... mas por quê?!

— Ué? — retrucou Miska, com um sorriso torto e debochado. — Porque é o que eu sei fazer de melhor, pirralha. Duh! — Em seguida, fez um gesto displicente com a cabeça. — E aproveita pra ir pra casa. Criança não devia ver o que vai rolar daqui a pouco, não acha?

Acima da cabeça de Aurora, uma nuvem de pensamento se materializou, exibindo uma versão absurdamente infantilizada do que ela imaginava que Miska pretendia fazer: pancadaria exagerada, barulhos cômicos e expressões cartunescas de dor.

Ao engolir em seco, a garota tomou uma decisão súbita.

Num movimento rápido, correu até a frente de Miska e se colocou em seu caminho, abrindo os braços e encostando as mãos nas paredes do corredor, bloqueando a passagem de maneira tão determinada quanto cômica.

— E-ehhh! Eu não vou deixar você fazer isso, não! — declarou, tentando parecer firme.

Miska parou imediatamente. Cerrou os olhos, a paciência claramente já no limite.

— Escuta aqui.. — disse, num tom baixo e perigoso. — Qual a parte de “vai pra casa” você não entendeu?

Aurora, no entanto, não demonstrou medo algum. Pelo contrário, abriu um sorriso largo e confiante.

— Pois saiba que eu... — começou, pronta para soltar uma frase de efeito memorável, algo épico o suficiente para enfrentar Miska à altura.

Mas nada veio.

Ela piscou algumas vezes.

— Ééé... — murmurou. — Verdade, né? Qual foi mesmo a parte que eu não entendi?

Confusa, virou o rosto de lado, perdida nos próprios pensamentos. Outra nuvem mental surgiu acima de sua cabeça, tentando reproduzir o que Miska havia dito instantes antes. O resultado, no entanto, foi decepcionante: uma versão caricata de Miska repetindo apenas “blá, blá, blá”, acompanhada de gestos exagerados.

Alguns segundos transcorreram em silêncio até que Aurora, enfim, pareceu alcançar uma conclusão satisfatória. Seus olhos se iluminaram de repente, quase literalmente, e ela virou o rosto para Miska com um brilho entusiasmado demais para ser inocente.

— Ah! Acho que agora eu entendi—

Miska não lhe concedeu sequer a gentileza de terminar o pensamento.

Num movimento seco e preciso, desferiu um chute violento contra o rosto da garota, lançando seu corpo para longe com força brutal. O detalhe grotesco veio logo em seguida: os braços de Aurora não acompanharam o restante do corpo. Permaneceram presos às paredes do corredor, esticando-se de forma anormal à medida que a distância entre eles aumentava, como se fossem feitos de borracha viva.

— Eu avisei. — disse Miska, assumindo imediatamente uma postura de combate, o corpo tenso e pronto para reagir a qualquer coisa. — Não tem mais tempo pra se arrepender.

Enquanto era arremessada para trás, Aurora parecia completamente desnorteada. Seus olhos se transformaram em zigue-zagues confusos, e pequenos passarinhos imaginários giravam acima de sua cabeça, num espetáculo cartunesco de atordoamento. Ela sacudiu a cabeça com força, recuperando a lucidez em poucos segundos. Ao perceber a distância que agora a separava de Miska, um estalo mental ocorreu.

— Opa... essa é a minha chance! — declarou, abrindo um sorriso travesso, carregado de empolgação.

Com um impulso repentino, Aurora retraiu os braços esticados e se lançou de volta na direção de Miska a uma velocidade assustadora, cortando o ar como um projétil. Seu pé foi apontado diretamente para o rosto da adversária. Ao notar a rapidez absurda com que ela se aproximava, Miska arregalou os olhos.

— Mer██... — murmurou, adotando uma posição defensiva no último segundo.

— AAAAAAQUI VOOOOOU EUUUUU! — gritou Aurora, vibrando de entusiasmo.

O impacto foi devastador.

O choque entre as duas gerou uma explosão de vento que percorreu todo o corredor, fazendo as paredes tremerem e lançando Miska para longe como se não tivesse peso algum. No exato momento do caos, um grupo de guardas surgiu no local, atraído pelo barulho e pela destruição.

— EI! VOCÊ AÍ! — berrou um deles. — VOCÊ NÃO PODE— VOAR NA NOSSA DIREÇÃO?! ABAIXA!

Não houve tempo para reação. O corpo de Miska atingiu o grupo com violência extrema, espalhando-os pelo chão como bonecos sem resistência. Todos caíram desacordados quase instantaneamente.

Miska gemeu baixo ao tocar o solo e levou alguns segundos para conseguir se erguer, apoiando-se com dificuldade.

— Q-Que velocidade… — murmurou, respirando fundo. — E que força também…

À distância, Aurora observava a cena com satisfação evidente. Seu sorriso travesso se ampliou ainda mais.

— Haaaahaaaa! E aí, o que achou dessa, hein? Hein?! — provocou Aurora, a voz carregada de triunfo infantil.

Em seguida, colocou a língua para fora e passou a emitir sons zombeteiros, um desfile completo de deboche. A cena foi o suficiente para fazer a paciência de Miska evaporar. O maxilar se contraiu, os olhos escureceram, e a frustração acumulada encontrou um alvo imediato.

Sem hesitar, ela se abaixou e tomou duas pistolas dos policiais desacordados no chão, levantando-se com as armas firmes nas mãos.

— Não fica se achando, pira███! — gritou, apontando ambas na direção de Aurora, o dedo perigosamente próximo do gatilho.

Por um breve instante, a garota pareceu genuinamente assustada. Seus olhos se arregalaram, e ela deu um passo para trás. Logo depois, porém, abriu um sorriso nervoso e puxou duas “pistolas” das costas. Só havia um pequeno detalhe: não eram armas de fogo. Eram feitas de balões coloridos, inflados e ridiculamente frágeis.

Miska encarou aquilo por um segundo… e então soltou uma risada curta, quase incrédula.

— Tu realmente acha que esses seus brinquedinhos de jardim de infância vão fazer alguma coisa contra mim? — perguntou, exibindo um sorriso torto e perigosamente satisfeito.

— Não se engane, senhora! — respondeu Aurora, inflando o peito com falsa solenidade. — Eu tenho vários truques…!

O tom era infantil demais para combinar com a situação, e, ainda assim, havia algo inquietante ali.

— Haha.. é? — devolveu Miska, com ironia pura, destravando o seguro das armas. — Então mostra pra mim.

Aurora assumiu uma pose dramática, segurando suas “armas” de balão com cuidado exagerado, parecendo prestes a executar um plano mirabolante. O silêncio se estendeu por alguns segundos tensos, segundos que pareceram longos demais.

De repente, ela virou de costas.

E saiu correndo.

Pois é, Aurora não tinha nenhum contra ataque. Ela simplesmente fugiu.

— … Hã? — murmurou Miska, desfazendo a postura de tiro e arqueando a sobrancelha.

No instante seguinte, já estava em disparada atrás dela.

— VOLTA AQUI AGORA!

Aurora correu sem olhar para trás, as pernas se movendo rápido demais para alguém do seu tamanho. Em determinado momento, arriscou um olhar por cima do ombro, e soltou um grito agudo de puro pavor. O efeito foi grotesco: os olhos saltaram para fora, a língua se esticou, e até o crânio pareceu escapar da “pele”, num exagero cartunesco absurdo.

Bang!

Miska disparou mirando diretamente a cabeça da garota.

Aurora reagiu por puro reflexo, encolhendo a cabeça para dentro do próprio corpo como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. A bala passou zunindo pelo espaço vazio onde o rosto deveria estar.

Bang!

Agora, Miska mirou nas pernas.

Aurora deu um salto alto o suficiente para evitar o tiro, pairando no ar por um instante impossível antes de cair adiante e continuar a fuga.

— Por██! Para de se mexer! — berrou Miska, a frustração transbordando, sem diminuir o ritmo dos disparos.

— Ééé… não vai rolar! — respondeu Aurora, correndo em zigue-zague e escapando de cada bala como em uma dança no meio do caos.

Minutos se arrastaram naquela perseguição inútil, um balé de tiros e desvios que não levava a lugar nenhum. O som seco dos disparos, aos poucos, deu lugar a um silêncio estranho. Miska apertou o gatilho mais uma vez, nada.

As armas haviam chegado ao limite.

— Droga… — resmungou entre os dentes, sentindo o peso da falha.

Aurora percebeu no mesmo instante. Girou sobre os calcanhares e, com um sorriso vitorioso, disparou de volta na direção da adversária, agora apontando suas próprias “armas”.

— HÁ! AGORA É MINHA VEZ!

Miska reagiu por instinto. Fechou os olhos com força e ergueu os braços à frente do rosto, numa tentativa desesperada de se proteger do que imaginava ser o ataque final.

O gatilho foi pressionado.

Em vez de tiros, porém, o corredor foi invadido por uma explosão de confetes coloridos, acompanhada pelo som ridículo de apitos e sopradores de festa.

— … O quê? — murmurou Miska, baixando lentamente as mãos e abrindo um dos olhos.

Aurora não perdeu tempo. Arremessou as duas pistolas de brinquedo para longe e caiu na gargalhada, uma risada alta, escancarada.

— HAHAHAHAHA! Enganei o bobo na casca do ovo! HAHAHAHAHA! — zombou, mal conseguindo falar entre uma risada e outra.

O sangue de Miska ferveu. Aquela humilhação era insuportável. Ser feita de idiota daquela forma… por uma criança?

Não. Aquilo ultrapassava qualquer limite aceitável pra ela.

— VOCÊ.. EU VOU ACABAR COM VOCÊ! — rugiu, avançando numa explosão de fúria.

O primeiro soco veio com força total, direcionado ao rosto de Aurora. Ela desviou com facilidade, e o punho de Miska se chocou contra a parede da prisão, abrindo rachaduras profundas na estrutura. Sem hesitar, Miska tentou outro golpe, novamente, acertou o vazio. Um terceiro ataque se seguiu, agora com um chute violento. Quando parecia que finalmente iria acertar, Aurora simplesmente desapareceu numa nuvem de fumaça multicolorida, seu arco-íris característico se dissipando no ar.

No instante seguinte, reapareceu alguns metros adiante.

Miska franziu o cenho.

Aurora agora usava luvas de boxe vermelhas, exageradamente grandes para suas mãos. Ela se movia com surpreendente naturalidade, girando os ombros, alternando o peso dos pés e lançando pequenos jabs no ar, a postura precisa de alguém que sabia exatamente o que estava fazendo.

O sorriso travesso permanecia no rosto.

— Eiii… você não acha que a gente podia resolver isso de um jeito mais elegante? — sugeriu Aurora, balançando a cabeça com energia exagerada. — Que tal boxe?

O movimento cessou de repente. O rosto dela se distorceu, os traços infantis se reorganizando até assumirem, com precisão, as feições duras e impassíveis de Ivan Drago. O contraste era grotesco.

— Raaawwwrrr… eu vou te queeeebrar! — rosnou, teatral.

Sem dar tempo para reação, Aurora esticou o braço e acertou um soco limpo no rosto de Miska, o impacto ecoando pelo corredor.

— Que inferno… essa pirralha é uma peste! — resmungou Miska, tentando se recompor enquanto o mundo ainda girava levemente à sua volta.

— Ué, qual foi? Já cansou? — provocou Aurora, sem aliviar. Emendou mais três golpes rápidos: dois certeiros no abdômen, arrancando o ar dos pulmões de Miska, e um gancho preciso no queixo, suficiente para derrubá-la no chão.

Miska ergueu a cabeça com esforço, respirando de forma irregular. Levou a mão ao nariz por instinto e percebeu algo quente escorrendo.

— Eu tô.. sangrando?? Por causa dessa.. dessa..

Antes que Miska pudesse completar, Aurora surgiu de repente ao seu lado, agachada, observando a mão de Miska com curiosidade.

— Não, não! Calma! — disse, animada. Passou o dedo pelo líquido e analisou a substância na ponta. — Isso aqui não é sangue.. É ketchup!

— Ketchup? É… só pode ser mesmo… — murmurou Miska, revirando os olhos. Pegou um pouco do líquido e levou à língua, mais por teimosia do que por convicção. O sabor confirmou o absurdo. — Ah, mas nem foden—

— Hmmmm, que delícia! — interrompeu Aurora, saboreando o ketchup com entusiasmo carinhoso. — Eu amo ketchup!!

Miska permaneceu em silêncio, encarando a garota com um olhar carregado de perplexidade. As implicações que se desenhavam em sua mente ao ver aquela cena não eram das melhores.

“PARADAS!”

O brado atravessou o corredor como um disparo, arrancando a atenção das duas à força. À frente, um guarda avançava com a arma erguida; logo atrás dele, outros surgiam em formação cerrada, dedos tensos nos gatilhos. Antes que Miska pudesse sequer xingar, percebeu o pior: atrás delas, outro contingente igualmente armado fechava a rota de fuga.

Não havia brecha. Estavam cercadas por todos os lados.

— Maravilha… — resmungou Miska, erguendo-se com esforço e passando a mão no rosto para se livrar dos vestígios de ketchup ainda grudados na pele. — Eu juro por tudo que vou abrir sua cabeça quando a gente sair dessa, pirralha!

— Relaxa, relaxa! Não precisa disso tudo agora! — respondeu Aurora, cutucando a perna de Miska com um entusiasmo fora de lugar. — Que tal um cineminha com poltrona confortável e pipoca bem quentinha, hein? Hein?

— Como é que você consegue pensar em filme numa situação dessas, sua peste? — retrucou Miska, irritada. — Você não tem a mínima noção de perigo ou—

A bronca morreu no meio da frase. Sem transição e muito menos clarão, a realidade simplesmente se dobrou.

Quando Miska piscou novamente, já não sentia o chão frio da prisão sob o corpo, nem ouvia o eco metálico do corredor. Estava sentada em uma poltrona estofada, dentro de uma sala de cinema ampla e silenciosa. À sua frente, uma tela exibia um drama arrastado, carregado de trilha melancólica e diálogos excessivamente profundos. No colo, repousava um balde generoso de pipoca fumegante, no ponto exato entre o salgado e o amanteigado.

— Mas.. quê? — murmurou, olhando ao redor. — Como é que eu vim parar aqui?

A sala estava completamente vazia. Nenhum espectador, nenhum funcionário, nenhuma alma sequer. Apenas o som abafado do filme preenchia o espaço, criando uma atmosfera estranhamente íntima. Pelo menos, era isso que parecia à primeira vista.

À sua direita, sentada com as pernas balançando, estava Aurora.

Ela chorava de maneira tão exagerada que beirava o cômico: soluços altos, fungadas dramáticas e lágrimas em quantidade suspeita, como se estivesse competindo com a própria trilha sonora do filme, e perdendo feio. Se a atuação na tela buscava profundidade emocional, Aurora fazia questão de entregar o completo oposto, com uma performance digna de uma paródia mal ensaiada.

Miska assistiu àquela cena com um misto evidente de desprezo e cansaço. Primeiro lançou um olhar breve à tela, como quem tenta entender se havia perdido algo relevante, e logo voltou a encarar Aurora, cuja comoção parecia não conhecer limites.

— Para de drama, cara███! — disparou, impaciente. — Isso aí nem é tudo isso. Já vi coisa bem mais triste na prisão e—

Aurora esticou o braço e pressionou o dedo indicador contra os lábios de Miska, silenciando-a com uma urgência quase solene.

— Não, não! Você não entende! — soluçou, a voz embargada. — Aquela garota foi parar num mundo cheio de magia, de possibilidades e, mesmo assim, o peso que ela carregava da Terra nunca foi embora. A sensação de insuficiência, o medo constante, a tristeza que gruda na alma! E quando o garoto começa a falar daquele espelho que reflete um rosto antigo, um passado que não se apaga… isso… ISSO É DEVASTADOR!

O grito veio carregado de emoção bruta.

Aurora se lançou contra Miska, enterrando o rosto em seu tórax, enquanto as lágrimas desciam em volume tão absurdo que mais pareciam uma maré fora de controle. Miska, sem saber onde enfiar a paciência, voltou os olhos para a tela e revirou-os com força.

— Eles literalmente acabaram de ser sugados por um buraco negro cinco segundos depois. — retrucou, seca.

Aurora, obviamente, não ouviu. Ou fingiu não ouvir. Continuou chorando sem qualquer pudor, fungando alto, escarrando catarro e limpando o nariz na roupa de Miska sem o menor constrangimento. A cada novo abuso, Miska tremia, dividida entre a fúria crescente e um nojo físico diante daquela falta absoluta de limites.

Quando Miska percebeu, a sala inteira havia se transformado em algo próximo de um aquário improvisado, formado exclusivamente pelas lágrimas de Aurora. As poltronas boiavam, a tela piscava sob a água, e ambas agora flutuavam lentamente no meio daquele dilúvio emocional.

Ainda assim, contra toda lógica e bom senso, Aurora continuava chorando como se estivesse apenas começando.

— … Já acabou? — perguntou Miska, mantendo os braços cruzados e a expressão de quem já tinha perdido a paciência há um bom tempo.

Aurora, ao ouvir a pergunta, trocou o choro convulsivo pelo sorriso bobão de sempre em um piscar de olhos. A mudança foi tão abrupta que Miska chegou a se questionar, por um instante, se alguma daquelas emoções tinha sido real ou se tudo não passava de mais uma encenação bizarra.

— Ah, claro! Foi um filmão! — exclamou Aurora, erguendo os braços com os punhos cerrados, tomada por um entusiasmo quase ofensivo. — Vou recomendar pra todos os meus amigos quando eu voltar!

— Uau, é surpreendente que alguém igual você tenha amigos.. — respondeu Miska, sem o menor esforço para disfarçar o sarcasmo.

— Hihi! Sim, eu tenho vários amigos! — rebateu Aurora, sem se abalar. — E você? Tem algum amigo?

Miska bufou, desviando o olhar, claramente irritada com a pergunta.

— Os únicos amigos que eu tenho são meus punhos, beleza? Não viaja. — respondeu, arrastando as palavras com desdém.

Ao ouvir aquilo, Aurora levou a mão à boca e arregalou os olhos, genuinamente chocada.

— O quê??? Então você não tem ami— ngh… espera!

Aurora começou a tossir de repente, perdendo totalmente o fio do raciocínio. A água que ainda inundava o ambiente começou a subir perigosamente, e ela passou a se debater, engasgando. Em pânico, bateu palmas com força.

No mesmo instante, toda a água que preenchia a sala de cinema simplesmente desapareceu, como se nunca tivesse existido. O ar voltou a circular, e ambas puderam, enfim, respirar com alívio.

— Ufa… bem melhor agora, né? — comentou Aurora, recuperando-se rápido demais para alguém que acabara de quase se afogar.

Miska ia responder, mas as duas, quase ao mesmo tempo, olharam para baixo. O chão estava… longe demais.

— Ugh.. pu██ que pa███— — resmungou Miska, cobrindo parte do rosto com a mão.

Aurora, por sua vez, apenas coçou a cabeça, exibindo uma expressão sem graça, como quem percebe tarde demais que fez besteira.

As duas despencaram de cara no chão, num impacto seco e pouco elegante. Ainda assim, não demorou muito para que se levantassem, sacudindo a poeira e recompondo a postura, como se aquilo fosse apenas mais um contratempo trivial.

Aurora bateu nas próprias roupas, livrando-se da sujeira acumulada. Em seguida, ergueu o olhar e voltou a encarar Miska, o sorriso curioso já se formando outra vez.

— Então quer dizer que você REALMENTE não tem nenhum um amiguinho?? — insistiu Aurora, voltando ao assunto com curiosidade.

— Cê é surda, é? — rebateu Miska, revirando os olhos com força suficiente para quase vê-los sair da órbita. — Eu já falei que nã—

Num piscar de olhos, Aurora surgiu ao seu lado, levitando à altura de seus ombros. Ela passou o braço em torno do pescoço de Miska e a puxou para perto, ignorando qualquer noção básica de espaço pessoal.

— Não, não, não! — começou Aurora, balançando a cabeça em reprovação. — Isso é inadmissível!

— Inadmissível é você me agarrando assim, po███! — rosnou Miska, irritada, virando o rosto para qualquer direção que não fosse a da garota. — Eu não preciso de amigo nenhum!

— Precisa sim! — retrucou Aurora, cutucando a bochecha de Miska com insistência. — E tudo bem, a gente começou meio errado, mas sempre dá pra recomeçar! Por isso, eu decidi: eu vou ser a sua amiga!

Ela anunciou aquilo como se estivesse proclamando uma lei universal. Ainda suspensa no ar, passou a balançar braços e pernas com seu entusiasmo infantil característico, comemorando sua pequena vitória pessoal.

Miska, ao ouvir a declaração, entrou imediatamente em estado de negação absoluta.

— Hahahahaha! — riu, seca e irônica. — Cê tá zoando, né?

Aurora cessou a flutuação. Seus pés tocaram o chão com suavidade.

— Não, não tô! — respondeu, convicta. E, antes que Miska pudesse reagir, segurou sua mão com firmeza. — Agora vem! Eu vou te levar pra um monte de lugares incríveis. Você vai amar, eu prometo!!

— Ai! Me solta, filha da pu██! — gritou Miska, cravando os pés no chão numa tentativa desesperada de resistir.

Antes de atravessarem a saída, porém, um detalhe curioso merecia atenção: nas costas das duas havia bilhetes colados. O de Aurora dizia “Eu gosto de comer restos de doces”. O de Miska, por sua vez, era ainda mais direto: “Me chuta.”

Não se sabe como ou quando aquilo apareceu lá. Mas, de verdade? Com Aurora por perto, já não fazia sentido duvidar de mais nada.

Espaço

Miska deu-se conta, não sem um certo atraso cognitivo, de que agora se encontrava ao lado de Aurora no meio do espaço aberto, suspensa numa vastidão cósmica de beleza que beirava o obsceno. Não havia chão, paredes ou qualquer referência material, e ainda assim ela caminhava com naturalidade, como se pisasse num piso invisível e perfeitamente sólido. Seus passos produziam uma sensação absurda de normalidade em um lugar onde a própria ideia de “normal” deveria ter evaporado há eras.

— Como é que eu tô andando aqui? — murmurou, franzindo a testa. — E pior, como é que eu ainda tô respirando?

A pergunta soou mais como um desabafo racional tardio do que uma busca real por respostas. Aurora, por sua vez, parecia completamente alheia a qualquer crise existencial. Ela girava, flutuava e se deslocava pelo vazio com movimentos amplos, nadando entre estrelas e sistemas solares como quem se diverte em uma piscina infinita.

— Aiii, meu Deus, isso é tudo tão lindo! — exclamou, os olhos brilhando. — Olha aquelas estrelas! Aqueles planetas! Eu quero ficar aqui pra sempre!

Miska soltou um suspiro longo, carregando nele cansaço, rendição e uma ponta de resignação. Contra sua própria vontade, decidiu dar uma chance àquela insanidade. Reduziu o ritmo, observou com mais atenção o espetáculo ao redor: nebulosas em lenta combustão, galáxias rodopiando em espirais elegantes, pontos de luz antigos demais para serem compreendidos. Ela sabia, com relutância, que aquilo era belo. Irritantemente belo.

Um sorriso discreto escapou, traindo sua postura cínica.

— Tá… — começou, com a voz baixa. — Eu odeio admitir, mas isso é realmente muito lin—

Ela interrompeu a frase no instante em que virou o rosto em direção a Aurora.

A garota estava parada, flutuando tranquilamente. Na mão esquerda, empilhava várias galáxias compactadas como quem carrega frutas recém-colhidas. Na direita, segurava outra, visivelmente marcada por mordidas irregulares. Fragmentos luminosos se desprendiam lentamente, dissolvendo-se no vazio enquanto Aurora mastigava com satisfação.

Ela estava comendo uma galáxia com a mesma naturalidade despreocupada de alguém beliscando um pacote de biscoitos.

— Hmmmm, delícia! — exclamou Aurora, atirando a galáxia inteira dentro da boca e mastigando com entusiasmo genuíno.

O sorriso de Miska morreu no mesmo instante.

— Q-quê… mas… você… — gaguejou, tentando organizar o pensamento que se recusava a assumir forma coerente. Então a incredulidade venceu. — O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO?!

O grito ecoou pelo vazio cósmico.

Aurora levou um susto imediato, como quem é flagrada roubando biscoitos da prateleira mais alta. Virou-se para Miska com os olhos arregalados, as bochechas infladas e a boca suja de resíduos impossíveis: fragmentos de estrelas, poeira cósmica, filamentos de gás luminoso, pedaços de planetas e algo que Miska preferiu não identificar, mas suspeitou ser matéria escura.

— Ééé… lanchinho?? — arriscou Aurora, forçando um sorriso culpado, meio trêmulo.

— LANCHINHO?! — Miska explodiu. — Você comeu a po███ de uma galáxia, sua… sua…

Aurora, alheia à indignação, simplesmente abriu a boca de maneira contranatural, ampla demais, profunda demais, e engoliu, de uma só vez, toda a pilha de galáxias que repousava em sua mão esquerda. Não houve pressa. Ela mastigou com calma, depois mais um pouco, e mais ainda.

Quando finalmente engoliu, soltou um arroto tão potente que o próprio tecido do espaço pareceu vibrar em resposta.

Miska permaneceu imóvel, observando aquela afronta com um olhar catatônico.

— Desculpa, eu tava com muita fome… — murmurou Aurora, coçando os cabelos enquanto desviava o olhar. Em seguida, colocou os braços para trás e arrastou o pé sobre o “chão” inexistente do espaço, num gesto clássico de culpa infantil. — Foi mal…

Parque de Diversões

Miska e Aurora se encontravam agora diante do portal luminoso de um parque de diversões que gritava promessas de alegria forçada antes mesmo de se cruzar a catraca. Bastou Aurora avistar o letreiro piscante para entrar em estado de euforia absoluta. Ela dava pequenos pulos involuntários, incapaz de conter a energia que borbulhava, como se cada lâmpada acesa fosse um convite pessoal ao caos feliz.

Miska, em contrapartida, levou a mão ao rosto num gesto cansado, pressionando a testa com os dedos.

— Uuuughh.. — resmungou, esfregando a cara com força, como quem tenta acordar de um pesadelo particularmente colorido.

— Iiiiiiiiii! Isso vai ser legal demais! Vamos logo, Miska! — cantou Aurora, já agarrando a mão dela e saltitando sem o menor pudor.

— Quantos anos você acha que eu tenho? Sete? — retrucou Miska, lançando-lhe um olhar carregado de desprezo. — Não, eu tenho vinte e quatro. Não vou me divertir nessas porcarias infant—

Aurora puxou Miska com força total, atravessando a entrada do parque num rompante, interrompendo qualquer tentativa de resistência verbal ou dignidade adulta.

E assim, leitor, começou o martírio.

Passaram por praticamente todos os brinquedos disponíveis: roda-gigante, carrossel, carrinhos de choque, montanha-russa, barco viking, elevador em queda livre, xícaras giratórias, trenzinho turístico, piscina de bolinhas e até uma cama elástica que Miska jurou, em silêncio, ser um atentado direto contra a sanidade humana. Para Aurora, cada atração era uma nova epifania de alegria. Para Miska, no entanto, aquilo se assemelhava mais a uma sessão prolongada de tortura cromática, acompanhada por música alta e risadas alheias.

Sua expressão permaneceu a mesma em praticamente todos os brinquedos. Dura, impaciente e hostil. As exceções eram raras e, curiosamente, reveladoras: momentos em que tentava, de propósito, fazer Aurora despencar de alguma estrutura, tropeçar feio ou, ao menos, se “machucar” de maneira minimamente humilhante. Nesses instantes específicos, Miska encontrava um prazer sádico.

Agora, exausta a maior parte das opções, Aurora vagava pelo parque à procura de alguma atração inédita, missão que se mostrava cada vez mais ingrata. Miska, por sua vez, permanecia parada, batendo o pé no chão com impaciência crescente, claramente avaliando se aquele suplício já não tinha durado tempo demais e se, por algum milagre, já era aceitável ir embora.

“Isso é patético! Como foi que tudo descambou desse jeito?” pensou Miska, cerrando os punhos com tanta força que os nós dos dedos ficaram esbranquiçados. “Há pouco tempo eu estava apodrecendo numa cela, e agora eu tô nessa esquizofrenia coletiva a céu aberto. E tudo isso por causa daquela anormal dos infernos!”

Ela puxou o ar pelos dentes, sentindo a raiva ferver por dentro. “Nunca imaginei passar por uma humilhação desse nível. O pior nem é isso, o pior é perceber que, por mais absurdo que seja, eu simplesmente não consigo fazer nada!”

— MIIIIISSKAAAAAAA!

O grito ecoou pelo parque. Aurora acenava os braços com entusiasmo exagerado, denunciando sua posição a Miska e, de quebra, chamando a atenção de famílias inteiras que passeavam tranquilamente por ali.

— AAAAQUIIIIII!!

— Mas que droga… — resmungou Miska, bufando enquanto se virava na direção da voz. — O que foi agora, hein?

Ela caminhou até Aurora com passos pesados, cada um carregado de impaciência.

— O que você quer agora, sua peste? — disparou, sem cerimônia.

— Olha só! — Aurora respondeu, ignorando o tom hostil, enquanto apontava animadamente para uma das atrações próximas. — Que tal a gente tentar aquele ali?

Tratava-se do Martelo de Força. Um daqueles jogos clássicos de parque, acompanhado por um funcionário vestido com um uniforme temático espalhafatoso, que chamava pais e crianças para testarem “quem era o mais forte”.

A lógica era simples: um golpe bem aplicado sobre um botão ou plataforma acionava um mecanismo que lançava um peso para cima ao longo de uma régua vertical. Quanto mais alto o marcador subisse, maior a força registrada.

Miska analisou a estrutura por alguns segundos. Pela primeira vez desde que atravessara os portões do parque, algo nela pareceu mudar. Um brilho discreto, quase imperceptível, surgiu em seus olhos.

— Uau… isso aqui parece interessante! Sempre gostei de testar minha força, embora eu ainda ache que os otários da cadeia sejam melhores pra isso. — comentou Miska, deixando escapar um sorriso enviesado, carregado de intenções nada inocentes. Já caminhava em direção ao brinquedo quando completou: — E, convenhamos, descontar a raiva em alguma coisa agora deve compensar um pouco os socos que eu tava louca pra te dar.

— Hahaha, shooow— pera… o quê?! — reagiu Aurora, o entusiasmo dando lugar a um alerta tardio.

Miska não se deu ao trabalho de esclarecer. Apanhou o martelo com naturalidade, girou-o no ar em movimentos experimentais, como quem avalia peso e equilíbrio. O funcionário do parque, atento à cena, abriu um sorriso profissional, fez um gesto exageradamente cerimonioso em direção a ela e desejou:

— Boa sorte, moça!

A resposta veio em forma de riso baixo. Em seguida, Miska ergueu o martelo acima da cabeça e o desceu com violência absoluta sobre o alvo. O impacto foi tão brutal que o marcador disparou pelo trilho, fazendo o sino tilintar repetidas vezes, não uma ou duas, mas centenas, numa sequência rápida demais para parecer humana.

Aurora arregalou os olhos. O funcionário ficou completamente boquiaberto, como se tivesse acabado de testemunhar uma violação explícita das leis básicas da física.

— Uhuuuuuu! — Aurora começou a aplaudir com entusiasmo desenfreado. — Você é forte pra caramba, Miska! Arrasou!

— Hah, eu sei! — respondeu ela, passando a mão pelos cabelos e assumindo uma pose descaradamente exibida, o sorriso carregado de arrogância satisfeita. — Viu só como eu sou fo██?

— Sim, sim!! Você é incrível! — comemorou Aurora, inflando o braço direito num muque exagerado e apoiando a outra mão sobre ele, girando o antebraço como se fosse uma alavanca hidráulica improvisada. — Agora é a minha vez!

Ela ergueu o dedo indicador para o alto, numa pose solene que tentava imitar grandes declarações heroicas. Miska, ao ouvir aquilo, apenas levantou uma sobrancelha, cética.

— Cê tá falando sério? — provocou. — Esse martelo é maior que você, pirralha!

A gargalhada que se seguiu veio carregada de deboche.

— Ahhh, relaxa! Não se preocupa com isso, eu dou conta! Prometo! — respondeu Aurora, fazendo um gesto animado de “paz e amor” com as mãos.

Miska deu de ombros, rendida ao espetáculo anunciado.

— …Então vai lá, né? Só não vem chorar depois! — disse, abaixando o martelo para que Aurora pudesse alcançá-lo.

No instante em que seus olhos pousaram sobre o objeto, eles literalmente brilharam, assumindo a forma de estrelas cintilantes. Seus dedos se moveram em pequenos espasmos ansiosos, denunciando uma empolgação completamente desproporcional ao desafio. Após alguns segundos, porém, ela respirou fundo, conteve o excesso de entusiasmo e encarou o martelo com confiança.

Com um gesto decidido, agarrou-o com apenas uma das mãos e o ergueu acima da cabeça. Em seguida, começou a avançar na direção do brinquedo, marchando com seriedade exagerada, como um soldado a caminho de um confronto épico.

Aurora posicionou-se, levantou o martelo e abriu a boca para anunciar o golpe.

— SENHORAS E SENHORES, CONTEMPLEM A MINHA— A MINHA.. A minha.. a minha força, minha FOOOOOOR—

O martelo tombou para trás, puxando Aurora junto e derrubando-a no chão com um baque constrangedor. Ela tentou se erguer, ainda segurando o objeto, mas o peso parecia absolutamente incompatível com seus braços diminutos. Mesmo assim, recusou-se a desistir, contorcendo-se e tentando se levantar de todas as formas imagináveis.

— NGHHH! E-ESPEREM UM MOMENTO, E-EEEUUU.. TÔ QUAAAASE! — arrastou as palavras, a voz tremendo pelo esforço.

Àquela altura, quem passava pelo brinquedo já não conseguia conter o riso. Algumas pessoas gargalhavam abertamente, outras sacavam o celular para registrar a cena. Miska e o funcionário responsável pelo jogo tampouco escaparam: ambos riam sem qualquer resquício de compaixão, entregues ao espetáculo patético e, ao mesmo tempo, irresistivelmente cômico de Aurora.

— Vamos láááá, Thor! Vai, mostra teu poder! — provocou Miska, com um sorriso enviesado e um tom carregado de deboche.

— E-EU CONSIGO, EU CONSIGO.. EU CONSIIIGOOOO! — respondeu Aurora, forçando os bracinhos com uma determinação quase trágica.

Contra todas as expectativas, ela conseguiu, por um breve instante, se erguer junto com o martelo, mantendo um equilíbrio precário. O feito arrancou expressões de espanto das pessoas ao redor. De todas elas, apenas Miska permaneceu impassível, como se aquilo não fosse nada além de uma encenação patética.

Com passos cuidadosos, Aurora aproximou-se do brinquedo mais uma vez e levantou o martelo em direção ao alvo, agora empunhando-o com solenidade exagerada.

— Lá… vou… EU!

Num esforço final, agarrou o objeto com as duas mãos e desferiu o golpe. O impacto, no entanto, mal passou de um toque constrangedor. A régua SEQUER se mexeu de tão patética que ela foi.

As gargalhadas explodiram ao redor, mais altas e cruéis do que antes. O riso coletivo ecoou pelo espaço, transformando o momento num espetáculo público de vexame. Miska, desta vez, sequer se deu ao trabalho de rir.

— Cruz credo, garota. — comentou, com frieza cortante.

Foi então que algo saiu do esperado.

O brinquedo começou a vibrar. Não de maneira sutil, mas com tremores visíveis, como se estivesse reagindo a uma força tardia e invisível. Por alguns segundos, ninguém entendeu o que estava acontecendo. Logo depois, as risadas cessaram por completo. O silêncio se espalhou, pesado, enquanto todos fixavam os olhos na estrutura instável.

O tremor persistiu por longos minutos, três, talvez mais, até que, sem qualquer aviso, a régua foi lançada para fora do brinquedo com uma velocidade absurda. A estrutura se despedaçou no mesmo instante, reduzida a restos inúteis.

A régua, agora um projétil improvável, rasgou o céu e desapareceu no espaço, colidindo com planetas distantes e arrancando-os de suas órbitas, como uma bola de pinball cósmica lançada sem controle.

Miska, o funcionário do parque e todos os curiosos que antes zombavam de Aurora permaneciam imóveis, de boca aberta, encarando o firmamento em choque absoluto.

A atenção de Miska, porém, foi arrancada à força quando ouviu uma gargalhada incontrolável atrás de si. Aurora ria com intensidade, segurando a barriga com um braço enquanto a outra mão pressionava a própria cabeça, numa tentativa inútil de conter o ataque de riso, falhando de forma tão espetacular quanto todo o resto naquela tarde.

Miska correu na direção de Aurora, e então levantou-a pelos cabelos com força, mas eu acho que já era bem óbvio de que a dor era a última coisa que Aurora iria se importar naquele momento.

— Do que você tá rindo, imbecil?! Não tá vendo o que acabou de fazer?!! — berrou Miska, a voz trêmula, misturando pânico puro com uma raiva quase fora de controle.

Aurora não se deu ao trabalho de responder. Em vez disso, ainda gargalhando, ergueu o braço e apontou para o céu, num gesto simples e casual.

Miska seguiu a direção do dedo por reflexo. No instante seguinte, seu corpo inteiro congelou.

A régua retornava.

Ela descia em linha reta, cortando o ar com uma velocidade grotesca, como um fragmento de catástrofe decidido a concluir o serviço. Não houve tempo para raciocínio, nem para fuga, nem sequer para xingar.

A régua atingiu o topo da cabeça de Miska com força suficiente para deformar o solo ao redor. O chão cedeu, abrindo uma cratera ampla, enquanto uma onda de choque se espalhava pelo parque. As pessoas próximas viraram o rosto no exato momento do impacto, incapazes de assistir àquilo, imaginando apenas o nível absurdo de dor envolvido.

Miska largou Aurora instantaneamente e cambaleou para trás, os passos desordenados, a visão embaralhada. Fragmentos da régua, agora reduzida a cinzas e detritos incandescentes, se dissipavam no ar enquanto ela tentava se manter de pé.

“M-Maldita… você sabia. Sabia que isso ia acontecer, não sabia?”, pensou, erguendo o braço na direção de Aurora numa tentativa patética de avançar. “E-eu vou… eu juro que vou… te ma—”

O corpo de Miska perdeu a sustentação e caiu pesadamente no chão, inconsciente antes mesmo de tocar o solo.

Aurora interrompeu a risada de imediato.

— Xiiii… — murmurou, aproximando-se com cautela, como alguém que acabou de quebrar algo caro.

Ela pegou um graveto qualquer e começou a cutucar a cabeça de Miska, testando, sem muita convicção, se haveria alguma reação.

Não houve.

Nenhum movimento.

Nenhum som.

O silêncio tomou conta do ambiente. Todos ao redor observavam, imóveis, a cena bizarra: o corpo desacordado de Miska e Aurora agachada ao lado, avaliando a situação.

Aurora então abriu um sorriso amplo e infantil.

— Ééé… hahahá… acho que eu… é… alguém chama um médico! — disse, num tom leve demais para o caos instalado.

Antes que qualquer pessoa pudesse reagir, ela segurou o braço de Miska e, num piscar de olhos, desapareceu em um vulto rápido, deixando para trás apenas pequenas partículas de poeira suspensas no ar, e um parque inteiro tentando processar o que, exatamente, tinha acabado de acontecer.

Show de Horrores

Aurora e Miska encontravam-se diante da entrada de uma atração de terror amplamente conhecida na cidade. O cenário apostava pesado no realismo: estruturas gastas, iluminação precária, paredes que pareciam à beira do colapso. Tudo ali transmitia abandono. Ao fundo, uivos longínquos ecoavam de tempos em tempos, atravessando o ar noturno.

Aquilo bastou para arrancar um sorriso discreto de Miska.

— Heh, maneirinho.. — murmurou, satisfeita.

Aurora, por outro lado, não compartilhou do mesmo entusiasmo.

— .. U-Ughhh. — soltou, num som baixo e tenso, enquanto seus ombros se encolhiam levemente.

Era impossível não notar: apesar de ter sido a mente brilhante por trás da ideia de visitar aquele lugar, Aurora estava visivelmente desconfortável. O corpo rígido, o olhar inquieto, os pés quase colados ao chão. Miska percebeu o contraste na hora, e, como era de se esperar, não deixou passar a oportunidade.

— Ué, o que foi, neném? — provocou, inclinando levemente a cabeça. — Tá com medinho, é?

— N-não! N-não é medo! — respondeu Aurora depressa demais, denunciando-se sozinha. — Fui eu que trouxe a gente aqui, pra começo de conversa… t-tá?

A tentativa de parecer confiante soou frágil, quase comovente. Miska arqueou a sobrancelha, saboreando o momento.

— Ah, é mesmo? — disse, abrindo um sorriso torto, carregado de malícia. — Então entra.

— Q-quê?! E-entrar?! M-mas eu—

— Entra logo, po███! — interrompeu Miska, antes que qualquer argumento ganhasse forma.

O chute veio rápido e preciso, acertando as costas de Aurora com força suficiente para empurrá-la diretamente para dentro da atração. Qualquer chance de resistência morreu ali.

Miska soltou um suspiro satisfeito, relaxando os ombros.

— Hah… fazer isso é libertador demais. — comentou, caminhando com calma em direção à entrada, como quem aprecia o próprio trabalho.

No entanto, no exato momento em que Miska cruzaria o limiar do evento, um punho colossal surgiu diante dela. O impacto foi imediato e devastador. O golpe a atingiu em cheio, lançando seu corpo para longe com violência.

A mão era de Aurora.

Ou melhor, da versão ampliada da mão de Aurora, que havia aumentado o próprio membro apenas o suficiente para devolver o “favor” à altura. O soco foi carregado de força bruta e ressentimento acumulado.

No fim das contas, o ditado não falha.

Tudo o que vai, volta, não é?



Depois de todos os contratempos, e de uma quantidade respeitável de agressões “educativas”, as duas finalmente atravessaram as portas da atração e adentraram o espaço onde, em tese, residia o verdadeiro terror prometido pelo evento. Pelo menos era isso que os panfletos, a trilha sonora sinistra e o marketing exagerado juravam de pés juntos. Imagino que você esteja esperando um roteiro previsível: Aurora se assustando a cada esquina, Miska atravessando tudo com a expressão de quem está entediada numa fila de banco. Certo?

Pois bem. Você acertou míseros 2%. Os outros 98% ficaram completamente fora do alvo.

É verdade que, nos primeiros minutos, Aurora ainda deixou escapar alguns gritinhos involuntários, nada muito digno, mas compreensível. O problema é que essa fase foi absurdamente curta. O motivo? Simples: Miska ainda estava fervendo de ódio por causa do soco que levara na entrada. E, incapaz (ou indisposta) de processar emocionalmente a experiência, decidiu canalizar todo aquele rancor da forma mais direta possível.

Os alvos escolhidos foram, infelizmente, os funcionários da atração.

Vestidos com trajes macabros, maquiagens elaboradas e munidos apenas da nobre missão de assustar visitantes pagantes, eles se tornaram vítimas colaterais de uma fúria mal resolvida. Cada aparição repentina era respondida com um soco preciso que desligava o sistema nervoso por tempo indeterminado. Cada sombra que se mexia rendia um chute certeiro no abdômen, acompanhado de sons pouco dignos e da devolução imediata de todas as refeições do dia.

Sem exagero algum, o que deveria ser um espetáculo de horror para o público transformou-se num verdadeiro massacre logístico para a equipe do evento. O terror, ali, mudou de endereço. Não vinha mais dos corredores escuros ou das criaturas encenadas, mas de uma mulher claramente fora de si, caminhando como uma força da natureza com punhos e pernas letais.

Aurora, por sua vez, percebeu rapidamente a reviravolta da situação, e se adaptou com uma eficiência admirável. Com Miska no seu modo de destruição total, o medo perdeu o sentido. Não havia mais nada a temer quando qualquer coisa que surgisse no caminho seria prontamente neutralizada, derrubada ou hospitalizada.

Em termos simples, Aurora sentiu-se segura. Estranhamente protegida.

Era fofo, de certo modo.

Mas também inteligente e sagaz.

Um plano impecável, embora completamente acidental, arquitetado sem consciência, mas executado com resultados impressionantes. Afinal, quando o terror passa a ter medo de você, a diversão assume outro nível.

Enquanto Miska e Aurora perambulavam pelos corredores da atração, agora mais silenciosos depois do caos instaurado, Aurora estacou de repente. Seus olhos se fixaram em um objeto quase esquecido, repousando sobre uma das prateleiras empoeiradas que compunham a cenografia decadente do lugar: uma pequena caixinha de música, antiga, manchada pelo tempo e pela negligência.

Aurora arremessou o copo de refrigerante para longe, ignorando o líquido que se espalhou pelo chão, e apanhou o artefato com ambas as mãos como um tesouro improvável.

— Ei, Miska! — chamou, já correndo em sua direção, o entusiasmo ecoando no tom da voz.

Miska girou o corpo com brusquidão. Seu olhar era cortante, carregado de irritação mal digerida.

— Espero que seja um bom motivo pra eu não te partir no meio.. — respondeu, arrastando as palavras com uma ameaça quase preguiçosa.

Aurora não se intimidou. Aproximou-se ainda mais e ergueu a caixinha até a altura do rosto de Miska, exibindo-a com um sorriso simples.

— Olha só! Uma caixinha de música! Não é uma gracinha? — perguntou, os olhos brilhando de expectativa.

— Aurora, sua… — Miska começou, pronta para despejar uma coleção respeitável de insultos, mas algo a interrompeu antes que pudesse concluir a frase. Talvez o contraste absurdo entre o cenário de horror e aquele objeto delicado. Talvez o silêncio súbito. Talvez cansaço.

Aproveitando a hesitação, Aurora insistiu:

— Vai, só escuta um pouquinho! Dá uma chance!

Sem esperar autorização, seus dedos puxaram a pequena alavanca lateral com cuidado. A cada giro, a caixinha respondia com uma melodia suave e solene, notas frágeis que se espalhavam pelo ambiente escuro como um sussurro fora de lugar. Era uma música simples e ingênua, destoando completamente do cenário grotesco ao redor, e, justamente por isso, impossível de ignorar.

— Não, po███, já chega! — Miska cortou, virando o rosto com brusquidão. — Faz tempo demais que eu não consigo nem olhar pra me███ da tua cara sem ter vontade de arrancar tua cabeça fora e—

Com um estalo seco, a caixinha de música se abriu de vez. Algo saltou de dentro dela num movimento abrupto, acompanhado pelo rangido metálico da mola. Contudo, não era o tradicional palhaço de madeira que surgia ali. No lugar da figura caricata, estava Aurora, encaixada de forma absurdamente precisa no mecanismo.

Ela usava um par de orelhas de coelho tortas, segurava uma cenoura na mão esquerda e exibia um sorriso exagerado.

— BOOOOOOOOO! — berrou Aurora, sacudindo os braços de maneira caótica enquanto tentava assumir uma expressão ameaçadora. — QUE QUE HÁ, VELHIN—

Miska sequer pensou.

O golpe veio seco, brutal, carregado de tudo o que vinha sendo acumulado desde o início daquele dia torto. O impacto foi tão violento que rasgou o “corpo” de Aurora ao meio, separando-o em duas partes numa fração de segundo. O resultado não foi sangue, ossos ou qualquer coisa minimamente orgânica, foi uma explosão espalhafatosa de doces, chocolates, balas coloridas e confeitos, voando pelo ar em uma chuva açucarada completamente fora de contexto.

O chão ficou tomado apenas por açúcar, guloseimas esmagadas e chocolate.

A metade superior de Aurora tombou no piso com um baque oco, apoiando-se de lado enquanto começava a tossir de forma intensa, como se o próprio fôlego estivesse escapando aos poucos.

— A-Ai, Miska.. p-por que c-cê fez isso? E-Eu acho que eu tô p-partindo, c-cara— — murmurou Aurora, a voz falhando em intervalos irregulares.

Uma tosse veio, depois outra, e mais outra, cada vez mais fraca, o ar se recusando a cooperar.

Miska respondeu com um revirar de olhos carregado de impaciência.

— Para de palhaçada, peste. — disse, seca, sem conceder um grama de credibilidade à encenação.

— N-Não.. é-é serio.. e-eu não sinto mais minhas p-pernas.. — insistiu Aurora, agora num tom esmaecido e apagado.

— Você tá literalmente partida no meio, imbecil! Queria sentir o quê? — rebateu Miska, fria.

A visão de Aurora começou a se desfocar. O ambiente parecia girar devagar, as luzes se embaralhavam, e ela ergueu a mão com dificuldade, os dedos tremendo como folhas ao vento.

— P-Por favor… diz pros meus a-amigos.. q-que eu amo eles! — pediu, forçando um último sorriso frágil, carregado de um melodrama quase convincente.

E então, ela cedeu.

O braço caiu sem resistência. A cabeça pendeu para o lado, a língua escapando num gesto exageradamente teatral. Ali permaneceu, imóvel, por longos cinco minutos. O chocolate quente continuava escorrendo de seu corpo “inanimado”, formando pequenas poças brilhantes no chão, enquanto Miska observava a cena sem intervir, sem comentar e sem sequer mudar de expressão.

Aparentemente, aquele era o fim.

APARENTEMENTE, apenas.

Porque, passado o silêncio constrangedor, Aurora mexeu um dedo. Depois a mão inteira. E, com a maior tranquilidade do mundo, ela esticou o braço até o chão, mergulhou o indicador no chocolate líquido e levou-o à boca, saboreando-o com atenção.

Seus olhos se abriram de vez, e ela encarou um ponto aleatório do ambiente, absolutamente serena.

— Hmmmmmm, esse chocolate é gotoso! — comentou, satisfeita, abrindo um sorriso pequeno, mas genuíno.

Miska assistiu àquela cena com uma combinação indigesta de repulsa e incredulidade silenciosa. O absurdo era tamanho que, por um breve instante, sua mente simplesmente se recusou a acompanhar os acontecimentos.

E essa distração custou caro.

Sem que ela percebesse, a metade inferior de Aurora, ainda acomodada dentro da caixinha, deu um pequeno salto ágil, equilibrando-se sobre a borda. No segundo seguinte, a figura incompleta girou o corpo e desferiu um chute seco e preciso no rosto de Miska.

— Ngh! — Miska gemeu, sentindo a dor explodir no maxilar enquanto cambaleava alguns passos para trás, tentando não perder o equilíbrio.

A metade rebelde não perdeu tempo. Correu em direção ao resto do corpo de Aurora e, num movimento quase orgânico demais para ser explicado, reconectou-se a ela, como se nunca tivesse havido separação alguma. Nenhuma cicatriz, nenhuma falha. Aurora estava inteira novamente, impecável, como recém-saída da embalagem.

— TADÃÃÃÃÃÃÃÃ! — anunciou Aurora, saltando para frente com entusiasmo exagerado, os braços erguidos em triunfo. — E aí? Curtiu o meu truque?!

Miska respirou fundo, sentindo o sangue ferver. Os músculos do pescoço estavam rígidos, os dentes cerrados com força suficiente para ranger.

— JÁ CHEGA! — rugiu, a voz carregada de fúria crua.

Num gesto abrupto, ela apertou a caixinha de música ainda em sua mão. O metal cedeu com um estalo agudo, deformando-se sob a pressão brutal dos dedos. Em segundos, o objeto foi reduzido a um amontoado irreconhecível de pedaços retorcidos, restos inúteis do que antes servira de palco para aquela palhaçada inteira.

CABRUM!

O estampido rasgou o ar com violência, denso e ensurdecedor, como se o próprio espaço tivesse sido fendido ao meio.

Um clarão abrupto engoliu tudo ao redor, e o cenário do evento se dissolveu em um piscar de olhos, despedaçando a ilusão anterior sem qualquer cerimônia.

Quando a luz se dissipou, já não havia corredores cenográficos, prateleiras empoeiradas ou atores fantasiados. Nada daquilo permanecera. O chão sob seus pés havia mudado.

Agora, Miska e Aurora não estavam mais no evento.

Elas estavam no...

Velho Oeste

Uma chuva pesada castigava o deserto sem piedade, um espetáculo improvável de água e areia que transformava o chão árido em lama traiçoeira. As gotas despencavam grossas, estalando contra o solo quente, levantando vapor e poeira úmida.

Miska e Aurora se encaravam em silêncio, os olhares presos uma à outra, tensos como fios prestes a se romper. Ambas traziam um coldre de couro firme à cintura. O detalhe fazia toda a diferença. Miska empunhava um revólver clássico, pesado, metálico, carregado de intenções nada sutis. Aurora, por sua vez, carregava… uma banana.

Não era preciso dizer nada. O cenário falava por si.

Quem sacasse primeiro, levava.

— AHA! — gritou Aurora de repente.

Num movimento absurdo, ela puxou a banana com uma velocidade tão grotesca que Miska sequer teve tempo de contrair os músculos. Quando o cérebro de Miska finalmente processou a cena, já era tarde demais.

— Po███… — murmurou, instintivamente assumindo uma postura defensiva, o corpo reagindo antes mesmo da razão.

— TOMA ESSA! — berrou Aurora, erguendo o braço com teatralidade exagerada.

A banana foi lançada.

Ela girava no ar como um bumerangue amaldiçoado, cortando a cortina de chuva com um assobio seco. Miska já calculava o desvio, avaliando o ângulo, quando algo completamente fora de qualquer lógica aconteceu: a trajetória do projétil simplesmente… mudou. Do nada. A banana fez uma curva impossível, desviou para longe e desapareceu no horizonte, engolida pelo deserto e pela tempestade, rumo a um destino que nem mesmo o universo parecia conhecer.

Miska olhou para trás, a sobrancelha arqueada, a expressão presa entre confusão genuína e incredulidade pura, tentando entender que tipo de plano torto Aurora havia tentado executar.

— Ah, droga. — Aurora comentou, levando a mão ao rosto, visivelmente frustrada com o próprio fracasso.

Miska não desperdiçou a abertura. Num passo rápido, girou o corpo e acertou um chute seco no rosto de Aurora, suficiente para deixá-la zonza por alguns instantes. Em seguida, ergueu o revólver, firme, dedo pressionando o gatilho sem hesitação.

Quatro disparos ecoaram no deserto.

Os tiros vieram baixos e precisos, direcionados às pernas e aos braços, com intenção clara de neutralizar. No entanto, Aurora reagiu num piscar de olhos. Girou o próprio corpo com força absurda, rápido o bastante para criar um redemoinho compacto ao seu redor. O ar rugiu. A chuva foi arremessada para os lados. As balas, capturadas pelo turbilhão, desviaram-se violentamente da rota, sendo cuspidas para longe como brinquedos inúteis.

Quando cessou o turbilhão de movimentos, Aurora mal teve tempo de recompor a postura antes de perceber Miska avançando em sua direção numa velocidade brutal, o corpo inteiro projetado para a frente, o punho já armado para esmagar-lhe o rosto. Por reflexo, Aurora repetiu o truque: retraiu o próprio crânio, compactando-o de forma absurda, e o golpe cortou apenas o ar pesado da tempestade.

Aquilo, no entanto, estava longe de encerrar o ataque.

Miska não recuou nem por um instante. Engatou uma sequência implacável de golpes, socos, cotoveladas, chutes curtos, tudo o que conhecia e mais um pouco, lançados sem pausa, sem cálculo fino, apenas com a intenção crua de destruir. Aurora, até então, desviava com relativa tranquilidade, girando o tronco, deslocando membros, dobrando articulações de maneiras que desafiavam qualquer anatomia convencional.

Essa facilidade, porém, só alimentava o ódio da adversária.

A cada erro evitado, Miska acelerava. A cada esquiva bem-sucedida, a força dos ataques aumentava.

Até que o corpo de Aurora falhou.

O excesso de movimento, somado à instabilidade do solo encharcado, cobrou seu preço. Um passo em falso, um segundo de atraso, e o equilíbrio se perdeu. Miska não desperdiçou a oportunidade. Um soco direto e violento atingiu o centro do peito de Aurora, arrancando-lhe o ar e forçando-a a levar a mão à região atingida.

Não houve tempo para reagir.

Num gesto automático, Miska sacou o revólver e disparou repetidas vezes. Os tiros rasgaram o torso e as pernas de Aurora, fazendo-a despencar de joelhos na lama. Dos orifícios abertos não saiu sangue, mas um fluxo espesso e brilhante de chocolate quente, que escorria lentamente, misturando-se à água da chuva até formar uma poça açucarada ao redor do corpo trêmulo.

Aurora já não se movia. Apenas tremia.

Miska se aproximou com passos calculados, o olhar fixo, a respiração pesada, saboreando cada segundo daquela vantagem.

— A-ah… qual é…? — murmurou Aurora, a voz falha e infantil. — E-eu achei que você fosse… m-minha amiga…

— Nunca fomos. — respondeu Miska, sem hesitar, antes de desferir outro chute cruel, que a fez cair ainda mais. — E NUNCA seremos!

Ela ergueu a arma e apontou diretamente para a cabeça de Aurora, o dedo firme no gatilho. Um sorriso torto, genuíno e perigosamente satisfeito se abriu em seu rosto.

— Quer deixar alguma última palavra antes de virar saudade? — perguntou, num tom quase cordial.

Com esforço visível, Aurora levantou a cabeça. O sorriso que surgiu em seus lábios era fraco, mas sincero.

— Muito obrigada por participar desse show… você foi realmente uma companheira e tanto! — disse ela, baixando a cabeça novamente, como se fosse desabar de vez. Ainda assim, reuniu forças para completar, quase num sussurro: — Ah… e cuidado com a banana que tá vindo aí atrás.

— Quê?

Miska virou o rosto no mesmo instante.

A banana que havia sido lançada minutos antes e esquecida no caos do combate, retornava agora em velocidade insana, cortando a chuva como um míssil amarelo. Não houve tempo para defesa, nem para surpresa completa. O impacto foi direto, atingindo Miska em cheio.

Sua visão embaçou.

O mundo começou a girar.

E, por um breve instante, até o ódio perdeu o foco.

“N.. Não é possível! Ela.. também sabia disso?!”, pensou Miska, lutando contra a vertigem que ameaçava apagá-la de vez. Cada batida do coração dela parecia atrasada.

Ainda assim, por puro orgulho, ela tentou reagir.

Com esforço visível, ergueu o revólver na direção de Aurora. A mão tremia tanto que a mira era, no melhor dos cenários, otimista. À sua frente, Aurora avançava em passos tranquilos, enquanto os buracos em seu corpo se fechavam sozinhos, regenerando-se num ritmo obscenamente rápido.

“Não… eu não vou… não vou aceitar perder.. pra você…!”, repetiu para si mesma, agarrando-se às últimas fagulhas de determinação que ainda resistiam ao caos dentro da sua cabeça.

Ela puxou o gatilho cinco vezes.

Os disparos acertaram em cheio o rosto de Aurora. Um atrás do outro.

Precisos, perfeitos, e, ainda assim, inúteis.

Em vez de atravessarem a carne, as balas desapareceram dentro da boca da garota, que a fechou calmamente, inflando as bochechas. Por um segundo constrangedor, Aurora parecia apenas mastigar. Ela fez um pequeno bochecho metálico, como quem experimenta um refrigerante estranho, e então cuspiu tudo de volta.

As balas retornaram como projéteis improvisados, atingindo Miska com força suficiente para derrubá-la de joelhos. O impacto arrancou o pouco de ar que ainda restava em seus pulmões. Ela apoiou uma das mãos no chão encharcado para não tombar de vez.

Dos ferimentos em seu corpo não escorria sangue, escorria ketchup. Ridículo demais para ser real, mas que, ainda assim, ali estava.

Com dificuldade, Miska ergueu o olhar.

Aurora estava parada bem à sua frente, intacta, sorrindo daquele jeito insuportavelmente sereno. Um sorriso que parecia sobreviver a qualquer situação: tiroteios, espancamentos, crateras, humilhações cósmicas. Um sorriso que não combinava em nada com a gravidade do momento.

— Eu avisei.. eu tenho váááááários truques! — provocou Aurora, dando um meio sorriso debochado enquanto dava de ombros. — Eu não acredito que você caiu nessa pela segunda vez! Haha! Pô, aí fica difícil te defender, sua bobona!

— N-Ngh… v-vai se fo███… argh… — resmungou Miska, com a voz quebrada, esmagada tanto pela dor física quanto pela humilhação que queimava mais fundo do que qualquer ferimento.

— Ah… — Aurora murmurou, arqueando uma sobrancelha enquanto levava a mão aos cabelos, coçando a cabeça com uma expressão pensativa exagerada. — Entendido!

Sem pressa alguma, ela enfiou a mão em um dos bolsos e começou a procurar algo que, ao que tudo indicava, só ela sabia o que era. Os segundos se arrastaram de forma quase ofensiva, enquanto Aurora revirava o bolso com concentração. Até que, de repente, seus olhos se arregalaram levemente, como quem finalmente encontra as chaves perdidas.

— Ahá!

Ela puxou de dentro do bolso uma bomba nuclear colossal.

Aurora a colocou no chão com cuidado carinhoso. O artefato, contudo, destoava completamente da expectativa: era coberto por cores vibrantes, adesivos, estrelinhas, corações e desenhos infantis espalhados por toda a carcaça metálica.

Miska sentiu o corpo gelar.

Por puro instinto, tentou se levantar, arrastar-se, fugir, qualquer coisa. Mas suas pernas não responderam. Era inútil.

Então, o temporizador da bomba começou a apitar, e os números passaram a descer rapidamente:

00:05

00:04

00:03

00:02

00:01

00:00

No lugar dos números, surgiu uma imagem pixelada ocupando todo o visor: um ciborgue de olhos vermelhos e luminosos, cabelo loiro e expressão ameaçadora, renderizado de forma grotescamente simples.

A figura abriu a boca e disse, com uma voz robótica e seca:

— Receba.

E então… nada.

É isso mesmo, nada.

Não houve clarão, nem onda de choque, nem sequer um som. O silêncio que se seguiu foi tão completo que chegou a ser constrangedor. Aurora e Miska se entreolharam, ambas confusas, tentando processar o anticlímax daquela situação absurda.

— Ué… — Aurora murmurou.

Curiosa, ela se aproximou da bomba e, sem qualquer senso de autopreservação, resolveu dar alguns soquinhos leves na lateral do artefato, como quem tenta fazer um controle remoto voltar a funcionar.

— Ô, acord—

A bomba detonou.

Não foi apenas uma explosão gigantesca.

Foi algo além de qualquer escala concebível.

























































O local desapareceu instantaneamente. A cidade deixou de existir. O planeta foi apagado sem deixar vestígios. Em seguida, o próprio tecido do universo foi engolido por uma explosão de cores impossíveis, um arco-íris colossal, violento e absoluto, que consumiu tudo até não restar mais nada.

Um nada completo.

Ainda assim, no vazio remanescente, era possível observar algo flutuando sem rumo: as cinzas de Miska e de Aurora, vagando lado a lado no inexistente. Curiosamente, cada uma mantinha a exata paleta de cores que as definia em vida, como se até o fim se recusassem a se misturar.

Entretanto, do nada absoluto, algo quebrou o silêncio.

Uma gargalhada reverberou pelo vazio.

Não era discreta, nem contida. Era alta, vibrante e elétrica, carregada de uma energia caótica que flertava perigosamente com a insanidade. Uma risada que não pedia permissão para existir, simplesmente existia.

Era dela.

Aurora.

Ela flutuava no vácuo inexistente com uma das mãos cobrindo o próprio rosto, o corpo inteiro sacudindo enquanto ria sem qualquer freio, como alguém que acabara de ouvir a piada mais engraçada de toda a sua vida. O riso parecia não ter fim, ecoando em um espaço onde, teoricamente, nem som deveria haver. Quando finalmente conseguiu se recompor, ou algo próximo disso, Aurora afastou a mão do rosto e encarou diretamente o telespectador.

— Isso é tudo, pessoal! — anunciou, com um tom teatral, abrindo um sorriso largo demais para ser inocente.

Sem cerimônia, ela estendeu o braço e apanhou um par de galáxias que vagavam ali como meros objetos esquecidos. Eram espirais luminosas, ainda pulsando com os restos de bilhões de estrelas e histórias interrompidas. Ela levou-as até a boca e as engoliu com tranquilidade, mastigando devagar, como quem aprecia um petisco raro, uma fração ínfima da criação, saboreada sem culpa, sem pressa e, sobretudo, sem arrependimento.

Porque, no fim, ela ainda era apenas uma criança cega pelo que considera divertido.

Depois de engolir o último resquício de luz, ela limpou os lábios com o polegar.

E, satisfeita, caiu na gargalhada mais uma vez.

O vazio, impotente, apenas assistiu.

























































Uhhhhh...

... Tá, né?

Então era essa a história sobre a prisão?

Confesso: pra algo que, na teoria, tinha tudo pra ser entediante, as coisas saíram do controle num nível que eu não esperava. Quer dizer, eu não posso falar isso com tanto orgulho assim, porque essa coisa acabou de FODER completamente um universo inteiro.

E o pior nem é isso, é saber que ela tá solta por aí!

Sinceramente, eu prefiro nem pensar no que aconteceria se ela resolvesse aparecer por aqui. Mas, sei lá, com um pouco de sorte, talvez a gente fique inteiro.

Né, cara?





























Uh… espera.

Cadê minha casa?

Por que é que eu tô sentado no chão?

Melhor, por QUANTO tempo eu fiquei sentado no chão?

























































Ai, essa não.





























“Eiiiii! Não se preocupa com isso! Vou te dar uma mansão grandona só pra você, tá?”

“Eu juro!”

"Confia em mim?"

Ah, tá. Hahahaha.

Vai contar história pra outro, vai criança. Me deixa ficar no meu luto e..





























Pera.

Retornar