Versão 007 - Inabalável

Versao 007

"Inabalavel"
Inabalável

Laetitia estava folheando a lista de convidadas quando, de repente, arqueou uma sobrancelha e soltou aquele suspiro demorado que precede algo problemático. Sem dizer uma palavra, ela se levantou e ergueu a mão, pronta pra abrir outro portal. Mas havia um detalhe que me chamou a atenção: ela não estava apontando para a entrada do estúdio, como de costume. Dessa vez, o gesto mirava pra fora do prédio.

— Laetitia, eu acho, APENAS ACHO que seja lá quem for essa convidada, não vai curtir muito chegar caindo do céu, sabe? — comentei, cruzando os braços e já prevendo o desastre.

Ela me lançou um olhar de canto que misturava tédio e superioridade espiritual, e respondeu com a maior calma do mundo:

— Pode ficar tranquila. Essa é, literalmente, a última coisa com que ela vai se preocupar.

Um portal gigantesco se abriu bem no meio da cidade. Ele era como uma fenda colossal no céu, emanando uma luz intensa que parecia engolir o horizonte inteiro. Ainda assim, acredite, aquilo seria apenas o aquecimento pro que estava prestes a acontecer.

O chão sob nossos pés começou a tremer com uma força absurda. As câmeras, as luzes, as cadeiras, tudo vibrava como se estivéssemos no epicentro de um terremoto. O barulho era ensurdecedor; um estrondo metálico, acompanhado de estalos nas paredes e o som ameaçador do vidro rachando.

— Argh! Quê que é isso?! — gritou Ash, colando o olhar na janela com os olhos arregalados e o tom de quem já se arrependeu de perguntar.

— Eu sei lá, não me faz pergunta difícil! — respondeu Kenda, cambaleando, tentando se equilibrar enquanto o chão tremia.

Uma criatura colossal emergiu do portal com um impulso brutal, tropeçando como alguém que acabou de ser jogado de um penhasco. O ar pareceu parar por um instante. A plateia, por sua vez, não esperou nem meio segundo pra entrar em pânico, o estúdio inteiro virou um coro de gritos histéricos.

Naquele momento, eu finalmente entendi o motivo de o portal ter sido tão absurdo. Era melhor ter continuado sem saber.

Aquela coisa era literalmente um titã.

Um monstro de uns 350 metros de pura catástrofe ambulante. Só o balanço dos passos dele já era o suficiente pra destruir quarteirões inteiros. Prédios, casas, ruas, o que tivesse pela frente.

Mas calma que piora, porque desgraça pouca é bobagem.

Quando a criatura finalmente recuperou o equilíbrio, ela soltou um rugido ensurdecedor. Uma explosão sonora que fez o chão vibrar e o ar tremer. As ondas sonoras eram tão intensas que Laetitia teve que erguer uma barreira mágica gigantesca pra evitar que o prédio virasse poeira. E, claro, quando digo o prédio, é só o nosso mesmo, porque o resto da cidade já tinha virado uma maquete.

Meus olhos se arregalaram instantaneamente.

— AAAAHAHAAHA, NÃO LAETITIA! NEM FODENDO QUE A CONVIDADA É ISSO DAÍ! — gritei, tapando os ouvidos numa tentativa inútil de preservar meus tímpanos.

Ela me olhou com aquela expressão de quem está perdendo a paciência com uma criança birrenta.

— Quê? Mas é claro que não, anta. — respondeu, balançando a mão num gesto displicente. — A sua convidada é aquela ali, ó.

— É o quê? — perguntei, franzindo os olhos e tentando enxergar alguma coisa além da destruição.

Com a maior calma do mundo, Laetitia me entregou um tablet. Peguei o aparelho e, através da transmissão em tempo real, vi a cena completa.

Do mesmo portal de onde o titã tinha saído, uma figura feminina surgiu em disparada, voando em direção ao monstro. Ela vestia um traje quase todo preto, adornado com um símbolo branco no peito: uma lua crescente cercada por três estrelas. Seu rosto era parcialmente coberto por uma máscara dominó, vestia botas e luvas brancas, e uma capa igualmente branca que ondulava de forma dramática com o vento.

Ela parou bem diante do titã, que a notou imediatamente e rugiu mais uma vez. A mulher cruzou os braços com o olhar firme, e ficou ali, flutuando, enquanto a capa tremulava atrás dela com imponência exibida.

Ela virou-se e observou o enorme portal atrás de si se fechar com um estrondo abafado. Por um instante, ficou imóvel. Depois, abaixou a cabeça, deslizando os dedos pelos cabelos antes de soltar um longo suspiro.

— Meeeeh. Cara, isso sempre acontece! — reclamou, num tom carregado de frustração. — Perdi a conta de quantas vezes esses portais ficam aparecendo no meio de uma luta do nada! Agora vou passar horas tentando descobrir como voltar pra casa! Eu vou perder o jogo de futebol americano!

Ela apertou os punhos com força, o semblante endurecendo.

— Qual é, hã? Não dava pra aparecer outra hora não? — disse, fitando o titã com um olhar afiado o bastante pra cortar aço.

Mas, antes que pudesse continuar, a criatura rugiu de forma ensurdecedora e lançou um soco devastador. O impacto foi tão bruto que a mulher foi arremessada em queda livre, atravessando camadas de concreto até atingir o chão com força suficiente pra abrir uma cratera gigantesca. O estrondo ecoou por quilômetros, sacudindo o que restava da cidade.

Sem hesitar, o titã saltou atrás dela, descendo como um míssil vivo. Aterrissou bem no centro da cratera e esmagou tudo ao redor com os pés, liberando outra onda de destruição que varreu quarteirões inteiros.

O monstro recuou alguns metros e começou uma sequência furiosa de golpes, cada um mais violento que o anterior. Era como assistir a uma tempestade tomando forma em punhos, uma mistura de força e ódio. Ficava claro que aquele ataque não era apenas instinto: havia rancor, talvez até vingança.

As rajadas de vento criadas pelos socos varriam o ambiente, levantando poeira, destroços e pedaços de prédios. Do nosso lado, o estúdio vibrava sem parar, rangendo como um liquidificador prestes a explodir. Foram cerca de cinco minutos de pura fúria. Cinco minutos que pareceram uma eternidade. Então, finalmente, o titã cessou os ataques.

Ele permaneceu ali, parado diante da cratera, respirando de forma irregular, cada expiração soava como um rugido abafado. Ficou observando o buraco como quem confirma o fim de uma batalha antiga.

E, de repente, soltou um grito triunfante, poderoso o bastante pra estremecer o ar ao redor, um brado de exaustão e vitória ao mesmo tempo.

Afastei o olhar do tablet e encarei o resto da produção. Meus amigos estavam brancos como papel, os cabelos em pé, os olhos arregalados, todos com a mesma expressão de quem acabou de testemunhar o fim do mundo.

Ninguém disse uma palavra. O silêncio era tão pesado que até o som do meu coração parecia alto demais.

Soltei um suspiro pesado e voltei meu olhar para Laetitia.

— É, acho que entrevistar essa aí não vai rolar. — comentei, cruzando os braços. — Sério mesmo que você tinha que trazer esse monstro pra cá também?

Ela não respondeu de imediato. Aliás, duvido até que tenha me ouvido, pois estava ocupadíssima devorando um hambúrguer e tomando um refrigerante que não faço ideia de onde apareceu. Entre uma mordida e outra, Laetitia apenas apontou pra frente com o dedo indicador, pedindo silêncio.

Revirei os olhos e voltei minha atenção para o tablet.

Na tela, a imagem tremia com a força das ondas de choque, e então, um borrão veloz surgiu do centro da cratera, avançando na direção da criatura com uma velocidade absurda. O titã rugiu de dor quando foi atingido bem no rosto, e então começou a cambalear.

Por alguns segundos, só dava pra ver um caos visual: o monstro se contorcendo, gritando e sendo golpeado de todos os lados ao mesmo tempo. Confusa, arqueei a sobrancelha e dei zoom na tela pra tentar entender o que estava acontecendo.

E foi aí que percebi.

O tal borrão era a mesma mulher que o titã havia socado minutos antes. Só que agora, ela se movia ao redor do planeta com uma velocidade impossível de se acompanhar, acertando o inimigo em diferentes ângulos como quem brinca de pingue-pongue. Cada volta criava um clarão, uma rajada de energia, e mais um rugido de dor da criatura.

Voltei o zoom para o campo de batalha e vi a mulher se reposicionar no ar. Ela inspirou fundo, deu um impulso e disparou como um míssil humano em direção ao peito do monstro.

O golpe fez o chão tremer, o ar vibrar e o titã ser lançado pelos céus como um projétil vivo.E, dando zoom mais uma vez, percebi que ele simplesmente saiu da órbita terrestre. O desgraçado atravessou planetas, luas e asteroides antes de desaparecer no vazio do espaço, deixando um rastro de destruição astronômica pra trás.

Afastei lentamente os dedos da tela, incrédula.

A mulher pairava no ar, absolutamente serena. Nem uma gota de suor, nem um arranhão. Colocou uma mão na cintura, a outra sobre a testa, estreitando os olhos enquanto tentava enxergar até onde o monstrengo tinha ido parar.

— Isso é por ter atrapalhado meu jogo, panaca! — comentou com uma calma tão absurda que era impossível saber se estava brincando ou se aquilo era apenas mais um dia normal pra ela.

Eu só consegui ficar parada, com o queixo literalmente encostando no chão. Sabe quando o cérebro simplesmente entra em modo de segurança porque não sabe lidar com o que acabou de ver? Pois é. Eu estava exatamente assim, travada, muda, tentando processar o fato de que uma mulher sozinha tinha acabado de mandar uma criatura do tamanho de um arranha-céu pro espaço com um soco.

No reflexo do choque, deixei o tablet escorregar das mãos e cair no chão com um estalo. Me arrastei de volta até minha mesa, meio cambaleante, e me joguei na cadeira. Coloquei a mão na testa e soltei um suspiro demorado, tentando evitar que meu cérebro simplesmente desistisse de funcionar.

Enquanto isso, Laetitia observava o caos lá fora como quem assiste ao noticiário no mudo.

— É, vou ter que consertar essa bagunça agora. — comentou, no tom mais casual do universo, antes de apontar pra mim. — De qualquer forma, tá aí a sua convidada.

Eu nem consegui levantar o olhar.

— Você tá brincando? — murmurei, com a voz abafada. — Entrevistar essa coisa? Passo. Prefiro manter meus órgãos internos onde estão, obrigada.

Afundei o rosto no braço, tentando fingir que talvez, se eu ficasse quieta o suficiente, ela simplesmente fosse embora e nunca mais lembrasse da minha existência.

Mas claro, a Lei de Murphy foi entalada no meu cu desde meu nascimento.

Um som ecoou atrás de mim — toc, toc, toc — três batidinhas leves no vidro do estúdio. Meu coração congelou instantaneamente. E, mesmo sem olhar, eu já sabia.

— Ooooi, abre a janela. — disse uma voz doce e calma, com a serenidade de quem pede açúcar emprestado. Toc, toc. — Ooooiii…

Eu permaneci imóvel, rezando em silêncio pra qualquer entidade disposta a me salvar daquele pesadelo.

— Aí, eu tô falando contigo! — insistiu ela, batendo novamente. — A cidade tá toda destruída, e eu só quero…

Mais um toque e, antes que eu pudesse sequer pensar em uma resposta, o vidro se estilhaçou com a mesma facilidade de um papel sendo rasgado.

— Eita, eu quebrei sem querer! — disse, com um risinho nervoso. — Hahaha! É, desculpa.

— Caraa.. — Kenda disse, incapaz de continuar.

— Isso foi.. — Ashley continuou.

— DEMAIS!! — Ash gritou, fechando os punhos enquanto olhava pra mulher com entusiasmo.







































Depois de todo o caos, Laetitia conseguiu restaurar a bagunça deixada pelo monstro e pela supermulher que, de todas as versões alternativas de mim que já apareceram nesse programa, essa é a que eu mais tenho dificuldade em aceitar como “eu”.

Mas quer saber? Dane-se. O importante é que o estúdio está inteiro de novo, e ninguém foi pulverizado no processo. Milagre.

E, pasmem, consegui até explicar pra ela (sim, eu sobrevivi) o motivo de estar ali e qual era o propósito do programa. Felizmente, ela entendeu sem questionar muito (Eu acho bom alguém me dar um prêmio).

— Eiiii, me desculpa pela recepção meio.. assustadora. — disse ela, colocando um dedo na bochecha e soltando uma risadinha nervosa. — Normalmente é isso que as pessoas veem quando surge alguma ameaça. Eu sei, é chato, barulhento e dá medo. Mas no fim vale a pena!

— É.. eu.. acho que sim. — respondi, com a voz tremida, tentando disfarçar o trauma.

Ela notou meu desconforto e sorriu de forma gentil, inclinando levemente a cabeça.

— Ahhh, qualé! Não precisa ficar com medo de mim, eu não sou do mal! — disse, em tom quase brincalhão. — Como é que uma “outra versão de mim” pode sentir medo? Isso não combina com a gente!

Revirei os olhos, tentando conter a ironia que já subia pela garganta.

— Ah, claro! Super coerente! Porque, afinal, eu também tenho força sobre-humana e consigo destruir planetas antes do café da manhã, né?

Ela soltou uma risada leve, claramente se divertindo com o meu desespero.

— Filha da mãe sortuda, viu? — resmungou Ash, que estava tentando abrir um pote de picles do outro lado do estúdio. — E eu aqui, quase deslocando o ombro pra girar uma tampa.

Ele fez força, bufou, fez cara de guerreiro, e nada. No fim, ele desistiu, largando o pote na mesa com uma expressão de derrota e o olhar vidrado, como quem acabara de perder uma batalha pessoal.

— Me dá aqui, deixa eu ver. — disse minha outra versão, surgindo ao lado do Ash num piscar de olhos.

Antes que alguém piscasse de novo, ela já tinha tomado o pote para ela e o aberto com uma facilidade que faz o ego de qualquer mortal se despedaçar em mil pedaços.

Ash ficou olhando pra ela, completamente boquiaberto, enquanto segurava o frasco aberto com um sorriso de criança que acabou de ganhar doce.

— Cara, você é uma heroína de verdade! — exclamou, emocionado. — Eu passei QUATRO meses tentando abrir esse negócio!

Do outro lado, Jellie franziu o cenho, confusa.

— Espera aí. Cê tá me dizendo que realmente passou quatro meses da sua vida tentando abrir um pote de picles?

— Lógico! Impossível de abrir, tá doido! — respondeu Ash, com uma segurança irritante de quem acredita estar apenas afirmando o óbvio. Sem pensar duas vezes, pescou um picles lá de dentro e deu uma mordida triunfante.

Jellie, já antecipando o desastre, perguntou com um sorrisinho nervoso:

— Ash.. isso não passou da data de validade não?

— Ahhhh, que nad—

Ele ia negar, deu até pra ver a resposta se formando na ponta da língua.

Mas ele parou no meio da frase, seus olhos se arregalaram, e o rosto dele fez uma transição perfeita do orgulho para o puro arrependimento. Ele mastigou mais uma vez, hesitante… e travou.

O sabor, claramente, devia ser uma mistura de vinagre, mofo e desespero.

Ele ficou parado por alguns segundos, encarando o pote com a expressão de quem acabou de ter a confiança traída. E então, suas bochechas inflaram perigosamente.

— Hum! Eu já volto! — conseguiu dizer, com a voz abafada pela náusea.

Num segundo, ele disparou em direção ao banheiro, tropeçando em tudo pelo caminho. Era possível ouvir os vômitos desenfreados dele do estúdio. A plateia reagiu em coro, unida pelo mesmo sentimento de nojo coletivo.

— Que idiota. — murmurei, revirando os olhos com exaustão.

— Não faz assim com ele, vai. — disse minha versão heroica, caminhando até a poltrona com um sorriso leve. — Ele não sabia, coitado!

— Difícil é ele conseguir saber de alguma coisa, minha filha! Te contar, é complicado lidar com ele. — retrucou Jeffrey, rindo alto, o que arrancou algumas risadas contidas até da própria superversão de mim.

Ela se acomodou na poltrona com elegância, e eu pigarreei para puxar de volta o foco da conversa.

— Muito bem. — comecei, cruzando as pernas —, acho que é um bom momento pra perguntar o essencial: de onde exatamente você veio?

A mulher sorriu, e respondeu com uma empolgação infantil:

— Eu vim de um planeta muuuuito distante! — disse, com o tom de quem solta um segredo de estado. — Quando eu era só um bebê, meu planeta natal foi invadido por um grupo de conquistadores malucos que vagavam pelo universo atacando mundos só por diversão. Meus pais, desesperados, me colocaram numa nave e me mandaram pra Terra pra que eu não morresse junto com o planeta.

Ela gesticulava com energia, como quem narra uma história de cinema.

— Quando cheguei aqui, fui acolhida por uma mulher chamada Mazzi Ferland e seu marido Kyran Vestergaard. Sei que não são meus pais verdadeiros, mas considero-os minha família ainda assim. Eles me criaram com todo o amor do mundo, ME ensinaram sobre a Terra, a cultura, as pessoas.

Jellie, que até então parecia pensativa, franziu a testa.

— Peraí, essa história tá me lembrando alguém dos quadrinhos que eu lia, só não lembro quem. — disse, coçando a cabeça com esforço.

— você também lia quadrinhos de super-heróis? Ahhh, eu amava! Sempre implorava pra minha mãe comprar pra mim quando era criança! — respondeu com entusiasmo sincero, claramente nostálgica.

Resolvi aproveitar o embalo da situação e perguntei, curiosa:

— E quando foi que você percebeu que tinha… bem, poderes?

Ela se recostou, cruzando os braços com um ar orgulhoso.

— isso aconteceu quando eu tinha uns treze anos! — contou. — Eu já voava por aí e ainda enfrentava uns vilões aleatórios que apareciam do nada! — fez uma pausa e sorriu. — E o mais doido é que, nesse mesmo tempo, aqueles mesmos conquistadores que destruíram meu planeta tentaram invadir a Terra também. Vieram em peso, um exército inteiro de uma vez!

A plateia prendeu a respiração, fascinada.

— Mas não foi nada demais! — continuou ela, dando de ombros. — Eu dei conta de todos eles rapidinho e garanti que nosso planetinha continuasse seguro!

O público explodiu em aplausos e assobios, claramente encantado com a história.

— Não brinca! Tu era uma criança dura na queda, viu? — Kenda comentou, apoiando a mão no rosto e encarando-a com um meio sorriso de admiração.

— Hah, pois é! — respondeu a heroína, rindo de leve. — Claro que levei umas broncas homéricas dos meus pais também, né? Imagina o desespero de ver a filha de treze anos voando por aí e enfrentando um monte de brutamontes com milênios nas costas? Qualquer mãe teria um colapso. — disse, coçando o nariz de modo descontraído.

— Mas… — interrompi, curiosa, entrelaçando os dedos sobre o colo. — Cê fazia tudo isso sozinha? Não tinha ninguém pra te ajudar ou algo assim?

A pergunta pareceu despertar algo nela. Ela desviou o olhar para o resto do grupo e, ao vê-los, abriu um sorriso cheio de orgulho, como quem revê lembranças boas.

— Aahh, não, mas é claro que não! — respondeu, balançando a cabeça. — Nos meus tempos de colégio, mais precisamente no ensino médio, eu conheci pessoas incríveis. No começo, pareciam só adolescentes normais, sem nada de especial. Mas, com o tempo, provaram-me o contrário.

Ela então ergueu o braço e começou a apontar para cada um de nós, acompanhando os nomes com um olhar brilhante:

— Ash, Ashley, Kenda, Jeffrey e Jellie!

Os olhos dos meus amigos, antes confusos, começaram a brilhar com algo entre espanto e emoção.

— Espera, espera.. quê!? Eu também tenho poderes? É SÉRIO?! — Ash exclamou, os olhos brilhando como os de uma criança que acabou de descobrir que vai pra Disney.

Meu outro eu confirmou com um aceno entusiasmado.

— Sim, você tem! O Ash do meu mundo é conhecido como Raio Veloz, o homem mais rápido do universo! Já enfrentou ameaças interdimensionais e derrotou velocistas malignos com uma facilidade que dava até raiva. — contou ela, cheia de orgulho, enquanto Ash praticamente pulava de empolgação. — Eu sempre tento apostar corrida com ele, mas ele sempre ganha! Haha!

— QUE MANEIRO! VELOCIDADE É COMIGO MESMO! — ele gritou, antes de sair disparado pelo estúdio.

O rapaz corria em círculos com tamanha velocidade que sua imagem parecia se multiplicar, um borrão em movimento que ninguém conseguia acompanhar. Até que, num tropeço inevitável, ele acabou atravessando o vidro do estúdio e despencando prédio abaixo.

— Ai, que merda. — resmungou, dando um tapa na própria testa no meio da queda.

E daí você já consegue imaginar o que houve: ele caiu e se quebrou todo no chão de novo.

— Ahem.. — meu outro eu pigarreou. — Você, Ashley, é a Senhora da Verdade. Uma heroína capaz de obrigar qualquer vilão a confessar seus crimes com o poder do seu martelo místico!

Kenda arregalou os olhos, tentando conter o riso, mas falhou miseravelmente.

— Hah! A última vez que a Ashley encostou num martelo, ela acabou na emergência com o dedo enfaixado! — disse, entre gargalhadas, praticamente se dobrando de tanto rir.

Ashley virou o rosto na hora, o semblante indignado.

— Olha aqui, cala essa boca! Aquilo foi um acidente, tá? — respondeu, dando um tapa forte em Kenda. — Me deixa em paz, vai!

O estúdio inteiro explodiu em risadas, e até minha outra versão pareceu se divertir com a cena.

— Já que falamos na Kenda, ela é a Princesa dos Mares no meu mundo. — anunciou meu outro eu, com um sorriso entusiasmado. — Ela consegue se comunicar com qualquer criatura aquática e ainda controla a água da forma que bem entender!

Kenda, porém, não parecia muito impressionada.

— Ah, qual é? Um é rápido pra cacete, outra mete porrada nos outros com um martelo e eu converso com peixe e mexo com água? Que bosta de poder, hein! — reclamou, cruzando os braços e desviando o olhar, visivelmente frustrada.

Ashley não perdeu tempo.

— É o que dá ficar me zoando, sua peste! — provocou, apontando o dedo na direção da amiga com um sorriso vitorioso. — Chupa essa! Agora vai lá conversar com o Nemo e vê se ele te dá alguma dica pra conseguir algum homem!

— Ah, me erra, vai! — Kenda rebateu, revirando os olhos.

Foi então que Jeffrey levantou a mão, empolgado como um aluno querendo responder a pergunta do professor.

— E eu? E eu? — perguntou, ansioso.

Meu outro eu virou-se pra ele, mantendo o mesmo tom teatral de antes.

— Ah, você é a Radiação Verde! — declarou com ênfase. — No meu mundo, você consegue lançar rajadas de radiação tão potentes que poderiam desintegrar um meteoro, além de conseguir criar qualquer objeto que imaginar a partir de radiação também.

Jeffrey sorriu de canto, cruzando os braços com um ar presunçoso.

— Maneiro demais! — disse, inflando o peito.

— .. E eu? — perguntou Jellie, passando a mão pelo braço com um ar de timidez, quase se encolhendo na cadeira.

Minha outra versão olhou pra ela com olhos brilhando de empolgação, juntou as mãos e as apoiou sob o queixo.

— Você é uma das minhas favoritas! — exclamou, cheia de energia. — No meu mundo, você é a Noturna! — anunciou dramaticamente, gesticulando como um mágico num palco. — Usa tecnologia de ponta e o medo pra enfrentar o crime e a corrupção da sua cidade. Sempre agindo nas sombras, como uma verdadeira lenda urbana!

Jellie inclinou a cabeça, confusa.

— Tá, mas.. qual é o meu poder? — perguntou, arqueando uma sobrancelha.

— O seu poder está aqui! — respondeu minha outra versão, aparecendo de repente bem na frente dela e cutucando levemente sua testa. — Você é a mente brilhante por trás de tudo! Sem você, nada funcionaria!

Assim que ela terminou de falar, meus amigos cercaram Jellie com sorrisos maliciosos e olhares travessos, como um bando de crianças prestes a aprontar.

— Aaaaalguém não tem poderes! — zombou Jeffrey, com um tom debochado.

— Não esquenta, Jellie! — disse Ashley, rindo. — Um dia você desenvolve algum e pode fazer parte do clube dos superpoderosos, beleza? — completou, dando um peteleco carinhoso na testa da amiga.

Jellie bufou.

— Por favor! Teu poder é dar martelada nas pessoas, e eu que sou—

— Shhhhh, não grita! — interrompeu Kenda, fazendo sinal de silêncio. — Sem poderes, sem fala! Tá nas regras, bebê! — disse com voz caricata, rindo sozinha.

De repente, Ash surgiu mancando no meio do grupo, ainda com as pernas trêmulas depois do tombo monumental de antes.

— Eu ainda tô todo quebrado! — anunciou, tentando manter a pose heróica. — Mas eu só quero participar da zoeira nem que seja pelo menos uns cinco segundos, então... haha, trouxa! — completou, antes de cair de cara no chão, gemendo de dor.

Jellie apenas suspirou e cruzou os braços.

— Eu odeio vocês. — murmurou, olhando pro chão com resignação.

Meu outro eu, rindo nervosamente, ergueu as mãos como quem tenta restaurar a ordem.

— Calma, calma! Não tem necessidade de briga. — disse, fazendo gestos leves. — Ai, sabe, no meu mundo, quando conheci cada um de vocês, percebi que juntos éramos imparáveis. A gente lutou lado a lado contra várias ameaças globais, interdimensionais, extraterrestres e por aí vai. Decidimos nos unir pra formar um time de verdade.

Ela deu um passo à frente, inflando o peito com orgulho.

— Uma equipe feita pra proteger o planeta de qualquer maluquice que apareça. E lá, nós somos conhecidos como a União Global! — declarou. — E eu? Eu sou…

não é invencível

— Uh, quê? O que foi isso? — perguntei, balançando a cabeça, totalmente desnorteada pela transição brusca.

— O que? Eu só disse que eu sou..

não é invencível

— Para de fazer isso! — interrompi, exasperada, passando as mãos pelos cabelos.

— Uhhh, de falar..

não é invencível

— PARA, PARA, PARA! TÁ ME DANDO NÁUSEA! — gritei, pressionando a barriga enquanto o mundo começava a girar ao meu redor.

Meu outro eu apenas riu suavemente e, sem a menor pressa, passou a mão na minha cabeça num gesto carinhoso.

— Tudo bem, desculpa por isso. — respondeu com aquele ar relaxado típico de quem nunca sente culpa por nada.

Um breve silêncio pairou até que Kenda, curiosa, coçou a bochecha e perguntou:

— Eu tenho uma dúvida. O que significa esse símbolo aí no seu peito?

Minha outra versão olhou pra baixo, arqueando uma sobrancelha.

— Ah, tá falando disso? — perguntou, apontando pro próprio uniforme. — É que quando minha mãe costurou essa roupa pra mim, ela acabou confundindo o molde e colocou uma lua no lugar do “M” que eu queria. Hahahaha! — explicou, rindo sozinha ao lembrar da história.

— Ué, mas, por que não pede pra ela trocar? — indagou Kenda, com um encolher de ombros.

— Sei lá, eu não tô nem aí. Não faz diferença. — respondeu, com uma leve risada. — No fim das contas, virou parte de quem eu sou, sabe? Deixei como está.

Com isso, ela caminhou tranquilamente até a poltrona e se jogou nela de qualquer jeito, apoiando as costas e levantando as pernas de forma despreocupada.

E aí que mora a merda, porque eu esqueci completamente que ela era uma versão minha com o prefixo “super” por um motivo muito literal.

Por que? Bom, digamos que porque no instante em que as pernas dela tocaram o chão… o planeta inteiro LITERALMENTE rachou.

Um estalo colossal ecoou, a Terra se abriu no meio que nem casca de ovo trincada. A outra metade simplesmente começou a flutuar pelo espaço, vagando como um asteroide sem rumo.

A plateia, os meus amigos e eu ficamos completamente paralisados, encarando a cena em silêncio absoluto. Dava pra ouvir até o som do pânico existencial se instalando no ar.

Ninguém piscou. Ninguém falou nada. Só o barulho distante do planeta morrendo ecoando lá fora.

— Uuuuh, ooops! — Meu outro eu levou a mão à boca, ostentando aquele sorrisinho típico de quem sabe perfeitamente que acabou de fazer merda.

— O QUE VOCÊ FEZ, MULHER?! — gritou Kenda, desesperada, arrancando os cabelos no desespero de quem acha que isso vai consertar o mundo. Os olhos dela estavam tão arregalados que pareciam prestes a saltar da cara.

Minha superversão, por outro lado, manteve a calma de quem acabou de derrubar café no tapete branco e finge que tá tudo sob controle. Ela levantou devagar, fez um gesto com a mão pedindo pra Kenda se acalmar e disse:

— Relaxa, tá tudo bem! Eu resolvo isso rapidinho... me dá só cinco segundinhos, beleza?

Antes que alguém pudesse reagir, ela decolou numa velocidade absurda, rompendo o som com um boom ensurdecedor que quase jogou a plateia no chão. Subiu até o espaço como um raio prateado, alcançou a metade errante do planeta e a segurou nas costas com a leveza de quem carrega um travesseiro.

Num movimento completamente insano, ela se lançou em direção à outra metade e, de algum modo, “encaixou” as partes da Terra como um brinquedo de montar. Um estalo ecoou pelo cosmos, e o planeta, milagrosamente, estava inteiro de novo. Nem uma rachadura visível. Nem uma poeirinha fora do lugar.

Ela retornou ao estúdio voando, pousando com uma expressão presunçosa e batendo as mãos como quem acabou de resolver um problema trivial de matemática.

— Eu disse! Cinco segundinhos. — falou, convencida.

Eu revirei os olhos.

— Uhum, tá, muito obrigada, super eu. — murmurei, forçando um sorriso sarcástico. Então, virei para Laetitia, que estava sentada no canto com cara de quem preferia estar em outro universo. — Acho que essa palhaçada já deu, né? Só leva essa criatura pra dimensão dela e—

Antes que eu terminasse, o ar no meio do estúdio se distorceu e um portal gigantesco se abriu de repente, cuspindo energia azulada por todos os lados.

E, antes que você pergunte, não, não foi a Laetitia que fez isso. Digo isso porque ela tava com o olhar fixo na tela do videogame e um pacote de salgadinhos equilibrado no colo.

Do portal, emergiu um homem de uns trinta e poucos anos, vestindo um traje azul com detalhes brancos e botas reforçadas. Ele não usava máscara, o que facilitou minha identificação imediata.

E foi aí que meu cérebro deu um nó: era Ash.

Mas não o meu Ash, não era o desastrado que quase se matou tentando abrir um pote de picles. Esse tinha postura, olhar confiante, e uma presença que gritava “olha como eu sou foda!”.

Os olhos dele brilhavam num branco intenso, e pequenos feixes de eletricidade escapavam não só das íris, mas do corpo inteiro. Cada passo que dava fazia o chão vibrar levemente, parecendo até que própria energia se recusava a contê-lo. Quando finalmente se aproximou de mim, a expressão de alívio tomou conta do seu rosto.

— Meu Deus do céu, Miska! — disse, ofegante. — O que é que você tá fazendo aqui?! Eu fiquei correndo por horas pra tentar te encontrar!

O tom dele era de desespero, mas o que eu sentia mesmo era pura confusão.

— É o quê? Do que é que tu tá falando, seu doido?! — perguntei, completamente perdida.

Enquanto isso, do outro lado do estúdio, o meu Ash finalmente começou a se mexer. Ele se levantou com dificuldade, ainda grogue do tombo anterior.

— Ugh.. o que houve? — perguntou, piscando algumas vezes até perceber que havia ele mesmo no meio do palco. — Ué, quem é esse cara?

— É você, não tá vendo? Duh! — respondeu Ashley, com a sutileza de um tijolo. — Acho que esse daí era pra ser o tal “Raio Veloz”.

O Ash original arregalou os olhos como uma criança que acabou de descobrir o Papai Noel.

— O QUE? ENTÃO ESSA É MINHA VERSÃO DE HERÓI?! — gritou, empolgado. — ISSO É INCRÍVEL! EU SOU MUITO FODA! PRECISO DE UM AUTÓGRAFO!

Antes que alguém dissesse qualquer coisa, ele disparou pra dentro de uma das salas do estúdio, provavelmente atrás de papel e caneta, tropeçando em tudo no caminho.

Enquanto isso, o tal Raio Veloz parecia completamente alheio ao caos ao redor. Ele me encarou com uma urgência quase desesperada e gritou:

— A Terra tá em perigo, Miska! Um exército inteiro de supervilões tá destruindo tudo de novo! Não tem tempo pra explicar, precisamos ir AGORA!

Antes que eu pudesse sequer pensar em responder, ele agarrou meu braço com força.

— EI, ME SOLTA, CARAMBA! ESPERA AÍ, EU NÃO SOU A MISKA QUE CÊ TÁ PROCURAND—

Num piscar de olhos, literalmente, tudo virou um borrão luminoso. Um redemoinho de energia azul os envolveu, e num estalo, o Raio Veloz e Miska desapareceram do estúdio, parecendo ter atravessado um portal invisível que só aquele Ash conseguia enxergar.

A versão heroica de Miska finalmente pousou, seus pés tocando o chão com leveza. O olhar antes confiante agora demonstrava um misto de preocupação e constrangimento.

— Acho que agora tenho outro probleminha pra lidar. — murmurou, coçando a nuca de forma distraída, tentando disfarçar o embaraço.

Jellie, claro, não perdeu a oportunidade de alfinetar.

— Você que o diga, né? LITERALMENTE. — retrucou, carregando ironia na voz.

Nesse instante, Ash surgiu de volta ao estúdio, correndo como se tivesse descoberto a cura do tédio. Em suas mãos, um papel amassado e uma caneta quase sem tampa.

— ACHEI, FINALMENTE ACHEI UM PAPEL E UMA CANETA E.. — parou bruscamente, olhando ao redor. — Ehhh? Cadê ele?

A heroína soltou um risinho sem graça e respondeu, um tanto sem saber como amenizar a situação:

— Entãooo, digamos que o Ash do meu universo acabou de voltar pra lá. E, bem... levou a sua amiga junto, por engano. — A voz dela soou mais leve, mas ainda carregava um toque de culpa. — Agora vou precisar ir atrás deles antes que ela vire pó..

Ash abaixou os ombros, com a expressão de uma criança que acabou de perder o ingresso do show favorito.

— Ahhh, que palhaçada! Nem tive tempo de ter meu autógrafo. — lamentou, fazendo bico.

Mas bastou alguns segundos para seus olhos se acenderem com a empolgação de sempre.

— Espera! Me leva também?! — perguntou, o rosto iluminado pela ideia absurda, como se tivesse acabado de bolar o plano mais genial da história, ou o mais desastroso, dependendo do ponto de vista.