Versão 004 - Miska "Psicopata"
Vítima1

Meu nome é Miska Vestergaard. Tenho vinte anos.

E, nesse exato momento, estou em um lugar curioso repleto de pessoas curiosas.

Mas “curioso” não é necessariamente a palavra correta, é apenas a mais educada.

Essas pessoas acreditam me conhecer.



Elas olham para mim e vêem um rosto que inspira confiança.

Um rosto que poderia vender qualquer coisa, um investimento, um sorriso, uma mentira.

E, de certa forma, é isso que faço. Vendo versões de mim mesma.

A que sorri, a que ouve, a que parece “normal”.

Funciona bem o bastante pra ninguém desconfiar do vazio.

Faz as pessoas se sentirem seguras.



É uma coreografia social sem sentido, onde todos fingem sentir alguma coisa.

Uma farsa polida, maquiada, perfumada e cuidadosamente ensaiada pro público certo.



Na minha frente, há alguém muito parecido comigo.

Tem o mesmo nome, mesmo cabelo, mesmos olhos, mesma pele.

Mas, apesar das semelhanças, ela não é nada como eu.

É uma réplica imperfeita, tentando encontrar humanidade onde não há.

Ela me fez perguntas triviais como nome, idade, passatempos.

Perguntas que pessoas comuns fazem quando querem criar laços imaginários.

Ela também me perguntou o que eu “curto”.

É uma pergunta banal, mas que, pra mim, foi interessante.



Eu respondi que gosto de coisas simples: acordar cedo, tomar um bom café quente e sem açúcar, observar o vapor subir.

Gosto de me olhar no espelho e ver uma figura perfeitamente calibrada de mim:

Cabelos alinhados, pele impecável, olhar seguro.

Gosto do silêncio antes do mundo acordar, do som ordenado da cidade quando tudo ainda está no devido lugar.

Mas as pessoas insistem em estragar o que é perfeito.

É parte da nossa essência.



O caos é uma afronta à beleza.

Vozes altas, olhares curiosos, movimentos desnecessários, tudo isso me causa uma irritação difícil de suportar.

Começa como uma coceira no fundo da mente, um zumbido tênue que cresce até preencher cada pensamento meu.



E então, eu resolvo o problema.

Com calma..

.. e carinho.









































Mas, infelizmente, não posso fazer isso aqui.

E isso me deixa agoniada, me faz tremer.

Uma tremedeira insustentável.









































Não me leve a mal, isso não é por prazer.

Prazer é um termo vulgar, usado por quem tenta justificar falhas morais.

Eu prefiro chamar de "manutenção".

Eu apenas restauro a ordem.

Preservo o equilíbrio da minha rotina.

Como quem poda uma planta para que ela floresça corretamente, não por ódio, mas por amor à simetria.



Depois, tudo retorna à normalidade.

Lavo as mãos lentamente, sentindo a água correr entre os dedos.

Observo as gotas caírem, levando consigo o resquício do caos.

Então preparo meu jantar: carne malpassada, vinho tinto e música clássica suave.



A rotina perfeita, não acha?



Pessoas falam sobre "culpa", "consciência".

Mas eu não entendo.

Culpa é apenas um defeito de fabricação.

Um simples vírus social criado para domesticar os fracos.

Mas eu sei que eu não nasci pra isso.



Já tentei sentir.

Já tentei me importar.

Mas não tem nada, não encontro nada.

Nenhuma essência.

Nenhum “eu” verdadeiro.

Só o reflexo do que esperam ver.



E o melhor de tudo é que amanhã, quando eu sair daqui, o sol vai nascer novamente.

Ninguém vai saber o que desapareceu durante a noite.

E eu estarei lá, tranquila e serena, tomando meu café.



Não existe prazer maior do que esse:

a certeza de que, por mais um dia,

minha vida continua perfeitamente normal.











































“Acho que dava pra não ter falado isso em voz alta.”

A voz me arrancou um sobressalto. Abri os olhos num piscar e vasculhei o lugar: vazio. Não havia mais plateia e nem equipe técnica, até mesmo a minha réplica desaparecera.


Na poltrona ao lado, uma mulher trajando uma yukata branca com detalhes negros olhava pra mim com aparente calma; contudo, a reprovação transparecia em cada linha do seu rosto. Numa das mãos, sustentava uma bigorna absurdamente grande. O contraste entre o peso presumível do objeto e a facilidade com que o segurava me deixou atônita.


— Pra onde todo mundo foi? — perguntei


Ela sorriu com ironia.


— Ah, a gente tava prestes a te mandar pro seu universo, já que todas as perguntas sobre você já tinham acabado. Mas aí, você resolveu abrir sua boca e dizer simplesmente tudo o que passava nessa sua cabeça nem um pouco doentia, não é? Por causa disso, todo mundo ficou HORRORIZADO e saiu correndo. Resumindo: você cavou a própria cova. — A mulher disse, com um tom ainda irônico. — Psicopatas são tão burros assim? Na TV parecem bem mais espertos.


Passei a mão na bochecha, sentindo o calor da vergonha mais que o frio do medo. Não havia pavor, havia só a humilhação por ter feito algo tão idiota.


Observei-a de novo.


— Tá.. e essa bigorna aí na sua mão? Como você consegue..?


— Ah, isso? É uma bigorna comicamente gigante. — respondeu como quem dá instruções pra chegar em uma padaria. — Vou jogá-la em você agora e te mandar de volta ao seu universo. De preferência, presa.


— .. Merda.


Foi a única coisa que consegui dizer, porque eu tomei no cu bonito.











































Alguém, por favor, chama minha mãe.











































Ah, eu esqueci.. eu matei ela. Que porra!