Eu estava tomando um copão d’água, acho que era o que eu merecia depois de quase ter a cara arrastada no asfalto por mim mesma.
Terminei o gole, soltei um suspiro dramático e fiquei encarando a plateia com um olhar de peixe morto. Eu tava tão desligada que praticamente virei parte da mesa. Sério, já nem sabia se o programa ainda tava no ar ou se eu tava participando de um sonho patrocinado pelo estresse. E, falando de verdade, eu não me importava o suficiente.
Fazer o quê, né? Pelo menos a água daqui é de qualidade. Nota dez pra galera da purificação, vocês venceram na vida, seja lá quem vocês sejam!
— Ahem! — pigarreei, tentando parecer profissional de algum jeito. — Então, senhores e senhoras, depois desse show de insanidade aí, acho que a gente merece algo mais tranquilo… assim espero. — soltei a última parte praticamente pedindo socorro.
Lá da produção, ouvi a Kenda reclamando.
— Ela nem mostrou a prisão pra mim. — falou cruzando os braços, com uma carinha de decepção tão falsa que dava vontade de dar risada. Depois se abraçou, e completou: — Vai que era estilosa!
— Você só pode tá de sacanagem! — gritou o Ash, com uma expressão incrédula. — Aquela criatura me jogou de um prédio e você tá pensando em turismo carcerário?
— Tô nem aí, palhaço! Você tá inteiro, nem um arranhão! — respondeu Kenda, virando o rosto com um tom ignorante.
— “Inteiro”? NEM você sabe como eu sobrevivi! Você consegue ser questionável tem horas, hei—
— AHEM! AHEM! — tossi alto o bastante pra acordar até defunto. — Como eu tava dizendo, né, produção? Obrigada!
Peguei o papel da mesa de novo, tentando parecer no controle da situação. Quando li o nome do próximo convidado, levantei a sobrancelha e pensei: “beleza, seja o que o roteiro quiser”.
— E agora, meus amigos, nossa próxima convidada tem um nome, digamos, curioso: Mislene! Mas calma que não é coisa ruim, não! Já deve ser uma evolução comparado à última doidinha que passou por aqui! — falei, rindo enquanto revirava os olhos. — Enfim, bora, traz essa figura pra cá!
Laetitia apontou pra entrada dos convidados, abrindo outro portal.
Do portal saiu mais uma versão minha, só que a entrada dela não foi a mais elegante: ela tropeçou no ar e caiu de cara no chão, com direito a som de impacto e tudo. Os óculos de sol, com armação hexagonal estilosa, voaram do seu rosto com a queda.
Mas a mulher levantou rápido. Aparentemente, já era acostumada com a vergonha pública.
— Aiiii, minha cara, qual foi? — reclamou, se levantando lentamente enquanto pegava os óculos e os colocava de volta com a maior pose do mundo.
A plateia, claro, reagiu com aquele entusiasmo de robô de auditório: aplausos programados e zero emoção real. Ela olhou pra eles de volta, sem entender nada.
E ali estava ela: uma versão minha mais alta, pele morena com um tom quente, cabelo marrom volumoso em camadas médias, todo desfiado. Usava um cropped branco folgado, calça jeans larga cheia de bolso, pulseiras pretas nos dois pulsos e um colar com contas pretas e verdes, pendendo um pingente em forma de estrela, bem vibe mística fashionista.
Em suma, se algum amigo meu visse a gente juntas na rua, jamais pensaria que fôssemos a mesma pessoa. No máximo, achariam que ela era a prima estilosa e eu, a que ficou responsável por carregar a vergonha.
Mas, justiça seja feita, dava pra notar que ela tinha um ar de confiança natural. Mesmo com a queda anterior e o olhar de quem não sabe em que planeta tá, a mulher exalava um ar de que ela era mesma e dane-se quem não gostou.
— Que viagem é essa, mermão? — ela soltou, confusa.
Mislene deu um sorrisinho meio torto e acenou pra plateia, ainda zonza. O público, claro, gritava feito quem tivesse acabado de ver o Papa e a Beyoncé no mesmo palco. (Mais um segundo daquilo e eu tava chamando o otorrino, porque meus tímpanos já tavam pedindo arrego.)
Ela olhou pra mim, piscou umas três vezes, e veio andando apressada, com os braços gesticulando mais que uma dançarina de axé.
— Ô, miga! — gritou, quase tropeçando na própria animação. — Eu tava jogando vôlei com os de verdade na maior paz e DO NADA apareceu um círculo do capeta no chão! Eu acabei caindo nele sem sem querer e vim parar aqui! Quem é você? Quem são essas pessoas? E que cenário feio é esse? Isso é um babado surpresa e eu não tava ciente?
— Primeiramente, respira. — falei, tentando parecer profissional no meio da maluquice. — Segundamente, você atravessou um portal, meu nome é Miska e eu sou você desse universo aqui. Esse programa doido é basicamente eu entrevistando outras versões minhas pelo multiverso porque o meu amigo é um completo retardado.
— Ei! — gritou o Ash lá da produção, mas quem liga? Minha atenção já tava de volta praquele clone fashionista.
— Em outras palavras: você é a convidada da noite, seja bem-vinda, minha cara! — anunciei, acenando com pose de apresentadora cansada da própria vida.
Ela ficou me olhando, sobrancelha franzida, uma cara de cálculo mental pesado. Ficou em silêncio uns dois minutos, parecendo processar a própria existência, até que, do nada, ela explodiu numa gargalhada tão absurda que não demoraria muito pra ela começar a chorar no meio do processo. Ela riu tanto que perdeu o equilíbrio e se jogou na poltrona do lado, ainda gritando:
— HAHAHAHAHA, CAÔ, MONA! — respira fundo — ENTÃO QUER DIZER QUE VOCÊ É EU?! E AQUI O MEU NOME É… MISKA?! HAHAHAHAHAHAHA!
— … Sim, amiga. — respondi, não entendendo o motivo da risada de primeira, mas logo em seguida já aceitando a desgraça. — Seu nome aqui é Miska.
E então, aconteceu o que tava demorando: ela ria tanto que começou a chorar. Literalmente, lágrimas escorrendo enquanto eu tinha que processar o fato de sofrer bullying de mim mesma. Existem coisas que só acontecem comigo mesmo, te contar, viu?
— Hahaha, aiii, meu Deus! — ela falou limpando as lágrimas e tentando respirar, quase se dobrando de tanto rir. — Tá bom, eu podia falar “que mentirada!”, mas acabei de atravessar um PORTAL, né? Aí já fica difícil duvidar de qualquer coisa, então vou te dar essa moral! Mas vou te mandar a real, nós não tem NADA a ver!
Mislene tirou uma latinha de refri do bolso (do bolso, sim! nem quero saber de onde veio) e abriu com aquele pssshhh clássico. Ela levantou a lata na minha direção, num gesto descolado:
— Aí, vai uma coquinha? — perguntou, sorridente, cruzando as pernas como se estivesse na praia.
— Ah, não, obrigada. — respondi, dando um sorrisinho educado.
— Mó vacilo! — disse ela, já dando um gole generoso. — Tanto faz, tava morrendo de sede mesmo!
Depois de um suspiro de alívio e cara de quem bebeu o néctar dos deuses, ela me encarou de novo:
— Fala tu, cê falou em entrevista, né? Manda aí, o que tu quer trocar ideia comigo e com essa galera M-A-R-A-V-I-L-H-O-S-A? — disse, mandando um hang loose pra plateia, que surtou como se tivesse visto uma popstar entrar.
— Vamos lá. — comecei. — Você passa uma vibe super leve, desenrolada e parece que nada te abala. Me conta, de onde vem essa tamanha energia?
Na hora, Mislene parou de beber, arregalou os olhos e me apontou com um brilho patriótico:
— HAAAAH, seis letrinhas pra você, cria: B-R-A-S-I-L! — gritou, com aquele sorriso de quem acabou de ganhar um prêmio.
O estúdio inteiro virou carnaval. Tocou uma vinheta “BRASIL, SIL, SIL!”, a plateia foi ao delírio, e do nada, como se tivessem sido invocados, Kenda e Ash apareceram do lado dela, cheios de curiosidade.
— ALGUÉM FALOU “BRASIL”? — gritou Ash, praticamente quicando de empolgação. — Eu nunca fui, mas a história e a cultura de lá são simplesmente DO BALACOBACO!
— Concordo TOTAL! Eu passei uns cinco meses em Salvador! — disse Kenda, batendo palma igual turista emocionada. — Lugar lindo demais! Cê é de lá, é?
— Lógico, mulher! — respondeu Mislene, mandando um piscadão e mostrando a língua num deboche carismático. — Paulistana, filha de Deus e ousada! Brasilzão tropical, terra de festança e alegria, mas aquela alegria raiz, sabe? A que só “nóis” sabemos fazer, tendeu?
Ash estreitou os olhos com aquele sorriso de quem vai aprontar, passou os braços por trás do pescoço da Mislene e da Kenda e mandou:
— Sabe o que combina com alegria, festança e Brasil, meus amores?
Na mesma hora, Kenda e Mislene abriram o mesmo sorrisinho maroto, já prevendo o caos que estava por vir. E então, em perfeita sintonia, gritaram em coro:
S A M B A !!!
Instantaneamente, começou a tocar aquele samba clássico que temo que seria capaz de fazer até mesmo uma estátua requebrar. E lá foram eles, sambando com mais empolgação que trio elétrico em fevereiro. Era perna pra lá, braço pra cá, sorriso no rosto e ginga no quadril, tudo sincronizadinho e em perfeita harmonia.
Eu só consegui rir baixinho, passando a mão no rosto e pensando “meu Deus, que fase…”. E foi nesse momento de reflexão e vergonha alheia que senti alguém segurar meu braço.
Era a Mislene.
Claro, quem mais seria?
— Coé, mona? Vem sambar! — ela gritou, vibrando igual quem tomou um energético intravenoso.
— Ahhh, hahaha, cê tá de brincadeira, né? Nem pensar—
Mislene me puxou com tanta força que eu praticamente fui abduzida pro meio da dança. Tentei acompanhar o ritmo, eu juro que tentei, mas eu tava parecendo mais um boneco de posto tentando seguir o compasso. Enquanto eles sambavam lindamente, eu tava ali do lado parecendo que lutava contra a gravidade.
A plateia gargalhou com gosto, apontando e batendo palma. Ela não iria perder essa oportunidade de qualquer forma, não é?
Eu mereço, que humilhação.
Depois de DUAS HORAS SEGUIDAS sambando até a alma sair do corpo, a praga finalmente me deixou respirar. Eu tava tão ofegante que, se alguém colocasse um microfone perto, ia achar que era trilha sonora de filme de terror. Mal conseguia ficar sentada sem o risco de despencar de cara na mesa.
E a Mislene? Tava plena, nem um fio de cabelo fora do lugar. A mulher parecia que tinha acabado de sair de um spa, enquanto eu tava ali parecendo um pano de chão molhado. Ela me olhou, rindo daquele jeitinho debochado dela que me dava vontade de jogar a Coca dela pela janela.
— Ué, já cansou, fia? — perguntou, com a maior cara pau.
Sim, ela teve a CORAGEM de perguntar isso enquanto eu tava praticamente tendo um colapso respiratório. Eu queria levantar e dar um tapão carinhoso na fuça dela, mas não tinha nem força pra levantar o braço.
— É, parece que sim. Vacilou legal, tia! — continuou, fazendo joinha pra baixo. — Mas vambora, bora seguir a entrevista, papo reto!
— .. Tá. — falei, tentando recuperar a dignidade e um pouco de ar. — Então, me diz aí… o que cê curte fazer além de sambar igual uma possuída?
— Haaaah, mona, futebol, né? — respondeu ela, com brilho nos olhos e sotaque de arquibancada. — Jogo TODO santo sábado com os cria! E, ó, já vou avisando logo: sou corinthiana roxa, tá? E o Palmeiras? Não tem mundial!
Na mesma hora, Mislene, a plateia e até a produção explodiram em risada. Parecia que eu tinha virado figurante no stand-up dela.
E eu? Eu fiquei ali com um sorriso travado, fingindo que entendi a piada, tipo “Haha, Corinthians! Mundial… ééé… legal, né?”.
— Haha, é! Pois é! Mas fala aí, gosta do quê mais? — perguntei.
— Ah, eu adoro chamar os parça pra dar um rolê só pra causar mesmo! — respondeu, esfregando as mãos igual vilã de novela. — No grupo, eu sou praticamente o capeta de chinelo!
— Outro. — murmurei baixinho, só pra mim.
— E estudar? — ela continuou, do nada. — Tô com 19, terminei o colégio já, graças a Deus! Tá certo que eu passei raspando em tudo, mas o importante é passar, não é? — deu de ombros, com aquele olhar de quem não se arrepende de nada.
Deixei escapar uma risadinha.
— Matava aula, né praga? — provoquei, levantando uma sobrancelha e abrindo um sorrisinho de cúmplice.
— Nah, nahhh! Eu não matava aula.. — começou, desviando o olhar, juntando os dedos com uma cara boba, envergonhada. — Eu só… não prestava muita atenção, entendeu? E outra, eu só zerei umas oito provas porque os caras não sabiam esconder cola! Aí não dá, né?!
Não deu pra segurar. Eu desabei de rir junto com a plateia e a produção inteira. O estúdio virou um coral de gargalhadas naquela altura do campeonato.
— Ah! Eu também curto viajar, viu? — disse Mislene, toda empolgada. — Pena que não rola sempre, né? Dinheiro não dá em árvore, e se desse, eu já tava morando num bosque! Mas quando dá pra dar um rolê, é só destino brabo: Rio, Minas, Alagoas, Santa Catarina... só lugar top, bebê!
— Opa, opa! — gritou Jellie, levantando a mão igual aluna querendo responder pergunta fácil. — Eu já fui pra Santa Catarina também! Foi uma das viagens mais daora da minha vida, e detalhe: foi com essa fresca aí do teu lado!
— Meeentiiiiraaa! — Mislene arregalou os olhos, olhando pra mim como quem olha pra um milagre de carnaval. — Arrasaram, divas!
Ela ergueu a mão pra um bate aqui, e eu, por pura educação, aceitei. Já pra Jellie, a bonita mandou beijinho no ar e a outra devolveu na mesma vibe.
— Hah, você é uma versão de mim até que bem maneira, não vou mentir. Gostei de você. — falei, genuinamente. — Todos nós gostamos, pra falar a verdade. Não é verdade, gente?
A plateia respondeu num coro de gritos e aplausos, e até a produção entrou no embalo.
— Aaaaah, seus lindos! — Mislene fez pose, uma mão na cintura e o carisma em 200%. — Quer saber? Já que o clima tá de festa, vou mostrar outra parada que eu curto pra caramba… CAPOEIRA!
— Uhh... capoeira? É tipo o quê?
— Capoeira, mona! — disse ela, já empolgada, se alongando igual quem vai pra guerra. — É arte, é dança, é luta! Mistura linda do Brasil, minha terra! Eu amo dançar, mas ó, se tiver que cair no pau, eu me garanto — e com gingado! Chega aí, mulher! Vou te mostrar o que eu sei!
Ela se afastou pro centro do estúdio e me chamou com a mão.
— Uh.. tá, tá bom, né? — respondi, meio sem entender no que eu tava me metendo, mas curiosa pra ver no que ia dar.
Eu não pensei em retrucar ou argumentar contra. Na verdade, por que eu sequer iria? Ela só quer mostrar um estilo de luta, o que poderia dar errado?
Mislene entrou na posição, começou a balançar o corpo num ritmo perfeito, braços e pernas se movendo num fluxo que parecia mais um show do que um treino.
— Na capoeira, a ginga é TUDO, fia! — disse Mislene, sambando no ar igual se tivesse possuída por um tamborim. — É o que dá ritmo, equilíbrio e poder pro corpo. Quem domina a ginga, domina o mundo! Tendeu?
— Certo, saquei. — respondi, tentando prestar atenção ao máximo na “aula” que ela queria passar.
— Agora presta atenção, porque o bagulho vai ficar sério! Isso aqui se chama Meia lua de compasso! É o golpe brabo da capoeira, porque junta esquiva com chute reverso, o combo do KO! — explicou ela, já se abaixando, pronta pra mandar o golpe. — DESSE JEITO AQUI, Ó!
E então, algum ser divino resolveu pregar uma GRANDE peça.
Ash simplesmente apareceu do nada, vindo pela direita, com a maior cara de quem tava pensando em pastel de carne.
— Galeraaa, bora pedir um lanche? Tô morrendo de fo—
— ASH! CUIDAD—
Eu tentei avisar o imbecil, mas já tinha sido tarde mais.
O chute veio voando com a força de um tornado com raiva, e acabou acertando bem na cara do coitado. Ash girou no ar, dando uns dois 360° e caiu igual uma jaca madura.
A plateia inteira prendeu o ar. Eu só consegui olhar, congelada.
Ash, ainda meio zonzo, com o olho tremendo e a alma saindo do corpo, conseguiu murmurar:
— ... Vou contar isso como um "não".
E caiu duro no chão.
— AI, MEU DEUS! — Mislene gritou, desesperada, correndo até ele. — FOI MAL, FOI MAL, JURO! NÃO ERA PRA ACERTAR! EU SÓ TAVA DEMONSTRANDO, SOCORROOO!
Eu olhei pro cenário, pra Mislene, pro Ash desmaiado, e pensei alto:
— Mas como é que ele veio daquele lado?
— SEI LÁ, PORRA! — respondeu Mislene, completamente surtada. — ALGUÉM CHAMA O SAMU, PELO AMOR DE DEUS!